AMOR ALÉM DA VIDA (1998)

(What Dreams May Come)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #182

Dirigido por Vincent Ward.

Elenco: Robin Williams, Cuba Gooding Jr., Max von Sydow, Annabella Sciorra, Jessica Brooks Grant, Josh Paddock e Rosalind Chao.

Roteiro: Ronald Bass, baseado em livro de Richard Matheson.

Produção: Barnet Bain e Stephen Simon.

Amor Além da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento de “Amor Além da Vida”, a esposa do protagonista questiona como ele poderia ser capaz de perdoá-la após ter contribuído para a morte dos filhos, a dele próprio e ainda ter se suicidado. Sua resposta: “Porque você é uma pessoa tão maravilhosa que me faz querer trocar o céu pelo inferno só para estar ao seu lado”. Este tipo de frase perigosa, que caminha no limite entre o brega e o poderoso, pode definir bem o longa de Vincent Ward. Durante boa parte do tempo, o diretor explora muito bem o potencial dramático da história, nos levando por um caminho já conhecido, é verdade, mas enriquecido por um visual belíssimo e por momentos interessantes como este.

Escrito por Ronald Bass, baseado em livro de Richard Matheson, “Amor Além da Vida” tem início quando Chris Nielsen (Robin Williams) conhece a bela Annie (Annabella Sciorra) num lago europeu. Felizes, eles se casam e constituem família, até que um terrível acidente tire a vida de seus dois filhos. Após superar a fase mais traumática, o casal reencontra a alegria de viver, mas outro acidente automobilístico provoca a morte de Chris, deixando Annie solitária e profundamente deprimida. Enquanto Chris tenta compreender e se adaptar ao paraíso, Annie comete suicídio. Impossibilitado de ver a esposa, Chris decide então tentar resgatá-la ao lado do amigo Albert (Cuba Gooding Jr.) e de um misterioso guia (Max von Sydow), que insiste em alertá-lo para o perigo da missão.

A vida após a morte sempre representou um mistério e um território perigoso para os roteiristas, já que é praticamente impossível não encontrar furos em quase todas as teorias a respeito e, o que é pior, quase sempre o longa pode encontrar rejeição por parte daqueles que não compartilham da mesma visão sobre o tema. Assim, tanto Ronald Bass como o diretor Vincent Ward são inteligentes o bastante para focarem muito mais no relacionamento do casal protagonista em detrimento de mirabolantes explicações que buscassem tornar aquele universo mais verossímil. Trabalhando na dinâmica do relacionamento entre Chris e Annie desde o início, o diretor busca criar empatia entre o casal e a plateia, o que é essencial para que a narrativa funcione dramaticamente.

Obviamente, a boa química existente entre Robin Williams e Annabella Sciorra colabora bastante neste sentido, já que o espectador acredita no amor dos personagens e, consequentemente, na dor deles quando as tragédias surgem em suas vidas. Ainda assim, inicialmente temos a sensação de que a perda dos filhos não interferiu tanto na relação deles, já que um salto de quatro anos na narrativa não nos permite acompanhar a fase mais traumática pós-acidente, que seria revelada somente depois através do uso de flashbacks. É somente após a morte de Chris que sentimos o peso da dor que paira sobre Annie – e só então somos apresentados ao lado depressivo da moça, até então escondido sob aquela carcaça de felicidade.

Lado depressivo da moçaEncantadora garotaCarismático amigoOscilando bem entre a encantadora garota que surge no lago e a sofrida mulher que não consegue superar a perda dos filhos, Sciorra oferece uma performance sensível, que transmite muito bem os fortes sentimentos da personagem e lhe garante destaque mesmo num elenco recheado com nomes importantes como Cuba Gooding Jr., que mesmo com seus costumeiros momentos de exagero se sai bem como o carismático amigo que recepciona Chris no paraíso, além é claro de Max von Sydow, que tem uma marcante participação na sombria sequência da busca por Annie.

No entanto, o destaque do elenco fica mesmo para Robin Williams, que também oferece uma atuação sensível e poderosa, transitando entre o encantamento na chegada ao paraíso e a desilusão após saber do suicídio da esposa. Expressivo, ele transmite com competência a dor do personagem no belo discurso sobre o homem que seu filho poderia ter sido, assim como é muito convincente a sua devoção diante da esposa na sequência em que ele tenta resgatá-la no inferno. O tempo inteiro, nós acreditarmos em seu sofrimento sem jamais temos a sensação de que ele desistirá de Annie, e isto é mérito do ator.

Encantamento na chegada ao paraísoDesilusão após saber do suicídio da esposaDiscurso sobre o homem que seu filho poderia ter sidoEmocionante também é o seu reencontro com a filha Marie que, por outro lado, serve também para revelar um importante artifício narrativo que esvazia a próxima revelação da trama. Assim, quando Chris começa a refletir sobre as próprias palavras e recorda que só seria capaz de enfrentar o inferno com determinada pessoa ao lado, fica evidente que Albert na verdade é o seu filho – ao que parece, nem assim o diretor confia na inteligência do espectador, já que ele faz questão de inserir planos rápidos do rosto de Cuba Gooding Jr. instantes antes da “revelação”. Mesmo previsível, o momento tem seu impacto devido à carga emocional naturalmente envolvida no reencontro entre pai e filho.

Alternando entre o presente no paraíso e o passado que revela detalhes importantes da vida do protagonista, a montagem de David Brenner e Maysie Hoy também transita entre o pós-vida de Chris e a vida terrena de sua esposa até o instante em que o suicídio dela é anunciado e altera radicalmente o tom da narrativa, numa mudança que terá reflexo quase que imediato também na belíssima fotografia do português Eduardo Serra, que passa a adotar tons obscuros que transformam os ótimos cenários concebidos pelo design de produção de Eugenio Zanetti em locais extremamente sombrios.

Presente no paraísoVida terrena de sua esposaLocais extremamente sombriosInicialmente buscando realçar as lindas paisagens do colorido paraíso, a fotografia oscila de acordo com o andamento da narrativa, transmitindo através do visual os sentimentos pretendidos pelo diretor. Observe, por exemplo, como a cor roxa, normalmente associada ao misticismo ou vista como símbolo de espiritualidade, magia e mistério, predomina em todas as cenas após a morte de Chris, simbolizando sua luta para superar o trauma e encontrar a paz (para os católicos, o roxo tem o significado de melancolia e penitência). Apoiado pela ótima fotografia e pelos excepcionais efeitos visuais que dão vida aos quadros que fizeram parte da história do casal, o diretor trabalha muito bem na composição dos planos, criando um filme visualmente belíssimo.

Esta marcante construção visual das cenas gera imagens que ficam na memória mesmo após o término do longa, como o terrível mar de rostos no inferno e a bagunçada e obscura casa em que Chris reencontra Annie, o que só reforça o ótimo trabalho de design de produção de Zanetti. A cena na casa, aliás, também escancara o eficiente design de som que nos ambienta ao paraíso e ao inferno com precisão. Observe, por exemplo, como os pequenos barulhos são ampliados nesta cena, como o som de uma porta batendo ou o movimento corporal dos personagens, numa distorção da realidade que torna aquele local ainda mais sombrio e amplia a sensação de incômodo no espectador. E finalmente, vale mencionar a bela trilha sonora de Michael Kamen, que surge melancólica quando deve ser, mas também evocativa quando o momento pede por isso.

Lindas paisagensCor roxaTerrível mar de rostosÉ uma pena, portanto, que, após nos levar por cenários tão deslumbrantes e nos envolver completamente, o desfecho de “Amor além da vida” seja tão previsível e clichê, seguindo o mesmo caminho já percorrido por tantos e tantos filmes semelhantes anteriormente. Mas ainda que sua história de amor não fuja do convencional, a maneira como ela é contada, seu visual arrebatador, as boas atuações e a direção eficiente garantem um bom resultado.

Assim, “Amor Além da Vida” está longe de ser aquele quadro intrigante que nos permite extrair inúmeros significados. Mas, enquanto passamos por ele, não podemos conter o impulso de ao menos dar uma olhadinha, tamanha a sua beleza plástica. E quando vamos embora, seguimos sem refletir a respeito, mas a beleza daquelas imagens permanece um bom tempo conosco.

Amor Além da Vida foto 2Texto publicado em 27 de Janeiro de 2014 por Roberto Siqueira

CONAN – O BÁRBARO (1982)

(Conan the Barbarian)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #158

Dirigido por John Milius.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow, Gerry Lopez, Sandahl Bergman, Mako, Ben Davidson, Cassandra Gava, Valérie Quennessen e William Smith.

Roteiro: John Milius e Oliver Stone, baseado em história de Robert E. Howard.

Produção: Raffaella De Laurentiis e Buzz Feitshans.

Conan - O Bárbaro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado no bem sucedido personagem criado por Robert E. Howard em 1932 (que se tornaria um herói dos quadrinhos da Marvel nos anos 70), “Conan – O Bárbaro” ficou conhecido por revelar ao mundo um dos grandes astros do cinema de ação daquela década: Arnold Schwarzenegger. Apostando na violência gráfica e na natureza mística de sua história, o longa dirigido por John Milius alcançou grande sucesso, passando a fazer parte da memória afetiva de muitos jovens daquela geração. Entretanto, o tempo foi cruel com o filme que, revisto hoje, parece bastante datado, ainda que consiga sobreviver como uma aventura minimamente interessante.

Adaptado pelo próprio Milius ao lado de Oliver Stone, o roteiro baseado na história de Howard nos apresenta Conan (Arnold Schwarzenegger) ainda jovem, quando este acompanha sua aldeia ser atacada por um terrível feiticeiro chamado Thulsa Doom (James Earl Jones) que, impiedoso, assassina os pais do garoto na frente dele. Preso e forçado ao trabalho escravo, Conan acaba desenvolvendo sua força física e, após conquistar a liberdade, parte em busca de vingança, cruzando pelo caminho com os ladrões Subotai (Gerry Lopez) e Valeria (Sandahl Bergman). Juntos, eles terão ainda que resgatar a filha do Rei Osric (o sempre ótimo Max von Sydow), que, atraída pela filosofia de Doom, acabou juntando-se aos seguidores dele.

Através de uma estranha narração que só faz sentido na metade do filme quando o feiticeiro interpretado por Mako entra em cena, somos apresentados ao violento passado do protagonista ainda nos minutos iniciais de “Conan – O Bárbaro”, evidenciando desde então que seu desejo de vingança será o fio condutor da narrativa. Em seguida, um belo plano geral nos leva ao local onde Conan passará a infância fazendo trabalhos forçados e, durante este trabalho, uma elipse interessante avança muitos anos na narrativa e nos traz Conan já adulto e na pele de Schwarzenegger. Enquanto acompanhamos sua consolidação como guerreiro através de sangrentas lutas numa arena, presenciamos também a formação de sua personalidade bruta e selvagem, tão essencial para o sucesso do personagem.

Trabalhos forçadosElipse interessanteConan já adultoEstreando como protagonista no cinema num papel talhado para ele, Schwarzenegger fala muito pouco e aposta na força física para ter sucesso – algo que o diretor explora muito bem em diversos planos que realçam a forma física do ator. Aliás, é impressionante como o corpo humano é explorado e valorizado em “Conan – O Bárbaro”, com planos que buscam realçar a força dos homens e a sensualidade das mulheres, que, aliás, surgem em profusão durante uma narrativa que poderia facilmente pender para uma abordagem machista devido ao seu universo calcado na força, numa transposição fiel ao estilo violento e lascivo dos quadrinhos.

Forma física do atorCorpo humano é exploradoSensualidade das mulheresVoltando ao protagonista, Conan é a antítese do herói convencional. Mulherengo, briguento e beberrão, o personagem poderia facilmente se afastar do espectador, mas sua introdução trágica e o inegável carisma do ator colaboram para aproximá-lo da plateia. Movido pelo desejo de vingança, Conan sequer consegue manter-se junto à única pessoa que demonstra afeto por ele, deixando Valeria para trás na primeira oportunidade que aparece. Valeria que é interpretada por uma Sandahl Bergman que, mesmo sem possuir grande talento, tem a melhor atuação de “Conan”, conferindo alguma profundidade a sua personagem. Já o unidimensional Thulsa Doom mais parece uma caricatura, mas garante bons momentos graças à imponência de James Earl Jones. Surgindo com uma peruca ridícula que deve envergonhá-lo até hoje, Jones aposta em seu olhar penetrante para criar um vilão com forte presença, que carrega ainda um simbolismo mais do que apropriado ao utilizar serpentes em seu templo do pecado.

Mulherengo, briguento e beberrãoValeriaVilão com forte presençaRealçando esta aura demoníaca através dos tons em vermelho na chegada dos heróis ao impressionante interior do templo de Thulsa Doom (design de produção de Ron Cobb), a fotografia de Duke Callaghan não tem uma identidade, criando um visual que oscila bastante durante a narrativa, passando pelo branco da neve no início, os tons áridos do segundo ato e pelo visual multicolorido do confronto dentro do templo. Aliás, os confrontos também surgem confusos graças a constante troca de planos de Milius e seu montador C. Timothy O’Meara, que ainda pecam ao criar uma batalha pouco vibrante quando Thulsa Doom parte para resgatar a princesa interpretada por Valérie Quennessen, já próximo ao ato final. E nem mesmo a trilha sonora quase incessante de Basil Poledouris serve para conferir mais dinamismo às batalhas, ainda que emule o som de uma marcha na primeira delas. No fim das contas, se a trilha sonora não tem grande destaque, também não compromete.

Interior do templo de Thulsa DoomBranco da neveVisual multicoloridoAo menos, Milius acertadamente abusa da violência gráfica para conferir maior realismo a narrativa, o que é bem coerente com aquele universo povoado por personagens selvagens. Neste sentido, “Conan – O Bárbaro” obtém sucesso, ainda que seu visual tenha sido sabotado ao longo dos anos e hoje soe extremamente datado (de tão vermelho, o sangue mais parece suco). Não são poucos os momentos em que Milius faz questão de mostrar os resultados violentos das ações dos personagens, começando pelo ataque aos pais de Conan, passando por suas lutas na arena e terminando nos confrontos com os seguidores de Thulsa Doom dentro do templo e ao ar livre, além é claro da sumária execução do vilão (com direito a cabeça rolando escadaria abaixo de uma maneira que nem mesmo Mel Gibson botaria defeito).

Ataque aos pais de ConanConfrontos com os seguidores de Thulsa DoomSumária execuçãoPor vezes bem humorado, “Conan – O Bárbaro” traz ainda diversos personagens estranhos, como a feiticeira (Cassandra Gava) que vive uma noite de sexo com o protagonista numa cabana e desaparece em seguida, que serve também para inserir pela primeira vez os elementos místicos tão presentes na narrativa. Só que tanto este momento como a cena em que espíritos surgem para levar Conan e provocam a ira de Valeria servem para atestar o quanto os efeitos visuais hoje soam ultrapassados, evidenciando os problemas orçamentários da produção. Da mesma forma, ainda que as roupas feitas de restos de animais sejam coerentes com a natureza selvagem dos personagens (figurinos de John Bloomfield), elas também não envelheceram bem. E é justamente este aspecto que enfraquece um pouco um longa que depende do impacto visual. Repare, por exemplo, como a serpente gigante soa artificial com seus movimentos falsos ou como a maquiagem também não convence quando Conan é preso numa árvore e é ferido por pássaros. Ao menos, estes deslizes conferem uma saudosista aura trash ao filme.

FeiticeiraEspíritos surgem para levar ConanRoupas feitas de restos de animaisAinda assim, o diretor consegue criar bons momentos, como a tensa sequência do roubo do olho da serpente ou a triste morte de Valeria, que culmina no belo plano do altar com o corpo dela em chamas. E finalmente, Milius aposta na câmera lenta e na força das imagens para transmitir emoção no simbólico final, criando planos interessantes como àquele que mostra as pessoas jogando as tochas na água e abandonando a seita de Thulsa Doom.

Roubo do olho da serpenteAltar com o corpo dela em chamasTochas na águaApostando na bem sucedida mistura de violência, misticismo e humor negro, “Conan – O Bárbaro” funciona como uma aventura calcada no desejo de vingança de seu protagonista, dando vida a um cruel universo fantástico de maneira leve e divertida, ainda que visualmente o resultado tenha sido muito comprometido com o passar do tempo. Entretanto, se o aspecto visual hoje deixa a desejar, sua narrativa continua envolvente. E isto, evolução tecnológica alguma poderá mudar.

Conan - O Bárbaro foto 2Texto publicado em 07 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

O EXORCISTA (1973)

(The Exorcist) 

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #14

Dirigido por William Friedkin.

Elenco: Ellen Burstyn, Linda Blair, Jason Miller, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, William O’Malley, Barton Heyman, Peter Masterson, Gina Petrushka, Robert Symonds, Thomas Birmingham e Mercedes McCambridge (voz).

Roteiro: William Peter Blatty, baseado em livro de William Peter Blatty.

Produção: William Peter Blatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Para algumas pessoas – como eu – poucos temas são capazes de provocar medo como os relacionados aos espíritos. Por isso mesmo, confesso que dos filmes recentes de suspense que eu assisti, os que mais me agradaram tinham este tema em comum (“O Chamado” e “Os Outros”). Em “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin, este tema foi explorado com absoluta competência, provocando um frio na espinha da maioria dos espectadores e criando um festival de imagens que são capazes de atormentar a mais incrédula das pessoas.

A atriz Chris MacNeil (Ellen Burstyn) começa a perceber gradativamente que sua pequena filha Regan MacNeil (Linda Blair) está tendo um comportamento bastante estranho. Após frustradas tentativas de curar a garota procurando a ajuda de médicos, psiquiatras e até mesmo através da hipnose, ela se rende à ajuda do padre Karras (Jason Miller), que chega à conclusão de que a menina está possuída pelo demônio e precisa de um ritual que já não é mais utilizado nos dias de hoje, chamado exorcismo.

Friedkin inicia o filme mostrando o cotidiano do experiente Padre Merrin (Max Von Sydow), que está fazendo escavações no Iraque. Durante estas escavações, Merrin acaba se encontrando com uma estátua macabra no alto de um monte. O plano final desta seqüência no Iraque, com o pôr-do-sol avermelhado, remete ao inferno. Em seguida, o diretor nos ambienta profundamente no relacionamento entre Chris e Regan, mostrando imagens das duas brincando e conversando na cama (neste plano vemos o rosto de Regan em close, o que dá a exata noção do contraste quando ela está possuída). Desta forma, ele cria empatia entre o espectador e aquela família, o que aumenta ainda mais o drama quando Regan começa a dar sinais de mudança em seu comportamento. O diretor também é inteligente ao nos situar nos problemas da família, como no plano em que Chris tenta falar com o pai de Regan e discute com a operadora de telefone. A câmera lentamente se afasta até mostrar Regan ouvindo a conversa escondida. A falta do pai seria utilizada como justificativa posteriormente para a mudança de comportamento da garota. Além disso, lentamente Friedkin vai introduzindo elementos que nos mostram sinais do que aconteceria depois, como a cama balançando freneticamente, a reação de Regan nos exames e os palavrões que a garota começa a falar. Finalmente, somos apresentados ao sofrimento do Padre Karras ao ver sua mãe doente, que também terá reflexo no restante da narrativa.

Vale dizer que todo este cuidadoso primeiro ato é mérito também do excelente roteiro de William Peter Blatty (baseado em livro do próprio Blatty). O roteiro desenvolve muito bem os personagens e seus dramas familiares, o que colabora com o nosso envolvimento no filme. É também corajoso ao trabalhar muito bem questões delicadas como a vida pessoal dos padres, normalmente vistos como pessoas acima do bem e do mal, mas que são seres humanos normais, que têm defeitos, medos e enfrentam problemas pessoais como qualquer um. Observe, por exemplo, este trecho de uma das conversas entre Chris e Karras: (Chris: “Padres sabem guardar segredo?” / Karras: “Depende.” / Chris: “Do que?” / Karras: “Do Padre.”). Não é por ser padre que uma pessoa é ou não é confiável, isto depende exclusivamente da pessoa. Blatty conseguiu ainda ilustrar de forma correta o conflito comum entre a medicina e a religião, através do ceticismo dos médicos no início do tratamento da garota. Finalmente, o filme jamais abre espaço para o humor, o que soaria falso e deslocado, a não ser pela repetição da piada sobre o filme que está passando no cinema no final do filme, já quando o espectador está mais relaxado.

Também colabora sensivelmente para o sucesso do longa o talentoso elenco dirigido por Friedkin. Ellen Burstyn e Linda Blair mostram uma boa química no início, o que serve até como comparação para a incrível transformação que ambas sofrerão durante o restante do filme. Regan, sempre sorridente, e Chris, sempre carinhosa, vão lentamente se transformando em pessoas completamente diferentes por razões distintas. Burstyn é extremamente competente, por exemplo, ao demonstrar sua comoção com a notícia da morte de Burke, chorando escandalosamente e com as mãos trêmulas. Seu desespero para tentar curar a filha é tocante, apelando para toda e qualquer ajuda vinda dos médicos, psiquiatras ou até mesmo de um especialista em hipnose. Observe sua reação ao ouvir a sugestão de um médico para procurar o exorcismo (e aqui ele dá uma explicação técnica para o sucesso do ritual, mostrando novamente que a medicina não tolera a explicação religiosa). Ela olha assustada para todos na mesa, mudando o foco do olhar da direita para a esquerda e vice-versa, tentando entender o que era aquilo. Finalmente, Burstyn completa sua transformação na cena em que expõe todo seu sofrimento ao gritar para o padre Karras que ela reconheceria sua filha de qualquer jeito (“Aquela coisa lá em cima não é minha filha!”). A atriz é muito competente na transmissão da dor e do desespero de Chris. Da mesma forma, Linda Blair também merece destaque pela excelente performance como Regan MacNeil. Inicialmente meiga e apegada à mãe, a garota lentamente se transforma num verdadeiro monstro, e o desempenho de Blair cresce consideravelmente quando está possuída. Aterrorizante, o resultado final de sua transformação é mérito também da excelente maquiagem e dos sensacionais efeitos sonoros, como podemos observar na primeira vez que a garota fala com a voz alterada. Jason Miller consegue transmitir muito bem o drama vivido pelo Padre Karras, que tem uma vida extremamente complicada. Localizada em um bairro pobre (as ruas pichadas e cheias de lixo mostram o bom trabalho de Direção de Arte), a velha e desorganizada casa reflete seu estado psicológico, seriamente afetado pela doença de sua mãe. A relação com a mãe, aliás, é algo muito importante para Karras. Talvez pelo fato de não ser casado, ela se tornou sua única companheira. Um dos seus bons momentos acontece quando Chris fala sobre exorcismo e ele pergunta espantado: “Como é?”. Completando o elenco principal, Max Von Sydow oferece uma ótima atuação como o experiente Padre Merrin, que encontra o seu destino no quarto de Regan e reforça o primeiro ato do filme, dando um peso maior à forte cena do exorcismo. Sydow é extremamente competente na criação do clima perfeito para o ritual, transmitindo ao espectador o perigo que aquilo representa, por exemplo, quando está rezando no banheiro.

Além do talentoso elenco, “O Exorcista” conta ainda com um apurado trabalho técnico que aumenta ainda mais o clima de suspense. Observe como a fotografia (Direção de Owen Roizman e Billy Williams) começa a escurecer na medida em que Regan começa a dar sinais de estar possuída. Com o passar do tempo, a fotografia se torna ainda mais sombria, ajudada também pela paleta granulada que torna a imagem menos nítida. Friedkin aumenta a sensação de horror ao jogar imagens demoníacas que piscam rapidamente na tela. O ótimo trabalho de som também colabora para criar o clima perfeito, como na cena em que podemos ouvir os barulhos no sótão da casa de Regan. O som ajuda também nos sustos causados na platéia, como na cena em que Chris investiga a origem dos barulhos na casa, além de funcionar perfeitamente nas cenas em que Regan está possuída.

Ao contrário de filmes como “Tubarão”, onde o suspense é muito mais psicológico, “O Exorcista” aposta no visual para causar medo no espectador. De maneiras diferentes, os dois filmes conseguem sucesso. Quando Regan desce as escadas no meio de uma festa, diz uma frase macabra e faz xixi no chão, o espectador percebe o nível das assustadoras cenas que vai presenciar. E a coleção de cenas aterrorizantes é enorme. Regan vira a cabeça completamente para trás, desce a escada de costas com as mãos e os pés apoiados nos degraus (na famosa cena conhecida como a “menina-aranha”), agride sua própria genital com um crucifixo dizendo palavras obscenas, levita sobre a cama e move objetos para tentar agredir quem entra em seu quarto, entre outras cenas impressionantes.

Assustador e repleto de imagens chocantes, “O Exorcista” faz ainda um excelente estudo sobre a perda da fé. Observamos pessoas completamente diferentes e que enxergam a fé de formas ainda mais distantes, alterarem suas vidas após serem atingidos por tragédias particulares. O Padre Karras, completamente modificado após a perda da mãe, enxerga no drama de Chris a possibilidade de se reencontrar com sua fé. Chris, que segundo ela mesma não tem religião, se entrega à fé para tentar salvar sua pequena filha. E o Padre Merrin, mesmo com toda sua experiência na vida religiosa, tem sua fé realmente testada dentro do quarto de Regan.

Extremamente visual sem se descuidar de seu conteúdo, “O Exorcista” é um filme aterrorizante, com imagens fortes e boas atuações. Seu roteiro coeso aborda a complicada possessão da garota de forma lenta, elevando a tensão a níveis extremos de maneira inteligente. Acredite ou não em espíritos ou demônios e, independente de qual seja a sua fé, o espectador jamais sai indiferente ao filme. Goste ou não, é impossível não respeitar a qualidade do trabalho realizado e o resultado alcançado.

Texto publicado em 15 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira