CLUBE DA LUTA (1999)

(Fight Club)

5 Estrelas

 

 

obra-prima 

 

Videoteca do Beto #225

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Jared Leto, Eion Bailey, Rachel Singer, David Andrews, Thom Gossom Jr., Pat McNamara, Tim DeZarn, Ezra Buzzington, Peter Iacangelo, Carl Ciarfalio, Holt McCallany, Matt Winston, Richmond Arquette, George Maguire e Bob Stephenson.

Roteiro: Jim Uhls, baseado em romance de Chuck Palahniuk.

Produção: Ross Grayson Bell, Cean Chaffin e Art Linson.

Clube da Luta[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Solenemente ignorado pela Academia no Oscar com apenas uma indicação técnica, “Clube da Luta” rapidamente se tornou cult, sendo celebrado como um dos melhores filmes da década de 90. Intenso, inteligente e visceral, o longa dirigido por David Fincher provoca forte impacto no espectador, seja por sua narrativa criativa, seja pelas reflexões que provoca. No entanto, uma análise mais profunda revela que a obra-prima estrelada por Edward Norton e Brad Pitt tem muito mais a oferecer do que simplesmente uma ótima reviravolta e sangrentas cenas de luta.

Escrito por Jim Uhl, baseado em romance homônimo de Chuck Palahniuk, “Clube da Luta” acompanha o cotidiano de um investidor de seguros consumista (Edward Norton) que sofre de insônia e, para tentar se curar, passa a frequentar grupos de terapia coletiva até a chegada do subversivo Tyler Durden (Brad Pitt) transformar completamente sua vida. Juntos, eles formam um clube secreto onde homens trocam socos após seus estressantes dias de trabalho para relaxar. No entanto, o clube começa a ganhar grande proporção e passa a ter objetivos maiores.

Superficialmente, “Clube da Luta” é um excelente filme repleto de ação sobre homens que resolvem extravasar suas frustrações em clubes secretos de luta até ganhar outra dimensão após sua reviravolta narrativa, daquelas que pertencem ao seleto grupo de plot twits que nos dá vontade de rever o filme imediatamente. Entretanto, uma leitura mais profunda da mensagem nada subliminar do filme é que nos oferece seu verdadeiro tesouro – mas, ao contrário do ritmo alucinante do longa, vamos com calma.

Levando-nos através de uma curiosa viagem pelo cérebro do narrador logo em seus créditos de abertura, acompanhados pela moderna e inquietante trilha sonora dos Dust Brothers (John King e Michael Simpson), o diretor David Fincher imprime uma direção enérgica em boa parte da narrativa, ainda que inicialmente ele e seu montador James Haygood se esforcem para transmitir os efeitos angustiantes da insônia sofrida pelo protagonista. Assim, da mesma forma que o narrador, nós também nos sentimos cansados no primeiro ato e encontramos até certo alívio nos grupos de terapia coletiva, onde a câmera se torna mais estável e o ritmo menos acelerado. A montagem ágil, aliás, colabora na excitação provocada em boa parte do filme, deixando o espectador sempre ansioso pelo que verá a seguir sem jamais nos deixar confusos, contando ainda com transições ousadas como quando acompanhamos o narrador contando em detalhes o encontro de Tyler com Marla enquanto vemos as imagens do ocorrido.

Da mesma forma, a narrativa não linear jamais faz com que o espectador se perca, graças à segurança com que Fincher conduz cada sequência e à ótima estrutura do roteiro. No entanto, não é apenas na maneira como conduz o longa que Fincher se destaca. A atmosfera subversiva de “Clube da Luta” é construída meticulosamente através do excepcional trabalho de Fincher e sua equipe técnica. Assim, se o apartamento decorado com móveis de revistas de decoração representava o executivo “bem sucedido” do mundo atual, a casa praticamente abandonada e suja em que ele passa a viver após a explosão representa sua nova fase na vida, guiada pelo desapego material pregado por Durden, o que é mérito do design de produção de Alex McDowell, responsável também por criar ambientes maravilhosos como o próprio clube que dá nome ao filme.

Viagem pelo cérebro do narradorEfeitos angustiantes da insôniaApartamento decorado com móveis de revistas de decoração

Também colabora nesta transformação os figurinos de Michael Kaplan, que criam o contraste entre as roupas sóbrias que o narrador veste e as roupas coloridas e estridentes de Durden, além é claro, do visual mórbido de Marla, a amante de Durden vivida pela sempre sombria Helena Bonham Carter. Sombrio também é o visual de “Clube da Luta”, obtido através das escolhas de Fincher e seu diretor de fotografia Jeff Cronenweth, que apostam numa paleta dessaturada recheada de cores sóbrias e no uso de cenas noturnas durante quase todo o filme, criando o ambiente obscuro necessário para o surgimento de uma revolução que nasce do lado mais selvagem e degradante do ser humano – e neste sentido, a ideia de uma fábrica de sabonetes que usa a banha das próprias clientes para sobreviver é simplesmente genial. Assim, uma das raras vezes em que vemos a luz do dia fora de ambientes fechados surge justamente após o sumiço de Tyler, ilustrando o despertar inconsciente de um novo homem que não mais necessitava de seu alter ego, apesar de ainda não saber disso. O tom azulado que predomina o ato final confere uma inesperada melancolia que prepara o espectador para a forte reflexão que surgirá após os créditos finais. Apesar da excitação provocada ao longo da narrativa, Fincher não quer que o espectador saia feliz com o que viu.

Roupas coloridas e estridentes de DurdenVisual mórbido de MarlaCenas noturnas durante quase todo o filme

Representação simbólica e gráfica da volta ao estado primitivo, as lutas repletas de sangue e suor são captadas com precisão por Fincher, que, auxiliado pelo excelente design de som, nos permite sentir cada golpe como se estivéssemos lá dentro. Visualmente impactantes, os combates provocam excitação e asco em igual proporção, num efeito curioso que ocorre mesmo em pessoas pacifistas como este que vos escreve. Obviamente, a empolgação dos personagens em cena colabora intensamente para este efeito, já que jamais sentimos que eles sofrem ou correm risco nestas lutas, mesmo quando são literalmente massacrados pelos adversários, pois os combates normalmente se encerram com sorrisos e abraços entre homens que entendem aquilo como uma válvula de escape brutal diante da sociedade opressora em que vivem.

Este estilo de vida sufocante é muito bem refletido pelo narrador interpretado brilhantemente por Edward Norton. Desde o semblante abatido até a voz cansada, Norton compõe o personagem com competência, transmitindo sua falta de forças diante de tudo que o cerca e sua inabilidade para reagir ao que tanto lhe incomoda, sendo incapaz de demonstrar grandes emoções até mesmo quando seu apartamento explode (e compreenderemos isto melhor mais para frente na narrativa). Assim, a ideia da insônia também é interessante, representando muito bem o estado de espirito do personagem (“Quando se tem insônia, você nunca dorme de verdade e nunca acorda de verdade”).

Lutas repletas de sangue e suorSemblante abatido até a voz cansadaEnérgico e confiante

Diametralmente contrário a letargia do narrador, Tyler Durden representa exatamente o oposto em termos de personalidade. Enérgico, confiante e sempre pronto a desafiar o padrão estabelecido, ele representa tudo que o narrador quer ser e não consegue. Obviamente, a atuação monstruosa de Brad Pitt é vital para o sucesso da narrativa, já que ele esbanja carisma e vitalidade no papel e jamais nos faz ter dúvidas quanto às suas motivações, ainda que suas ações possam ser questionadas sob o ponto de vista ético. Dono dos discursos mais ácidos e interessantes do longa, Durden leva o narrador ao limite extremo durante os dois primeiros atos, até que simplesmente desaparece e abre espaço para a impactante revelação – muito bem conduzida por Fincher, aliás – que faz a cabeça do espectador borbulhar e dá início ao surreal terceiro ato.

“Se você acorda num tempo diferente, num lugar diferente, você pode acordar como uma pessoa diferente?”

Apesar do choque, a reviravolta de “Clube da Luta” é indicada diversas vezes na narrativa de maneira sutil, seja visualmente, seja através de frases ou momentos vividos pelo narrador (e o próprio fato dele não ter nome já é uma dica em si). Aliás, todo o primeiro ato é trabalhado cuidadosamente para criar o cenário para o surgimento de Durden. Sufocado pelo próprio estilo de vida, o narrador questiona não apenas o próprio consumismo, mas toda a sociedade que o cerca, buscando desesperadamente uma saída. Para simbolizar esta transformação gradual em seu pensamento, Fincher insere quatro flashes rápidos de Tyler até que ele finalmente entre em cena numa conversa trivial dentro de um avião – observe como as malas de ambos são idênticas. Instantes antes, a primeira aparição sem ser em flashes acontece justamente quando o narrador questiona se ao andar por tantos aeroportos e acordar em tantos lugares diferentes ele poderia acordar como uma pessoa diferente um dia – e ele acorda mesmo.

Flashes rápidos de TylerMalas de ambos são idênticasPrimeira aparição sem ser em flashes

Em outro instante, Tyler conversa com o narrador sobre seu pai e a resposta indica mais uma vez o segredo da narrativa: “Mesma história”. Além disso, outros personagens nunca dirigem a palavra aos dois ao mesmo tempo, o que revela o capricho da estrutura narrativa, nos levando a momentos como quando Marla ouve o narrador falando com Tyler e questiona: “Com quem você estava falando?”. Preste atenção ainda no instante em que o narrador fala como se fosse Tyler quando seu chefe encontra as regras do clube da luta impressas na copiadora da empresa. Durden representa o lado mais selvagem do narrador. Assim, quando a revelação vem à tona e a confusão mental se estabelece no personagem e no espectador, somos sugados por um conflito psicológico muito bem representado pelo último diálogo entre eles, no qual o protagonista simbolicamente assassina seu alter ego, numa cena surreal e muito rica em significados. Significados estes que ganham ainda mais força ao reler o filme em sua camada mais profunda.

“Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos”

Apesar de sua visceralidade e da marcante reviravolta que nos leva ao ato final, é mesmo na ácida crítica ao capitalismo e à sociedade baseada no consumo exagerado e sem controle que reside o trunfo de “Clube da Luta”. Desde a excepcional sequência em que acompanhamos como o narrador decorou seu apartamento, somos apresentados a ideia revolucionária de uma narrativa que simplesmente despreza a vida voltada para o consumo, explícita em frases como: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Esta revolta contra o capitalismo ganha contornos trágicos em cenas como aquela em que Tyler ameaça matar Raymond (Joon B. Kim), o atendente de uma loja de conveniências que desistiu dos sonhos para se entregar a um trabalho que não gosta, poupando a vida dele em seguida em troca da promessa de que iria começar a estudar para ingressar na área que ama.

“Clube da Luta” não teme sequer recorrer a ideias extremistas para escancarar sua mensagem, como ao deixar claro que o próprio protagonista explodiu o apartamento em que vivia para se entregar a um novo estilo de vida (“Apenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos”). Questiona também a mentira de que todos chegarão ao topo através do esforço, constatando o fato de que só alguns terão esta oportunidade e, nem sempre, por mérito (“Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários”). Esta ideia subversiva é constantemente criticada por aqueles que defendem uma sociedade baseada simplesmente na ideia de consumir sempre o máximo que puder (base da econômica norte-americana, aliás), mas Fincher não poupa esta fatia sociedade e nem faz concessões, mantendo frases que podem soar agressivas aos ouvidos mais consumistas, como: “Você não é seu emprego”.

Trabalhamos em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamosTyler ameaça matar RaymondApenas depois de perdermos tudo, estamos livres para fazer o que queremos

Assim, a metralhadora giratória impiedosa de “Clube da Luta” encerra sua mensagem em planos finais simplesmente perfeitos em seu simbolismo diante desta construção narrativa primorosa, com a implosão do sistema financeiro de uma grande metrópole, numa clara mensagem contrária ao capitalismo, ao capital especulativo, ao consumismo, à nossa sociedade supérflua e ao foco nos bens materiais. Goste você ou não da mensagem, não dá para negar que o filme é extremamente competente naquilo que se propõe a fazer.

Polêmico no Brasil devido ao assassinato em massa ocorrido em São Paulo, no qual injustamente tentaram imputar culpa ao longa, “Clube da Luta” é destes casos raros de filme em que podemos extrair muito mais do que superficialmente pode parecer. Ácida, enérgica e subversiva, a obra-prima de David Fincher cativa tanto quanto seu personagem mais famoso. E diferentemente da geração criticada por Tyler por não ter peso algum na história, este certamente é um trabalho que será lembrado pela eternidade.

Clube da Luta foto 2Texto publicado em 28 de Março de 2016 por Roberto Siqueira

O DISCURSO DO REI (2010)

(The King’s Speech)

 

Filmes em Geral #85

Vencedores do Oscar #2010

Dirigido por Tom Hooper.

Elenco: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Guy Pearce, Timothy Spall, Michael Gambon, Derek Jacobi, Andrew Havill, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Jake Hathaway, Claire Bloom, Orlando Wells e Tim Downie.

Roteiro: David Seidler.

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apresentando um protagonista com uma deficiência que afeta diretamente uma das mais importantes atribuições exigidas de alguém em sua posição, “O Discurso do Rei” agrada justamente por nos mostrar uma bela história de superação, ainda que este seja um tema recorrente. Até aqui, tudo bem, já que não há problema algum em repetir um tema tantas vezes explorado pelo cinema, desde que o resultado final não soe desgastado ou repetitivo. Felizmente, este não é o caso do longa dirigido por Tom Hooper, ainda que o diretor falhe na construção visual da narrativa. Apesar do escorregão, as ótimas atuações e a bela trajetória de superação do protagonista sustentam o filme.

Escrito por David Seidler, “O Discurso do Rei” narra a história do duque de York (Colin Firth), que se vê obrigado a assumir o trono como George VI após a morte de seu pai (Michael Gambon) e a saída repentina de seu irmão (Guy Pearce), perdidamente apaixonado por uma mulher divorciada. O problema é que ele sofre de gagueira, o que implica em sérias dificuldades todas as vezes que ele precisa discursar em público, algo cada vez mais necessário após a difusão do rádio. Diante do drama do marido, a esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) resolve pedir ajuda a um fonoaudiólogo nada convencional chamado Lionel (Geoffrey Rush).

Como podemos perceber somente através de sua premissa, “O Discurso do Rei” teria tudo para se tornar um drama melodramático ou uma comédia pastelão, mas felizmente o roteiro de Seidler acerta no tom e alcança um equilíbrio agradável que jamais descamba para um lado ou para o outro, ainda que falhe na construção de personagens maniqueístas e exagere pontualmente nas piadas que visam dar leveza a narrativa. Ainda assim, é interessante notar como Seidler aproveita para inserir raras e interessantes alfinetadas na monarquia através de Lionel, como quando ele senta na cadeira da igreja e provoca o rei, que se irrita e solta a voz sem gaguejar. Já o discurso que abre o filme serve para nos apresentar a dificuldade do protagonista e ganhar a empatia da platéia, algo que até mesmo a trilha sonora de Alexandre Desplat evidencia ao criar uma atmosfera tensa antes das primeiras palavras dele, mudando para um tom melancólico que, associado ao olhar incomodado do público, garante a identificação imediata do espectador com o vulnerável duque de York.

Numa atuação excepcional, Firth transmite muito bem a aflição do rei George VI por não conseguir se expressar, além de oscilar de maneira convincente entre os momentos de alegria (ao lado das filhas, por exemplo) e as constantes explosões provocadas pelo trauma de infância que tanto o sufoca. Este lado sombrio torna o personagem ambíguo e misterioso, o que é essencial para que o espectador não antecipe suas reações e se choque, por exemplo, quando ele humilha Lionel no meio da rua após uma discussão – e aqui temos uma demonstração da falta de habilidade de Hooper, que começa a cena corretamente com um movimento de câmera que diminui Lionel no fundo do plano, simbolizando sua impotência, mas abandona a estratégia cortando abruptamente para um plano fechado que destaca o personagem e destrói a construção dramática da cena. Mas se por um lado George VI demonstra que pode ser cruel a este ponto, por outro confirma sua vulnerabilidade de diversas maneiras, como ao perguntar se pode mexer no brinquedo do filho de Lionel ou, de maneira mais clara, ao chorar compulsivamente após o irmão deixar o trono, temendo a pressão de ser rei – num momento que destaca a importância do apoio da esposa e como ele se sente à vontade diante dela.

Mostrando-se preocupada e até mesmo comovida com o drama do marido, a Elizabeth de Helena Bonham Carter é a verdadeira companheira que oferece o apoio necessário na hora exata; e a atriz faz bem este papel, soando compreensiva na maior parte do tempo. Da mesma forma, o Lionel de Geoffrey Rush é o contraponto ideal para o explosivo George, com sua tranqüilidade e autoconfiança servindo como refúgio para o atormentado protagonista. Saindo-se bem nos duelos verbais com Firth, Rush cria um Lionel bastante carismático e convence o espectador como uma espécie de conselheiro do rei, graças também à boa química entre eles. Por outro lado, o unidimensional Rei Edward VIII de Guy Pearce chega a ser irritante em sua devoção à esposa e se torna definitivamente odiável quando zomba da gagueira do irmão, numa cena que começa a denunciar a origem da doença do protagonista, que será confirmada num momento tocante em que ele relembra os traumas vividos diante da família e de uma babá. Fechando o elenco, também vale citar a participação pequena e caricata de Timothy Spall como Winston Churchill, conhecido pelos discursos durante a segunda guerra mundial e que também tinha problema na fala, algo que ele chega a citar durante a narrativa.

A vida triste do protagonista é claramente refletida na paleta dessaturada da fotografia de Danny Cohen, que cria um visual cinzento, reforçado pelos tons escuros de suas roupas (figurinos de Jenny Beavan). Já as paredes descascadas do consultório indicam a situação financeira pouco confortável de Lionel e sua origem humilde, que será usada por George para ofendê-lo em determinado momento da narrativa, evidenciando o bom trabalho de direção de arte de Netty Chapman, que também nos ambienta perfeitamente à Inglaterra das primeiras décadas do século passado através dos carros, da imponente mesa de jantar do rei, dos próprios microfones e da decoração interna dos ambientes.

Cobrindo muitos anos da vida do rei, a montagem de Tariq Anwar é eficiente, ainda que utilize deselegantes letreiros para indicar a passagem do tempo. E finalizando a parte técnica, o design de som merece destaque especialmente nos discursos que abrem e fecham “O Discurso do Rei”, onde podemos ouvir claramente o público levantando, o volume diferenciado do microfone de acordo com o ambiente em que estamos e até mesmo a reação contida das pessoas ao ouvirem suas palavras. Também vale citar o momento em que o som diegético trabalha a favor da narrativa, quando ouvimos a música junto com o duque e não sabemos se ele conseguiu ou não falar enquanto Lionel grava o áudio – apesar do resultado daquele teste ser mais do que previsível.

Imprevisível mesmo é a direção de Tom Hooper. Inicialmente, ele parece ter total controle visual da narrativa, mostrando o rei George VI sempre do lado esquerdo (o mais fraco da tela) e Lionel sempre do lado direito (o mais forte) na primeira conversa deles, algo que, além de demonstrar o lado psicologicamente mais fraco daquela relação, ainda reflete a forma distorcida que o protagonista enxerga o mundo. Mas quando seu pai questiona duramente sua atitude passiva, tanto o duque quanto o rei George V aparecem do lado mais fraco da tela, o que denuncia, ainda que sutilmente, que Hooper sequer sabia o que estava fazendo. Isto fica ainda mais evidente na medida em que a narrativa avança, como na conversa seguinte à morte do rei George V, em que o duque aparece do lado direito da tela no plano geral, mas volta a surgir do lado esquerdo nos planos fechados. Se mantivesse as posições e gradualmente invertesse os lados dos personagens, Hooper estaria simbolizando o crescimento da confiança do personagem, o que seria genial. O mais curioso é que sabendo ou não o que estava fazendo, o diretor encerra “O Discurso do Rei” justamente com George VI do lado direito da tela e Lionel surgindo por último do lado esquerdo, o que, não fossem as constantes trocas durante a narrativa, poderia significar o fortalecimento do rei naquela relação. Pra piorar, o diretor insiste nesta visão distorcida até mesmo quando as cenas não envolvem George VI, o que é uma pena. Mas Hooper também acerta, como quando a câmera vai e volta em direção ao duque em seu tratamento, simulando o movimento respiratório tão importante naquele processo de cura do personagem. Além disso, o diretor obviamente tem créditos por extrair as excelentes atuações do elenco citadas acima.

E por falar em atuações, Firth dá outro show durante o ensaio de George VI, cantando, dançando e até mesmo gritando palavrões sob a observação atenta de Lionel, momentos antes do esperado discurso do título. E quando este momento chega, a tensão toma conta das pessoas presentes – e mesmo imaginando o que irá acontecer, o espectador compartilha deste sentimento. Ainda assim, Hooper estica ao máximo a cena antes de George pronunciar as primeiras palavras e fazer um belo discurso, com raras falhas (“Eu tinha que gaguejar para eles saberem que sou eu”, diz ele), na melhor cena do longa, que destaca ainda a reação das pessoas diante daquelas palavras ao mesmo tempo em que nos mostra o esforço do protagonista para evitar gaguejar. Apesar de previsível, este final feliz faz com que o espectador saia satisfeito com o que viu.

Mesmo com falhas visíveis, “O Discurso do Rei” é um filme agradável, feito sob medida para alegrar o espectador e que de quebra ainda nos brinda com ótimas atuações. Contando uma história interessante e verdadeira de superação, o longa conquista imediatamente a simpatia da platéia, mas, assim como a cura de seu protagonista, é apenas uma questão de tempo para que ele caia no esquecimento.

Texto publicado em 22 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (1994)

(Mary Shelley’s Frankenstein)

 

Filmes em Geral #90

Filmes Comentados #9 (Comentários transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012)

Dirigido Kenneth Branagh.

Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Tom Hulce, Aidan Quinn, Richard Briers, John Cleese, Robert Hardy, Cherie Lunghi, Celia Imrie, Trevyn McDowell e Gerard Horan.

Roteiro: Steph Lady e Frank Darabont, baseado em livro de Mary Shelley.

Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart e John Veitch.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Extremamente criticado na época de seu lançamento, “Frankenstein de Mary Shelley” apresenta tantas qualidades que transforma o esforço para compreender sua má recepção numa tarefa inútil. Muito mais interessante é explorar a abordagem fiel de Branagh, as excelente atuações do elenco e a profundidade dramática do longa que, contando ainda com um visual arrebatador, se confirma como uma das melhores adaptações da obra de Mary Shelley.

Escrito por Steph Lady e Frank Darabont (que dirigiria a obra-prima “Um Sonho de Liberdade” naquele mesmo ano), “Frankenstein de Mary Shelley” chama a atenção desde sua excelente introdução, quando uma marcante voz narra o texto inicial da obra de Shelley. Através de um longo flashback que tem inicio no encontro casual entre Victor Frankenstein (Kenneth Branagh) e um determinado e inconsequente explorador no polo Ártico (Aidan Quinn), o filme narra à história do promissor médico que busca encontrar uma forma de trazer pessoas que já morreram de volta à vida, motivado especialmente pela morte precoce de sua mãe (Cherie Lunghi). Após conhecer o inteligente professor Walderman (John Cleese), seus experimentos finalmente funcionam e ele dá vida a uma Criatura (Robert De Niro) feita a partir dos restos mortais de um assassino e do cérebro de seu falecido mentor.

Além de desenvolver a narrativa e os personagens de maneira consistente, o elegante roteiro apresenta diversos diálogos interessantes, começando por aquele em que o capitão Walton de Aidan Quinn diz para Victor que deseja entrar para a história da humanidade e recebe uma resposta cheia de ressentimento: “Eu, mais do que ninguém, sei que você está errado”. Outro diálogo marcante acontece dentro de uma caverna gelada, quando a Criatura questiona Victor e nos leva a refletir sobre a situação: afinal, quem é o verdadeiro monstro? Incluindo ainda diversas menções ao nome de Deus para ilustrar a força da religião naquele período, o roteiro aborda com competência a questão do abandono, da falta de afeto, amor e carinho, mostrando também como as pessoas tendem a olhar para o exterior e não para o interior de seus semelhantes, numa atitude cruel capaz de destruir a autoestima de qualquer ser humano.

Auxiliado pela montagem dinâmica de Andrew Marcus, Branagh narra fatos importantes da história de maneira econômica, ganhando tempo para explorar seu melhor personagem, que é a Criatura interpretada por De Niro, assim como lhe permite dar mais foco à fase de estudos e experimentos que ressalta a obsessão de Victor. Juntos, diretor e montador abusam do virtuosismo técnico em momentos interessantes como o raccord que salta de Victor e Elizabeth brincando com água para o plano em que eles soltam pipa ou aquele em que Victor corta a corda do corpo enforcado do assassino e, em seguida, vemos um copo descendo na mesa de uma taverna como se continuasse o movimento de queda do cadáver. Ainda nos detalhes técnicos, chama a atenção como a trilha sonora de Patrick Doyle pontua muito bem as cenas, surgindo na maior parte do tempo para indicar momentos importantes, como quando a música triunfal acompanha a entrada de Victor no local onde ele dará vida à Criatura, acertando também no melancólico tema que embala a relação entre Victor e Elizabeth, que surge até mesmo na flauta da Criatura, indicando como esta interfere no relacionamento deles.

Utilizando inicialmente cores vivas, a fotografia de Roger Pratt demonstra bem a alegria de Victor até o momento em que perde sua mãe, criando um contraste marcante em sua obscura passagem por Inglostadt, que reflete sua mente conturbada e obstinada naquele instante, ressaltada inclusive pela bagunça generalizada do caótico local, repleto de objetos espalhados por todos os lados (design de produção de Tim Harvey). Branagh conta também com os figurinos coloridos e ricos em detalhes de James Acheson e com a decoração perfeita dos ambientes para dar um visual espetacular ao longa, escorregando apenas em alguns efeitos visuais, como na cena do monte em que os raios que caem sobre eles soam pouco verossímeis. Por outro lado, o diretor realça com sutileza momentos de importância narrativa, como quando o sapo testado por Victor quebra o vidro e indica a força que a nova criatura terá.

Demonstrando grande habilidade na direção, Branagh é responsável pela criação de inúmeros planos marcantes, como aquele que diminui o Barão Frankenstein (Ian Holm) na enorme escada azul logo após o trágico parto, indicando o quanto ele estava arrasado, o impressionante plano geral que acompanha a cruel morte de Justine (Trevyn McDowell) ou os planos belíssimos que exploram a beleza da região enquanto a Criatura caminha na neve. Observe ainda como o professor Krempe (Robert Hardy) é filmado por baixo de forma que fique imponente na sala durante a aula até o instante em que é questionado por Victor, quando a câmera inverte o eixo e o diminuí na cena, simbolizando que Frankenstein não respeita sua visão e quer ir além. Aliás, os movimentos de câmera tem grande importância na narrativa, algo ressaltado pelo simbolismo dos contra-plongès (filmado por baixo) que simbolizam a vida no nascimento da Criatura e de sua “Noiva” e dos plongès (filmado por cima) que simbolizam a morte do professor, do garoto Willie e de Elizabeth, numa lógica perfeita que demonstra o equilíbrio de maneira coerente na cena do parto, onde uma morte e um nascimento acontecem simultaneamente e a câmera se mantém no mesmo nível. Finalmente, Branagh confere energia à excelente sequência do nascimento da criatura, incluindo até mesmo uma referencia ao clássico da Universal de 1931 (“Está vivo! Está vivo!”).

Mas se tem grande destaque atrás das câmeras, na frente delas Branagh tem uma atuação apenas razoável, escancarando sua origem teatral ao exagerar nas expressões faciais, saindo-se bem apenas em raros momentos como quando Victor tenta convencer Elizabeth a ficar. Supostamente demonstrando grande apego à família, Victor lentamente revela-se um ser egoísta, que pensa somente em seu benefício sem levar em consideração as consequências de seus atos – o que o leva, por exemplo, a dizer “Graças a Deus” quando é informado que os recém-nascidos estão morrendo diante de uma epidemia, pensando apenas na Criatura e esquecendo-se das centenas de mães que choram naquele instante. Aliás, a própria obstinação de Victor em trazer os mortos de volta a vida revela um egoísmo profundo, já que este ato busca essencialmente a “sua” felicidade, esquecendo-se do que aquilo poderia provocar naqueles que já se foram – e neste sentido, a sequência em que Elizabeth é ressuscitada é crucial para compreender o mal que ele fez. Aliás, auxiliada pela excepcional maquiagem que torna as criaturas mais realistas, Helena Bonham Carter se sai muito bem nos poucos minutos em cena como a noiva de Frankenstein, convencendo e demonstrando em seu rosto expressivo a dor da personagem ao descobrir o que Victor tinha feito com ela.

Entretanto, o grande destaque do elenco fica mesmo para Robert De Niro, que surge inicialmente como o assassino do professor, o que é apropriado para dar credibilidade à Criatura que surgirá em seguida. Numa interpretação tocante, ele demonstra sensibilidade e raiva em proporções cavalares, destacando-se em diversos momentos como quando ajuda uma família de camponeses e recebe uma placa e uma flor como agradecimento, demonstrando uma alegria genuína capaz de nos levar as lágrimas. Aliás, toda esta sequência da família na floresta é linda e bastante simbólica, resumindo a mensagem do filme com precisão. Criando um ser ambíguo que, como ele mesmo diz, carrega amor e ódio em medidas iguais, De Niro cria um anti-herói que, mesmo cometendo atos insanos (como matar uma criança e incriminar a tia dela), consegue conquistar a empatia da plateia. Obviamente, o fato da Criatura já surgir indefesa, com as pessoas tentando agredi-la sob a alegação de que ela é a responsável pela terrível doença que assola a cidade, colabora bastante – e o plano em que a criatura se mistura aos mortos é muito simbólico, já que ele jamais deixa de ser uma espécie de morto-vivo, não por falta de humanismo, mas pela forma como é recebido pelos “seres humanos”.

Em certo momento, a Criatura afirma que “pela compaixão de um único ser humano, faria as pazes com todos”, nos levando a uma interessante reflexão. Porque não aceitamos aqueles que não entendemos ou que julgamos diferentes? O choro diante da morte de Victor e a frase “ele nunca me deu um nome” demonstram a dor e o ressentimento da Criatura diante da rejeição paterna. Já sua última e impactante frase, “Eu abandonei a humanidade”, demonstra seu ressentimento com toda a raça humana. Ele viu que as pessoas não seriam capazes de aceitá-lo. Nem o seu criador o fez.

Outras críticas interessantes sobre o filme você pode encontrar nos links abaixo:

– Análise completa por Pablo Villaça.

– Crítica de Alexandre Rivaben.

PS: Comentários divulgados em 03 de Novembro de 2009 e transformados em crítica em 17 de Outubro de 2012.

Texto atualizado em 17 de Outubro de 2012 por Roberto Siqueira