ROBOCOP 3 (1993)

(RoboCop 3)

2 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #217

Dirigido por Fred Dekker.

Elenco: Robert John Burke, Nancy Allen, Mario Machado, Remy Ryan Hernandez, Jodi Long, John Posey, Rip Torn, Mako, John Castle, S.D. Nemeth, CCH Pounder, Bradley Whitford e Daniel von Bargen.

Roteiro: Fred Dekker.

Produção: Patrick Crowley.

RoboCop 3[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Mesmo após uma continuação claramente inferior ao longa original, a marca RoboCop ainda seguia em alta e justificava a produção de outra continuação, ao menos em termos comerciais. No entanto, se “RoboCop 2” já evidenciava a falta de criatividade dos envolvidos para explorar o interessante tema de maneira eficaz, “RoboCop 3” abandona de vez qualquer pretensão mais ousada tematicamente e investe na criação de um super-herói, falhando miseravelmente na missão e determinando o fim da linha para o policial do futuro – ao menos até a recente refilmagem comandada pelo brasileiro José Padilha.

Assumindo roteiro e direção, Fred Dekker não consegue explorar com eficiência o futuro distópico e o pano de fundo político e social tão presente na franquia, falhando também quando tenta explorar a questão filosófica envolvendo a existência de um robô com resquícios de humanidade, algo que funcionava tão bem no primeiro filme. Contudo, ainda que as discussões provocadas pela ideia da existência do RoboCop, tanto do ponto de vista filosófico quanto pelo social, garantissem boa parte da qualidade de “RoboCop – O policial do futuro”, o fato é que tanto o primeiro quanto o segundo filme contavam também com boas cenas de ação, mas aqui não podemos enumerar uma cena sequer que seja realmente marcante. Assim, Dekker perde a chance de suavizar ou ao menos maquiar a pobreza temática de seu roteiro através das cenas de ação, o que acaba tendo efeito contrário e ressalta ainda mais os problemas do filme.

A trama é simples. Numa Detroit ainda dominada pelo crime, a PCO em parceria com uma empresa japonesa inicia um projeto de realocação de pessoas que vivem em bairros mais pobres conhecido como “Rehab”, retirando-as de maneira forçada para, na realidade, abrir caminho para a construção da nova e lucrativa metrópole chamada Delta City. Mas durante uma destas operações o grupo é surpreendido pela resistência do RoboCop (Robert John Burke), que passa a lutar ao lado dos menos favorecidos e ser encarado como um fora da lei.

Apostando na inversão de papéis ao colocar o protagonista e o espectador do lado oposto ao da lei, “RoboCop 3” até poderia funcionar não fosse a latente falta de talento de Fred Dekker. Ainda assim, o diretor ao menos consegue inserir elementos interessantes, como ao realçar os óbvios interesses econômicos que norteiam as decisões da empresa que comanda a polícia, numa denúncia que, infelizmente, não se tornou anacrônica. Auxiliado pela direção de fotografia de Gary B. Kibbe, o diretor também consegue criar uma boa contraposição entre o visual sombrio do bairro em que as pessoas mais pobres vivem com as cenas coloridas e vivas de Delta City, a cidade prometida. Além disso, o visual acinzentado da PCO reforça as intenções nada nobres do projeto de reabilitação, que nada mais é do que uma pouco disfarçada alusão ao nazismo.

Bairro mais pobreDelta CityProjeto de reabilitação

Repleto de estereótipos, “RoboCop 3” mais parece ter caricaturas do que personagens, algo escancarado no visual punk dos arruaceiros criado pela figurinista Ha Nguyen e em pequenas decisões nada sutis como a escolha do nome da doutora Lazarus (Jill Hennessy). Nada sutil também é a trilha sonora de Basil Poledouris, que surge deslocada em diversos momentos, como quando RoboCop é atacado por policiais. Na mesma linha, as atuações caricatas de grande parte do elenco secundário não ajudam a suavizar o tom estridente do longa.

Ao contrário dos filmes anteriores, a introdução do RoboCop aqui é pouco inspirada e o próprio personagem destoa bastante do robô com resquícios de humanidade e de certa forma amargurado que conhecíamos até ali. Desta vez vivido por Robert John Burke, o personagem até tem momentos interessantes, como ao tomar uma decisão consciente (algo que já ocorrera antes) e ao viver uma cena sentimental com uma criança, mas já não possui o carisma inegável de antes.

E se o protagonista não funciona como antes, as cenas de ação são ainda piores, falhando miseravelmente em praticamente todo o longa. Incapaz de gerar tensão ou orquestrar ações interessantes ao lado de seu montador Bert Lovitt, Dekker ainda atenua a violência, reduzindo o impacto das ações dos vilões; vilões estes que surgem nada ameaçadores, como é o caso do ninja Kanemitsu vivido por Mako. A luta dele com RoboCop é péssima e serve como exemplo da ineficácia das cenas comandadas pelo diretor. Para piorar, os efeitos visuais soam totalmente datados, o que fica evidente quando o RoboCop surge voando no ato final, numa decisão que confirma a intenção de transformá-lo num super-herói e garantir a venda de alguns milhares de bonecos para as crianças da época.

ArruaceirosJá não possui o carisma de antesNinja Kanemitsu

E se o clímax é fraco como o restante do filme, ao menos temos uma boa cena, talvez a única, quando os policiais largam o emprego e decidem lutar ao lado do herói (ok, vamos assumir logo a transformação).

Pra quem começou a trajetória no cinema propondo ao mesmo tempo reflexões filosóficas e questionamentos políticos e sociais, RoboCop encerrava sua passagem pelas telonas de forma melancólica, num desfecho tão desolador quanto o futuro distópico que o cerca.

RoboCop 3 foto 2Texto publicado em 31 de Janeiro de 2016 por Roberto Siqueira

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CONAN – O BÁRBARO (1982)

(Conan the Barbarian)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #158

Dirigido por John Milius.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow, Gerry Lopez, Sandahl Bergman, Mako, Ben Davidson, Cassandra Gava, Valérie Quennessen e William Smith.

Roteiro: John Milius e Oliver Stone, baseado em história de Robert E. Howard.

Produção: Raffaella De Laurentiis e Buzz Feitshans.

Conan - O Bárbaro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado no bem sucedido personagem criado por Robert E. Howard em 1932 (que se tornaria um herói dos quadrinhos da Marvel nos anos 70), “Conan – O Bárbaro” ficou conhecido por revelar ao mundo um dos grandes astros do cinema de ação daquela década: Arnold Schwarzenegger. Apostando na violência gráfica e na natureza mística de sua história, o longa dirigido por John Milius alcançou grande sucesso, passando a fazer parte da memória afetiva de muitos jovens daquela geração. Entretanto, o tempo foi cruel com o filme que, revisto hoje, parece bastante datado, ainda que consiga sobreviver como uma aventura minimamente interessante.

Adaptado pelo próprio Milius ao lado de Oliver Stone, o roteiro baseado na história de Howard nos apresenta Conan (Arnold Schwarzenegger) ainda jovem, quando este acompanha sua aldeia ser atacada por um terrível feiticeiro chamado Thulsa Doom (James Earl Jones) que, impiedoso, assassina os pais do garoto na frente dele. Preso e forçado ao trabalho escravo, Conan acaba desenvolvendo sua força física e, após conquistar a liberdade, parte em busca de vingança, cruzando pelo caminho com os ladrões Subotai (Gerry Lopez) e Valeria (Sandahl Bergman). Juntos, eles terão ainda que resgatar a filha do Rei Osric (o sempre ótimo Max von Sydow), que, atraída pela filosofia de Doom, acabou juntando-se aos seguidores dele.

Através de uma estranha narração que só faz sentido na metade do filme quando o feiticeiro interpretado por Mako entra em cena, somos apresentados ao violento passado do protagonista ainda nos minutos iniciais de “Conan – O Bárbaro”, evidenciando desde então que seu desejo de vingança será o fio condutor da narrativa. Em seguida, um belo plano geral nos leva ao local onde Conan passará a infância fazendo trabalhos forçados e, durante este trabalho, uma elipse interessante avança muitos anos na narrativa e nos traz Conan já adulto e na pele de Schwarzenegger. Enquanto acompanhamos sua consolidação como guerreiro através de sangrentas lutas numa arena, presenciamos também a formação de sua personalidade bruta e selvagem, tão essencial para o sucesso do personagem.

Trabalhos forçadosElipse interessanteConan já adultoEstreando como protagonista no cinema num papel talhado para ele, Schwarzenegger fala muito pouco e aposta na força física para ter sucesso – algo que o diretor explora muito bem em diversos planos que realçam a forma física do ator. Aliás, é impressionante como o corpo humano é explorado e valorizado em “Conan – O Bárbaro”, com planos que buscam realçar a força dos homens e a sensualidade das mulheres, que, aliás, surgem em profusão durante uma narrativa que poderia facilmente pender para uma abordagem machista devido ao seu universo calcado na força, numa transposição fiel ao estilo violento e lascivo dos quadrinhos.

Forma física do atorCorpo humano é exploradoSensualidade das mulheresVoltando ao protagonista, Conan é a antítese do herói convencional. Mulherengo, briguento e beberrão, o personagem poderia facilmente se afastar do espectador, mas sua introdução trágica e o inegável carisma do ator colaboram para aproximá-lo da plateia. Movido pelo desejo de vingança, Conan sequer consegue manter-se junto à única pessoa que demonstra afeto por ele, deixando Valeria para trás na primeira oportunidade que aparece. Valeria que é interpretada por uma Sandahl Bergman que, mesmo sem possuir grande talento, tem a melhor atuação de “Conan”, conferindo alguma profundidade a sua personagem. Já o unidimensional Thulsa Doom mais parece uma caricatura, mas garante bons momentos graças à imponência de James Earl Jones. Surgindo com uma peruca ridícula que deve envergonhá-lo até hoje, Jones aposta em seu olhar penetrante para criar um vilão com forte presença, que carrega ainda um simbolismo mais do que apropriado ao utilizar serpentes em seu templo do pecado.

Mulherengo, briguento e beberrãoValeriaVilão com forte presençaRealçando esta aura demoníaca através dos tons em vermelho na chegada dos heróis ao impressionante interior do templo de Thulsa Doom (design de produção de Ron Cobb), a fotografia de Duke Callaghan não tem uma identidade, criando um visual que oscila bastante durante a narrativa, passando pelo branco da neve no início, os tons áridos do segundo ato e pelo visual multicolorido do confronto dentro do templo. Aliás, os confrontos também surgem confusos graças a constante troca de planos de Milius e seu montador C. Timothy O’Meara, que ainda pecam ao criar uma batalha pouco vibrante quando Thulsa Doom parte para resgatar a princesa interpretada por Valérie Quennessen, já próximo ao ato final. E nem mesmo a trilha sonora quase incessante de Basil Poledouris serve para conferir mais dinamismo às batalhas, ainda que emule o som de uma marcha na primeira delas. No fim das contas, se a trilha sonora não tem grande destaque, também não compromete.

Interior do templo de Thulsa DoomBranco da neveVisual multicoloridoAo menos, Milius acertadamente abusa da violência gráfica para conferir maior realismo a narrativa, o que é bem coerente com aquele universo povoado por personagens selvagens. Neste sentido, “Conan – O Bárbaro” obtém sucesso, ainda que seu visual tenha sido sabotado ao longo dos anos e hoje soe extremamente datado (de tão vermelho, o sangue mais parece suco). Não são poucos os momentos em que Milius faz questão de mostrar os resultados violentos das ações dos personagens, começando pelo ataque aos pais de Conan, passando por suas lutas na arena e terminando nos confrontos com os seguidores de Thulsa Doom dentro do templo e ao ar livre, além é claro da sumária execução do vilão (com direito a cabeça rolando escadaria abaixo de uma maneira que nem mesmo Mel Gibson botaria defeito).

Ataque aos pais de ConanConfrontos com os seguidores de Thulsa DoomSumária execuçãoPor vezes bem humorado, “Conan – O Bárbaro” traz ainda diversos personagens estranhos, como a feiticeira (Cassandra Gava) que vive uma noite de sexo com o protagonista numa cabana e desaparece em seguida, que serve também para inserir pela primeira vez os elementos místicos tão presentes na narrativa. Só que tanto este momento como a cena em que espíritos surgem para levar Conan e provocam a ira de Valeria servem para atestar o quanto os efeitos visuais hoje soam ultrapassados, evidenciando os problemas orçamentários da produção. Da mesma forma, ainda que as roupas feitas de restos de animais sejam coerentes com a natureza selvagem dos personagens (figurinos de John Bloomfield), elas também não envelheceram bem. E é justamente este aspecto que enfraquece um pouco um longa que depende do impacto visual. Repare, por exemplo, como a serpente gigante soa artificial com seus movimentos falsos ou como a maquiagem também não convence quando Conan é preso numa árvore e é ferido por pássaros. Ao menos, estes deslizes conferem uma saudosista aura trash ao filme.

FeiticeiraEspíritos surgem para levar ConanRoupas feitas de restos de animaisAinda assim, o diretor consegue criar bons momentos, como a tensa sequência do roubo do olho da serpente ou a triste morte de Valeria, que culmina no belo plano do altar com o corpo dela em chamas. E finalmente, Milius aposta na câmera lenta e na força das imagens para transmitir emoção no simbólico final, criando planos interessantes como àquele que mostra as pessoas jogando as tochas na água e abandonando a seita de Thulsa Doom.

Roubo do olho da serpenteAltar com o corpo dela em chamasTochas na águaApostando na bem sucedida mistura de violência, misticismo e humor negro, “Conan – O Bárbaro” funciona como uma aventura calcada no desejo de vingança de seu protagonista, dando vida a um cruel universo fantástico de maneira leve e divertida, ainda que visualmente o resultado tenha sido muito comprometido com o passar do tempo. Entretanto, se o aspecto visual hoje deixa a desejar, sua narrativa continua envolvente. E isto, evolução tecnológica alguma poderá mudar.

Conan - O Bárbaro foto 2Texto publicado em 07 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira