CABO DO MEDO (1991)

(Cape Fear)

 

Filmes Comentados #15

Dirigido por Martin Scorsese.

Elenco: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson e Zully Montero.

Roteiro: Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald.

Produção: Barbara De Fina e Robert De Niro.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– Remake de “Círculo do Medo”, de 1962, este thriller interessante dirigido por Scorsese garante bons sustos, mas jamais alcança o nível de excelência de outras obras do renomado diretor.

– Scorsese mantém uma de suas características marcantes ao criar planos interessantes e criativos, como aquele em que Sam escova os dentes diante do espelho, além de utilizar muitos zooms para realçar as reações assustadas dos atores. O diretor também demonstra durante uma revista policial o enorme desejo de vingança de Max, através de diversos closes nas tatuagens espalhadas pelo seu corpo de versículos bíblicos como “A vingança será minha” e “O tempo nos vingará”.

– O roteiro de Wesley Strick, baseado em livro de John D. MacDonald, utiliza de forma inteligente o dialogo expositivo para explicar o motivo da perseguição de Max, quando Sam explica para um colega que sonegou a informação de que a vitima era promiscua no caso dele. Além disso, cria um clima crescente de suspense, culminando com a exagerada (e tensa!) seqüência final no barco.

– A ameaça provocada pela presença de Max causa um conflito na relação entre Sam e Leigh, expondo problemas do passado e criando dúvida sobre o presente do casal. Impressionante como um erro cometido há muito tempo pode prejudicar tanto a vida de uma pessoa. Interessante notar também que com este erro o roteiro evita caracterizar Sam como herói, fugindo do maniqueísmo. Como podemos perceber, não dá pra rotular Sam como uma pessoa boa ou má. E nem mesmo os outros personagens podem ser rotulados desta forma, já que até mesmo Max tem suas qualidades como ser humano.

– Max parece uma sombra na vida de Sam, um verdadeiro pesadelo. Ciente de seus direitos, ele jamais cruza a linha permitida pela lei, mas consegue infernizar a vida de Sam ao ponto de fazê-lo chegar (e ultrapassar) seu limite. Seja no restaurante, seja no cinema, seja na porta da sua própria casa, a imagem de Max dentro de seu conversível persegue Sam.

– A tensa cena em que Max se rebela contra os agressores contratados por Sam e sai à procura dele simboliza também uma inversão de valores na cabeça do espectador (e dentro própria da narrativa). A partir de agora, Max é a vítima.

– Thelma Schoonmaker, responsável pela montagem e costumeira colaboradora de Scorsese, dita um ritmo intenso ao longa, o que é essencial em um filme de suspense.

– Robert de Niro tem outra atuação de alto nível como o determinado e psicopata Max Cady, criando através da fala e dos gestos um vilão aterrorizante. Extremamente inteligente (estudou na prisão livros de direito e filosofia, além de ler a Bíblia), Max é temível até por saber utilizar muito bem a lei a seu favor, o que o transforma num personagem assustador, mas que ao mesmo tempo consegue ser fascinante. Suas ações são calculadas para atingir Sam de uma forma que ele não possa se defender, como quando ataca sua colega de trabalho (numa cena de forte impacto visual) sabendo que ela jamais iria testemunhar contra ele para não expor sua relação com Sam. Cady quer provar que Sam também pode se transformar num criminoso, e alcança seu objetivo.

– Nick Nolte como Sam e Jessica Lange como sua esposa Leigh atuam com competência, mas são ofuscados pela excelente atuação de Robert De Niro. Por outro lado, Juliette Lewis consegue uma atuação fantástica como a rebelde adolescente Danielle, mostrando inocência e agressividade em quantidades colossais. Ela teme e admira Max, agindo como se fosse uma criança fascinada com o perigo. Danielle sabe que corre riscos, mas seu desejo de conhecer melhor aquele homem que ameaça sua família é maior do que seu medo.

– Na cena mais tensa do filme, o encontro entre Max e Danielle no teatro da escola apresenta também um show de interpretação da dupla Lewis e De Niro. Danielle exala sensualidade e inocência diante de um sombrio e ameaçador Max, que por sua vez, utiliza muito bem o sentimento de rebeldia da garota a seu favor.

– Interessante como a lei é ineficaz na defesa de pessoas em constante ameaça. Desde que se conheça a lei (como era o caso de Max) é possível atormentar a vida de alguém e, dependendo da reação do perseguido, ainda sair como vitima do caso.

– O final soa irreal com as muitas tentativas de matar Max, que sempre consegue escapar. Este exagero praticamente o transforma em um super-herói, o que não é coerente com o restante da narrativa. Por outro lado, toda a seqüência é incrivelmente eletrizante e assustadora, cumprindo bem o propósito do filme, que é gerar medo no espectador.

– Vale destacar também na seqüência final o tom obscuro da direção de fotografia de Freddie Francis. O visual sombrio, com o barco desgovernado vagando pelo cabo do medo, cria uma série de imagens marcantes.

– De uma forma geral, “Cabo do Medo” cumpre seu propósito, mas não dá um passo sequer além, o que não é comum nos filmes dirigidos por Martin Scorsese.

Texto publicado em 08 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

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6 Respostas to “CABO DO MEDO (1991)”

  1. Cesar Duarte Says:

    Sou obrigado a concordar com você, Roberto. Não é por ser do Scorsese que o filme tem que ser necessariamente um grande filme. Outros grandes diretores também já dirigiram filmes menores, sem que isso tenha manchado suas obras. Pouquíssimos diretores (se é que existam), por mais brilhantes que foram, conseguiram construir uma filmografia onde todos seus filmes foram considerados unanimidade. Hitchcock, Kubrick, Lean, coppola, entre outros gênios da sétima arte, também realizaram filmes onde uns foram inferiores a outros e isto, mais do que normal, é perfeitamente humano. Concordo que Cabo do Medo está longe do brilhantismo de outros filmes do Scorsese, sem com isso querer dizer que se trata de um filme fraco ou ruim. É que o Scorsese nos acostumou muito mal, pois dele esperamos sempre o melhor, a perfeição, como se isto fosse possível, ser perfeito sempre. Já dei a minha opinião sobre o Scorsese neste espaço dizendo que, em minha opinião, ele não tem realizado ultimamente filmes tão exuberantes quanto os antigos. Na minha análise ele foi brilhante até Os Bons Companheiros, depois alternou filmes de muito bons a medianos. Não sei se por falta de boas ideias ou bons projetos ou, como prefiro crer, foi enquadrado pelo mercado e passou a fazer filmes muito mais comerciais do que artísticos. E foi justamente quando estava na fase mais comercial do que artística que ele ganhou o Oscar. Vai entender a academia. Ou melhor, nem tente, pois eu mesmo já desisti há muito tempo. Mas mesmo assim eu o considero um dos cinco maiores diretores de todos os tempos, pois poucos cineastas possuem a robustez e a excelência de sua filmografia. O que é é. Só para finalizar, concordo e assino embaixo sobre tudo que você explanou sobre este filme, pois penso o mesmo dele. E viva o Scorsese. Valeu e um grande abraço amigo.

    • Roberto Siqueira Says:

      Obrigado Cesar.
      E vale lembrar que mesmo um Scorsese “menor” ainda é um Scorsese. Mas eu também prefiro outros trabalhos dele.
      Grande abraço.

  2. Anônimo Says:

    Admiro muito os comentários e críticas desse sítio, mas não entendi a “implicância” com o filme. De todos as produções Scorsese- De Niro foi a que eu mais gostei. Sobre a irrealidade da cena é o mesmo que se observa no massacre de Taxi-Driver. Nada demais. Mas é só minha opinião, continuo admirando os textos.

    Abraço,

    A. Morato

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá A. Morato,
      Sinta-se à vontade para discordar sempre que quiser.
      De fato aprecio muito mais “Taxi Driver” e “Touro Indomável”, mas respeito sua opinião.
      Um grande abraço!

  3. flávio Says:

    Eita textinho que “não dá um passo sequer além”.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Flávio.
      Em primeiro lugar, este não é um texto. São comentários apenas, estruturados em tópicos. Nada mais.
      Em segundo lugar, gostaria muito de saber os seus argumentos para fazer uma afirmação desta. Sem argumentos, seu comentário fica vazio.
      Abraço.

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