CLUBE DA LUTA (1999)

(Fight Club)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

 

Videoteca do Beto #225

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Jared Leto, Eion Bailey, Rachel Singer, David Andrews, Thom Gossom Jr., Pat McNamara, Tim DeZarn, Ezra Buzzington, Peter Iacangelo, Carl Ciarfalio, Holt McCallany, Matt Winston, Richmond Arquette, George Maguire e Bob Stephenson.

Roteiro: Jim Uhls, baseado em romance de Chuck Palahniuk.

Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin e Art Linson.

Clube da Luta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Solenemente ignorado pela Academia no Oscar com apenas uma indicação técnica, “Clube da Luta” rapidamente se tornou cult, sendo celebrado como um dos melhores filmes da década de 90. Intenso, inteligente e visceral, o longa dirigido por David Fincher provoca forte impacto no espectador, seja por sua narrativa criativa, seja pelas reflexões que provoca. No entanto, uma análise mais profunda revela que a obra-prima estrelada por Edward Norton e Brad Pitt tem muito mais a oferecer do que simplesmente uma ótima reviravolta e sangrentas cenas de luta.

Escrito por Jim Uhl, baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” acompanha o cotidiano de um investidor de seguros consumista (Edward Norton) que sofre de insônia e, para tentar se curar, passa a frequentar grupos de terapia coletiva até a chegada do subversivo Tyler Durden (Brad Pitt) transformar completamente sua vida. Juntos, eles formam um clube secreto onde homens trocam socos após seus estressantes dias de trabalho para relaxar. No entanto, o clube começa a ganhar grande proporção e passa a ter objetivos maiores.

Superficialmente, “Clube da Luta” é um excelente filme repleto de ação sobre homens que resolvem extravasar suas frustrações em clubes secretos de luta até ganhar outra dimensão após sua reviravolta narrativa, daquelas que pertencem ao seleto grupo de plot twits que nos dá vontade de rever o filme imediatamente. Entretanto, uma leitura mais profunda da mensagem nada subliminar do filme é que nos oferece seu verdadeiro tesouro – mas, ao contrário do ritmo alucinante do longa, vamos com calma.

Levando-nos através de uma curiosa viagem pelo cérebro do narrador logo em seus créditos de abertura, acompanhados pela moderna e inquietante trilha sonora dos Dust Brothers (John King e Michael Simpson), o diretor David Fincher imprime uma direção enérgica em boa parte da narrativa, ainda que inicialmente ele e seu montador James Haygood se esforcem para transmitir os efeitos angustiantes da insônia sofrida pelo protagonista. Assim, da mesma forma que o narrador, nós também nos sentimos cansados no primeiro ato e encontramos até certo alívio nos grupos de terapia coletiva, onde a câmera se torna mais estável e o ritmo menos acelerado. A montagem ágil, aliás, colabora na excitação provocada em boa parte do filme, deixando o espectador sempre ansioso pelo que verá a seguir sem jamais nos deixar confusos, contando ainda com transições ousadas como quando acompanhamos o narrador contando em detalhes o encontro de Tyler com Marla enquanto vemos as imagens do ocorrido.

Da mesma forma, a narrativa não linear jamais faz com que o espectador se perca, graças à segurança com que Fincher conduz cada sequência e à ótima estrutura do roteiro. No entanto, não é apenas na maneira como conduz o longa que Fincher se destaca. A atmosfera subversiva de “Clube da Luta” é construída meticulosamente através do excepcional trabalho de Fincher e sua equipe técnica. Assim, se o apartamento decorado com móveis de revistas de decoração representava o executivo “bem sucedido” do mundo atual, a casa praticamente abandonada e suja em que ele passa a viver após a explosão representa sua nova fase na vida, guiada pelo desapego material pregado por Durden, o que é mérito do design de produção de Alex McDowell, responsável também por criar ambientes maravilhosos como o próprio clube que dá nome ao filme.

Viagem pelo cérebro do narradorEfeitos angustiantes da insôniaApartamento decorado com móveis de revistas de decoração

Também colabora nesta transformação os figurinos de Michael Kaplan, que criam o contraste entre as roupas sóbrias que o narrador veste e as roupas coloridas e estridentes de Durden, além é claro, do visual mórbido de Marla, a amante de Durden vivida pela sempre sombria Helena Bonham Carter. Sombrio também é o visual de “Clube da Luta”, obtido através das escolhas de Fincher e seu diretor de fotografia Jeff Cronenweth, que apostam numa paleta dessaturada recheada de cores sóbrias e no uso de cenas noturnas durante quase todo o filme, criando o ambiente obscuro necessário para o surgimento de uma revolução que nasce do lado mais selvagem e degradante do ser humano – e neste sentido, a ideia de uma fábrica de sabonetes que usa a banha das próprias clientes para sobreviver é simplesmente genial. Assim, uma das raras vezes em que vemos a luz do dia fora de ambientes fechados surge justamente após o sumiço de Tyler, ilustrando o despertar inconsciente de um novo homem que não mais necessitava de seu alter ego, apesar de ainda não saber disso. O tom azulado que predomina o ato final confere uma inesperada melancolia que prepara o espectador para a forte reflexão que surgirá após os créditos finais. Apesar da excitação provocada ao longo da narrativa, Fincher não quer que o espectador saia feliz com o que viu.

Roupas coloridas e estridentes de DurdenVisual mórbido de MarlaCenas noturnas durante quase todo o filme

Representação simbólica e gráfica da volta ao estado primitivo, as lutas repletas de sangue e suor são captadas com precisão por Fincher, que, auxiliado pelo excelente design de som, nos permite sentir cada golpe como se estivéssemos lá dentro. Visualmente impactantes, os combates provocam excitação e asco em igual proporção, num efeito curioso que ocorre mesmo em pessoas pacifistas como este que vos escreve. Obviamente, a empolgação dos personagens em cena colabora intensamente para este efeito, já que jamais sentimos que eles sofrem ou correm risco nestas lutas, mesmo quando são literalmente massacrados pelos adversários, pois os combates normalmente se encerram com sorrisos e abraços entre homens que entendem aquilo como uma válvula de escape brutal diante da sociedade opressora em que vivem.

Este estilo de vida sufocante é muito bem refletido pelo narrador interpretado brilhantemente por Edward Norton. Desde o semblante abatido até a voz cansada, Norton compõe o personagem com competência, transmitindo sua falta de forças diante de tudo que o cerca e sua inabilidade para reagir ao que tanto lhe incomoda, sendo incapaz de demonstrar grandes emoções até mesmo quando seu apartamento explode (e compreenderemos isto melhor mais para frente na narrativa). Assim, a ideia da insônia também é interessante, representando muito bem o estado de espirito do personagem (“Quando se tem insônia, você nunca dorme de verdade e nunca acorda de verdade”).

Lutas repletas de sangue e suorSemblante abatido até a voz cansadaEnérgico e confiante

Diametralmente contrário a letargia do narrador, Tyler Durden representa exatamente o oposto em termos de personalidade. Enérgico, confiante e sempre pronto a desafiar o padrão estabelecido, ele representa tudo que o narrador quer ser e não consegue. Obviamente, a atuação monstruosa de Brad Pitt é vital para o sucesso da narrativa, já que ele esbanja carisma e vitalidade no papel e jamais nos faz ter dúvidas quanto às suas motivações, ainda que suas ações possam ser questionadas sob o ponto de vista ético. Dono dos discursos mais ácidos e interessantes do longa, Durden leva o narrador ao limite extremo durante os dois primeiros atos, até que simplesmente desaparece e abre espaço para a impactante revelação – muito bem conduzida por Fincher, aliás – que faz a cabeça do espectador borbulhar e dá início ao surreal terceiro ato.

“Se você acorda num tempo diferente, num lugar diferente, você pode acordar como uma pessoa diferente?”

Apesar do choque, a reviravolta de “Clube da Luta” é indicada diversas vezes na narrativa de maneira sutil, seja visualmente, seja através de frases ou momentos vividos pelo narrador (e o próprio fato dele não ter nome já é uma dica em si). Aliás, todo o primeiro ato é trabalhado cuidadosamente para criar o cenário para o surgimento de Durden. Sufocado pelo próprio estilo de vida, o narrador questiona não apenas o próprio consumismo, mas toda a sociedade que o cerca, buscando desesperadamente uma saída. Para simbolizar esta transformação gradual em seu pensamento, Fincher insere quatro flashes rápidos de Tyler até que ele finalmente entre em cena numa conversa trivial dentro de um avião – observe como as malas de ambos são idênticas. Instantes antes, a primeira aparição sem ser em flashes acontece justamente quando o narrador questiona se ao andar por tantos aeroportos e acordar em tantos lugares diferentes ele poderia acordar como uma pessoa diferente um dia – e ele acorda mesmo.

Flashes rápidos de TylerMalas de ambos são idênticasPrimeira aparição sem ser em flashes

Em outro instante, Tyler conversa com o narrador sobre seu pai e a resposta indica mais uma vez o segredo da narrativa: “Mesma história”. Além disso, outros personagens nunca dirigem a palavra aos dois ao mesmo tempo, o que revela o capricho da estrutura narrativa, nos levando a momentos como quando Marla ouve o narrador falando com Tyler e questiona: “Com quem você estava falando?”. Preste atenção ainda no instante em que o narrador fala como se fosse Tyler quando seu chefe encontra as regras do clube da luta impressas na copiadora da empresa. Durden representa o lado mais selvagem do narrador. Assim, quando a revelação vem à tona e a confusão mental se estabelece no personagem e no espectador, somos sugados por um conflito psicológico muito bem representado pelo último diálogo entre eles, no qual o protagonista simbolicamente assassina seu alter ego, numa cena surreal e muito rica em significados. Significados estes que ganham ainda mais força ao reler o filme em sua camada mais profunda.

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”

Apesar de sua visceralidade e da marcante reviravolta que nos leva ao ato final, é mesmo na ácida crítica ao capitalismo e à sociedade baseada no consumo exagerado e sem controle que reside o trunfo de “Clube da Luta”. Desde a excepcional sequência em que acompanhamos como o narrador decorou seu apartamento, somos apresentados a ideia revolucionária de uma narrativa que simplesmente despreza a vida voltada para o consumo, explícita em frases como: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Esta revolta contra o capitalismo ganha contornos trágicos em cenas como aquela em que Tyler ameaça matar Raymond (Joon B. Kim), o atendente de uma loja de conveniências que desistiu dos sonhos para se entregar a um trabalho que não gosta, poupando a vida dele em seguida em troca da promessa de que iria começar a estudar para ingressar na área que ama.

“Clube da Luta” não teme sequer recorrer a ideias extremistas para escancarar sua mensagem, como ao deixar claro que o próprio protagonista explodiu o apartamento em que vivia para se entregar a um novo estilo de vida (“Apenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos”). Questiona também a mentira de que todos chegarão ao topo através do esforço, constatando o fato de que só alguns terão esta oportunidade e, nem sempre, por mérito (“Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários”). Esta ideia subversiva é constantemente criticada por aqueles que defendem uma sociedade baseada simplesmente na ideia de consumir sempre o máximo que puder (base da economia norte-americana, aliás), mas Fincher não poupa esta fatia sociedade e nem faz concessões, mantendo frases que podem soar agressivas aos ouvidos mais consumistas, como: “Você não é seu emprego”.

Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamosTyler ameaça matar RaymondApenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos

Assim, a metralhadora giratória impiedosa de “Clube da Luta” encerra sua mensagem em planos finais simplesmente perfeitos em seu simbolismo diante desta construção narrativa primorosa, com a implosão do sistema financeiro de uma grande metrópole, numa clara mensagem contrária ao capitalismo, ao capital especulativo, ao consumismo, à nossa sociedade supérflua e ao foco nos bens materiais. Goste você ou não da mensagem, não dá para negar que o filme é extremamente competente naquilo que se propõe a fazer.

Polêmico no Brasil devido ao assassinato em massa ocorrido em São Paulo, no qual injustamente tentaram imputar culpa ao longa, “Clube da Luta” é destes casos raros de filme em que podemos extrair muito mais do que superficialmente pode parecer. Ácida, enérgica e subversiva, a obra-prima de David Fincher cativa tanto quanto seu personagem mais famoso. E diferentemente da geração criticada por Tyler por não ter peso algum na história, este certamente é um trabalho que será lembrado pela eternidade.

Clube da Luta foto 2Texto publicado em 28 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996)

(Primal Fear)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #167

Dirigido por Gregory Hoblit.

Elenco: Richard Gere, Edward Norton, Laura Linney, John Mahoney, Frances McDormand, Alfre Woodard, Terry O’Quinn, Andre Braugher, Steven Bauer, Joe Spano, Tony Plana, Maura Tierney e Jon Seda.

Roteiro: Steve Shagan e Ann Biderman, baseado em romance de William Diehl.

Produção: Gary Lucchesi.

As Duas Faces de um Crime[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após a desistência do então astro em ascensão Leonardo Di Caprio de participar de “As Duas Faces de um Crime”, os produtores do projeto passaram a procurar desesperadamente por alguém que pudesse encarnar o personagem chave da trama, chegando a testar mais de dois mil candidatos. Entre eles, um jovem desconhecido conseguiu se destacar de tal maneira que, após conseguir o disputado papel e ter o vídeo de seu teste circulando por toda Hollywood, ele acabou sendo contratado para trabalhar em mais dois filmes importantes daquele ano, dirigidos por ninguém menos que Woody Allen e Milos Forman. Obviamente, estamos falando do talentosíssimo Edward Norton.

A atuação ambígua de Norton é essencial para que “As Duas Faces de um Crime” funcione tão bem, mas o ótimo roteiro escrito por Steve Shagan e Ann Biderman (baseado em romance de William Diehl) também tem grandes méritos, com sua estrutura perfeita funcionando em diversas camadas e desenvolvendo muito bem este precioso personagem, além é claro de contar com reviravoltas atordoantes. A narrativa começa nos mostrando o assassinato de um conhecido Arcebispo de Chicago (Stanley Anderson) e a prisão quase imediata de um de seus coroinhas, o jovem Aaron Stampler (Edward Norton), que é encontrando todo ensanguentado numa ferrovia perto do local do crime. A cobertura midiática do evento chama a atenção do competente advogado Martin Vail (Richard Gere), que decide defender o rapaz sem cobrar nada, apenas pela exposição que teria no caso. Do outro lado, a promotora Janet Venable (Laura Linney), que já viveu um caso com Vail no passado, é contratada pelo estado para tentar a pena de morte.

Além de se destacar pela maneira envolvente com que constrói a relação entre o advogado de defesa e seu cliente, o corajoso roteiro aborda ainda a influencia da Igreja nos negócios do bairro e os crimes sexuais cometidos pelo Arcebispo, criando um complexo jogo de interesses que só prende ainda mais nossa atenção. Por isso, talvez o único escorregão do inteligente roteiro seja o desnecessário caso entre Vail e Janet, que além de não colaborar em nada para o andamento da narrativa, acaba tirando o foco da ação principal sempre que as provocações entre eles ganham espaço na tela.

Relação entre o advogado de defesa e seu clienteCrimes sexuaisDesnecessário casoAuxiliado pela montagem de David Rosenbloom, o diretor Gregory Hoblit conduz a narrativa de maneira fluida, intercalando o trabalho no escritório de Vail, os duelos verbais entre ele e Janet, as conversas com Stampler, sua análise psiquiátrica e as audiências no tribunal, que ganham mais foco somente no empolgante terceiro ato. Até lá, o diretor demonstra habilidade na construção de uma atmosfera tensa e misteriosa, trabalhando em pequenos detalhes que ajudam a confundir o espectador. Mostrando Stampler rapidamente durante a apresentação do coral de coroinhas, Hoblit inicialmente nos faz acreditar que ele é mesmo o assassino, intercalando as fortes imagens do assassinato com planos rápidos de sua fuga alucinada da polícia. No entanto, observe como na prisão o diretor engrandece Vail e diminui Stampler na tela durante as primeiras conversas, o que, somado às expressões vulneráveis de Norton, força nossa identificação com o personagem e faz com que a plateia realmente acredite em sua inocência.

Imagens do assassinatoFuga alucinada da políciaExpressões vulneráveisCompetente também na direção de atores, Hoblit evita distrair nossa atenção com invencionismos, realçando as fortes atuações de seu elenco. Repare, por exemplo, como a câmera se aproxima lentamente do rosto dos personagens conforme os diálogos evoluem, como na primeira conversa entre Vail e Stampler e em muitos outros diálogos, num movimento discreto que jamais chama a atenção para si. Da mesma forma, a fotografia de Michael Chapman cria um mundo acinzentado que realça a frieza necessária na profissão dos advogados – e descobriremos mais tarde que esta frieza remete também ao próprio Stampler -, assim como o design de produção de Jeannine Claudia Oppewall, que concebe ambientes simétricos e organizados como o escritório de Vail e os tribunais. Até por isso, nos raros momentos em que o visual foge ao padrão, o espectador sente claramente o que o diretor pretende transmitir, como na conversa entre Vail e um repórter num bar, onde os tons avermelhados que predominam na cena indicam o inferno astral vivido pelo personagem após a descoberta da suposta doença de Stampler.

Mundo acinzentadoAmbientes simétricosInferno astralEssencial num filme de tribunal onde os argumentos dos advogados precisam ser captados com clareza, o design de som ainda se destaca em sequências especiais, como no próprio assassinato do Arcebispo, no qual um cidadão escuta da rua os violentos golpes desferidos contra ele, e especialmente numa das audiências, onde as vozes de um interessante debate entre os advogados se sobrepõem às imagens da chegada deles ao tribunal. E fechando os destaques da parte técnica, a trilha sonora discreta de James Newton Howard sublinha muito bem momentos especiais, como quando indica a mudança de comportamento de Stampler segundos antes de sua primeira transformação através de uma nota sombria que lentamente ganha força, destoando deste tom discreto somente durante a acelerada perseguição de Alex (Jon Seda) pelas ruas.

Bem vestido e com um corte de cabelo impecável, Richard Gere encarna Vail como um advogado extremamente competente e, por isso, autoconfiante ao ponto de dizer que a única verdade que interessa é aquela em que ele acredita. Com um sorriso falso e um olhar penetrante, o ator faz bem o papel do advogado dissimulado, que faz tudo que está ao seu alcance para defender seus clientes, mantendo ainda um bom relacionamento com eles fora do tribunal, como atesta sua conversa com o traficante Joey Pinero (Steven Bauer). Assumindo inicialmente uma postura dominante que se reflete nas cores fortes de seus ternos (figurinos de Betsy Cox), o advogado lentamente vai sendo domado por seu cliente, o que cria uma confusão momentânea em sua mente tão acostumada a controlar este tipo de situação, refletida até mesmo na falta de cor de seus ternos no segundo ato. Quando finalmente compreende o que se passa com Stampler, Gere volta a adotar uma postura confiante e os ternos escuros novamente aparecem.

Advogado extremamente competenteSorriso falsoPostura dominanteIgualmente confiante profissionalmente, a Janet interpretada por Laura Linney se sai bem nos embates diante do ardiloso Vail, mantendo uma postura firme também fora do âmbito profissional ante as investidas nada elegantes do ex-amante. Vivendo a personagem de maneira centrada e inteligente, Linney confere credibilidade aos julgamentos, fazendo com que a plateia realmente acredite que ela será capaz de vencer Vail e conseguir a condenação de Stampler. Outra presença feminina marcante é a de Frances McDormand, que está serena como a psiquiatra Molly, transmitindo a tranquilidade esperada em sua profissão e demonstrando segurança diante dos fortes questionamentos da promotora Janet no tribunal (numa atuação minimalista que, por contraste, realça sua qualidade como atriz quando comparada a determinada policial Marge, que ela viveu naquele mesmo ano em Fargo”). Fechando o elenco secundário, vale citar o ameaçador John Shaughnessy interpretado por John Mahoney.

Janet postura firmeCentrada e inteligentePsiquiatra MollyE chegamos então ao grande responsável pelo sucesso de “As Duas Faces de um Crime”. Em seu papel de estreia no cinema, Edward Norton entrega uma atuação assombrosa, encarnando duas personalidades tão distintas de maneira mais do que convincente na pele do acusado Stampler. Enquanto o tímido Aaron surge com uma notável gagueira, um tom de voz baixo e evita olhar diretamente para as pessoas, seu alter-ego Roy é exatamente o oposto, surgindo confiante com sua voz firme, o olhar ameaçador e a postura corporal imponente e agressiva. Observe, por exemplo, como sua expressão ameaçadora no primeiro lapso diante da Dra. Molly se contrapõe diretamente ao seu olhar assustado durante as audiências no tribunal. Assim, quando Roy finalmente surge em cena, Norton complementa sua transformação de maneira sensacional, atacando Vail violentamente e se impondo com incrível firmeza, numa postura diametralmente oposta ao reprimido Aaron.

Tímido AaronRoy é exatamente o opostoPrimeiro lapsoSó que “As Duas Faces de um Crime” ainda nos reserva outra reviravolta em seus instantes finais. Preparando cuidadosamente seu explosivo terceiro ato durante toda a narrativa, Hoblit nos leva ao julgamento final e ao esperado depoimento da Dra. Molly, seguido pelo interrogatório do próprio suspeito, no qual os advogados alcançarão o ápice de suas estratégias cuidadosamente elaboradas. Incluindo planos rápidos das mãos ansiosas de Aaron durante o interrogatório, o diretor e seu montador aceleram a sequência através de planos cada vez mais curtos que só ampliam a tensão, nos permitindo antecipar o iminente ataque de fúria do acusado, que inevitavelmente acontece e deixa todos atônitos. Desta forma, o espectador termina a cena pensando que sabe mais do que a maioria dos personagens, só que quando Stampler finalmente revela seu truque para Vail, o choque torna-se inevitável tanto para o advogado quanto para a plateia. Como ilustram os planos finais em plongè que o diminuem em cena, Vail deixa o tribunal completamente desolado por constatar que aquele jovem aparentemente inofensivo foi capaz de enganá-lo durante tanto tempo.

Mãos ansiosas de AaronIminente ataque de fúriaStampler finalmente revela seu truqueQuem não se importa por ter sido enganado é o espectador, que deixa a projeção totalmente atordoado e completamente satisfeito com o que acabou de assistir. Contando com um bom elenco e uma atuação simplesmente fantástica de Edward Norton, “As Duas Faces de um Crime” é um grande filme, que vai além dos tribunais e nos faz refletir sobre até que ponto a primeira impressão é realmente a que fica. Ao menos, a impressão de que este é um dos melhores filmes da década de 90 continua intacta.

As Duas Faces de um Crime foto 2Texto publicado em 29 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (1996)

(The People vs. Larry Flynt)

Videoteca do Beto #143

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell, Crispin Glover, Vincent Schiavelli, Miles Chapin, James Carville, Richard Paul e Burt Neuborne.

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski.

Produção: Michael Hausman, Oliver Stone e Janet Yang.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Numa época em que deputados tentam proibir a exibição de filmes no Brasil, nada melhor do que recordar a trajetória do exótico editor da revista Hustler, adaptada para os cinemas neste excelente “O Povo contra Larry Flynt”. Sendo assim, não deixa de ser curioso que somente agora eu possa escrever sobre o filme, já que originalmente eu pretendia terminar 1996 ainda no primeiro trimestre deste ano, quando a polêmica envolvendo o filme “TED” sequer existia e a discussão sobre “Um Filme Sérvio” já fazia parte do passado. Dirigido pelo ótimo Milos Forman, o longa tem todos os ingredientes necessários para provocar polêmica (algo que certamente atraiu a atenção do produtor Oliver Stone), misturando temas bombásticos como religião, política e pornografia.

Baseado na biografia de Larry Flynt, o roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski narra a trajetória do editor da revista Hustler, que rivalizou com a Playboy ao apresentar pornografia explícita e se transformou numa verdadeira febre nos anos 70. Após o sucesso, Larry (Woody Harrelson) tornou-se um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, casou-se com a ex-prostituta Althea (Courtney Love) e, ao lado do irmão Jimmy (Brett Harrelson), construiu um verdadeiro império, mas também sofreu pesados processos judiciais e até mesmo um atentado por causa disto. Coube então ao jovem advogado Alan Isaacman (Edward Norton) a árdua missão de defendê-lo nos tribunais.

Se existe um tema que ainda é tabu na nossa sociedade, este tema é o sexo. Mesmo quando tratamos apenas da nudez, muitas pessoas ainda se comportam como se estivessem diante da maior das aberrações, num comportamento puritano que muitas vezes é proporcionalmente inverso ao que elas de fato sentem. Aproveitando-se deste interessante traço da sociedade e com o auxilio do material original que inspirou a obra, o afiado roteiro de “O Povo contra Larry Flynt” é repleto de discursos no mínimo interessantes, como aquele em que Larry constrói um raciocínio divertidíssimo a respeito da origem do homem, da mulher e, consequentemente, do órgão genital feminino. Outro discurso marcante é aquele em que Larry questiona porque as pessoas consideram o sexo obsceno, mas aceitam os horrores da guerra, levando o espectador a uma importante reflexão. Entretanto, entre todos os discursos, aquele que melhor resume a mensagem do longa acontece quando Isaacman ilustra para o júri como a censura pode significar o fim da liberdade de toda a sociedade, trabalhando como um vírus que começa agindo em coisas pequenas e se agiganta com o passar do tempo – uma discussão, aliás, que é muito bem vinda atualmente após os episódios envolvendo “Um Filme Sérvio” e “TED”.

Censura pode significar o fim da liberdadeA fórmula do sucesso do longa, entretanto, vai além do ótimo roteiro, passando diretamente pela escolha de diretor e elenco. Historicamente, personagens excêntricos sempre despertaram o interesse de Forman (lembre-se de “Um Estranho no Ninho” e “Amadeus”), que, por sua vez, sempre demonstrou competência para extrair atuações marcantes de seus protagonistas. Se considerarmos ainda que poucos atores poderiam encarnar Larry Flynt com a mesma desenvoltura de Woody Harrelson, temos a combinação perfeita para dar vida ao folclórico personagem nas telonas. Debochado e expressivo, o ator se sai muito bem na pele do polêmico editor, chamando a atenção pelo comportamento excêntrico nos tribunais, pela relação nada convencional com Althea e pela decadência gradual que transforma Flynt a partir do acidente e que o ator demonstra muito bem (repare como até sua voz muda após a cirurgia).

Aliás, a breve introdução na infância de Larry já nos apresenta um importante traço de sua personalidade: ele fará qualquer coisa para ter sucesso comercialmente. Por isso, chega a ser brilhante o momento em que Forman traz Flynt em primeiro plano e uma cruz vermelha no segundo, indicando que aquela decisão seria trágica para o futuro dele. E não é apenas neste momento que o aspecto visual diz muito sobre o personagem, já que os objetos eróticos espalhados por seu escritório (design de produção de Patrizia von Brandenstein) e as roupas que ele usa nos julgamentos (“Fuck this court”) só confirmam sua personalidade conturbada (figurinos de Arianne Phillips e Theodor Pistek). Neste sentido, o Jimmy Flynt de Brett Harrelson mostra-se o contraponto ideal para que o espectador não seja totalmente influenciado pela visão de Larry, funcionando como o outro lado da moeda em diversas situações, já que ele é o único membro da equipe capaz de questionar as ideias do irmão.

Se considerarmos seu comportamento fora dos palcos, não chega a ser surpreendente o bom desempenho de Courtney Love na pele da maluca Althea Flynt. Ainda assim, pouca gente poderia esperar uma atuação tão segura da cantora, que demonstra a degradação da personagem com precisão na medida em que o tempo passa, chegando até mesmo a emagrecer sensivelmente e a falar com mais dificuldade no ato final, quando já está infectada com o vírus da AIDS. E finalmente, para viver um advogado jovem e promissor, ninguém melhor que um ator igualmente jovem e promissor como Edward Norton, que interpreta Isaacman com uma desenvoltura notável, demonstrando com competência como o advogado se sente desnorteado diante de seu cliente, parecendo incapaz de prever quais serão seus próximos passos mesmo convivendo o tempo todo com ele. Ainda assim, Norton acerta o tom quando Isaacman se revolta com Larry, finalmente se impondo diante dele, além de nos convencer plenamente durante os julgamentos de que Isaacman defenderá até o fim o direito de Larry se manifestar, ainda que não goste do resultado do trabalho dele.

Ciente de que todo cuidado é pouco numa biografia, Forman não teme explorar o lado cômico de seu protagonista, criando sequências hilárias como aquela em que Larry é cercado pelo FBI em sua mansão e acompanha tudo enlouquecido pela televisão até finalmente ser preso. Em outro momento, logo após Larry afirmar que mudará para onde os pervertidos são bem vindos, temos a imagem dos famosos letreiros de Hollywood, numa transição divertida que conta com o trabalho do montador Christopher Tellefsen. Saltando de tempos em tempos de maneira episódica (até mesmo letreiros são utilizados para indicar a passagem do tempo), Tellefsen compensa este erro com muito dinamismo na primeira metade do longa, mantendo a atenção do espectador até o instante em que Larry é baleado. Desde então, o filme sofre uma queda sensível no ritmo, tornando-se um pouco arrastado ao focar demasiadamente nos julgamentos e na decadência do casal.

Demonstrando visualmente esta decadência através do quarto escuro e sombrio em que eles passam os últimos dias juntos, Forman chega ao auge na chocante cena da morte de Althea, criando um plano assustador com a moça afogada dentro da banheira, seguido pelo tocante choro desesperado de Larry (num dos inúmeros momentos inspirados de Harrelson). Entretanto, esta abordagem sombria destoa do restante do longa. Buscando ilustrar a mente criativa de seu protagonista, a fotografia de Philippe Rousselot abusa de cores vivas, priorizando sempre que possível as cores da bandeira norte-americana, o que, somado a trilha sonora repleta de músicas típicas do país de Thomas Newman, reforça o sentimento nacionalista tão evidente no longa. Mas isto tudo tem um propósito. Lembre-se que Milos Formam é tcheco e, portanto, não teria razão alguma para exaltar o ufanismo. Na verdade, sua intenção é espelhar as ações de seu protagonista e tocar na ferida da nação mais poderosa do mundo. Afinal de contas, como um país que diz prezar tanto pela liberdade pode ser tão preconceituoso? Existe uma sequência em especial que, sutilmente, indica como o radicalismo tem grande espaço na sociedade norte-americana, quando, em questão de segundos, os integrantes da equipe de Larry levantam suspeita sobre diversos grupos distintos como a máfia, a KKK e até mesmo a CIA.

Entre todos estes grupos, os fanáticos religiosos são os que ganham mais espaço em “O Povo contra Larry Flynt”. Sem medo de tocar num tema tão polêmico, Forman aproveita muito bem a história verdadeira do personagem para nos levar a interessantes reflexões. E ainda que tenha um tom folclórico em diversos instantes, o longa não hesita em criticar acidamente algumas instituições religiosas norte-americanas. Chega a provocar náuseas a forma como o reverendo Jerry Falwell usa a morte de Althea para se promover, num comportamento que não é unânime, mas que se repete em muitas das instituições religiosas contemporâneas, contrariando um dos ensinamentos básicos do Cristianismo que é a compaixão. Por outro lado, a sequência final na suprema corte dos EUA tem um tom leve e descontraído que encerra bem o filme, ainda que as lembranças de Larry confiram um tom nostálgico ao ato final.

Com muito talento, “O Povo contra Larry Flynt” transporta para o cinema o espírito controverso de seu protagonista, levando o espectador a refletir sobre sua trajetória e, o que é mais interessante, a debater sobre conceitos importantíssimos da nossa sociedade. Podemos detestar a obra de qualquer pessoa, mas jamais devemos impedi-la de realizar seu trabalho. É neste direito que reside à essência da liberdade.

Texto publicado em 26 de Novembro de 2012 por Roberto Siqueira