O ÓLEO DE LORENZO (1992)

(Lorenzo’s Oil)

 

Videoteca do Beto #86

Dirigido por George Miller.

Elenco: Susan Sarandon, Nick Nolte, Zack O’Malley Greenburg, Peter Ustinov, Kathleen Wilhoite, Gerry Bamman, Margo Martindale, Maduka Steady, James Rebhorn, Ann Hearn e Laura Linney.

Roteiro: George Miller e Nick Enright.

Produção: George Miller e Doug Mitchell.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Algumas histórias são tão poderosas que nem mesmo os mais competentes profissionais conseguem transpor para a tela toda sua essência. Felizmente, não é o caso deste tocante “O Óleo de Lorenzo”, certamente o melhor trabalho da irregular carreira de George Miller. Captando com incrível competência a aura de sofrimento e angústia da família Odone e, ao mesmo tempo, realçando a luta daqueles pais obstinados na busca pela cura de uma cruel doença, o diretor e seu talentoso elenco entregam um filme magnífico, capaz de abalar as estruturas do espectador, especialmente (mas não exclusivamente) daqueles que já têm filhos.

O jovem Lorenzo leva uma vida normal até ser diagnosticada uma rara doença conhecida como ALD, que provoca uma degeneração do cérebro, levando o paciente à inevitável morte em poucos anos. Inconformados com a falta de tratamento, seus pais Augusto (Nick Nolte) e Michaela (Susan Saradon) decidem estudar por conta própria as causas da doença, na esperança de conseguir descobrir alguma forma de deter seu avanço, mas encontram a resistência dos médicos e da Associação dos pais de crianças portadoras da ALD.

Escrito por George Miller e Nick Enright, “O Óleo de Lorenzo” nos conta em detalhes a história real da dolorosa batalha enfrentada pela família Odone na tentativa de salvar seu filho Lorenzo – e independente de suas qualidades cinematográficas, a história já seria suficiente para comover as pessoas que tem filho (s). Mas Miller não se contenta apenas com seu tema forte, imprimindo um bom ritmo à narrativa, que, apesar de ser inevitavelmente episódica, cobre diversos anos da vida dos Odone sem jamais soar cansativa. Contando com a montagem de Marcus D’Arcy e Richard Francis-Bruce, Miller cria alguns momentos em que a passagem do tempo é indicada sutilmente, como quando Michaela, após ter seu pedido de ajuda recusado, diz para uma jornalista que ela deveria conhecer Lorenzo e, no plano seguinte, vemos Augusto agradecendo a doação e uma senhora chegando a casa dizendo que leu o anúncio no jornal. Além disso, o constante uso de fades (quando a tela escurece na transição entre duas cenas) aumenta a sensação de angústia, de perda e de desolamento no espectador, refletindo o sentimento de Augusto e Michaela. Esta atmosfera carregada nos suga pra dentro da narrativa, criando um constante clima de aflição, que ainda assim, jamais permite que os pais abandonem o menino. E o mais curioso é que apesar do início da narrativa na África fazer alusão ao misticismo e à fé (se apegar à fé é algo que poderíamos esperar de qualquer pessoa nesta situação), é na ciência que o casal vai encontrar uma forma de conter a grave doença de seu filho – ainda assim, a amizade de Omouri (Maduka Steady) será fundamental na recuperação do garoto e sua chegada dará ainda mais forças ao bravo Lorenzo.

Ainda na direção, vale destacar alguns inteligentes movimentos de câmera de Miller, como o contra-plongèe que esmaga o casal na igreja enquanto Michaela olha pra cima procurando ajuda divina ou o plano fixo que destaca a reação dos pais enquanto o médico fala sobre a doença. Neste momento, aliás, a espetacular Susan Saradon demonstra com precisão a dor da mãe ao ouvir o implacável diagnóstico do especialista, com os olhos marejados, a voz embargada e um misto de força e fraqueza no rosto incrédulo. Incrédulo também está Nolte, que se contém, até como uma forma de dar mais força para a esposa. Momentos antes, Miller introduz lentamente os elementos que indicam a gravidade da situação, como quando a câmera passa por Michaela, vai até a janela e mostra as crianças correndo em direção a Lorenzo, somente para em seguida uma garota entrar na casa e dizer que “Lorenzo caiu da bicicleta e está sangrando muito”. Após o cruel diagnóstico, o diretor, auxiliado pela fotografia de John Seale, afunda Nolte nas sombras quando Augusto inicia as pesquisas na biblioteca e, em seguida, um close em seus olhos realça seu desespero enquanto lê sobre as terríveis conseqüências da doença, nos levando à forte cena em que o pai, desesperado, grita de dor e despenca pelas escadas, pontuado pela evocativa trilha sonora de Christine Woodruff – que neste instante utiliza a mesma música tema de “Platoon”, mas durante toda a narrativa espalha temas obscuros, repletos de vozes que formam uma espécie de coral cantando música erudita, o que novamente faz referencia à fé. Este visual sombrio predomina boa parte da narrativa, como quando a família se deita na cama, também escondida sob as sombras, e o plano seguinte, com o clima nublado e chuvoso, indica o futuro complicado que eles teriam pela frente, ou quando eles estão olhando para as estrelas da janela, novamente com a escuridão tomando conta da tela.

George Miller confirma sua inteligência ao empregar com freqüência o close, que normalmente serve para realçar as reações dos atores, conseguindo extrair atuações muito fortes e convincentes de todo o elenco. Com a câmera próxima, ele enfatiza o sofrimento daquela família e, além disso, nos passa uma sensação claustrofóbica, criando um forte incomodo enquanto acompanhamos aqueles pais obstinados em busca da cura da rara doença do filho. Interpretada de maneira emocionante por Saradon, Michaela é uma mãe obstinada, que não desiste jamais, chegando ao ponto de entrar em contato com laboratórios, médicos, especialistas e tudo que for preciso para conseguir salvar o filho, ainda que raramente tenha forças para sair do lado dele. Enquanto isto, Nick Nolte apresenta um sotaque acidentado, além dos tradicionais gestos e gritos que compõem o típico personagem de origem italiana, mas cumpre bem o papel do determinado Augusto, demonstrando devoção na luta pela vida de Lorenzo. E se são muitos os momentos de destaque na atuação de Saradon, como a citada reação à notícia da doença ou as explosões de Michaela contra as enfermeiras que “cuidam” de Lorenzo, Nolte se destaca quando recebe a ligação que informa a redução dos níveis de C24 e C26 no sangue do garoto, reagindo de maneira comovente. Já o pequeno Lorenzo é interpretado por diversos atores, mas o grande destaque fica para Zack O’Malley Greenburg, que expressa todo o sofrimento do garoto através de sua dificuldade pra caminhar e falar, de suas tosses e, principalmente, durante as fortíssimas convulsões. E fechando a família, Kathleen Wilhoite se sai bem como Deirdre, especialmente na realista discussão com o casal Odone que resulta em sua saída da casa, logo após o plano em que a vemos conversando com Augusto e Michaela aparece na porta ao fundo. Após esta discussão, Augusto desabafa e culpa a esposa pela doença do filho (algo reprovável, mas compreensível diante de tanto sofrimento), num momento tocante, que expõe o limite daquele homem.

Além destes momentos, podemos destacar a grande atuação coletiva no tenso jantar na casa dos Odone com a família Muscatine (James Rebhorn e Ann Hearn), onde os interesses aparecem, mas também a dor de cada pai e mãe ali presente, apunhalados pelo destino e tendo que enfrentar um terrível sofrimento. A esperança dos Odone se choca diretamente com o ceticismo dos Muscatine, já sem esperança diante de tudo que viveram. Ainda assim, parece que a Associação comandada por eles está mais preocupada com o bem estar dos pais do que com as crianças, pensando inclusive em vender livros de receitas para gerar lucro, algo que fica evidente quando Loretta Muscatine pergunta “Qual é a pressa?”, levando Michaela a parar de mexer a comida (algo evidenciado pelo plano de Miller) e responder com raiva “Acho que nós duas sabemos a resposta para esta pergunta fútil”. Somando tudo isto a sempre comedida reação dos médicos diante das descobertas dos Odone, temos a sensação de que somente Augusto e Michaela estavam interessados em encontrar a cura daquela doença, sem se importar com as enormes barreiras existentes no caminho.

E então chegamos ao comovente momento em que Augusto pergunta à Michaela se ela “já pensou que toda esta luta pode ter sido para ajudar a criança de outrem”, jogando o espectador na lona e inevitavelmente trazendo as lágrimas. E de fato, a luta do casal não conseguiu reverter o quadro de Lorenzo, mas estagnou a doença e lentamente começou a recuperar alguns de seus sentidos. Por isso, quando ele move um dedo, temos a sensação eufórica de que todo aquele esforço não foi em vão – e a recompensa final vem nos créditos do filmes, quando dezenas de garotos curados pelo óleo de Lorenzo justificam toda aquela luta. O último plano do longa, com o pensamento de Lorenzo ganhando voz enquanto ele olha para o alto, nos deixa a sensação de que “O Óleo de Lorenzo” é um filme devastador em praticamente toda sua duração, mas vale a pena aguardar por seu final inspirador.

Com atuações magníficas (especialmente de Susan Saradon) e a segura direção de George Miller, “O Óleo de Lorenzo” comove sem ser melodramático, justamente porque a história que o inspira é suficiente para nos emocionar. E se durante grande parte da narrativa somos esmagados por sua atmosfera triste e devastadora, somos recompensados por seu belo final, que se não chega a ser otimista, pelo menos nos ensina a força que nós temos quando buscamos algo de verdade.

Texto publicado em 06 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA (1981)

(The Road Warrior)

 

Videoteca do Beto #56

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells, Kjell Nilsson, Emil Minty, Virginia Hey, William Zappa, Steve J. Spears, Syd Heylen, Moira Claux, David Downer e Arkie Whiteley.

Roteiro: Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat.

Produção: Byron Kennedy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Goste ou não de “Mad Max 2 – A Caçada Continua”, segundo filme da trilogia apocalíptica dirigida por George Miller e estrelada por Mel Gibson, uma coisa é certa: o espectador não sairá indiferente ao que viu. Utilizando um impressionante visual, que se tornou cult com o passar dos anos, o decadente mundo futurista retratado por Miller incomoda, chegando até mesmo a ser repulsivo e sufocante. Incomoda também a falta de diálogos do longa, algo proposital num mundo onde o relacionamento humano está extremamente desgastado. Por isso, apesar da importância do primeiro “Mad Max”, que até mesmo confere bagagem dramática para esta seqüência, este segundo filme se estabelece como o melhor da trilogia, já que o terceiro “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” é o responsável pela queda vertiginosa de qualidade da série.

Num futuro não muito distante, o bem mais precioso da terra passa a ser a gasolina, em virtude de uma guerra nuclear que acabou com os campos petrolíferos do Oriente Médio. Com o precioso combustível é possível se deslocar, fugir ou perseguir alguém. Sem ele, não é possível conseguir nada. É quando Max (Mel Gibson), um homem misterioso e amargurado pelo terrível passado, decide ajudar uma comunidade a defender sua refinaria contra uma gangue de motoqueiros em troca de gasolina.

Todas as palavras que precisam ser ditas em “Mad Max 2” estão resumidas na pequena e excelente introdução do filme, através de um vídeo que recorda a estória do primeiro “Mad Max” e conta como a guerra nuclear devastou o planeta. A partir dali, toda e qualquer palavra será desnecessária. As ações falam por si. Pra piorar, Max é sabidamente um personagem amargurado, de poucas palavras, devastado pela tragédia do passado que retirou as duas pessoas mais importantes de sua vida. Portanto, é absolutamente coerente e compreensível que o roteiro de Terry Hayes, George Miller e Brian Hannat se ressinta de palavras, o que inteligentemente abre espaço para a ação, tão bem conduzida pelo diretor.

Logo na primeira cena George Miller aproveita para matar a sede dos fãs, numa seqüência de perseguição muito bem dirigida e de tirar o fôlego, ainda que momentos depois, ele não resista ao susto barato, quando Max examina um caminhão abandonado e uma mão, seguida por uma cabeça, aparece repentinamente com um acorde alto da trilha sonora, provocando o susto forçado no espectador. Miller também não poupa o espectador ao mostrar o resultado deste novo e violento mundo, com pedaços de corpos mutilados, um estupro coletivo e muitas mortes, como na forte cena em que o garoto-fera (Emil Minty) mata com o bumerangue um dos integrantes da gangue. E ainda que valorize bastante a parte visual, Miller também cria planos simbólicos, como na cena após o terrível estupro, em que Max aparece para vingar o casal e o plano demonstra a grandeza do personagem ao torná-lo gigante na tela. Finalmente, o diretor volta a utilizar, assim como no primeiro filme, uma quantidade menor de frames para transmitir a sensação de velocidade, além de expor todo o excelente trabalho técnico de sua equipe através de planos distantes da Refinaria, inteligentemente apresentados como sendo a visão de Max.

Ainda sobre o esplêndido aspecto visual de “Mad Max 2”, devemos destacar que o visual árido do longa é resultado da fotografia sem vida de Dean Semler, que explora muito bem as locações em meio ao deserto, além de captar com precisão as sensacionais perseguições nas estradas. A empoeirada refinaria e os remendados automóveis e motocicletas atestam o ótimo trabalho de Direção de Arte de Graham Walker. Repare como cada detalhe é bem trabalhado nos cenários, como o ônibus que funciona como portão e toda a estrutura interna da refinaria. Também merecem destaque os interessantes figurinos de Norma Moriceau, com adereços extravagantes nos selvagens motoqueiros e a roupa preta de Max (que como afirmei na crítica de “Mad Max”, simboliza o estado de espírito do personagem), além das roupas brancas das pessoas dentro da refinaria, numa clara alusão ao conflito entre o bem e o mal representado no longa. Finalmente, o excelente trabalho de som é notável nas perseguições, com o nítido som dos carros, motos, caminhões e até mesmo do “helicóptero” cortando o céu, e a trilha sonora de Brian May, até mesmo pela falta de diálogos, marca presença em boa parte da narrativa e mantém um ritmo frenético que colabora com o clima de tensão.

Entre o elenco, o principal destaque vai mesmo para Mel Gibson, que tem atuação discreta, porém muito coerente com o personagem. Este não é o tipo de papel que exige muito do ator, mas Gibson é competente dentro da proposta do personagem. Afetado pelo trágico passado, Max é alguém que praticamente não fala, e o ator transmite muito bem a amargura do nômade, que claramente evita o contato com outras pessoas, como podemos notar quando se recusa a ficar na Refinaria. Solitário por natureza, percebemos até mesmo através de seu carro que Max é alguém completamente adaptado ao mundo em que vive. Seu Interceptor V8 é preparado contra invasores, com faca escondida próximo ao tanque e dispositivo anti-roubo de gasolina, prestes a explodir ao primeiro toque que não seja do próprio Max. Sua única companhia é um cachorro, já que este não fará perguntas e nem forçará Max a pronunciar uma única palavra que não queira. Ainda assim, o desespero daquelas pessoas para encontrar um salvador fez com que apostassem tudo em Max, que inicialmente recusou o rótulo. Obviamente, ele não ajudaria ninguém a não ser que tivesse alguma compensação e só decidiu levar o caminhão quando perdeu tudo que tinha, inclusive seu carro.Sem mais nada a perder e com sede de vingança (novamente, o tema recorrente da série), finalmente resolve dirigir o caminhão. E observe como na conversa em que Pappagallo fala a respeito da fuga, o plano da areia descendo pelo marcador de tempo indica o surpreendente desfecho da perseguição, já que a areia teria papel fundamental na fuga. Dentro do elenco, podemos citar ainda Bruce Spence, com uma atuação modesta na pele do capitão Gyro, responsável pelo mais engenhoso meio de transporte do longa (uma espécie de helicóptero para duas pessoas, feito com resto de material) e Michael Preston, que tem boa atuação como Pappagallo, o líder dos habitantes da refinaria, com destaque para o momento em que questiona a razão da amargura de Max (“Você não é nada!”).

Numa das poucas vezes em que abre a boca pra falar algo, Max demonstra sua coragem (“Se quiserem sair daqui, falem comigo”), facilmente compreendida se pensarmos que este homem não tem mais o que perder na vida. Na realidade, temos a constante sensação de que Max desafia a morte, como quando vai buscar o caminhão sabendo que na volta enfrentará sozinho os perigosos motoqueiros. Esta, aliás, é uma das melhores seqüências do longa, extremamente bem conduzida por George Miller, que confere um ritmo frenético à cena, graças também aos cortes rápidos que revelam o bom trabalho de montagem do trio Michael Balson, David Stiven e Tim Wellburn. Acompanhada pela agitada trilha sonora, a perseguição alterna entre planos aéreos, que dão uma visão panorâmica da perseguição, e planos fechados do rosto de Max, que transmitem sua tensão na angustiante corrida para chegar à refinaria, o que permite ao espectador compreender perfeitamente o que se passa na tela. Já a espetacular seqüência da perseguição final inicia com um impressionante travelling aéreo e, a partir daí, exibe um festival de imagens em alta velocidade, alternando planos diversos de dentro e de fora do caminhão com o uso da câmera lenta, permitindo ao espectador apreciar cada detalhe da frenética perseguição, como atropelamentos e manobras (entre elas, um sensacional giro em 180 graus do caminhão em alta velocidade). Tudo isto, pontuado por uma trilha empolgante e coroado com um final surpreendente, que revela a inteligente estratégia adotada pelos integrantes da refinaria para conseguir fugir com o precioso bem.

Pra finalizar, é importante dizer que “Mad Max 2” é um excelente filme de ação, com um ritmo muito forte e imagens marcantes, baseadas num roteiro simples, mas que diz muito mais através de imagens do que de palavras. Exibindo um futuro ainda mais sombrio que no primeiro filme da série, conta com um visual singular para despejar no espectador uma chuva de sensações, e com isso, fazer com que ele jamais saia indiferente ao que viu.

Texto publicado em 30 de Abril de 2010 por Roberto Siqueira

MAD MAX (1979)

(Mad Max) 

 

Videoteca do Beto #20

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley, Tim Burns, Roger Ward, Lisa Aldenhoven, David Bracks, Bertrand Cadart, David Cameron, Max Fairchild e Sheila Florence. 

Roteiro: George Miller e James McCausland. 

Produção: Byron Kennedy. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um pequeno orçamento de 400 mil dólares foi o responsável pela estréia de duas importantes carreiras no cinema mundial, além de gravar na história do cinema o nome desta aventura futurista com um ar decadente, que se tornou cult com o passar dos anos. Mad Max é um filme cheio de adrenalina, com uma densa carga dramática e personagens interessantes. O mundo cruel dominado por gangues retratado no longa serve de pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição na estrada, que se tornaram famosas ao longo dos anos e inspiraram duas continuações (o bom Mad Max 2: A caçada continua e o fraco Mad Max 3: Além da cúpula do trovão).

Num futuro caótico, o mundo foi dominado por gangues que vivem à procura de gasolina. Após o jovem e talentoso policial Max Rockatansky (Mel Gibson) matar acidentalmente um integrante de uma perigosa gangue, sua família e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) passam a ser perseguidos e as conseqüências trágicas desta perseguição despertam o pior dos sentimentos em Max, a vingança.

George Miller abusou da criatividade para realizar Mad Max. Como o orçamento do filme era extremamente limitado, muitos carros e motos foram remendados e reutilizados o que, somado às roupas nada convencionais das gangues, contribuiu para criar um visual diferente e atraente. O diretor acertou ao manter o ritmo ágil da narrativa, sem muitos floreios, utilizando criativos planos cheios de estilo nas cenas de perseguição – com a câmera no nível do asfalto, na frente de motos e carros, nos olhos de Max, entre outros – que aumentam ainda mais a alta carga de adrenalina. Em muitas destas cenas, Miller utiliza uma quantidade menor de frames (quadros por segundo) para dar uma sensação maior de velocidade, como na cena em que Max passa pelos motoqueiros e os joga da ponte. Nesta cena, aliás, ele alterna da alta velocidade para a câmera lenta durante a queda dos motoqueiros, mostrando em detalhes o impacto do choque. O diretor também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano onde vemos uma mão no tronco da árvore enquanto Jessie caminha até a praia. Toda esta tensa seqüência, desde a praia até a volta pra casa, passando por pombos, um cachorro morto e pelo deficiente Benno (Max Fairchild), culmina com a fuga de carro de Jessie (Joanne Samuel, em atuação que não compromete) e May (Sheila Florence) para a estrada, onde a tragédia se consumará. E nesta cena, que é a de maior impacto no espectador, Miller nos poupa ao mostrar um plano subjetivo, com a bola e o tênis do bebê na estrada indicando o resultado trágico. E se o resultado já seria trágico naturalmente, soa ainda mais dolorido porque o bom roteiro do próprio George Miller, auxiliado por James McCausland, acerta ao nos envolver no relacionamento cheio de amor e carinho de Max e Jessie. O impacto do drama vivido por Max após o ataque à sua família é maior justamente porque sentimos simpatia pelo casal. Também direto e sem muitos rodeios, o roteiro funciona perfeitamente, pecando apenas no terceiro ato, que é curto demais. Culpa também da montagem de Cliff Hayes e Tony Paterson, que por outro lado, acerta em cheio nas cenas de perseguição na estrada, criando seqüências de tirar o fôlego. A direção de fotografia de David Eggby explora ao máximo a beleza das estradas australianas e cria um visual quente e seco, aproveitando o maravilhoso brilho do sol naquele país. Finalizando a parte técnica, merece destaque a qualidade do som, principalmente na estrada com o barulho das motos e dos carros, e da trilha sonora de Brian May, rápida, alucinada e perfeita para aquele mundo.

O ataque ao jovem casal na estrada mostra o perigo que aquela gangue de motoqueiros representa. Malucos e arruaceiros, estes nômades não tem piedade de ninguém. A insanidade do grupo fica ainda mais evidente na cena em que Jessie vai comprar sorvete, quando todos partem como animais que cercam a presa para cima da moça, até que ela se aproveita do interesse do líder da gangue para se livrar dele e escapar. O próximo encontro entre eles só confirma a crueldade destes vilões. E mesmo que quisessem mudar este comportamento não poderiam, como fica evidente quando um dos motoqueiros se recusa a matar Goose da forma que seu líder queria, mas é obrigado a fazê-lo para evitar ser assassinado por eles. Por outro lado, as fracas interpretações de praticamente todos os atores do grupo prejudicam o tom ameaçador da gangue, que poderia soar muito mais perigosa e assustadora. O visual dos bandidos é muito mais assustador que eles próprios.

Para que “Mad Max” realmente funcionasse, seria necessário um personagem principal carismático, e Miller acertou em cheio na escolha. Desde sua excelente introdução (o diretor cria um suspense para lentamente revelar seu rosto, mostrando inicialmente as botas, óculos e luvas pretas) nos identificamos com Max, um policial destemido que não foge do choque e provoca a morte do até então temível “Dark Knight”. Vivido com competência por Mel Gibson, Max é uma pessoa simples, apaixonada pelo que faz, e que ama sua família. O ator é talentoso ao transmitir esta paixão de Max pela esposa, como podemos observar na bela cena em que, deitado na grama com Jessie, tenta dizer o quanto à ama usando como exemplo sua dificuldade em demonstrar afeto pelo falecido pai quando ainda era criança. Por outro lado, Max é também uma pessoa destemida e que gosta da adrenalina da estrada. Seu diálogo com Fifi Macafee (Roger Ward) deixa claro que ele está começando a gostar daquilo tudo e, se continuar nesta profissão, ficará tão louco quanto os baderneiros motoqueiros. Esta perigosa mistura de paixão e loucura o torna uma bomba relógio, pronta pra explodir caso algo aconteça às pessoas que ama. E a tragédia acontece, transformando Max no pior dos inimigos para aquela gangue, aquele que não tem mais nada a perder. O plano em que Max olha fixamente para a máscara do monstro é bastante simbólico, já que agora, sem a mulher, o filho e seu melhor amigo, ele se tornou o próprio monstro.

 

 

 

 

 

 

Além das excelentes cenas de perseguição que são um prato cheio para quem gosta de carros, colabora para o sucesso do filme (e o status de cult alcançado ao logo dos anos) o árido e sujo mundo futurista criado pela boa Direção de Arte de Jon Dowding (“Velocidade é só uma questão de dinheiro. Quão rápido você pode ir?” é a interessante frase de uma borracharia). Mais importante ainda são os excêntricos figurinos dos motoqueiros criados por Clare Griffin. Os figurinos, aliás, também tem função dramática no filme, pois indicam o estado psicológico de Max. Inicialmente, ele se veste muitas vezes de branco, colocando o preto somente pra trabalhar. Mas depois da morte de sua família, Max não abandona o preto, refletindo a escuridão que tomou conta de sua vida. E até mesmo o carro de perseguição colabora. Inicialmente utilizando o Interceptor amarelo, Max muda para o carro completamente preto na seqüência final. E aqui, Gibson também é competente ao retratar com o olhar a angústia, fúria e sede de vingança de Max.

Vingança, aliás, é o tema principal de “Mad Max”. O filme utiliza a vingança pessoal do policial como pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição. E mesmo que esta violência “justificada” não seja algo que eu, racionalmente, considere correto, é inegável que julgar a reação de Max ao enorme sofrimento que sentia seria leviano e hipócrita. Desta forma, ele parte sem medir conseqüências em busca da vingança, e o espectador torce por ele. Vale notar também como o modo cruel que Max faz sua última vítima inspirou um filme recente de bastante sucesso, com a sugestão de utilizar a serra como forma de escapar da morte.

O visual criativo e original se tornou um clássico com o passar dos anos, assim como as cenas em alta velocidade. Repleto de adrenalina, com um personagem carismático e cenas de perseguição de tirar o fôlego, “Max Mad” é um exemplo de que mesmo com orçamento baixo é possível fazer bons filmes, desde que se tenha talento para isto. Felizmente, este é o caso da dupla George Miller e Mel Gibson.

 

Texto publicado em 28 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira