ALÉM DA LINHA VERMELHA (1998)

(The Thin Red Line)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #181

Dirigido por Terrence Malick.

Elenco: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Ben Chaplin, Jared Leto, Elias Koteas, John Travolta, Nick Nolte, John C. Reilly, Miranda Otto, Nick Stahl, Thomas Jane, Will Wallace, John Savage, Mark Boone Junior, Tim Blake Nelson e Dash Mihok.

Roteiro: Terrence Malick, baseado em livro de James Jones.

Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill e John Roberdeau.

Além da Linha Vermelha[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Como reunir num mesmo elenco em papéis que variam do protagonista com mais tempo de tela a mais rápida das participações nomes na época já estabelecidos como Sean Penn, George Clooney, Woody Harrelson, John Travolta, John Cusack, John C. Reilly e Nick Nolte, incluindo ainda promessas que se confirmariam depois como Adrien Brody e Jim Caviezel, entre outros? A resposta atende pelo nome de Terrence Malick, um dos diretores mais reclusos e low profile da história de Hollywood, mas também dono de uma filmografia muito interessante e de um respeito ímpar no meio cinematográfico. Assim, astros como Clooney e Travolta não pensaram duas vezes antes de abrirem mão de seus cachês milionários para terem pequenas participações neste belíssimo “Além da Linha Vermelha”, um drama que remete a questões existencialistas e filosóficas no meio do caos da guerra.

Aliás, chamar “Além da Linha Vermelha” de um filme de guerra é extremamente reducionista. Estabelecendo o tom poético que acompanhará a narrativa logo na abertura através da fotografia de John Toll que realça os raios solares que vazam pelas árvores e da trilha sonora erudita de Hans Zimmer que acompanha a sequência, Malick utiliza ao longo das quase três horas de filme diversas imagens de animais silvestres, da água dos rios e das árvores espalhadas pela ilha de Guadalcanal onde acontece o combate, numa estratégia que se confirmará até o último plano e que busca estabelecer um paralelo entre o lado selvagem da natureza e o lado selvagem do ser humano que aflora em situações como aquela – e esta opção fica ainda mais clara quando, no meio do conflito, o diretor insere um plano de um filhote de pássaro se arrastando pela lama, simbolizando a luta pela sobrevivência que marca nossa passagem por este mundo desde o dia em que nascemos.

Raios solares vazam pelas árvoresAnimais silvestresPássaro se arrastando pela lamaMas se a fotografia na maior parte do tempo realça o verde da região e aposta em cenas diurnas e bastante ensolaradas, alguns momentos pontuais das batalhas surgem dominados pela fumaça que emana das chamas em meio aquela mistura de lama e sangue, criando um visual acinzentado e melancólico que ilustra o sentimento de aflição dos personagens. Por outro lado, Toll utiliza cores quentes quando Bell (Ben Chaplin) relembra os momentos ao lado da esposa distante (Miranda Otto), simbolizando o conforto que este sentia ao lembrar-se do lar e da companheira – o que torna a carta fria enviada por ela ainda mais impactante, num momento triste em que a câmera distante de Malick respeita o personagem, ao mesmo tempo em que evidencia através do som e das reações dele como cada palavra soa como uma facada naquele homem destroçado.

Fumaça que emana das chamasBell relembra os momentos ao lado da esposaCarta fria enviada por elaEsbanjando elegância, Malick conduz a narrativa sem pressa, priorizando a parte estética sem deixar de trabalhar na dinâmica entre os personagens. Observe, por exemplo, como sua câmera passeia pelos soldados no navio antes do desembarque na ilha, o que ajuda a nos familiarizar com eles – obviamente, a escolha de atores famosos colabora ainda mais neste sentido e permite que o diretor ganhe algum tempo. Para aumentar esta identificação entre o espectador e os personagens, Malick emprega a câmera subjetiva em vários instantes, nos colocando na mesma posição dos soldados, especialmente durante os conflitos com os japoneses em que somos jogados pra dentro da mata que cobre os montes. Da mesma forma, a câmera agitada que acompanha a perseguição dentro do rio já no ato final transmite muito bem o senso de urgência que o momento exige.

Câmera passeia pelos soldados no navioCâmera subjetivaPerseguição dentro do rioNo entanto, Malick não se apoia apenas nas imagens para criar uma narrativa envolvente, explorando também o potencial do som para aumentar o realismo das cenas. Assim, o excepcional design de som nos permite ouvir cada pequeno detalhe, desde as fortes ondas no mar, passando pelo barulho dos barcos que levam os soldados à ilha e, especialmente nos conflitos, nos permite distinguir as bombas explodindo, os tiros e os gritos agonizantes dos combatentes. Ao ver o resultado violento daquelas ações e ouvir os gritos de dor dos soldados que agonizam e morrem, temos o horror da guerra em seu estado mais cru. Repare também como a respiração ofegante deles durante a subida do morro confere imenso realismo à narrativa, demonstrando simultaneamente o cansaço e o medo que sentem. Com o auxilio do design de som, as atuações convincentes que tornam as feridas mais doloridas e sua câmera agitada, Malick torna as sequências de combate extremamente realistas, o que faz cenas como o primeiro embate contra os japoneses e o ataque do pelotão ao bunker soarem ainda mais tensas – e a aflição palpável no rosto do coronel Staros (Elias Koteas) durante sua oração na noite anterior ao ataque na colina já nos alertava para a crueldade do que estava por vir.

Contando ainda com os figurinos de Margot Wilson e o design de produção de Jack Fisk para nos ambientar ao local através dos uniformes dos soldados americanos e japoneses, das poucas roupas e simples cabanas dos nativos, dos pesados armamentos e dos imponentes navios, Malick cria um cenário assustador e realista que confere peso aos pensamentos e reflexões dos personagens. Da mesma forma, o ritmo contemplativo empregado em boa parte do tempo pelos montadores Leslie Jones, Saar Klein e Billy Weber ajuda, por contraste, a estabelecer o perigo eminente que paira sobre um ambiente de guerra através de instantes de interrupção abrupta, como no primeiro ataque dos japoneses. Mas, na maior parte do tempo, os longos planos sem cortes e o ritmo lento reforçam o tom poético pretendido por Malick.

Uniformes dos soldados americanosPoucas roupas e simples cabanas dos nativosImponentes naviosVariando entre papéis de destaque e participações especiais, o fabuloso elenco de “Além da Linha Vermelha” se dá ao luxo de contar com astros como John Travolta (general Quintard) e George Clooney (capitão Charles Bosche) em papéis bem pequenos, relegando ainda atores como o ótimo John C. Reilly (sargento Storm), John Savage (sargento McCrom), Woody Harrelson (soldado Keck), Jared Leto (tenente Whyte) e Adrien Brody (soldado Fife) ao mero papel de coadjuvantes. Assim, quem ganha espaço na narrativa é Jim Caviezel, que com sua expressão quase sempre tranquila dá a sensação de que Witt apenas flutua sobre aquele ambiente hostil, observando e tentando entender tudo aquilo sem jamais se sentir parte daquele universo. Repare, por exemplo, seu sorriso contido após a morte de Keck, como se estivesse aliviado ao ver o parceiro deixando aquele mundo de sofrimento e dor. Através das reflexões dele e do soldado Bell vivido por Ben Chaplin nós podemos captar a essência da narrativa. Ambos buscam refúgio em lugares distantes daquela dura realidade e ambos veem estes refúgios serem destruídos ao longo do tempo, seja na degradação dos habitantes da aldeia melanésia ou na traição da esposa. No fim das contas, estamos todos sozinhos neste mundo.

Expressão quase sempre tranquilaSorriso contido após a morte de KeckDegradação dos habitantes da aldeia melanésiaPor outro lado, Sean Penn demonstra com a precisão costumeira a transformação do tenente Welsh, que inicialmente se posiciona ao lado do exército, mas ao longo da narrativa vai lentamente compreendendo a imbecilidade daquilo (“É tudo sobre propriedade!”, diz questionando a guerra). Ao final da jornada, enquanto o novo tenente Bosche interpretado por Clooney faz seu discurso, Welsh questiona em pensamento tudo que ouve da boca do novo líder, consolidando sua transformação após tudo que viu. Já o autoritário Tenente-coronel Tall interpretado de maneira explosiva por Nick Nolte enxerga no exército a sua chance de obter algum destaque (“Esta é a minha guerra!”), dando ordens e se envolvendo pessoalmente na batalha com tamanha paixão que chega a ser comovente a sua entrega. Ainda que discordemos de seu pensamento, jamais deixamos de acreditar em sua convicção, já que o personagem parece mesmo acreditar nos absurdos que diz.

Transformação do tenente WelshWelsh questiona em pensamento tudo que ouveAutoritário Tenente-coronel TallNem por isso, os outros soldados são obrigados a aceitar suas imposições, ainda que nem todos tenham a coragem do coronel Staros de externar seu pensamento. Conferindo humanidade ao coronel, Elias Koteas demonstra firmeza quando sente que é necessário ao não obedecer à ordem de ataque frontal que poderia dizimar seu pelotão. Já o soldado Gaff interpretado por John Cusack não chega a se pronunciar, mas seu olhar desafiador no diálogo pós conquista do Bunker evidencia que ele não concorda com a ideologia de seu líder.

Estes duelos ideológicos ajudam a construir a principal mensagem de “Além da Linha Vermelha”, quase sempre opondo visões distintas sobre o conflito, como no primeiro diálogo entre Witt e Welsh e na última conversa entre Tall e Staros, que escancara os estilos diferentes de liderança deles. Mas apesar dos diálogos terem importância, são mesmo os pensamentos dos personagens que nos fazem refletir a respeito. Normalmente acompanhadas por uma trilha sonora suave, as reflexões de Witt, Bell, Welsh e outros soldados abordam questões filosóficas e existenciais (De onde vem este demônio interior? De onde vem o amor?), remetendo a um tema central na filmografia de Malick: o questionamento sobre a existência ou não de um ser superior. Existiria uma divindade capaz de controlar tudo que ocorre em nossa natureza implacável ou estamos mesmo solitários neste mundo, jogados a mercê de nossos destinos num lugar hostil em que precisamos lutar constantemente para sobreviver?

Coronel StarosOlhar desafiadorAtaque à aldeia dos soldados japonesesSimultaneamente, Malick realça a reflexão sobre o horror da guerra em momentos como o ataque à aldeia dos soldados japoneses, uma sequência cruel que se transforma em poesia através da câmera lenta do diretor, das reações dos soldados e da belíssima trilha sonora que a embala. Mesmo nos colocando dentro de um cenário terrível de guerra, ele consegue criar poesia. É a degradação do coletivo e do indivíduo. Ainda que lute ao lado de centenas ou milhares de outros semelhantes, o ser humano busca mesmo é sentir-se bem consigo mesmo. Ele busca a sua paz interior.

Apostando numa ousada abordagem contemplativa e introspectiva, Terrence Malick realiza um estudo sensível sobre os efeitos da guerra no ser humano, o que por si só já seria suficiente para tornar este “Além da Linha Vermelha” num filme minimamente interessante. O elenco homogêneo, a excepcional parte técnica e as reflexões que a narrativa propõe, porém, deixam claro que ele queria muito mais do que isto. E conseguiu.

Além da Linha Vermelha foto 2Texto publicado em 19 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

Anúncios

O ÓLEO DE LORENZO (1992)

(Lorenzo’s Oil)

 

Videoteca do Beto #86

Dirigido por George Miller.

Elenco: Susan Sarandon, Nick Nolte, Zack O’Malley Greenburg, Peter Ustinov, Kathleen Wilhoite, Gerry Bamman, Margo Martindale, Maduka Steady, James Rebhorn, Ann Hearn e Laura Linney.

Roteiro: George Miller e Nick Enright.

Produção: George Miller e Doug Mitchell.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Algumas histórias são tão poderosas que nem mesmo os mais competentes profissionais conseguem transpor para a tela toda sua essência. Felizmente, não é o caso deste tocante “O Óleo de Lorenzo”, certamente o melhor trabalho da irregular carreira de George Miller. Captando com incrível competência a aura de sofrimento e angústia da família Odone e, ao mesmo tempo, realçando a luta daqueles pais obstinados na busca pela cura de uma cruel doença, o diretor e seu talentoso elenco entregam um filme magnífico, capaz de abalar as estruturas do espectador, especialmente (mas não exclusivamente) daqueles que já têm filhos.

O jovem Lorenzo leva uma vida normal até ser diagnosticada uma rara doença conhecida como ALD, que provoca uma degeneração do cérebro, levando o paciente à inevitável morte em poucos anos. Inconformados com a falta de tratamento, seus pais Augusto (Nick Nolte) e Michaela (Susan Saradon) decidem estudar por conta própria as causas da doença, na esperança de conseguir descobrir alguma forma de deter seu avanço, mas encontram a resistência dos médicos e da Associação dos pais de crianças portadoras da ALD.

Escrito por George Miller e Nick Enright, “O Óleo de Lorenzo” nos conta em detalhes a história real da dolorosa batalha enfrentada pela família Odone na tentativa de salvar seu filho Lorenzo – e independente de suas qualidades cinematográficas, a história já seria suficiente para comover as pessoas que tem filho (s). Mas Miller não se contenta apenas com seu tema forte, imprimindo um bom ritmo à narrativa, que, apesar de ser inevitavelmente episódica, cobre diversos anos da vida dos Odone sem jamais soar cansativa. Contando com a montagem de Marcus D’Arcy e Richard Francis-Bruce, Miller cria alguns momentos em que a passagem do tempo é indicada sutilmente, como quando Michaela, após ter seu pedido de ajuda recusado, diz para uma jornalista que ela deveria conhecer Lorenzo e, no plano seguinte, vemos Augusto agradecendo a doação e uma senhora chegando a casa dizendo que leu o anúncio no jornal. Além disso, o constante uso de fades (quando a tela escurece na transição entre duas cenas) aumenta a sensação de angústia, de perda e de desolamento no espectador, refletindo o sentimento de Augusto e Michaela. Esta atmosfera carregada nos suga pra dentro da narrativa, criando um constante clima de aflição, que ainda assim, jamais permite que os pais abandonem o menino. E o mais curioso é que apesar do início da narrativa na África fazer alusão ao misticismo e à fé (se apegar à fé é algo que poderíamos esperar de qualquer pessoa nesta situação), é na ciência que o casal vai encontrar uma forma de conter a grave doença de seu filho – ainda assim, a amizade de Omouri (Maduka Steady) será fundamental na recuperação do garoto e sua chegada dará ainda mais forças ao bravo Lorenzo.

Ainda na direção, vale destacar alguns inteligentes movimentos de câmera de Miller, como o contra-plongèe que esmaga o casal na igreja enquanto Michaela olha pra cima procurando ajuda divina ou o plano fixo que destaca a reação dos pais enquanto o médico fala sobre a doença. Neste momento, aliás, a espetacular Susan Saradon demonstra com precisão a dor da mãe ao ouvir o implacável diagnóstico do especialista, com os olhos marejados, a voz embargada e um misto de força e fraqueza no rosto incrédulo. Incrédulo também está Nolte, que se contém, até como uma forma de dar mais força para a esposa. Momentos antes, Miller introduz lentamente os elementos que indicam a gravidade da situação, como quando a câmera passa por Michaela, vai até a janela e mostra as crianças correndo em direção a Lorenzo, somente para em seguida uma garota entrar na casa e dizer que “Lorenzo caiu da bicicleta e está sangrando muito”. Após o cruel diagnóstico, o diretor, auxiliado pela fotografia de John Seale, afunda Nolte nas sombras quando Augusto inicia as pesquisas na biblioteca e, em seguida, um close em seus olhos realça seu desespero enquanto lê sobre as terríveis conseqüências da doença, nos levando à forte cena em que o pai, desesperado, grita de dor e despenca pelas escadas, pontuado pela evocativa trilha sonora de Christine Woodruff – que neste instante utiliza a mesma música tema de “Platoon”, mas durante toda a narrativa espalha temas obscuros, repletos de vozes que formam uma espécie de coral cantando música erudita, o que novamente faz referencia à fé. Este visual sombrio predomina boa parte da narrativa, como quando a família se deita na cama, também escondida sob as sombras, e o plano seguinte, com o clima nublado e chuvoso, indica o futuro complicado que eles teriam pela frente, ou quando eles estão olhando para as estrelas da janela, novamente com a escuridão tomando conta da tela.

George Miller confirma sua inteligência ao empregar com freqüência o close, que normalmente serve para realçar as reações dos atores, conseguindo extrair atuações muito fortes e convincentes de todo o elenco. Com a câmera próxima, ele enfatiza o sofrimento daquela família e, além disso, nos passa uma sensação claustrofóbica, criando um forte incomodo enquanto acompanhamos aqueles pais obstinados em busca da cura da rara doença do filho. Interpretada de maneira emocionante por Saradon, Michaela é uma mãe obstinada, que não desiste jamais, chegando ao ponto de entrar em contato com laboratórios, médicos, especialistas e tudo que for preciso para conseguir salvar o filho, ainda que raramente tenha forças para sair do lado dele. Enquanto isto, Nick Nolte apresenta um sotaque acidentado, além dos tradicionais gestos e gritos que compõem o típico personagem de origem italiana, mas cumpre bem o papel do determinado Augusto, demonstrando devoção na luta pela vida de Lorenzo. E se são muitos os momentos de destaque na atuação de Saradon, como a citada reação à notícia da doença ou as explosões de Michaela contra as enfermeiras que “cuidam” de Lorenzo, Nolte se destaca quando recebe a ligação que informa a redução dos níveis de C24 e C26 no sangue do garoto, reagindo de maneira comovente. Já o pequeno Lorenzo é interpretado por diversos atores, mas o grande destaque fica para Zack O’Malley Greenburg, que expressa todo o sofrimento do garoto através de sua dificuldade pra caminhar e falar, de suas tosses e, principalmente, durante as fortíssimas convulsões. E fechando a família, Kathleen Wilhoite se sai bem como Deirdre, especialmente na realista discussão com o casal Odone que resulta em sua saída da casa, logo após o plano em que a vemos conversando com Augusto e Michaela aparece na porta ao fundo. Após esta discussão, Augusto desabafa e culpa a esposa pela doença do filho (algo reprovável, mas compreensível diante de tanto sofrimento), num momento tocante, que expõe o limite daquele homem.

Além destes momentos, podemos destacar a grande atuação coletiva no tenso jantar na casa dos Odone com a família Muscatine (James Rebhorn e Ann Hearn), onde os interesses aparecem, mas também a dor de cada pai e mãe ali presente, apunhalados pelo destino e tendo que enfrentar um terrível sofrimento. A esperança dos Odone se choca diretamente com o ceticismo dos Muscatine, já sem esperança diante de tudo que viveram. Ainda assim, parece que a Associação comandada por eles está mais preocupada com o bem estar dos pais do que com as crianças, pensando inclusive em vender livros de receitas para gerar lucro, algo que fica evidente quando Loretta Muscatine pergunta “Qual é a pressa?”, levando Michaela a parar de mexer a comida (algo evidenciado pelo plano de Miller) e responder com raiva “Acho que nós duas sabemos a resposta para esta pergunta fútil”. Somando tudo isto a sempre comedida reação dos médicos diante das descobertas dos Odone, temos a sensação de que somente Augusto e Michaela estavam interessados em encontrar a cura daquela doença, sem se importar com as enormes barreiras existentes no caminho.

E então chegamos ao comovente momento em que Augusto pergunta à Michaela se ela “já pensou que toda esta luta pode ter sido para ajudar a criança de outrem”, jogando o espectador na lona e inevitavelmente trazendo as lágrimas. E de fato, a luta do casal não conseguiu reverter o quadro de Lorenzo, mas estagnou a doença e lentamente começou a recuperar alguns de seus sentidos. Por isso, quando ele move um dedo, temos a sensação eufórica de que todo aquele esforço não foi em vão – e a recompensa final vem nos créditos do filmes, quando dezenas de garotos curados pelo óleo de Lorenzo justificam toda aquela luta. O último plano do longa, com o pensamento de Lorenzo ganhando voz enquanto ele olha para o alto, nos deixa a sensação de que “O Óleo de Lorenzo” é um filme devastador em praticamente toda sua duração, mas vale a pena aguardar por seu final inspirador.

Com atuações magníficas (especialmente de Susan Saradon) e a segura direção de George Miller, “O Óleo de Lorenzo” comove sem ser melodramático, justamente porque a história que o inspira é suficiente para nos emocionar. E se durante grande parte da narrativa somos esmagados por sua atmosfera triste e devastadora, somos recompensados por seu belo final, que se não chega a ser otimista, pelo menos nos ensina a força que nós temos quando buscamos algo de verdade.

Texto publicado em 06 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

CABO DO MEDO (1991)

(Cape Fear)

 

Filmes Comentados #15

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson e Zully Montero.

Roteiro: Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald.

Produção: Barbara De Fina e Robert De Niro.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– Remake de “Círculo do Medo”, de 1962, este thriller interessante dirigido por Scorsese garante bons sustos, mas jamais alcança o nível de excelência de outras obras do renomado diretor.

– Scorsese mantém uma de suas características marcantes ao criar planos interessantes e criativos, como aquele em que Sam escova os dentes diante do espelho, além de utilizar muitos zooms para realçar as reações assustadas dos atores. O diretor também demonstra durante uma revista policial o enorme desejo de vingança de Max, através de diversos closes nas tatuagens espalhadas pelo seu corpo de versículos bíblicos como “A vingança será minha” e “O tempo nos vingará”.

– O roteiro de Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald, utiliza de forma inteligente o dialogo expositivo para explicar o motivo da perseguição de Max, quando Sam explica para um colega que sonegou a informação de que a vitima era promiscua no caso dele. Além disso, cria um clima crescente de suspense, culminando com a exagerada (e tensa!) seqüência final no barco.

– A ameaça provocada pela presença de Max causa um conflito na relação entre Sam e Leigh, expondo problemas do passado e criando dúvida sobre o presente do casal. Impressionante como um erro cometido há muito tempo pode prejudicar tanto a vida de uma pessoa. Interessante notar também que com este erro o roteiro evita caracterizar Sam como herói, fugindo do maniqueísmo. Como podemos perceber, não dá pra rotular Sam como uma pessoa boa ou má. E nem mesmo os outros personagens podem ser rotulados desta forma, já que até mesmo Max tem suas qualidades como ser humano.

– Max parece uma sombra na vida de Sam, um verdadeiro pesadelo. Ciente de seus direitos, ele jamais cruza a linha permitida pela lei, mas consegue infernizar a vida de Sam ao ponto de fazê-lo chegar (e ultrapassar) seu limite. Seja no restaurante, seja no cinema, seja na porta da sua própria casa, a imagem de Max dentro de seu conversível persegue Sam.

– A tensa cena em que Max se rebela contra os agressores contratados por Sam e sai à procura dele simboliza também uma inversão de valores na cabeça do espectador (e dentro própria da narrativa). A partir de agora, Max é a vítima.

– Thelma Schoonmaker, responsável pela montagem e costumeira colaboradora de Scorsese, dita um ritmo intenso ao longa, o que é essencial em um filme de suspense.

– Robert de Niro tem outra atuação de alto nível como o determinado e psicopata Max Cady, criando através da fala e dos gestos um vilão aterrorizante. Extremamente inteligente (estudou na prisão livros de direito e filosofia, além de ler a Bíblia), Max é temível até por saber utilizar muito bem a lei a seu favor, o que o transforma num personagem assustador, mas que ao mesmo tempo consegue ser fascinante. Suas ações são calculadas para atingir Sam de uma forma que ele não possa se defender, como quando ataca sua colega de trabalho (numa cena de forte impacto visual) sabendo que ela jamais iria testemunhar contra ele para não expor sua relação com Sam. Cady quer provar que Sam também pode se transformar num criminoso, e alcança seu objetivo.

– Nick Nolte como Sam e Jessica Lange como sua esposa Leigh atuam com competência, mas são ofuscados pela excelente atuação de Robert De Niro. Por outro lado, Juliette Lewis consegue uma atuação fantástica como a rebelde adolescente Danielle, mostrando inocência e agressividade em quantidades colossais. Ela teme e admira Max, agindo como se fosse uma criança fascinada com o perigo. Danielle sabe que corre riscos, mas seu desejo de conhecer melhor aquele homem que ameaça sua família é maior do que seu medo.

– Na cena mais tensa do filme, o encontro entre Max e Danielle no teatro da escola apresenta também um show de interpretação da dupla Lewis e De Niro. Danielle exala sensualidade e inocência diante de um sombrio e ameaçador Max, que por sua vez, utiliza muito bem o sentimento de rebeldia da garota a seu favor.

– Interessante como a lei é ineficaz na defesa de pessoas em constante ameaça. Desde que se conheça a lei (como era o caso de Max) é possível atormentar a vida de alguém e, dependendo da reação do perseguido, ainda sair como vitima do caso.

– O final soa irreal com as muitas tentativas de matar Max, que sempre consegue escapar. Este exagero praticamente o transforma em um super-herói, o que não é coerente com o restante da narrativa. Por outro lado, toda a seqüência é incrivelmente eletrizante e assustadora, cumprindo bem o propósito do filme, que é gerar medo no espectador.

– Vale destacar também na seqüência final o tom obscuro da direção de fotografia de Freddie Francis. O visual sombrio, com o barco desgovernado vagando pelo cabo do medo, cria uma série de imagens marcantes.

– De uma forma geral, “Cabo do Medo” cumpre seu propósito, mas não dá um passo sequer além, o que não é comum nos filmes dirigidos por Martin Scorsese.

Texto publicado em 08 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira