CLUBE DA LUTA (1999)

(Fight Club)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

 

Videoteca do Beto #225

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Jared Leto, Eion Bailey, Rachel Singer, David Andrews, Thom Gossom Jr., Pat McNamara, Tim DeZarn, Ezra Buzzington, Peter Iacangelo, Carl Ciarfalio, Holt McCallany, Matt Winston, Richmond Arquette, George Maguire e Bob Stephenson.

Roteiro: Jim Uhls, baseado em romance de Chuck Palahniuk.

Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin e Art Linson.

Clube da Luta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Solenemente ignorado pela Academia no Oscar com apenas uma indicação técnica, “Clube da Luta” rapidamente se tornou cult, sendo celebrado como um dos melhores filmes da década de 90. Intenso, inteligente e visceral, o longa dirigido por David Fincher provoca forte impacto no espectador, seja por sua narrativa criativa, seja pelas reflexões que provoca. No entanto, uma análise mais profunda revela que a obra-prima estrelada por Edward Norton e Brad Pitt tem muito mais a oferecer do que simplesmente uma ótima reviravolta e sangrentas cenas de luta.

Escrito por Jim Uhl, baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” acompanha o cotidiano de um investidor de seguros consumista (Edward Norton) que sofre de insônia e, para tentar se curar, passa a frequentar grupos de terapia coletiva até a chegada do subversivo Tyler Durden (Brad Pitt) transformar completamente sua vida. Juntos, eles formam um clube secreto onde homens trocam socos após seus estressantes dias de trabalho para relaxar. No entanto, o clube começa a ganhar grande proporção e passa a ter objetivos maiores.

Superficialmente, “Clube da Luta” é um excelente filme repleto de ação sobre homens que resolvem extravasar suas frustrações em clubes secretos de luta até ganhar outra dimensão após sua reviravolta narrativa, daquelas que pertencem ao seleto grupo de plot twits que nos dá vontade de rever o filme imediatamente. Entretanto, uma leitura mais profunda da mensagem nada subliminar do filme é que nos oferece seu verdadeiro tesouro – mas, ao contrário do ritmo alucinante do longa, vamos com calma.

Levando-nos através de uma curiosa viagem pelo cérebro do narrador logo em seus créditos de abertura, acompanhados pela moderna e inquietante trilha sonora dos Dust Brothers (John King e Michael Simpson), o diretor David Fincher imprime uma direção enérgica em boa parte da narrativa, ainda que inicialmente ele e seu montador James Haygood se esforcem para transmitir os efeitos angustiantes da insônia sofrida pelo protagonista. Assim, da mesma forma que o narrador, nós também nos sentimos cansados no primeiro ato e encontramos até certo alívio nos grupos de terapia coletiva, onde a câmera se torna mais estável e o ritmo menos acelerado. A montagem ágil, aliás, colabora na excitação provocada em boa parte do filme, deixando o espectador sempre ansioso pelo que verá a seguir sem jamais nos deixar confusos, contando ainda com transições ousadas como quando acompanhamos o narrador contando em detalhes o encontro de Tyler com Marla enquanto vemos as imagens do ocorrido.

Da mesma forma, a narrativa não linear jamais faz com que o espectador se perca, graças à segurança com que Fincher conduz cada sequência e à ótima estrutura do roteiro. No entanto, não é apenas na maneira como conduz o longa que Fincher se destaca. A atmosfera subversiva de “Clube da Luta” é construída meticulosamente através do excepcional trabalho de Fincher e sua equipe técnica. Assim, se o apartamento decorado com móveis de revistas de decoração representava o executivo “bem sucedido” do mundo atual, a casa praticamente abandonada e suja em que ele passa a viver após a explosão representa sua nova fase na vida, guiada pelo desapego material pregado por Durden, o que é mérito do design de produção de Alex McDowell, responsável também por criar ambientes maravilhosos como o próprio clube que dá nome ao filme.

Viagem pelo cérebro do narradorEfeitos angustiantes da insôniaApartamento decorado com móveis de revistas de decoração

Também colabora nesta transformação os figurinos de Michael Kaplan, que criam o contraste entre as roupas sóbrias que o narrador veste e as roupas coloridas e estridentes de Durden, além é claro, do visual mórbido de Marla, a amante de Durden vivida pela sempre sombria Helena Bonham Carter. Sombrio também é o visual de “Clube da Luta”, obtido através das escolhas de Fincher e seu diretor de fotografia Jeff Cronenweth, que apostam numa paleta dessaturada recheada de cores sóbrias e no uso de cenas noturnas durante quase todo o filme, criando o ambiente obscuro necessário para o surgimento de uma revolução que nasce do lado mais selvagem e degradante do ser humano – e neste sentido, a ideia de uma fábrica de sabonetes que usa a banha das próprias clientes para sobreviver é simplesmente genial. Assim, uma das raras vezes em que vemos a luz do dia fora de ambientes fechados surge justamente após o sumiço de Tyler, ilustrando o despertar inconsciente de um novo homem que não mais necessitava de seu alter ego, apesar de ainda não saber disso. O tom azulado que predomina o ato final confere uma inesperada melancolia que prepara o espectador para a forte reflexão que surgirá após os créditos finais. Apesar da excitação provocada ao longo da narrativa, Fincher não quer que o espectador saia feliz com o que viu.

Roupas coloridas e estridentes de DurdenVisual mórbido de MarlaCenas noturnas durante quase todo o filme

Representação simbólica e gráfica da volta ao estado primitivo, as lutas repletas de sangue e suor são captadas com precisão por Fincher, que, auxiliado pelo excelente design de som, nos permite sentir cada golpe como se estivéssemos lá dentro. Visualmente impactantes, os combates provocam excitação e asco em igual proporção, num efeito curioso que ocorre mesmo em pessoas pacifistas como este que vos escreve. Obviamente, a empolgação dos personagens em cena colabora intensamente para este efeito, já que jamais sentimos que eles sofrem ou correm risco nestas lutas, mesmo quando são literalmente massacrados pelos adversários, pois os combates normalmente se encerram com sorrisos e abraços entre homens que entendem aquilo como uma válvula de escape brutal diante da sociedade opressora em que vivem.

Este estilo de vida sufocante é muito bem refletido pelo narrador interpretado brilhantemente por Edward Norton. Desde o semblante abatido até a voz cansada, Norton compõe o personagem com competência, transmitindo sua falta de forças diante de tudo que o cerca e sua inabilidade para reagir ao que tanto lhe incomoda, sendo incapaz de demonstrar grandes emoções até mesmo quando seu apartamento explode (e compreenderemos isto melhor mais para frente na narrativa). Assim, a ideia da insônia também é interessante, representando muito bem o estado de espirito do personagem (“Quando se tem insônia, você nunca dorme de verdade e nunca acorda de verdade”).

Lutas repletas de sangue e suorSemblante abatido até a voz cansadaEnérgico e confiante

Diametralmente contrário a letargia do narrador, Tyler Durden representa exatamente o oposto em termos de personalidade. Enérgico, confiante e sempre pronto a desafiar o padrão estabelecido, ele representa tudo que o narrador quer ser e não consegue. Obviamente, a atuação monstruosa de Brad Pitt é vital para o sucesso da narrativa, já que ele esbanja carisma e vitalidade no papel e jamais nos faz ter dúvidas quanto às suas motivações, ainda que suas ações possam ser questionadas sob o ponto de vista ético. Dono dos discursos mais ácidos e interessantes do longa, Durden leva o narrador ao limite extremo durante os dois primeiros atos, até que simplesmente desaparece e abre espaço para a impactante revelação – muito bem conduzida por Fincher, aliás – que faz a cabeça do espectador borbulhar e dá início ao surreal terceiro ato.

“Se você acorda num tempo diferente, num lugar diferente, você pode acordar como uma pessoa diferente?”

Apesar do choque, a reviravolta de “Clube da Luta” é indicada diversas vezes na narrativa de maneira sutil, seja visualmente, seja através de frases ou momentos vividos pelo narrador (e o próprio fato dele não ter nome já é uma dica em si). Aliás, todo o primeiro ato é trabalhado cuidadosamente para criar o cenário para o surgimento de Durden. Sufocado pelo próprio estilo de vida, o narrador questiona não apenas o próprio consumismo, mas toda a sociedade que o cerca, buscando desesperadamente uma saída. Para simbolizar esta transformação gradual em seu pensamento, Fincher insere quatro flashes rápidos de Tyler até que ele finalmente entre em cena numa conversa trivial dentro de um avião – observe como as malas de ambos são idênticas. Instantes antes, a primeira aparição sem ser em flashes acontece justamente quando o narrador questiona se ao andar por tantos aeroportos e acordar em tantos lugares diferentes ele poderia acordar como uma pessoa diferente um dia – e ele acorda mesmo.

Flashes rápidos de TylerMalas de ambos são idênticasPrimeira aparição sem ser em flashes

Em outro instante, Tyler conversa com o narrador sobre seu pai e a resposta indica mais uma vez o segredo da narrativa: “Mesma história”. Além disso, outros personagens nunca dirigem a palavra aos dois ao mesmo tempo, o que revela o capricho da estrutura narrativa, nos levando a momentos como quando Marla ouve o narrador falando com Tyler e questiona: “Com quem você estava falando?”. Preste atenção ainda no instante em que o narrador fala como se fosse Tyler quando seu chefe encontra as regras do clube da luta impressas na copiadora da empresa. Durden representa o lado mais selvagem do narrador. Assim, quando a revelação vem à tona e a confusão mental se estabelece no personagem e no espectador, somos sugados por um conflito psicológico muito bem representado pelo último diálogo entre eles, no qual o protagonista simbolicamente assassina seu alter ego, numa cena surreal e muito rica em significados. Significados estes que ganham ainda mais força ao reler o filme em sua camada mais profunda.

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”

Apesar de sua visceralidade e da marcante reviravolta que nos leva ao ato final, é mesmo na ácida crítica ao capitalismo e à sociedade baseada no consumo exagerado e sem controle que reside o trunfo de “Clube da Luta”. Desde a excepcional sequência em que acompanhamos como o narrador decorou seu apartamento, somos apresentados a ideia revolucionária de uma narrativa que simplesmente despreza a vida voltada para o consumo, explícita em frases como: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Esta revolta contra o capitalismo ganha contornos trágicos em cenas como aquela em que Tyler ameaça matar Raymond (Joon B. Kim), o atendente de uma loja de conveniências que desistiu dos sonhos para se entregar a um trabalho que não gosta, poupando a vida dele em seguida em troca da promessa de que iria começar a estudar para ingressar na área que ama.

“Clube da Luta” não teme sequer recorrer a ideias extremistas para escancarar sua mensagem, como ao deixar claro que o próprio protagonista explodiu o apartamento em que vivia para se entregar a um novo estilo de vida (“Apenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos”). Questiona também a mentira de que todos chegarão ao topo através do esforço, constatando o fato de que só alguns terão esta oportunidade e, nem sempre, por mérito (“Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários”). Esta ideia subversiva é constantemente criticada por aqueles que defendem uma sociedade baseada simplesmente na ideia de consumir sempre o máximo que puder (base da econômica norte-americana, aliás), mas Fincher não poupa esta fatia sociedade e nem faz concessões, mantendo frases que podem soar agressivas aos ouvidos mais consumistas, como: “Você não é seu emprego”.

Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamosTyler ameaça matar RaymondApenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos

Assim, a metralhadora giratória impiedosa de “Clube da Luta” encerra sua mensagem em planos finais simplesmente perfeitos em seu simbolismo diante desta construção narrativa primorosa, com a implosão do sistema financeiro de uma grande metrópole, numa clara mensagem contrária ao capitalismo, ao capital especulativo, ao consumismo, à nossa sociedade supérflua e ao foco nos bens materiais. Goste você ou não da mensagem, não dá para negar que o filme é extremamente competente naquilo que se propõe a fazer.

Polêmico no Brasil devido ao assassinato em massa ocorrido em São Paulo, no qual injustamente tentaram imputar culpa ao longa, “Clube da Luta” é destes casos raros de filme em que podemos extrair muito mais do que superficialmente pode parecer. Ácida, enérgica e subversiva, a obra-prima de David Fincher cativa tanto quanto seu personagem mais famoso. E diferentemente da geração criticada por Tyler por não ter peso algum na história, este certamente é um trabalho que será lembrado pela eternidade.

Clube da Luta foto 2Texto publicado em 28 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

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ALÉM DA LINHA VERMELHA (1998)

(The Thin Red Line)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #181

Dirigido por Terrence Malick.

Elenco: Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, George Clooney, John Cusack, Woody Harrelson, Ben Chaplin, Jared Leto, Elias Koteas, John Travolta, Nick Nolte, John C. Reilly, Miranda Otto, Nick Stahl, Thomas Jane, Will Wallace, John Savage, Mark Boone Junior, Tim Blake Nelson e Dash Mihok.

Roteiro: Terrence Malick, baseado em livro de James Jones.

Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill e John Roberdeau.

Além da Linha Vermelha[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Como reunir num mesmo elenco em papéis que variam do protagonista com mais tempo de tela a mais rápida das participações nomes na época já estabelecidos como Sean Penn, George Clooney, Woody Harrelson, John Travolta, John Cusack, John C. Reilly e Nick Nolte, incluindo ainda promessas que se confirmariam depois como Adrien Brody e Jim Caviezel, entre outros? A resposta atende pelo nome de Terrence Malick, um dos diretores mais reclusos e low profile da história de Hollywood, mas também dono de uma filmografia muito interessante e de um respeito ímpar no meio cinematográfico. Assim, astros como Clooney e Travolta não pensaram duas vezes antes de abrirem mão de seus cachês milionários para terem pequenas participações neste belíssimo “Além da Linha Vermelha”, um drama que remete a questões existencialistas e filosóficas no meio do caos da guerra.

Aliás, chamar “Além da Linha Vermelha” de um filme de guerra é extremamente reducionista. Estabelecendo o tom poético que acompanhará a narrativa logo na abertura através da fotografia de John Toll que realça os raios solares que vazam pelas árvores e da trilha sonora erudita de Hans Zimmer que acompanha a sequência, Malick utiliza ao longo das quase três horas de filme diversas imagens de animais silvestres, da água dos rios e das árvores espalhadas pela ilha de Guadalcanal onde acontece o combate, numa estratégia que se confirmará até o último plano e que busca estabelecer um paralelo entre o lado selvagem da natureza e o lado selvagem do ser humano que aflora em situações como aquela – e esta opção fica ainda mais clara quando, no meio do conflito, o diretor insere um plano de um filhote de pássaro se arrastando pela lama, simbolizando a luta pela sobrevivência que marca nossa passagem por este mundo desde o dia em que nascemos.

Raios solares vazam pelas árvoresAnimais silvestresPássaro se arrastando pela lamaMas se a fotografia na maior parte do tempo realça o verde da região e aposta em cenas diurnas e bastante ensolaradas, alguns momentos pontuais das batalhas surgem dominados pela fumaça que emana das chamas em meio aquela mistura de lama e sangue, criando um visual acinzentado e melancólico que ilustra o sentimento de aflição dos personagens. Por outro lado, Toll utiliza cores quentes quando Bell (Ben Chaplin) relembra os momentos ao lado da esposa distante (Miranda Otto), simbolizando o conforto que este sentia ao lembrar-se do lar e da companheira – o que torna a carta fria enviada por ela ainda mais impactante, num momento triste em que a câmera distante de Malick respeita o personagem, ao mesmo tempo em que evidencia através do som e das reações dele como cada palavra soa como uma facada naquele homem destroçado.

Fumaça que emana das chamasBell relembra os momentos ao lado da esposaCarta fria enviada por elaEsbanjando elegância, Malick conduz a narrativa sem pressa, priorizando a parte estética sem deixar de trabalhar na dinâmica entre os personagens. Observe, por exemplo, como sua câmera passeia pelos soldados no navio antes do desembarque na ilha, o que ajuda a nos familiarizar com eles – obviamente, a escolha de atores famosos colabora ainda mais neste sentido e permite que o diretor ganhe algum tempo. Para aumentar esta identificação entre o espectador e os personagens, Malick emprega a câmera subjetiva em vários instantes, nos colocando na mesma posição dos soldados, especialmente durante os conflitos com os japoneses em que somos jogados pra dentro da mata que cobre os montes. Da mesma forma, a câmera agitada que acompanha a perseguição dentro do rio já no ato final transmite muito bem o senso de urgência que o momento exige.

Câmera passeia pelos soldados no navioCâmera subjetivaPerseguição dentro do rioNo entanto, Malick não se apoia apenas nas imagens para criar uma narrativa envolvente, explorando também o potencial do som para aumentar o realismo das cenas. Assim, o excepcional design de som nos permite ouvir cada pequeno detalhe, desde as fortes ondas no mar, passando pelo barulho dos barcos que levam os soldados à ilha e, especialmente nos conflitos, nos permite distinguir as bombas explodindo, os tiros e os gritos agonizantes dos combatentes. Ao ver o resultado violento daquelas ações e ouvir os gritos de dor dos soldados que agonizam e morrem, temos o horror da guerra em seu estado mais cru. Repare também como a respiração ofegante deles durante a subida do morro confere imenso realismo à narrativa, demonstrando simultaneamente o cansaço e o medo que sentem. Com o auxilio do design de som, as atuações convincentes que tornam as feridas mais doloridas e sua câmera agitada, Malick torna as sequências de combate extremamente realistas, o que faz cenas como o primeiro embate contra os japoneses e o ataque do pelotão ao bunker soarem ainda mais tensas – e a aflição palpável no rosto do coronel Staros (Elias Koteas) durante sua oração na noite anterior ao ataque na colina já nos alertava para a crueldade do que estava por vir.

Contando ainda com os figurinos de Margot Wilson e o design de produção de Jack Fisk para nos ambientar ao local através dos uniformes dos soldados americanos e japoneses, das poucas roupas e simples cabanas dos nativos, dos pesados armamentos e dos imponentes navios, Malick cria um cenário assustador e realista que confere peso aos pensamentos e reflexões dos personagens. Da mesma forma, o ritmo contemplativo empregado em boa parte do tempo pelos montadores Leslie Jones, Saar Klein e Billy Weber ajuda, por contraste, a estabelecer o perigo eminente que paira sobre um ambiente de guerra através de instantes de interrupção abrupta, como no primeiro ataque dos japoneses. Mas, na maior parte do tempo, os longos planos sem cortes e o ritmo lento reforçam o tom poético pretendido por Malick.

Uniformes dos soldados americanosPoucas roupas e simples cabanas dos nativosImponentes naviosVariando entre papéis de destaque e participações especiais, o fabuloso elenco de “Além da Linha Vermelha” se dá ao luxo de contar com astros como John Travolta (general Quintard) e George Clooney (capitão Charles Bosche) em papéis bem pequenos, relegando ainda atores como o ótimo John C. Reilly (sargento Storm), John Savage (sargento McCrom), Woody Harrelson (soldado Keck), Jared Leto (tenente Whyte) e Adrien Brody (soldado Fife) ao mero papel de coadjuvantes. Assim, quem ganha espaço na narrativa é Jim Caviezel, que com sua expressão quase sempre tranquila dá a sensação de que Witt apenas flutua sobre aquele ambiente hostil, observando e tentando entender tudo aquilo sem jamais se sentir parte daquele universo. Repare, por exemplo, seu sorriso contido após a morte de Keck, como se estivesse aliviado ao ver o parceiro deixando aquele mundo de sofrimento e dor. Através das reflexões dele e do soldado Bell vivido por Ben Chaplin nós podemos captar a essência da narrativa. Ambos buscam refúgio em lugares distantes daquela dura realidade e ambos veem estes refúgios serem destruídos ao longo do tempo, seja na degradação dos habitantes da aldeia melanésia ou na traição da esposa. No fim das contas, estamos todos sozinhos neste mundo.

Expressão quase sempre tranquilaSorriso contido após a morte de KeckDegradação dos habitantes da aldeia melanésiaPor outro lado, Sean Penn demonstra com a precisão costumeira a transformação do tenente Welsh, que inicialmente se posiciona ao lado do exército, mas ao longo da narrativa vai lentamente compreendendo a imbecilidade daquilo (“É tudo sobre propriedade!”, diz questionando a guerra). Ao final da jornada, enquanto o novo tenente Bosche interpretado por Clooney faz seu discurso, Welsh questiona em pensamento tudo que ouve da boca do novo líder, consolidando sua transformação após tudo que viu. Já o autoritário Tenente-coronel Tall interpretado de maneira explosiva por Nick Nolte enxerga no exército a sua chance de obter algum destaque (“Esta é a minha guerra!”), dando ordens e se envolvendo pessoalmente na batalha com tamanha paixão que chega a ser comovente a sua entrega. Ainda que discordemos de seu pensamento, jamais deixamos de acreditar em sua convicção, já que o personagem parece mesmo acreditar nos absurdos que diz.

Transformação do tenente WelshWelsh questiona em pensamento tudo que ouveAutoritário Tenente-coronel TallNem por isso, os outros soldados são obrigados a aceitar suas imposições, ainda que nem todos tenham a coragem do coronel Staros de externar seu pensamento. Conferindo humanidade ao coronel, Elias Koteas demonstra firmeza quando sente que é necessário ao não obedecer à ordem de ataque frontal que poderia dizimar seu pelotão. Já o soldado Gaff interpretado por John Cusack não chega a se pronunciar, mas seu olhar desafiador no diálogo pós conquista do Bunker evidencia que ele não concorda com a ideologia de seu líder.

Estes duelos ideológicos ajudam a construir a principal mensagem de “Além da Linha Vermelha”, quase sempre opondo visões distintas sobre o conflito, como no primeiro diálogo entre Witt e Welsh e na última conversa entre Tall e Staros, que escancara os estilos diferentes de liderança deles. Mas apesar dos diálogos terem importância, são mesmo os pensamentos dos personagens que nos fazem refletir a respeito. Normalmente acompanhadas por uma trilha sonora suave, as reflexões de Witt, Bell, Welsh e outros soldados abordam questões filosóficas e existenciais (De onde vem este demônio interior? De onde vem o amor?), remetendo a um tema central na filmografia de Malick: o questionamento sobre a existência ou não de um ser superior. Existiria uma divindade capaz de controlar tudo que ocorre em nossa natureza implacável ou estamos mesmo solitários neste mundo, jogados a mercê de nossos destinos num lugar hostil em que precisamos lutar constantemente para sobreviver?

Coronel StarosOlhar desafiadorAtaque à aldeia dos soldados japonesesSimultaneamente, Malick realça a reflexão sobre o horror da guerra em momentos como o ataque à aldeia dos soldados japoneses, uma sequência cruel que se transforma em poesia através da câmera lenta do diretor, das reações dos soldados e da belíssima trilha sonora que a embala. Mesmo nos colocando dentro de um cenário terrível de guerra, ele consegue criar poesia. É a degradação do coletivo e do indivíduo. Ainda que lute ao lado de centenas ou milhares de outros semelhantes, o ser humano busca mesmo é sentir-se bem consigo mesmo. Ele busca a sua paz interior.

Apostando numa ousada abordagem contemplativa e introspectiva, Terrence Malick realiza um estudo sensível sobre os efeitos da guerra no ser humano, o que por si só já seria suficiente para tornar este “Além da Linha Vermelha” num filme minimamente interessante. O elenco homogêneo, a excepcional parte técnica e as reflexões que a narrativa propõe, porém, deixam claro que ele queria muito mais do que isto. E conseguiu.

Além da Linha Vermelha foto 2Texto publicado em 19 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

REQUIEM PARA UM SONHO (2000)

(Requiem for a Dream) 

 

Filmes Comentados #12

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Chrisopher McDonald, Louise Lasser, Keith David e Sean Gullette. 

Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em livro de Hubert Selby Jr.. 

Produção: Eric Watson e Palmer West.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama]. 

– Requiem significa “repouso” em latim. Uma das famosas composições de Mozart é o Requiem, que a Igreja Católica utiliza em cerimônias fúnebres. Portanto, o “repouso” em questão tem um sentido de morte mesmo. Sendo assim, Requiem para um Sonho pode ser interpretado como o repouso eterno (ou morte) dos sonhos dos quatro personagens que o longa nos apresenta.

– Grande libelo anti-drogas, “Requiem para um Sonho” consegue passar uma mensagem sensível de forma direta e atordoante. O mundo do vício é abordado sem maquiagens, de forma crua e real, chocando o espectador e alcançando um resultado espetacular.

– A montagem de Jay Rabinowitz é simplesmente sensacional. Desde o inicio, com a tela dividida mostrando simultaneamente as ações de Harry (Jared Leto) e Sara (Ellen Burstyn), passando pelo pequeno clipe que simboliza o uso de drogas, notamos a qualidade do trabalho, que dita um ótimo ritmo ao filme. Podemos citar também o café da manhã de Sara, quando a laranja, o café e o ovo somem rapidamente, mostrando a agonia que ela sentia comendo somente aquilo, enquanto o relógio mostra a lenta passagem do tempo. A refeição parecia durar alguns segundos, enquanto que no restante do dia o tempo passava lentamente.

– A trilha sonora de Clint Mansell é linda. Reflete bem a agonia daquelas vidas presas a tantos vícios.

– Repare como o estilo do pequeno clipe que passa toda vez que alguém usa uma droga também é utilizado toda vez que Sara liga ou desliga a TV. A analogia é lógica: a TV também é um vicio, assim como as drogas. Harry chega até mesmo a dizer para Marion (Jennifer Connelly) que a mãe é viciada em televisão. E não são somente estes dois vícios que o filme aborda com competência. Temos também o vício em pírulas para emagrecer, os viciados em dinheiro, viciados em sexo e até mesmo um viciado em mulheres.

– Ellen Burstyn tem uma atuação fantástica, com destaque para a cena em que ela chega à emissora de televisão e é retirada pela polícia para ser levada ao hospital. Sua transformação de mulher tranqüila para completamente viciada em remédios para emagrecer é sensacional.

– Jennifer Connelly também tem uma atuação excepcional, retratando bem até que ponto o ser humano pode chegar quando está viciado. Moça de bom coração, porém seriamente afetada pelo vicio, ela vai até o fundo do poço, chegando inclusive a participar de festas com sexo bizarro para conseguir droga. Observe sua reação ao elogio de Harry quando está deitada com ele. Ela o ama de verdade, mas o vicio destruiu sua vida.

– Marlon Wayans e Jared Leto estão muito bem como os dois jovens sonhadores e viciados. A química da dupla é ótima, e os dois atores conseguem grandes desempenhos nos momentos mais dramáticos, como a prisão de Tyrone (Wayans) e o desespero de Harry ao sentir saudades de Marion. Além disso, estão praticamente perfeitos quando drogados (Connelly não fica atrás), mostrando a euforia e o desespero que o vício provoca.

– Harry é um bom filho, como podemos notar quando dá a televisão para a mãe e diz que vai visitá-la. Porém, infelizmente, o vício o transformou em um jovem problemático, que abandona a mãe e a faz sofrer. A família desestruturada sente muito a falta do pai, como fica evidente no contundente diálogo entre Sara e Harry (“Eu vivo só!”). Sara buscou na televisão uma válvula de escape para a solidão e a tristeza. Harry buscou nas drogas. E embora possamos entender, não podemos aceitar nenhuma das duas alternativas encontradas.

– A direção de Darren Aronofsky é muito dinâmica e cheia de planos criativos. A narrativa segue um ritmo ágil e Aronofsky é competente ao manter este ritmo com perfeição. Um exemplo de movimento de câmera interessante é quando Harry escuta o ranger dos dentes de sua mãe e a câmera lentamente gira em torno de sua cabeça até ficar de frente para ela, com o som mostrando o que lhe incomodava. Em outro momento, auxiliado pela excelente montagem, ele mostra Harry olhando para a janela e vendo Marion à beira da água. A imagem então transita para Harry andando em direção dela, e quando ela some, podemos ver que ele estava na casa, imaginando tudo aquilo. Outro momento de destaque é o video com imagens aceleradas que simboliza a agitação e ansiedade de Sara, além de alguns momentos em que a câmera fica presa aos atores, captando de perto suas reações, como quando Tyrone foge dos traficantes e quando Marion sai do apartamento de Arnold (Sean Gullette).

– O médico sequer olha no rosto de Sara para receitá-la. O tratamento impessoal mostra que ele não se importava se ela estava ou não com problemas, se limitando apenas a dar os remédios, sem se preocupar com as possíveis conseqüências do mau uso deles.

– A completa degradação do ser humano é retratada nas seqüências finais, quando todos eles chegam ao fundo do poço, completamente decadentes e afundados em problemas por causa de seus vícios. A fotografia de Matthew Libatique propositalmente utiliza cores frias, sem vida, refletindo a tristeza daquelas vidas vazias.

– A posição final de cada um deles, deitados na cama como bebês, mostra como o viciado pode ser visto como uma criança que não entende os limites do que pode e do que não pode fazer. Porém, sendo adultos, as conseqüências de seus desejos proibidos são infinitamente mais dolorosas e prejudiciais.

– “Requiem para um sonho” deveria ser exibido para os jovens, como forma de alertar sobre os perigos deste mundo das drogas. Não que eu acredite que esta seria a solução para o problema. Longe disso. Mas se de alguma forma o filme colaborar para que pelo menos um jovem não entre neste caminho, já será algo importante e que deve ser celebrado. 

 

Texto publicado em 06 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira