A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (1971)

(The Last Picture Show)

 

Filmes em Geral #27

Dirigido por Peter Bogdanovich.

Elenco: Timothy Bottoms, Jeff Bridges, Cybill Shepherd, Ben Johnson, Cloris Leachman, Ellen Burstyn, Eileen Brennan, Clu Gulager, Sam Bottoms, Sharon Ulrick, Randy Quaid, Joe Heathcock, Bill Thurman, Barc Doyle, Jessie Lee Fulton, Gary Brockette e Helena Humann.

Roteiro: Larry McMurtry e Peter Bogdanovich, baseado em livro de Larry McMurtry.

Produção: Stephen J. Friedman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Uma pequena e pacata cidade no interior dos Estados Unidos, na região do Texas, é o palco para as aventuras e descobertas sexuais de jovens sonhadores e, ao mesmo tempo, um local amargo e triste para as pessoas mais maduras que habitam ali. Peter Bogdanovich conta com um elenco talentoso para mostrar a difícil rotina da vida numa cidade pequena e sem perspectivas neste belo “A Última Sessão de Cinema”, longa responsável por alçar o diretor ao estrelato e, ironicamente, estabelecer um padrão de qualidade em sua filmografia que ele jamais conseguiu superar.

Nos anos 50, os jovens Sonny (Timothy Bottoms) e Duane (Jeff Bridges) vivem na pequena Anarene, uma cidade localizada no Texas, Estados Unidos. Sem muitas opções de lazer, os rapazes investem seu tempo nas sessões de cinema, que servem para dar uns amassos nas garotas da cidade, e na sinuca do bar de Sam (Ben Johnson). Enquanto Duane procura participar das festas para se divertir, Sonny acaba iniciando uma relação com Ruth Popper (Cloris Leachman), uma mulher madura, esposa de seu treinador, que se torna a responsável pelo início da vida sexual do rapaz. Em comum, Sonny e Duane têm ainda o interesse pela bela Jacy Farrow (Cybill Shepherd), filha de Lois Farrow (Ellen Burstyn), uma garota que vive em busca de sua primeira experiência sexual.

Escrito por Bogdanovich e Larry McMurtry, baseado em livro do próprio McMurtry, “A Última Sessão de Cinema” aborda a difícil rotina de uma pequena cidade, onde as opções de diversão são escassas e os “olhares” da vizinhança estão sempre vigiando os passos de cada habitante. Exalando nostalgia até mesmo através da trilha sonora (na realidade, músicas ouvidas pelos personagens em rádios), repleta de músicas clássicas de ícones dos anos 50 como Hank Williams e Elvis Presley, a narrativa se concentra no dia-a-dia daquela cidade, onde “ninguém pode espirrar em paz”, segundo a simpática garçonete Genevieve (Eileen Brennan), acompanhando as aventuras sexuais dos formandos da turma de 1952, ao mesmo tempo em que ilustra a depressão de pessoas mais velhas como Sam, Louis e Ruth, personagens já distantes do período dourado em que viveram as suas aventuras também. Entre os jovens, o foco se mantém em dois personagens em especial, o sensível Sonny e a atirada Jacy, que inevitavelmente terão os seus caminhos cruzados, como o interesse dele pela garota no cinema já indicava (“Sonny sempre quis sair comigo”, diz ela). De maneira crua e realista, o longa aborda ainda a complicada fase da descoberta do sexo e as diversas maneiras possíveis de se perder a virgindade, seja com o (a) namorado (a), como aconteceu com Jacy, seja com uma prostituta, como quando os garotos se organizam para tentar “ajudar” Billy (Sam Bottoms).

A direção de Peter Bogdanovich é clássica, com longos planos e enquadramentos perfeitos, e, auxiliada pela montagem de Donn Cambern, emprega um ritmo lento e contemplativo à narrativa, aperfeiçoado pelos extensos momentos de silêncio que ilustram bem a vida pacata naquela cidade. Os movimentos de câmera são discretos, com apenas algumas exceções, como na cena em que Sam relembra suas aventuras da juventude à beira de um rio, em que o zoom engrandece o personagem na tela e realça sua emoção ao recordar de uma época tão boa em sua vida, num dos grandes momentos da ótima atuação de Ben Johnson. Bogdanovich volta a destacar o personagem quando Sonny e Duane partem para o México pra se divertir, dando um close no rosto de Sam, que mistura a felicidade dele ao ver os meninos se divertirem e a nostalgia de alguém que sabia que aquele tempo em sua vida já havia acabado. Por outro lado, o diretor se mostra arrojado nas cenas que envolvem o sexo, a começar pelo plano do sutiã pendurado no retrovisor da caminhonete enquanto Sonny beija sua namorada, numa escapada típica dos jovens casais daquela região dos Estados Unidos. Jamais buscando romantizar os encontros, o diretor procura mostrar as relações com toda a tensão e expectativa que elas envolvem. Repare, por exemplo, como na cena em que Sonny e Ruth transam pela primeira vez, Bogdanovich tira toda a carga erótica do momento através dos pequenos gestos atrapalhados do casal (ele bate na cômoda, ela se enrosca com a roupa), da velocidade da transa e do som da cama rangendo, ilustrando como aquele ato envolvia mais nervosismo e tensão do que empolgação, o que é normal na primeira vez de qualquer pessoa (como era o caso de Sonny) e para alguém na condição de Ruth, claramente insatisfeita com a vida que levava com o marido e, provavelmente, já há muito tempo sem ter uma boa experiência sexual (e afetiva). Não é a toa que, quando Sonny finalmente sai com Jacy, o plano seguinte apresenta Ruth diminuída e envolvida pela escuridão, refletindo a tristeza daquela mulher abandonada – um plano que contrasta com a fotografia clara e com predomínio de cenas diurnas de Robert Surtees, que reflete o vazio daquelas pessoas através dos tristes tons em preto e branco. Voltando aos relacionamentos, é interessante notar ainda como praticamente todas as experiências sexuais parecem secas e sem floreios, o que as torna ainda mais verossímeis. Ainda assim, o diretor consegue criar um clima interessante, por exemplo, na arrojada cena em que Jacy transa na mesa de bilhar, onde a lenta construção da seqüência cria uma expectativa inversa ao péssimo resultado alcançado, que provoca o choro da garota diante de sua mãe (num momento de fraca atuação de Shepherd), o que acaba levando Jacy a procurar por Sonny logo em seguida.

Com uma direção discreta e um trabalho técnico eficiente e que pouco chama a atenção pra si, “A Última Sessão de Cinema” acaba realçando aquilo que tem de melhor, as atuações. Bogdanovich consegue extrair um desempenho magnífico de todo elenco, com exceção de Shepherd (a paixão do diretor na vida pessoal), que oscila entre momentos bons e outros pavorosos, exalando a sensualidade que a personagem exige, mas falhando terrivelmente nos momentos dramáticos. Sedenta por sua primeira experiência sexual, Jacy tenta ser livre, apesar da rigidez de seu pai, que curiosamente contrasta com o liberalismo de sua mãe, algo ilustrado na conversa que elas têm sobre sexo, quando Jacy diz ser pecado transar antes de casar e ouve um “não seja hipócrita!” como resposta. Esperta, a garota tinha a exata noção de seu poder de sedução, permitindo Duane acariciar sua virilha somente para conseguir sair sem ele logo em seguida, pois sabia que aquela concessão seria suficiente para que o rapaz acreditasse na mentira que ela iria contar – e vale notar como Bogdanovich filma esta cena em planos fechados, mostrando através de closes a reação de ambos (ela feliz, ele tenso e empolgado com a surpreendente concessão). Shepherd se sai bem, por exemplo, quando um rapaz vem recepcioná-la na festa dos pelados, obviamente nu, e ela olha pra cima embaraçada – esta cena, aliás, apresenta o único nu frontal feminino de todo o filme. Em seguida, a atriz demonstra bem a tensão da garota nos segundos que antecedem sua entrada na piscina, quando se despe diante de todos, como mandava o ritual do grupo. Desesperada para perder a virgindade, ela tenta ficar com um dos rapazes mais “descolados” da festa, e a recusa dele é o estopim para que ela parta definitivamente pra cima de Duane, que falha e provoca uma explosão de raiva em Jacy. Infelizmente, Shepherd novamente não transmite com intensidade a raiva que a cena pedia. Por outro lado, a atriz se recupera em seguida, quando as amigas de Jacy entram no quarto e ela, com muito cinismo, diz que “nem conseguia descrever” o que tinha acontecido, dando a entender que a experiência havia sido maravilhosa. A garota é ainda o pivô da briga entre Sonny e Duane, que acaba motivando o casamento dela com Sonny. Puxando a lista de boas atuações, Timothy Bottoms interpreta Sonny, um rapaz claramente entediado com o namoro que tinha (“Namoramos há um ano” diz a namorada no cinema e ele responde “parece que faz mais tempo”), e que, assim como Jacy, buscava sua primeira experiência sexual – algo simbolizado quando observa atentamente dois cachorros tentando cruzar durante uma aula. Em contrapartida, era inocente a ponto de não perceber quando uma mulher estava interessada nele, como fica evidente na primeira conversa que tem com Ruth na casa dela. E nem mesmo após viver sua primeira experiência sexual o rapaz perde o jeito tímido, como notamos quando Jacy pede um beijo pra ele, que, assustado, evita até mesmo olhar para a garota dentro do carro – e Bottoms demonstra muito bem o nervosismo do rapaz neste momento.

Mas se nos dois personagens centrais “A Última Sessão de Cinema” não apresenta atuações excepcionais, é no restante do elenco que se encontram os grandes destaques do longa. A começar por Ellen Burstyn, que vive Lois Farrow, uma mulher ainda mais mente aberta que a filha e que, por exemplo, não hesita antes de beijar um homem na frente de sua esposa numa festa. Quando Farrow diz para a filha que ela conheceria a monotonia caso se casasse com Duane, ela estava apenas evidenciando sua própria condição apática diante do marasmo que o casamento e a vida naquela pequena cidade representavam pra ela. Por outro lado, sua reação à morte de Sam dá uma pista do caso que eles tiveram na juventude, algo revelado pela própria Lois posteriormente numa conversa com Sonny, numa das cenas em que o talento de Burstyn fica evidente. Observe como a atriz transmite um misto de alegria e tristeza através da fala oscilante e do semblante, que alterna entre o sorriso e os olhos marejados, demonstrando a falta que ela sentia daqueles dias que se foram. Além dela, e do já citado Ben Johnson, merece destaque também a excepcional atuação de Cloris Leachman como Ruth, uma mulher claramente infeliz diante da vida que escolheu viver, que se renova ao se relacionar com Sonny, passando até mesmo a pensar em pintar as paredes de sua casa com a cor favorita do rapaz. Casada desde os 20 anos de idade, porque “a mãe dela não gostava de seu namorado”, ela é o perfeito exemplo do que poderia se transformar a vida de Jacy no futuro – algo que Lois também já havia dito para a filha. O grande momento da atriz, no entanto, acontece quando Sonny, sem ter pra onde ir e ainda preso às suas raízes, volta para a cidade e procura por Ruth, que explode diante da atitude do rapaz e de sua própria condição passiva naquela relação. Após o surto (e o toque da mão dele), ela se acalma e fica bem, num momento que coroa o desempenho memorável de Leachman, notável em todo o filme, transmitindo a aflição da personagem antes de iniciar a relação com Sonny, a alegria dela após o início da relação e a amargura quando ele a troca por Jacy. Fechando o elenco, Jeff Bridges interpreta o jovem Duane, dando um sinal de seu enorme talento como ator, por exemplo, através de sua reação ao tirar a roupa de Jacy num motel, quando, boquiaberto, demonstra com competência a empolgação do rapaz.

Quando a Sra. Mosey (Jessie Lee Fulton) diz que vai fechar o cinema porque “as pessoas não vêm mais, preferindo ver jogos de beisebol e assistir televisão”, além de justificar o nome do filme, ela está na verdade decretando também a decadência completa daquela cidade, esquecida em algum canto do Texas. Por isso, é extremamente apropriado que o último plano de “A Última Sessão de Cinema” ecoe o seu primeiro plano, mostrando a rua vazia, o vento soprando e as folhas voando na pacata Anarene. É irônico que o mesmo local que embala os sonhos dos jovens se transforme no pesadelo destas mesmas pessoas quando atingem a velhice. Talvez, a reflexão proposta é a de que o ser humano, quando não tem distração, passa a perceber a sua condição finita e, conseqüentemente, a viver mais triste por isso.

Texto publicado em 15 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

REQUIEM PARA UM SONHO (2000)

(Requiem for a Dream) 

 

Filmes Comentados #12

Dirigido por Darren Aronofsky.

Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Chrisopher McDonald, Louise Lasser, Keith David e Sean Gullette. 

Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em livro de Hubert Selby Jr.. 

Produção: Eric Watson e Palmer West.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama]. 

– Requiem significa “repouso” em latim. Uma das famosas composições de Mozart é o Requiem, que a Igreja Católica utiliza em cerimônias fúnebres. Portanto, o “repouso” em questão tem um sentido de morte mesmo. Sendo assim, Requiem para um Sonho pode ser interpretado como o repouso eterno (ou morte) dos sonhos dos quatro personagens que o longa nos apresenta.

– Grande libelo anti-drogas, “Requiem para um Sonho” consegue passar uma mensagem sensível de forma direta e atordoante. O mundo do vício é abordado sem maquiagens, de forma crua e real, chocando o espectador e alcançando um resultado espetacular.

– A montagem de Jay Rabinowitz é simplesmente sensacional. Desde o inicio, com a tela dividida mostrando simultaneamente as ações de Harry (Jared Leto) e Sara (Ellen Burstyn), passando pelo pequeno clipe que simboliza o uso de drogas, notamos a qualidade do trabalho, que dita um ótimo ritmo ao filme. Podemos citar também o café da manhã de Sara, quando a laranja, o café e o ovo somem rapidamente, mostrando a agonia que ela sentia comendo somente aquilo, enquanto o relógio mostra a lenta passagem do tempo. A refeição parecia durar alguns segundos, enquanto que no restante do dia o tempo passava lentamente.

– A trilha sonora de Clint Mansell é linda. Reflete bem a agonia daquelas vidas presas a tantos vícios.

– Repare como o estilo do pequeno clipe que passa toda vez que alguém usa uma droga também é utilizado toda vez que Sara liga ou desliga a TV. A analogia é lógica: a TV também é um vicio, assim como as drogas. Harry chega até mesmo a dizer para Marion (Jennifer Connelly) que a mãe é viciada em televisão. E não são somente estes dois vícios que o filme aborda com competência. Temos também o vício em pírulas para emagrecer, os viciados em dinheiro, viciados em sexo e até mesmo um viciado em mulheres.

– Ellen Burstyn tem uma atuação fantástica, com destaque para a cena em que ela chega à emissora de televisão e é retirada pela polícia para ser levada ao hospital. Sua transformação de mulher tranqüila para completamente viciada em remédios para emagrecer é sensacional.

– Jennifer Connelly também tem uma atuação excepcional, retratando bem até que ponto o ser humano pode chegar quando está viciado. Moça de bom coração, porém seriamente afetada pelo vicio, ela vai até o fundo do poço, chegando inclusive a participar de festas com sexo bizarro para conseguir droga. Observe sua reação ao elogio de Harry quando está deitada com ele. Ela o ama de verdade, mas o vicio destruiu sua vida.

– Marlon Wayans e Jared Leto estão muito bem como os dois jovens sonhadores e viciados. A química da dupla é ótima, e os dois atores conseguem grandes desempenhos nos momentos mais dramáticos, como a prisão de Tyrone (Wayans) e o desespero de Harry ao sentir saudades de Marion. Além disso, estão praticamente perfeitos quando drogados (Connelly não fica atrás), mostrando a euforia e o desespero que o vício provoca.

– Harry é um bom filho, como podemos notar quando dá a televisão para a mãe e diz que vai visitá-la. Porém, infelizmente, o vício o transformou em um jovem problemático, que abandona a mãe e a faz sofrer. A família desestruturada sente muito a falta do pai, como fica evidente no contundente diálogo entre Sara e Harry (“Eu vivo só!”). Sara buscou na televisão uma válvula de escape para a solidão e a tristeza. Harry buscou nas drogas. E embora possamos entender, não podemos aceitar nenhuma das duas alternativas encontradas.

– A direção de Darren Aronofsky é muito dinâmica e cheia de planos criativos. A narrativa segue um ritmo ágil e Aronofsky é competente ao manter este ritmo com perfeição. Um exemplo de movimento de câmera interessante é quando Harry escuta o ranger dos dentes de sua mãe e a câmera lentamente gira em torno de sua cabeça até ficar de frente para ela, com o som mostrando o que lhe incomodava. Em outro momento, auxiliado pela excelente montagem, ele mostra Harry olhando para a janela e vendo Marion à beira da água. A imagem então transita para Harry andando em direção dela, e quando ela some, podemos ver que ele estava na casa, imaginando tudo aquilo. Outro momento de destaque é o video com imagens aceleradas que simboliza a agitação e ansiedade de Sara, além de alguns momentos em que a câmera fica presa aos atores, captando de perto suas reações, como quando Tyrone foge dos traficantes e quando Marion sai do apartamento de Arnold (Sean Gullette).

– O médico sequer olha no rosto de Sara para receitá-la. O tratamento impessoal mostra que ele não se importava se ela estava ou não com problemas, se limitando apenas a dar os remédios, sem se preocupar com as possíveis conseqüências do mau uso deles.

– A completa degradação do ser humano é retratada nas seqüências finais, quando todos eles chegam ao fundo do poço, completamente decadentes e afundados em problemas por causa de seus vícios. A fotografia de Matthew Libatique propositalmente utiliza cores frias, sem vida, refletindo a tristeza daquelas vidas vazias.

– A posição final de cada um deles, deitados na cama como bebês, mostra como o viciado pode ser visto como uma criança que não entende os limites do que pode e do que não pode fazer. Porém, sendo adultos, as conseqüências de seus desejos proibidos são infinitamente mais dolorosas e prejudiciais.

– “Requiem para um sonho” deveria ser exibido para os jovens, como forma de alertar sobre os perigos deste mundo das drogas. Não que eu acredite que esta seria a solução para o problema. Longe disso. Mas se de alguma forma o filme colaborar para que pelo menos um jovem não entre neste caminho, já será algo importante e que deve ser celebrado. 

 

Texto publicado em 06 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

O EXORCISTA (1973)

(The Exorcist) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #14

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Jason Miller, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Gina Petrushka, Robert Symonds, Thomas Birmingham e Mercedes McCambridge (voz).

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em livro de William Peter Blatty.

Produção: William Peter Blatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para algumas pessoas – como eu – poucos temas são capazes de provocar medo como os relacionados aos espíritos. Por isso mesmo, confesso que dos filmes recentes de suspense que eu assisti, os que mais me agradaram tinham este tema em comum (“O Chamado” e “Os Outros”). Em “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin, este tema foi explorado com absoluta competência, provocando um frio na espinha da maioria dos espectadores e criando um festival de imagens que são capazes de atormentar a mais incrédula das pessoas.

A atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber gradativamente que sua pequena filha Regan MacNeil (Linda Blair) está tendo um comportamento bastante estranho. Após frustradas tentativas de curar a garota procurando a ajuda de médicos, psiquiatras e até mesmo através da hipnose, ela se rende à ajuda do padre Karras (Jason Miller), que chega à conclusão de que a menina está possuída pelo demônio e precisa de um ritual que já não é mais utilizado nos dias de hoje, chamado exorcismo.

Friedkin inicia o filme mostrando o cotidiano do experiente Padre Merrin (Max Von Sydow), que está fazendo escavações no Iraque. Durante estas escavações, Merrin acaba se encontrando com uma estátua macabra no alto de um monte. O plano final desta seqüência no Iraque, com o pôr-do-sol avermelhado, remete ao inferno. Em seguida, o diretor nos ambienta profundamente no relacionamento entre Chris e Regan, mostrando imagens das duas brincando e conversando na cama (neste plano vemos o rosto de Regan em close, o que dá a exata noção do contraste quando ela está possuída). Desta forma, ele cria empatia entre o espectador e aquela família, o que aumenta ainda mais o drama quando Regan começa a dar sinais de mudança em seu comportamento. O diretor também é inteligente ao nos situar nos problemas da família, como no plano em que Chris tenta falar com o pai de Regan e discute com a operadora de telefone. A câmera lentamente se afasta até mostrar Regan ouvindo a conversa escondida. A falta do pai seria utilizada como justificativa posteriormente para a mudança de comportamento da garota. Além disso, lentamente Friedkin vai introduzindo elementos que nos mostram sinais do que aconteceria depois, como a cama balançando freneticamente, a reação de Regan nos exames e os palavrões que a garota começa a falar. Finalmente, somos apresentados ao sofrimento do Padre Karras ao ver sua mãe doente, que também terá reflexo no restante da narrativa.

Vale dizer que todo este cuidadoso primeiro ato é mérito também do excelente roteiro de William Peter Blatty (baseado em livro do próprio Blatty). O roteiro desenvolve muito bem os personagens e seus dramas familiares, o que colabora com o nosso envolvimento no filme. É também corajoso ao trabalhar muito bem questões delicadas como a vida pessoal dos padres, normalmente vistos como pessoas acima do bem e do mal, mas que são seres humanos normais, que têm defeitos, medos e enfrentam problemas pessoais como qualquer um. Observe, por exemplo, este trecho de uma das conversas entre Chris e Karras: (Chris: “Padres sabem guardar segredo?” / Karras: “Depende.” / Chris: “Do que?” / Karras: “Do Padre.”). Não é por ser padre que uma pessoa é ou não é confiável, isto depende exclusivamente da pessoa. Blatty conseguiu ainda ilustrar de forma correta o conflito comum entre a medicina e a religião, através do ceticismo dos médicos no início do tratamento da garota. Finalmente, o filme jamais abre espaço para o humor, o que soaria falso e deslocado, a não ser pela repetição da piada sobre o filme que está passando no cinema no final do filme, já quando o espectador está mais relaxado.

Também colabora sensivelmente para o sucesso do longa o talentoso elenco dirigido por Friedkin. Ellen Burstyn e Linda Blair mostram uma boa química no início, o que serve até como comparação para a incrível transformação que ambas sofrerão durante o restante do filme. Regan, sempre sorridente, e Chris, sempre carinhosa, vão lentamente se transformando em pessoas completamente diferentes por razões distintas. Burstyn é extremamente competente, por exemplo, ao demonstrar sua comoção com a notícia da morte de Burke, chorando escandalosamente e com as mãos trêmulas. Seu desespero para tentar curar a filha é tocante, apelando para toda e qualquer ajuda vinda dos médicos, psiquiatras ou até mesmo de um especialista em hipnose. Observe sua reação ao ouvir a sugestão de um médico para procurar o exorcismo (e aqui ele dá uma explicação técnica para o sucesso do ritual, mostrando novamente que a medicina não tolera a explicação religiosa). Ela olha assustada para todos na mesa, mudando o foco do olhar da direita para a esquerda e vice-versa, tentando entender o que era aquilo. Finalmente, Burstyn completa sua transformação na cena em que expõe todo seu sofrimento ao gritar para o padre Karras que ela reconheceria sua filha de qualquer jeito (“Aquela coisa lá em cima não é minha filha!”). A atriz é muito competente na transmissão da dor e do desespero de Chris. Da mesma forma, Linda Blair também merece destaque pela excelente performance como Regan MacNeil. Inicialmente meiga e apegada à mãe, a garota lentamente se transforma num verdadeiro monstro, e o desempenho de Blair cresce consideravelmente quando está possuída. Aterrorizante, o resultado final de sua transformação é mérito também da excelente maquiagem e dos sensacionais efeitos sonoros, como podemos observar na primeira vez que a garota fala com a voz alterada. Jason Miller consegue transmitir muito bem o drama vivido pelo Padre Karras, que tem uma vida extremamente complicada. Localizada em um bairro pobre (as ruas pichadas e cheias de lixo mostram o bom trabalho de Direção de Arte), a velha e desorganizada casa reflete seu estado psicológico, seriamente afetado pela doença de sua mãe. A relação com a mãe, aliás, é algo muito importante para Karras. Talvez pelo fato de não ser casado, ela se tornou sua única companheira. Um dos seus bons momentos acontece quando Chris fala sobre exorcismo e ele pergunta espantado: “Como é?”. Completando o elenco principal, Max Von Sydow oferece uma ótima atuação como o experiente Padre Merrin, que encontra o seu destino no quarto de Regan e reforça o primeiro ato do filme, dando um peso maior à forte cena do exorcismo. Sydow é extremamente competente na criação do clima perfeito para o ritual, transmitindo ao espectador o perigo que aquilo representa, por exemplo, quando está rezando no banheiro.

Além do talentoso elenco, “O Exorcista” conta ainda com um apurado trabalho técnico que aumenta ainda mais o clima de suspense. Observe como a fotografia (Direção de Owen Roizman e Billy Williams) começa a escurecer na medida em que Regan começa a dar sinais de estar possuída. Com o passar do tempo, a fotografia se torna ainda mais sombria, ajudada também pela paleta granulada que torna a imagem menos nítida. Friedkin aumenta a sensação de horror ao jogar imagens demoníacas que piscam rapidamente na tela. O ótimo trabalho de som também colabora para criar o clima perfeito, como na cena em que podemos ouvir os barulhos no sótão da casa de Regan. O som ajuda também nos sustos causados na platéia, como na cena em que Chris investiga a origem dos barulhos na casa, além de funcionar perfeitamente nas cenas em que Regan está possuída.

Ao contrário de filmes como “Tubarão”, onde o suspense é muito mais psicológico, “O Exorcista” aposta no visual para causar medo no espectador. De maneiras diferentes, os dois filmes conseguem sucesso. Quando Regan desce as escadas no meio de uma festa, diz uma frase macabra e faz xixi no chão, o espectador percebe o nível das assustadoras cenas que vai presenciar. E a coleção de cenas aterrorizantes é enorme. Regan vira a cabeça completamente para trás, desce a escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus (na famosa cena conhecida como a “menina-aranha”), agride sua própria genital com um crucifixo dizendo palavras obscenas, levita sobre a cama e move objetos para tentar agredir quem entra em seu quarto, entre outras cenas impressionantes.

Assustador e repleto de imagens chocantes, “O Exorcista” faz ainda um excelente estudo sobre a perda da fé. Observamos pessoas completamente diferentes e que enxergam a fé de formas ainda mais distantes, alterarem suas vidas após serem atingidos por tragédias particulares. O Padre Karras, completamente modificado após a perda da mãe, enxerga no drama de Chris a possibilidade de se reencontrar com sua fé. Chris, que segundo ela mesma não tem religião, se entrega à fé para tentar salvar sua pequena filha. E o Padre Merrin, mesmo com toda sua experiência na vida religiosa, tem sua fé realmente testada dentro do quarto de Regan.

Extremamente visual sem se descuidar de seu conteúdo, “O Exorcista” é um filme aterrorizante, com imagens fortes e boas atuações. Seu roteiro coeso aborda a complicada possessão da garota de forma lenta, elevando a tensão a níveis extremos de maneira inteligente. Acredite ou não em espíritos ou demônios e, independente de qual seja a sua fé, o espectador jamais sai indiferente ao filme. Goste ou não, é impossível não respeitar a qualidade do trabalho realizado e o resultado alcançado.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira