CONAN – O BÁRBARO (1982)

(Conan the Barbarian)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #158

Dirigido por John Milius.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow, Gerry Lopez, Sandahl Bergman, Mako, Ben Davidson, Cassandra Gava, Valérie Quennessen e William Smith.

Roteiro: John Milius e Oliver Stone, baseado em história de Robert E. Howard.

Produção: Raffaella De Laurentiis e Buzz Feitshans.

Conan - O Bárbaro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado no bem sucedido personagem criado por Robert E. Howard em 1932 (que se tornaria um herói dos quadrinhos da Marvel nos anos 70), “Conan – O Bárbaro” ficou conhecido por revelar ao mundo um dos grandes astros do cinema de ação daquela década: Arnold Schwarzenegger. Apostando na violência gráfica e na natureza mística de sua história, o longa dirigido por John Milius alcançou grande sucesso, passando a fazer parte da memória afetiva de muitos jovens daquela geração. Entretanto, o tempo foi cruel com o filme que, revisto hoje, parece bastante datado, ainda que consiga sobreviver como uma aventura minimamente interessante.

Adaptado pelo próprio Milius ao lado de Oliver Stone, o roteiro baseado na história de Howard nos apresenta Conan (Arnold Schwarzenegger) ainda jovem, quando este acompanha sua aldeia ser atacada por um terrível feiticeiro chamado Thulsa Doom (James Earl Jones) que, impiedoso, assassina os pais do garoto na frente dele. Preso e forçado ao trabalho escravo, Conan acaba desenvolvendo sua força física e, após conquistar a liberdade, parte em busca de vingança, cruzando pelo caminho com os ladrões Subotai (Gerry Lopez) e Valeria (Sandahl Bergman). Juntos, eles terão ainda que resgatar a filha do Rei Osric (o sempre ótimo Max von Sydow), que, atraída pela filosofia de Doom, acabou juntando-se aos seguidores dele.

Através de uma estranha narração que só faz sentido na metade do filme quando o feiticeiro interpretado por Mako entra em cena, somos apresentados ao violento passado do protagonista ainda nos minutos iniciais de “Conan – O Bárbaro”, evidenciando desde então que seu desejo de vingança será o fio condutor da narrativa. Em seguida, um belo plano geral nos leva ao local onde Conan passará a infância fazendo trabalhos forçados e, durante este trabalho, uma elipse interessante avança muitos anos na narrativa e nos traz Conan já adulto e na pele de Schwarzenegger. Enquanto acompanhamos sua consolidação como guerreiro através de sangrentas lutas numa arena, presenciamos também a formação de sua personalidade bruta e selvagem, tão essencial para o sucesso do personagem.

Trabalhos forçadosElipse interessanteConan já adultoEstreando como protagonista no cinema num papel talhado para ele, Schwarzenegger fala muito pouco e aposta na força física para ter sucesso – algo que o diretor explora muito bem em diversos planos que realçam a forma física do ator. Aliás, é impressionante como o corpo humano é explorado e valorizado em “Conan – O Bárbaro”, com planos que buscam realçar a força dos homens e a sensualidade das mulheres, que, aliás, surgem em profusão durante uma narrativa que poderia facilmente pender para uma abordagem machista devido ao seu universo calcado na força, numa transposição fiel ao estilo violento e lascivo dos quadrinhos.

Forma física do atorCorpo humano é exploradoSensualidade das mulheresVoltando ao protagonista, Conan é a antítese do herói convencional. Mulherengo, briguento e beberrão, o personagem poderia facilmente se afastar do espectador, mas sua introdução trágica e o inegável carisma do ator colaboram para aproximá-lo da plateia. Movido pelo desejo de vingança, Conan sequer consegue manter-se junto à única pessoa que demonstra afeto por ele, deixando Valeria para trás na primeira oportunidade que aparece. Valeria que é interpretada por uma Sandahl Bergman que, mesmo sem possuir grande talento, tem a melhor atuação de “Conan”, conferindo alguma profundidade a sua personagem. Já o unidimensional Thulsa Doom mais parece uma caricatura, mas garante bons momentos graças à imponência de James Earl Jones. Surgindo com uma peruca ridícula que deve envergonhá-lo até hoje, Jones aposta em seu olhar penetrante para criar um vilão com forte presença, que carrega ainda um simbolismo mais do que apropriado ao utilizar serpentes em seu templo do pecado.

Mulherengo, briguento e beberrãoValeriaVilão com forte presençaRealçando esta aura demoníaca através dos tons em vermelho na chegada dos heróis ao impressionante interior do templo de Thulsa Doom (design de produção de Ron Cobb), a fotografia de Duke Callaghan não tem uma identidade, criando um visual que oscila bastante durante a narrativa, passando pelo branco da neve no início, os tons áridos do segundo ato e pelo visual multicolorido do confronto dentro do templo. Aliás, os confrontos também surgem confusos graças a constante troca de planos de Milius e seu montador C. Timothy O’Meara, que ainda pecam ao criar uma batalha pouco vibrante quando Thulsa Doom parte para resgatar a princesa interpretada por Valérie Quennessen, já próximo ao ato final. E nem mesmo a trilha sonora quase incessante de Basil Poledouris serve para conferir mais dinamismo às batalhas, ainda que emule o som de uma marcha na primeira delas. No fim das contas, se a trilha sonora não tem grande destaque, também não compromete.

Interior do templo de Thulsa DoomBranco da neveVisual multicoloridoAo menos, Milius acertadamente abusa da violência gráfica para conferir maior realismo a narrativa, o que é bem coerente com aquele universo povoado por personagens selvagens. Neste sentido, “Conan – O Bárbaro” obtém sucesso, ainda que seu visual tenha sido sabotado ao longo dos anos e hoje soe extremamente datado (de tão vermelho, o sangue mais parece suco). Não são poucos os momentos em que Milius faz questão de mostrar os resultados violentos das ações dos personagens, começando pelo ataque aos pais de Conan, passando por suas lutas na arena e terminando nos confrontos com os seguidores de Thulsa Doom dentro do templo e ao ar livre, além é claro da sumária execução do vilão (com direito a cabeça rolando escadaria abaixo de uma maneira que nem mesmo Mel Gibson botaria defeito).

Ataque aos pais de ConanConfrontos com os seguidores de Thulsa DoomSumária execuçãoPor vezes bem humorado, “Conan – O Bárbaro” traz ainda diversos personagens estranhos, como a feiticeira (Cassandra Gava) que vive uma noite de sexo com o protagonista numa cabana e desaparece em seguida, que serve também para inserir pela primeira vez os elementos místicos tão presentes na narrativa. Só que tanto este momento como a cena em que espíritos surgem para levar Conan e provocam a ira de Valeria servem para atestar o quanto os efeitos visuais hoje soam ultrapassados, evidenciando os problemas orçamentários da produção. Da mesma forma, ainda que as roupas feitas de restos de animais sejam coerentes com a natureza selvagem dos personagens (figurinos de John Bloomfield), elas também não envelheceram bem. E é justamente este aspecto que enfraquece um pouco um longa que depende do impacto visual. Repare, por exemplo, como a serpente gigante soa artificial com seus movimentos falsos ou como a maquiagem também não convence quando Conan é preso numa árvore e é ferido por pássaros. Ao menos, estes deslizes conferem uma saudosista aura trash ao filme.

FeiticeiraEspíritos surgem para levar ConanRoupas feitas de restos de animaisAinda assim, o diretor consegue criar bons momentos, como a tensa sequência do roubo do olho da serpente ou a triste morte de Valeria, que culmina no belo plano do altar com o corpo dela em chamas. E finalmente, Milius aposta na câmera lenta e na força das imagens para transmitir emoção no simbólico final, criando planos interessantes como àquele que mostra as pessoas jogando as tochas na água e abandonando a seita de Thulsa Doom.

Roubo do olho da serpenteAltar com o corpo dela em chamasTochas na águaApostando na bem sucedida mistura de violência, misticismo e humor negro, “Conan – O Bárbaro” funciona como uma aventura calcada no desejo de vingança de seu protagonista, dando vida a um cruel universo fantástico de maneira leve e divertida, ainda que visualmente o resultado tenha sido muito comprometido com o passar do tempo. Entretanto, se o aspecto visual hoje deixa a desejar, sua narrativa continua envolvente. E isto, evolução tecnológica alguma poderá mudar.

Conan - O Bárbaro foto 2Texto publicado em 07 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO 2: O JULGAMENTO FINAL (1991)

(Terminator 2: Judgement Day)

 

Videoteca do Beto #78

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Earl Boen, Joe Morton, S. Epatha Merkeson, Castulo Guerra, Danny Cooksey, Jenette Goldstein, Xander Berkeley, Ken Gibbel e Leslie Hamilton Gearren.

Roteiro: James Cameron e William Wisher Jr.

Produção: James Cameron.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Normalmente, seqüências de filmes de sucesso apresentam narrativas inferiores aos antecessores, dando a sensação de que foram feitas somente para lucrar nas bilheterias, aproveitando o embalo do sucesso anterior. Obviamente, existem exceções, como “De Volta para o Futuro 2” ou “O Poderoso Chefão – Parte II”, considerados filmes superiores aos antecessores por muita gente – o que eu não concordo. Para mim, é justamente na franquia “O Exterminador do Futuro” que esta situação acontece. Revertendo nossas expectativas iniciais e apresentando cenas ainda mais empolgantes de ação, baseadas num roteiro inteligente e bastante criativo, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como o melhor filme da série, um verdadeiro marco do cinema de ação dos anos 90.

Sarah Connor (Linda Hamilton) está internada num hospital psiquiátrico após ser considerada louca por falar da vinda de um exterminador do futuro. Seu filho, John Connor (Edward Furlong), é criado por pais adotivos e, segundo ela, será o responsável pela salvação da humanidade num futuro dominado pelas máquinas. Para a surpresa de todos, as palavras de Sarah se mostram verdadeiras quando os andróides T-800 (Arnold Schwarzenegger) e T-1000 (Robert Patrick) chegam do futuro e partem em busca do jovem John com intenções distintas.

Escrito por James Cameron e William Wisher Jr., “O Exterminador do Futuro 2” suga o espectador pra dentro da narrativa logo em sua introdução, relembrando fatos acontecidos no passado e nos situando na história. Repleto de frases interessantes, como quando T-800 vê duas crianças brincando de trocar tiros e diz que “É da natureza de vocês se destruírem” ou quando Sarah diz para Miles (Joe Morton) que “homens como você fizeram a bomba de hidrogênio”, a principal qualidade do roteiro reside em inverter completamente nossas expectativas ao apresentar o vilão do filme anterior como herói neste segundo filme, algo, aliás, trabalhado cuidadosamente por Cameron para provocar surpresa no espectador. O roteiro ainda desenvolve muito bem os complexos personagens, conseguindo criar uma relação crível entre o andróide e o garoto, além de evidenciar o peso que Sarah carrega por saber da importância que ela e o filho têm na tentativa de evitar um futuro sombrio, dominado pelas máquinas. A frieza daquele mundo visto no primeiro filme, aliás, é mantida pela fotografia azulada de Adam Greenberg nesta seqüência. Por outro lado, Greenberg utiliza cores mais quentes no presente e até mesmo um visual árido no deserto mexicano, que ilustra um futuro tão incerto quanto o daquelas pessoas perdidas em vastos terrenos sem vida. O futuro incerto, aliás, é o tema da franquia, que garante (pelo menos até este segundo filme) que nós escrevemos o próprio destino. A fotografia azulada volta no terceiro ato, reforçando o embate entre os frios exterminadores, mas dá lugar a um visual mais infernal no desfecho da luta entre ambos, que confere ares apocalípticos ao confronto.

Destaca-se ainda o excepcional trabalho de som e efeitos sonoros, perceptível nas diversas e sensacionais cenas de ação, além dos inovadores efeitos visuais do longa, desenvolvidos por diversos estúdios diferentes (Industrial Light & Magic, Pacific Data Images, Fantasy II Film Effects, 4-Ward Productions e Stan Winston Studio) e que garantem um realismo ímpar para a época. Novamente, Cameron soube utilizar a tecnologia a favor da narrativa, evitando cair na armadilha de tornar-se refém dos efeitos visuais, algo tão comum atualmente. Pra completar o excelente trabalho técnico, a trilha sonora de Brad Fiedel é ótima, intensa e com variações bastante sombrias. Vale notar ainda como a energia da música tema “You could be mine”, do Guns n’ Roses (na época no auge da carreira), representa bem a rebeldia de John Connor, um jovem claramente perturbado por viver longe dos pais biológicos. Não por acaso, os primeiros minutos de John em cena apresentam o rapaz utilizando um cartão roubado e um programa de computador para sacar dinheiro, falando mal de sua mãe e andando de moto com seu amigo pelas ruas da cidade, reforçando a imagem de “bad boy”. Não é fácil para um jovem ver sua mãe internada num hospício e ser criado por pais adotivos que não demonstram amor por ele.

Interpretado com carisma pelo jovem Edward Furlong, John Connor se esconde sob esta capa de rebeldia, mas claramente se sente desprotegido diante de um mundo hostil e cruel, algo agravado pela conturbada relação com os pais adotivos e pela “loucura” de sua mãe biológica. Até por isso, é compreensível que o jovem encontre no exterminador a figura paterna que tanto lhe faz falta, como notamos na bela cena em que eles brincam no deserto mexicano (reforçada pela desnecessária narração de Sarah). Felizmente, Furlong estabelece boa química com Schwarzenegger, o que é essencial para o sucesso da narrativa. Essencial também é o excelente desempenho de Linda Hamilton, novamente muito bem como Sarah Connor, uma mulher amargurada pelo peso do passado e pela responsabilidade que carrega nos ombros. A atriz se destaca especialmente na excepcional cena da conversa com o psiquiatra que aparece num vídeo gravado, onde transmite toda a amargura e revolta da personagem. Já Robert Patrick cria um vilão aterrorizante através de sua face desprovida de sentimentos e emoções, dando a sensação de que nada poderá deter o seu T-1000. Obstinado e sempre buscando cumprir sua missão, o vilão é a personificação do pior dos pesadelos, alguém que jamais dorme ou descansa, que não sente dor e que se recompõe em questão de segundos, graças ao metal líquido que constitui sua matéria-prima. Ao contrário dele, o exterminador vivido por Arnold Schwarzenegger desenvolve sentimentos ao longo da narrativa, estabelecendo uma interessante relação com John – ele chega a criar um código de ética próprio por causa do garoto, indo diretamente contra sua natureza exterminadora (“Ele viverá”, diz, após atirar nas pernas de um segurança, evitando matá-lo). Aliás, como afirmei na crítica do primeiro filme, o papel do exterminador é perfeito para Schwarzenegger, que encarna muito bem o homem-máquina com seu jeito durão e de poucas palavras, saindo-se bem também nas constantes piadinhas que solta durante a projeção.

Demonstrando completo domínio da narrativa e muita energia na condução das cenas de ação, James Cameron conduz o longa com segurança e em bom ritmo, graças também à montagem de Conrad Buff IV, Dody Dorn, Mark Goldblatt e Richard A. Harris. Observe, por exemplo, como o diretor cria o clima ideal para o encontro entre os exterminadores, sem jamais deixar transparecer as intenções de cada um na busca por John Connor. Momentos antes do primeiro encontro, quando o dono do bar ameaça o exterminador, o plano do pedal da moto descendo indica ao espectador que aquela atitude foi equivocada e custará caro, reforçando a imagem pré-concebida de que T-800 é cruel, algo ilustrado também pela roupa preta e pelos óculos escuros do andróide (figurinos de Marlene Stewart), que ajudam a criar a falsa expectativa de que ele ainda é o vilão. Por isso, no sensacional primeiro encontro entre T-800, T-1000 e John Connor, a câmera lenta de Cameron, além de captar com precisão cada reação, faz o espectador ficar com o coração na boca até o momento em que nossas expectativas são invertidas e T-800 se revela o “protetor” de Connor, provocando o choque na platéia – repare também a referência à banda responsável pela música tema do filme, quando Cameron foca a arma e as rosas no mesmo plano.

Felizmente, as ótimas cenas de ação de “O Exterminador do Futuro 2” não são a razão de existir do longa, servindo apenas como complemento para uma narrativa bem desenvolvida. E entre tantas cenas marcantes, destaca-se a perseguição do T-1000 num caminhão enquanto John foge numa moto e o exterminador persegue ambos em outra moto, onde a alternância entre os planos confere uma dinâmica interessante à cena, e a seqüência da fuga da Cybernet, que também é carregada de adrenalina. Já a tensa seqüência dentro do hospital psiquiátrico é construída lentamente, nos levando até o magnífico reencontro entre T-800 e Sarah, também conduzido em câmera lenta e seguido pela excepcional fuga do trio num carro em marcha ré. Observe como o som diegético trabalha a favor da cena, colaborando na criação do suspense, intensificado pelas realistas mortes durante a fuga de Sarah, em outro momento inspirado de Hamilton, que demonstra força também nas cenas mais agressivas. E finalmente, o esperado confronto entre os exterminadores fecha com chave de ouro as grandes cenas de ação, quando o tiro certeiro de Sarah encerra a passagem de T-1000 pelo passado – e a triste despedida de T-800, com o polegar levantado para John, chega até mesmo a emocionar, por causa da bela relação que eles desenvolveram.

Misturando aspectos de filmes de terror e uma inteligente premissa de ficção-científica, “O Exterminador do Futuro 2” se estabelece como um filme superior ao seu antecessor, utilizando suas empolgantes cenas de ação como complemento para uma narrativa inteligente, que desenvolve personagens complexos e cativantes e deixa uma interessante mensagem. Se nós somos os únicos responsáveis pelo nosso destino, Cameron assegurou o futuro dele no cinema, acertando novamente na escolha e entregando outro filme maravilhoso.

Texto publicado em 19 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO (1984)

(Terminator)

 

Videoteca do Beto #32

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Rick Rossovich, Bess Motta, Earl Boen, Shawn Schepps, Franco Columbu e Bill Paxton.

Roteiro: James Cameron e Gale Anne Hurd.

Produção: Gale Anne Hurd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “O Exterminador do Futuro”, filme que alavancou a carreira do diretor James Cameron, é de uma inteligência e criatividade assombrosa, estabelecendo o filme como uma ficção científica de alta qualidade, recheada com elementos de suspense e terror, além é claro, de contar com maravilhosas seqüências de ação. Além disso, conta com um vilão absolutamente assustador e aparentemente indestrutível. E o que é melhor, tudo isto trabalha a favor de um roteiro inteligente, que desenvolve personagens complexos e fascinantes, interpretados com competência por todo o elenco.

E que premissa inteligente e criativa seria esta? Num futuro próximo, os humanos entraram em guerra com as máquinas, e sua aniquilação total só não foi consumada graças à liderança de um homem. É então que as máquinas decidem enviar ao passado um andróide (Arnold Schwarzenegger) com a única e exclusiva missão de matar a mãe deste homem, chamada Sarah Connor (Linda Hamilton), evitando assim o seu nascimento. Entretanto, os humanos também conseguem enviar ao passado um representante, chamado Kyle Reese (Michael Biehn), que terá a missão de proteger esta mulher e garantir o futuro da humanidade. É ou não é de uma criatividade extrema?

Mas uma idéia criativa não basta para garantir a qualidade de um filme. Felizmente, o roteiro seco e direto do próprio James Cameron e de Gale Anne Hurd desenvolve a narrativa com competência e sem rodeios, explorando corretamente os personagens e envolvendo completamente o espectador na trama. A introdução dos três personagens que conduzem a narrativa é perfeita. Primeiro testemunhamos o aparecimento do andróide, que trata de nos apresentar em poucos minutos o seu jeito nada sutil, quando se depara com um grupo de jovens. Depois acompanhamos o surgimento de Kyle Reese, que também aparece do nada para, de uma forma menos agressiva (apesar de roubar um mendigo e chamar acidentalmente a atenção da policia), conseguir suas roupas e partir para sua missão. E finalmente, Sarah Connor é apresentada como uma mulher simples, que trabalha como garçonete e não tem a menor noção do que sua vida se tornaria deste dia em diante. O cenário para uma angustiante caçada está pronto.

James Cameron explora o maravilhoso roteiro de forma bastante segura, utilizando movimentos de câmera e enquadramentos que funcionam perfeitamente. Observe como na seqüência do primeiro ataque do exterminador contra Sarah, dentro da danceteria Technoir, a câmera lenta de James Cameron ajuda a atenuar o suspense, além de captar com precisão cada detalhe da reação dela e de Reese. Além disso, o diretor mostra todo seu talento nas sensacionais seqüências de ação, garantindo adrenalina e tensão na medida certa. Cameron mantém a câmera em movimento, utilizando muitos planos, mas sem exageros, evitando que as cenas sejam confusas ou enjoativas. Para isso, conta com a excelente montagem de Mark Goldblatt, que alterna entre os planos de maneira empolgante sem exceder o número ideal de cortes, o que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Outro exemplo do bom trabalho de Goldblatt é a elegante transição quando Reese está pensando e olhando para um trator trabalhando. Através do próprio trator, somos transportados para o futuro, e no pesadelo de Reese, voltamos para o presente. O inteligente roteiro aproveita este pensamento para nos situar em sua missão. Ainda na parte técnica, a fotografia azulada (Direção de Adam Greenberg) reflete a frieza do exterminador, que não tem sentimentos, somente um objetivo a cumprir. Além disso, o fato da maioria das cenas se passarem à noite ajuda a aumentar a carga de suspense. A trilha sonora de Brad Friedel é envolvente e coerente com o ritmo do filme. Nas perseguições é cheia de batidas rápidas e repetitivas, conferindo um ritmo ainda mais alucinado à cena (em certos momentos lembra trilhas típicas de videogames). Pra completar, o som e os efeitos sonoros são espetaculares, captando desde os pequenos detalhes, como o barulho mecânico do movimento dos olhos do exterminador, até os atordoantes tiros das potentes armas utilizadas por Reese e pelo andróide. Finalmente, os efeitos visuais, que hoje podem parecer ultrapassados, na época eram bastante realistas. E Cameron sabe muito bem utilizá-los a favor do filme, e não transformar o filme em refém deles.

E então chegamos aos personagens de “O Exterminador do Futuro”. O andróide T-800 (o papel perfeito para Arnold Schwarzenegger) se revela um vilão aterrorizante, que parece ser indestrutível e, pior que isso, não desiste jamais de sua missão. Pragmático e direto, não para e nunca descansa. Sua missão é sua razão de existir, e ele não vai parar até alcançá-la. Mal encarado e com poucas falas, suas reações intuitivas e diretas – como no momento em que expulsa um homem de um caminhão – e seus movimentos robóticos de pescoço e cabeça – como quando entra na delegacia de policia – mostram que Arnold acertou em cheio neste papel, interpretando de forma competente e marcante. Interessante notar também o inventivo modo como ele escolhe as respostas que dará através de seu campo visual, reafirmando a criatividade do longa. A agressividade do Exterminador é demonstrada através de atitudes simples, como no plano do caminhão de brinquedo que é esmagado pela chegada de seu carro. Ele simplesmente quer cumprir a missão para qual foi programado. É um vilão temível (o olho vermelho é assustador), pois nada parece ser capaz de detê-lo. Afinal de contas, como não temer alguém que não é parado por balas, que não descansa e que invade sozinho um distrito policial (onde teoricamente estaríamos mais seguros)?

Por outro lado, Sarah Connor se mostra inicialmente uma mulher simples, que trabalha e sai pra namorar como outra qualquer. Um dos raros momentos cômicos do filme acontece nesta fase, quando o namorado de Ginger (Bess Motta) fala com Sarah no telefone sem saber. Vulnerável, a moça cria empatia com o espectador facilmente, o que aumenta o drama quando ela passa a ser caçada. Porém, a transformação de Sarah é impressionante. Após superar o susto inicial quando percebe que está sendo perseguida, ela se transforma numa mulher forte e corajosa, e é interessante notar o paralelo entre Sarah Connor e Maria, mãe de Jesus, já que ambas eram pessoas humildes e carregavam no ventre homens responsáveis pela “salvação” da humanidade. O desespero de Sarah ao conferir a lista telefônica e sair do bar olhando para todos os lados, como se qualquer pessoa na rua fosse suspeita, comprova a qualidade da interpretação de Linda Hamilton, que consegue transmitir a angústia da personagem através do olhar. Observe também como ela reage de forma convincente à morte da amiga Ginger, com um choro compulsivo na delegacia. Michael Biehn convence como Kyle Reese, conseguindo expor todo o drama de seu personagem, que viaja no tempo para salvar a humanidade e, além disso, encontrar a mulher por quem se apaixonou no futuro. Ironicamente, e talvez este pensamento já existisse em seu subconsciente, ele será o pai de John Connor. E foi exatamente o amor e, nas palavras dele, “a oportunidade de conhecer o mito”, que fizeram Reese voltar no tempo. Observe a convincente explicação de Reese para Sarah dentro do carro, num diálogo esclarecedor, que expõe toda a originalidade do excelente roteiro. E como era de se esperar, a compreensível incredulidade e ironia dos policias diante da história contada por Reese acaba por condenar a todos no local, deixando o caminho livre para que o temível Exterminador continue sua caçada.

Quando vemos Sarah e Reese iniciando uma relação sexual, sabemos, mesmo que de forma intuitiva, que ali está sendo gerado o lendário John Connor. Mérito do roteiro que, mesmo sem dizer muito, nos leva a imaginar que isto aconteça, nos compensando depois com a confirmação da gravidez dela no final do filme. A forma com que eles se relacionam, tornando-se amigos e confidentes, além das razões que levam Reese a voltar no tempo, são indícios de que eles teriam uma ligação maior do que imaginavam inicialmente. E a espetacular seqüência final nas máquinas é de um simbolismo tremendo. A máquina, que tanto lutou para destruir o homem, foi destruída por outra máquina. É claro que a inteligência humana teve participação nisto, mas a ironia é evidente ao ver o exterminador ser esmagado por uma máquina industrial. Porém o lado mais obscuro (e fascinante) de “O Exterminador do Futuro” reside no fato de que, mesmo após toda esta batalha, o terrível futuro da humanidade não havia sido evitado. Sarah e Reese garantiram o nascimento de John Connor, mas não o fim da guerra entre humanos e máquinas. Por isso, quando ouve o menino mexicano dizer que uma tempestade se aproxima, ela responde: “Eu sei”.

Pesado, seco, tenso e direto, “O Exterminador do Futuro” é um exemplo raro de ficção científica inteligente que consegue misturar elementos angustiantes de terror com cenas espetaculares de ação, alcançando um resultado final bastante agradável. Dirigido com competência por James Cameron e contando ainda com um elenco afiado, garante ao espectador entretenimento de primeira qualidade. Se o futuro da humanidade será sombrio como no filme eu não sei. Mas o passado nos concedeu obras maravilhosas, e este filme com certeza é uma delas.

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira