TITANIC (1997)

(Titanic)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #179

Vencedores do Oscar #1997

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill, David Warner, Victor Garber, Jonathan Hyde, Suzy Amis, Danny Nucci e Ioan Gruffudd.

Roteiro: James Cameron.

Produção: James Cameron e Jon Landau.

Titanic[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não é difícil entender as razões do sucesso avassalador de “Titanic”, superprodução grandiosa de James Cameron que alcançou números impressionantes nas bilheterias e ainda igualou o recorde de “Ben-Hur” ao levar 11 estatuetas do Oscar. Também não é tão complicado entender porque, ao longo do tempo, o filme ganhou a antipatia de parte do público e até mesmo de alguns cinéfilos, tamanha foi a sua exposição ao longo dos anos (pense, por exemplo, quantas vezes na sua vida você já ouviu tocar sua famosa música tema em algum lugar). Mas o fato é que, mesmo com seus pecadilhos aqui e ali, o longa estrelado pelos então jovens astros Leonardo DiCaprio e Kate Winslet é mesmo um grande filme, destes que merecem serem lembrados eternamente e, não à toa, conquistou seu lugar cativo na história do cinema.

Escrito pelo próprio Cameron, “Titanic” narra a história de amor entre Jack (Leonardo DiCaprio), um jovem quase nômade que ganha sua passagem numa partida de pôquer, e Rose (Kate Winslet na juventude e Gloria Stuart na velhice), a noiva do rico Cal (Billy Zane) que viaja ao lado de sua mãe (Frances Fisher) em busca de uma nova e promissora vida. Mas o destino de todos eles e dos mais de dois mil passageiros do transatlântico muda completa e tragicamente quando o imponente navio se choca com um iceberg.

Usando a busca por um artefato raro no que restou do Titanic no fundo do mar como ponto de partida, o roteiro de James Cameron nos traz o típico romance já visto inúmeras vezes anteriormente (“A Dama e o Vagabundo”, por exemplo) entre a menina rica cansada da vida aborrecida que leva e o menino pobre e cheio de vida. No entanto, Cameron sabe muito bem que no seu cinema (e no cinema de maneira geral), a forma é muito mais importante do que o conteúdo. Assim, sua preocupação não está apenas na história que será contada, mas na maneira pela qual aquela história será contada. Não que o diretor/roteirista não se preocupe com a estruturação de sua narrativa. Observe, por exemplo, como ele insere dicas que serão essenciais no clímax de “Titanic”, como a explicação técnica do naufrágio que permite ao espectador antecipar como o navio afundará (sabemos, por exemplo, que ele se partirá ao meio, o que aumenta a tensão no ato final). Repare também como a primeira conversa entre Jack e Rose faz questão de mencionar a temperatura da água, o que também será importante após o naufrágio, assim como o roteiro também tem o cuidado de mencionar a famosa frase “Nem Deus afunda o Titanic”, dando às plateias mais jovens a dimensão do tamanho daquela tragédia para a época.

Busca por um artefato raroExplicação técnica do naufrágioPrimeira conversa entre Jack e RoseTransitando com elegância do presente para o passado através dos escombros do navio que se transformam no imponente transatlântico e fazendo o caminho inverso através do olho de Winslet que de repente se transforma no de Stuart, a montagem de Conrad Buff, Richard A. Harris e Cameron é essencial para que o longa não se torne enfadonho ao longo de suas três horas de projeção (egocêntrico, Cameron faz questão de colocar seu nome, mas todo bom diretor participa do processo de montagem dos filmes). Assim, Cameron e seus montadores investem um bom tempo na construção lenta daquele romance, sedimentando a empatia pelo casal na plateia e permitindo que a narrativa respire, o que é crucial para que o espectador sinta toda a escalada dramática da tragédia com intensidade durante o segundo e terceiro atos. A partir do momento em que o espectador realmente se identifica e se importa com Rose e Jack, a tragédia também tocará a plateia com a mesma intensidade e, desde então, o sucesso de “Titanic” está garantido.

Imponente transatlânticoOlho de WinsletOlho de StuartÉ claro que existem os excessos. O escorregão dela na proa do navio, por exemplo, é desnecessário, assim como toda a sequência em que Cal persegue o casal, que culmina na cena em que eles tentam salvar um garoto e quase morrem afogados. Este melodrama todo surge também quando Jack é incriminado por roubo, o que também soa desnecessário, mas por outro lado cria o cenário para a tensa busca de Rose por ele, nos permitindo passear pelo navio enquanto ele afunda e ver alguns detalhes do processo internamente. Assim, aqueles longos corredores brancos se tornam aterrorizantes quando as luzes começam a falhar e a água começa a subir, chegando a níveis insuportáveis de tensão graças também ao design de som que cria com precisão os barulhos daquele gigante que se desfaz e à trilha sonora que emula a batida acelerada de um coração neste instante.

Cal persegue o casalLongos corredores brancosÁgua começa a subirO espetacular design de som, aliás, nos permite notar desde os pequenos movimentos nos talheres durante um jantar até o barulhento impacto da água durante o naufrágio, sendo essencial na imersão do espectador naquele ambiente. Enquanto isto, o ótimo James Horner cria uma trilha sonora grandiosa, alcançando a escala épica exigida pela história sem jamais deixar de lado o romantismo que emana da narrativa, inserindo trechos da melodia da música tema “My heart will go on” (imortalizada na voz de Celine Dion) e encontrando espaço ainda para criar variações interessantes que incluem elementos tipicamente irlandeses nas sequências que se passam na terceira classe e composições agitadas que embalam os momentos de tensão.

O trabalho técnico formidável liderado pelo perfeccionista Cameron segue com a reconstituição precisa das roupas usadas na época (figurinos de Deborah L. Scott), que servem também para diferenciar as classes sociais que embarcaram no navio, além é claro dos objetos utilizados na decoração dos ambientes e até mesmo das louças e talheres utilizados nos luxuosos jantares (design de produção de Peter Lamont). Assim, “Titanic” mostra-se um verdadeiro deleite para os olhos, um esplendor visual que ganha contornos épicos através dos planos belíssimos do transatlântico navegando pelo oceano tanto durante os dias ensolarados como sob a luz das estrelas ao anoitecer.

Reconstituição precisa das roupasDecoração dos ambientesTalheres utilizados nos luxuosos jantaresEssencial na criação deste visual marcante, a fotografia de Russell Carpenter prioriza tons azulados em diversos momentos do presente, transmitindo a melancolia que a história evoca e a nostalgia de Rose, transitando com precisão para o visual vivo e iluminado durante o início da viagem que realça não apenas o brilho e o luxo do navio, como também a empolgação daquele jovem casal que se conhece. Já no ato final, os tons mais escuros e o predomínio das cenas noturnas ajudam a criar na plateia a mesma sensação de angústia dos personagens.

Tons azuladosVisual vivo e iluminadoTons mais escurosPersonagens que são interpretados por um elenco heterogêneo, encabeçado por dois nomes que despontavam na época. Ainda bem jovem, mas já dono de grande talento (conforme atestam “Gilbert Grape” e “Diário de um Adolescente”), Leonardo DiCaprio vive Jack com a intensidade e a empolgação que se espera de um jovem que consegue embarcar naquele luxuoso navio, conseguindo ainda uma ótima química com Kate Winslet, o que é essencial para o sucesso do romance. Winslet, por sua vez, confere carisma e vivacidade a jovem Rose, mostrando-se inteligente para compreender o ambiente em que está inserida e, ao mesmo tempo, passional o bastante para se atirar de cabeça num verdadeiro romance impossível. São deles alguns dos momentos mais icônicos do longa, como o lindo primeiro beijo ao pôr-do-sol na proa do navio (“Estou voando Jack”, diz ela) e o famoso grito “Eu sou o rei do mundo!”. A coleção de lindas cenas continua quando Jack desenha Rose nua e especialmente na clássica cena em que a mão dela indica o sexo e o romance alcança seu clímax, segundos antes do impacto no Iceberg que mudaria aquela história para sempre.

Lindo primeiro beijoJack desenha Rose nuaMão dela indica o sexoRose seguiria sua vida, constituiria família e viveria muito ainda, até que finalmente encontrasse coragem para embarcar novamente no Titanic. Aos 86 anos, Gloria Stuart tem uma atuação sensível e emocionante, transmitindo o quanto aquelas lembranças eram importantes para Rose através de seu olhar, participando ainda da desnecessária narração que mastiga alguns acontecimentos para o público. Ainda entre os destaques, Kathy Bates diverte-se na pele da espirituosa e divertida Molly, ao passo que Bill Paxton está apenas discreto como o caçador de tesouros Brock Lovett.

Atuação sensível e emocionanteEspirituosa e divertida MollyCaçador de tesouros Brock LovettInfelizmente, “Titanic” também tem sua porção de personagens unidimensionais e odiáveis, como o canalha Cal de Billy Zane que, além de atormentar a vida do casal principal, ainda é capaz de usar uma criança abandonada a seu favor no ato final. Já Frances Fisher encarna a Sra. Ruth de maneira tão gélida e impassível que por vezes chegamos a duvidar que ela seja mesmo a mãe de Rose, salvando-se apenas por demonstrar preocupação genuína ao ver a filha voltar para o transatlântico enquanto este afunda e pelo pequeno momento de humanidade quando tenta justificar sua maneira de agir e seu interesse financeiro acima da própria vontade (“Somos mulheres, nossas escolhas nunca foram fáceis”). E finalmente, não posso deixar de mencionar alguns dos oficiais que agem de maneira irracional, segurando a terceira classe já durante o naufrágio e não utilizando toda a capacidade dos botes, chegando ao ápice quando um deles atira num dos amigos de Jack e suicida-se depois, o que ao menos demonstra remorso.

Canalha CalGélida e impassívelAtira num dos amigos de JackE por falar em ápice, chegamos então aos momentos que fizeram de “Titanic” um longa tão impactante. Conduzida de maneira vigorosa por Cameron, a cena do acidente é tensa o bastante para envolver o espectador, com a câmera trêmula do diretor nos colocando dentro do ambiente e criando uma sensação de urgência sem que, por isso, deixemos de ter a exata noção de tudo que acontece na tela. O desespero e o egoísmo durante o naufrágio e o verdadeiro comportamento de manada que toma conta das pessoas após o acidente simboliza o ser humano em seu estado mais cru, em momentos captados com precisão pelos closes e planos fechados de Cameron que buscam valorizar as expressões de medo e angústia das pessoas.

Cena do acidenteComportamento de manadaExpressões de medo e angústiaMas o diretor sabe ser sutil também. Em certo momento do naufrágio, um plano geral mostra os fogos de artifício estourando no centro da tela com o navio pequeno ao fundo, dando a exata noção da insignificância daquele transatlântico diante da magnitude do oceano. E se a banda tocando até o último instante é o mais puro símbolo do melodrama que permeia “Titanic”, a linda sequência embalada por uma das músicas da banda exemplifica muito bem como Cameron sabe utilizar isto a seu favor, quando vemos um casal de idosos esperando a morte e uma mãe contando histórias para os filhos enquanto a água invade aqueles compartimentos. Da mesma forma, o tocante momento em que o capitão Smith (Bernard Hill, em boa atuação) se recolhe desolado para esperar o fim torna o personagem ainda mais interessante.

Fogos de artifícioBanda tocando até o último instanteMãe contando histórias para os filhosObviamente, se toda a produção preza pelo primor técnico, a impactante cena do naufrágio é a cereja do bolo de “Titanic”. Colocando o espectador dentro do navio enquanto vemos as pessoas caindo na água e sua estrutura desmoronando, Cameron e sua equipe criam um momento tão sublime tecnicamente e poderoso dramaticamente que é praticamente impossível não reconhecer seus méritos. Assim, a força devastadora da água preenche a tela com tanta verossimilhança que o espectador praticamente se encolhe na poltrona, buscando segurar-se em algo enquanto aquele gigante se prepara para finalmente afundar. Após o naufrágio, a fotografia azulada e a boa atuação do elenco transmite com precisão a histeria coletiva que toma conta do local, nos fazendo em seguida quase sentir o frio que os personagens sentem no meio do oceano. E então o momento que levou milhões de espectadores às lágrimas chega e Jack finalmente se torna apenas uma lembrança para Rose.

Impactante cena do naufrágioGigante se prepara para finalmente afundarHisteria coletivaO final delicado e sensível nos mostra rapidamente a vida que Rose levou através de algumas fotografias e nos permite uma última visita ao mais famoso transatlântico da história, recriado com precisão nesta obra grandiosa, tecnicamente perfeita e dramaticamente poderosa, com alguns excessos é verdade, mas que jamais chegam a prejudicar sua qualidade soberba. James Cameron pode ser egocêntrico e megalomaníaco. Certamente, os criadores do “Titanic” também eram. Mas, ironicamente, a junção entre o primeiro e a história trágica do segundo criaram um dos filmes mais emblemáticos dos anos 90 e, certamente, um dos grandes da história do cinema em todos os tempos.

Titanic foto 2Texto publicado em 17 de Novembro de 2013 por Roberto Siqueira

APOLLO 13 (1995)

(Apollo 13)

 

Videoteca do Beto #121

Dirigido por Ron Howard.

Elenco: Tom Hanks, Bill Paxton, Kevin Bacon, Gary Sinise, Ed Harris, Kathleen Quinlan, Bryce Dallas Howard, Mary Kate Schellhardt, Emily Ann Lloyd, Miko Hughes, Max Elliott Slade, Jean Speegle Howard, David Andrews e Michele Little.

Roteiro: William Broyles Jr. e Al Reinert, baseado em livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger.

Produção: Brian Grazer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Inspirado em fatos reais, “Apollo 13” é um filme interessante não apenas como entretenimento, mas também como registro de um momento importante da história das missões espaciais. Demonstrando segurança na condução da narrativa e contando ainda com um excelente trabalho técnico e um bom elenco, Ron Howard entrega um filme competente, que retrata com realismo as horas de aflição que aqueles astronautas provavelmente enfrentaram.

Escrito por William Broyles Jr. e Al Reinert, a partir de livro de Jim Lovell e Jeffrey Kluger, “Apollo 13” narra a história real da terceira missão tripulada do projeto Apollo à lua. Após uma inesperada explosão no módulo de serviço, os astronautas Jim Lovell (Tom Hanks), Fred Haise (Bill Paxton) e Jack Swigert (Kevin Bacon) se vêem obrigados a retornar a Terra sem sequer pisar na lua, correndo o risco de ficarem sem oxigênio no caminho, além da ameaça real de danificar a nave na reentrada na órbita terrestre.

Potencialmente tensa, a história da Apollo 13 certamente resultaria num bom filme nas mãos de um diretor competente. Felizmente, este é o caso de Ron Howard, que consegue imprimir uma escala crescente de tensão à narrativa do segundo ato em diante. Antes disso, no entanto, o filme escorrega levemente ao exagerar no ufanismo, quando os americanos comemoram a vitória na corrida espacial – e este patriotismo é reforçado pela trilha sentimental que embala o homem pisando na lua e pelo close em Jim, claramente emocionado com o que vê. Ainda no primeiro ato, chama a atenção como a imprensa não demonstra interesse pela Apollo 13, refletindo a progressiva falta de interesse do público pelos programas espaciais. Neste aspecto, vale lembrar que até mesmo a NASA questionava o alto investimento feito nestas missões depois do sucesso da Apollo 11, algo que o filme também retrata com fidelidade. Porém, quando a viagem se transforma numa tragédia potencial, a imprensa imediatamente se interessa pelo caso (“Agora ficou mais emocionante”, afirma um idiota da NASA), provocando a indignação de Marilyn (Kathleen Quinlan), a esposa de Jim.

Trabalhando com inteligência e cuidado em todo o primeiro ato, Ron Howard busca estabelecer o relacionamento entre os personagens e criar expectativa para o lançamento da nave. E apesar dos muitos termos técnicos, o espectador jamais se perde durante a narrativa, graças à clareza do roteiro e a condução do diretor. Observe, por exemplo, como ele usa a fase de testes para nos apresentar os possíveis problemas que a missão enfrentará e nos familiarizar com alguns destes termos. Por isso, quando Jack tenta acoplar o módulo de comando ao módulo lunar, o espectador sabe exatamente o perigo daquela operação. Também por isso, quando Jim Lovell diz a famosa frase “Houston, nós temos um problema”, o desespero toma conta da tela, pois sabemos que aquele problema não estava previsto.

Além da narrativa envolvente, “Apollo 13” apresenta também um espetáculo visual belíssimo, graças aos excelentes efeitos visuais da Digital Domain, que conferem realismo ao lançamento da nave, por exemplo. Nave, aliás, que é perfeitamente recriada pela direção de arte de David J. Bomba, Michael Coreblith e Bruce Alan Miller, assim como os uniformes são fiéis aos originais (figurinos de Rita Ryack), ambientando perfeitamente o espectador. Além disso, o ótimo design de som capta cada pequeno movimento dentro da nave, como quando o oxigênio estoura a lateral da Apollo 13 e provoca o acidente. Obviamente, o trabalho de câmera de Ron Howard é vital neste processo. Contando com a colaboração da fotografia de Dean Cundey, o diretor emprega movimentos de câmera estilizados e realiza verdadeiros malabarismos no espaço, acompanhando com fluência a perfeita movimentação dos astronautas nos módulos. Vale destacar ainda os giros em volta da nave e o elegante travelling de dentro pra fora dela, que dá a exata noção de onde os astronautas se encontram.

Ainda na parte técnica, merece destaque a excepcional montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill, que confere enorme dinamismo ao longa, intercalando o drama dos astronautas, o trabalho da NASA e o sofrimento dos familiares. Além disso, quando a Apollo 13 apresenta o grave problema, os montadores alternam rapidamente entre os planos, ampliando a angústia no espectador sem que este perca a noção do que está vendo. E ainda que usem descartáveis legendas para indicar a passagem do tempo, Hanley e Mill acertam ao usar o já ultrapassado fade, escurecendo a tela completamente e refletindo a angustia que predomina a narrativa. A trilha sonora de James Horner também acentua o clima de tensão, por exemplo, com a música agitada que embala os minutos prévios ao lançamento da nave. Por outro lado, a trilha parece exceder um pouco o tom adequado em certos momentos, soando melosa demais, como quando Jim se dá conta de que não vai pisar na lua.

E se exagera no melodrama neste aspecto, “Apollo 13” acerta na forma como aborda a preocupação da família Lovell, nos envolvendo com o sofrimento da esposa e dos filhos de Jim após a confirmação de sua ida à lua. Nós nos sentimos mais próximos dele justamente por acompanharmos seu relacionamento com a família, o que amplia a carga dramática quando os problemas surgem. É claro que as boas atuações de Tom Hanks e Kathleen Quinlan colaboram bastante. E além de estabelecer boa química com Quinlan, Hanks ainda transmite com precisão a crescente aflição do personagem, enquanto Bacon inicialmente parece mais tranqüilo e Paxton surge intimidado naquela difícil situação. Entretanto, quando os conflitos começam a surgir, os três atores se destacam, estabelecendo um clima palpável de tensão e refletindo muito bem o cansaço dos astronautas. Paxton, aliás, melhora ainda mais na medida em que Fred fica doente, transmitindo com competência o sofrimento do personagem.

No restante do ótimo elenco, Ed Harris se sai muito bem, demonstrando autoridade e liderança como Gene Kranz, e a citada Kathleen Quinlan está ótima como Marilyn Lovell, demonstrando muito bem a angústia da personagem com as notícias do marido. E se é emocionante o momento em que ela conta para a mãe de Jim o ocorrido, é ainda mais difícil conter as lágrimas quando ela dá a notícia de que a nave apresentou problemas para o filho e ouve a pergunta preocupada do menino: “Foi a porta?”. Finalmente, Gary Sinise confere realismo à decepção de Ken Mattingly quando é retirado da missão e se sai ainda melhor quando é convocado para auxiliar os companheiros, demonstrando muito profissionalismo e companheirismo.

Assim como antes do lançamento, os momentos prévios à volta para a Terra são bastante tensos. E o silêncio que predomina por alguns segundos só aumenta nossa expectativa, justificando a explosão de alegria de todos quando o paraquedas surge no céu. A emoção genuína dos personagens e do espectador comprova que a narrativa nos envolveu. Ainda nesta cena, não posso deixar de destacar a reação contida e emocionada de Gene, num momento sublime da atuação de Ed Harris. Se a história original já era potencialmente tensa e emocionante, Howard e sua equipe conseguiram traduzir estes sentimentos na tela com competência.

Excelente tecnicamente, “Apollo 13” narra um drama real de maneira envolvente, graças à eficiente direção de Howard e às boas atuações do elenco. Apesar da trilha sonora exagerada em alguns momentos e de não resistir ao ufanismo típico dos norte-americanos, o resultado é bastante agradável. Um bom exemplo do equilíbrio ideal entre a técnica e a emoção no cinema.

Texto publicado em 21 de Dezembro de 2011 por Roberto Siqueira

O EXTERMINADOR DO FUTURO (1984)

(Terminator)

 

Videoteca do Beto #32

Dirigido por James Cameron.

Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Lance Henriksen, Rick Rossovich, Bess Motta, Earl Boen, Shawn Schepps, Franco Columbu e Bill Paxton.

Roteiro: James Cameron e Gale Anne Hurd.

Produção: Gale Anne Hurd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A premissa de “O Exterminador do Futuro”, filme que alavancou a carreira do diretor James Cameron, é de uma inteligência e criatividade assombrosa, estabelecendo o filme como uma ficção científica de alta qualidade, recheada com elementos de suspense e terror, além é claro, de contar com maravilhosas seqüências de ação. Além disso, conta com um vilão absolutamente assustador e aparentemente indestrutível. E o que é melhor, tudo isto trabalha a favor de um roteiro inteligente, que desenvolve personagens complexos e fascinantes, interpretados com competência por todo o elenco.

E que premissa inteligente e criativa seria esta? Num futuro próximo, os humanos entraram em guerra com as máquinas, e sua aniquilação total só não foi consumada graças à liderança de um homem. É então que as máquinas decidem enviar ao passado um andróide (Arnold Schwarzenegger) com a única e exclusiva missão de matar a mãe deste homem, chamada Sarah Connor (Linda Hamilton), evitando assim o seu nascimento. Entretanto, os humanos também conseguem enviar ao passado um representante, chamado Kyle Reese (Michael Biehn), que terá a missão de proteger esta mulher e garantir o futuro da humanidade. É ou não é de uma criatividade extrema?

Mas uma idéia criativa não basta para garantir a qualidade de um filme. Felizmente, o roteiro seco e direto do próprio James Cameron e de Gale Anne Hurd desenvolve a narrativa com competência e sem rodeios, explorando corretamente os personagens e envolvendo completamente o espectador na trama. A introdução dos três personagens que conduzem a narrativa é perfeita. Primeiro testemunhamos o aparecimento do andróide, que trata de nos apresentar em poucos minutos o seu jeito nada sutil, quando se depara com um grupo de jovens. Depois acompanhamos o surgimento de Kyle Reese, que também aparece do nada para, de uma forma menos agressiva (apesar de roubar um mendigo e chamar acidentalmente a atenção da policia), conseguir suas roupas e partir para sua missão. E finalmente, Sarah Connor é apresentada como uma mulher simples, que trabalha como garçonete e não tem a menor noção do que sua vida se tornaria deste dia em diante. O cenário para uma angustiante caçada está pronto.

James Cameron explora o maravilhoso roteiro de forma bastante segura, utilizando movimentos de câmera e enquadramentos que funcionam perfeitamente. Observe como na seqüência do primeiro ataque do exterminador contra Sarah, dentro da danceteria Technoir, a câmera lenta de James Cameron ajuda a atenuar o suspense, além de captar com precisão cada detalhe da reação dela e de Reese. Além disso, o diretor mostra todo seu talento nas sensacionais seqüências de ação, garantindo adrenalina e tensão na medida certa. Cameron mantém a câmera em movimento, utilizando muitos planos, mas sem exageros, evitando que as cenas sejam confusas ou enjoativas. Para isso, conta com a excelente montagem de Mark Goldblatt, que alterna entre os planos de maneira empolgante sem exceder o número ideal de cortes, o que permite ao espectador entender perfeitamente o que se passa na tela. Outro exemplo do bom trabalho de Goldblatt é a elegante transição quando Reese está pensando e olhando para um trator trabalhando. Através do próprio trator, somos transportados para o futuro, e no pesadelo de Reese, voltamos para o presente. O inteligente roteiro aproveita este pensamento para nos situar em sua missão. Ainda na parte técnica, a fotografia azulada (Direção de Adam Greenberg) reflete a frieza do exterminador, que não tem sentimentos, somente um objetivo a cumprir. Além disso, o fato da maioria das cenas se passarem à noite ajuda a aumentar a carga de suspense. A trilha sonora de Brad Friedel é envolvente e coerente com o ritmo do filme. Nas perseguições é cheia de batidas rápidas e repetitivas, conferindo um ritmo ainda mais alucinado à cena (em certos momentos lembra trilhas típicas de videogames). Pra completar, o som e os efeitos sonoros são espetaculares, captando desde os pequenos detalhes, como o barulho mecânico do movimento dos olhos do exterminador, até os atordoantes tiros das potentes armas utilizadas por Reese e pelo andróide. Finalmente, os efeitos visuais, que hoje podem parecer ultrapassados, na época eram bastante realistas. E Cameron sabe muito bem utilizá-los a favor do filme, e não transformar o filme em refém deles.

E então chegamos aos personagens de “O Exterminador do Futuro”. O andróide T-800 (o papel perfeito para Arnold Schwarzenegger) se revela um vilão aterrorizante, que parece ser indestrutível e, pior que isso, não desiste jamais de sua missão. Pragmático e direto, não para e nunca descansa. Sua missão é sua razão de existir, e ele não vai parar até alcançá-la. Mal encarado e com poucas falas, suas reações intuitivas e diretas – como no momento em que expulsa um homem de um caminhão – e seus movimentos robóticos de pescoço e cabeça – como quando entra na delegacia de policia – mostram que Arnold acertou em cheio neste papel, interpretando de forma competente e marcante. Interessante notar também o inventivo modo como ele escolhe as respostas que dará através de seu campo visual, reafirmando a criatividade do longa. A agressividade do Exterminador é demonstrada através de atitudes simples, como no plano do caminhão de brinquedo que é esmagado pela chegada de seu carro. Ele simplesmente quer cumprir a missão para qual foi programado. É um vilão temível (o olho vermelho é assustador), pois nada parece ser capaz de detê-lo. Afinal de contas, como não temer alguém que não é parado por balas, que não descansa e que invade sozinho um distrito policial (onde teoricamente estaríamos mais seguros)?

Por outro lado, Sarah Connor se mostra inicialmente uma mulher simples, que trabalha e sai pra namorar como outra qualquer. Um dos raros momentos cômicos do filme acontece nesta fase, quando o namorado de Ginger (Bess Motta) fala com Sarah no telefone sem saber. Vulnerável, a moça cria empatia com o espectador facilmente, o que aumenta o drama quando ela passa a ser caçada. Porém, a transformação de Sarah é impressionante. Após superar o susto inicial quando percebe que está sendo perseguida, ela se transforma numa mulher forte e corajosa, e é interessante notar o paralelo entre Sarah Connor e Maria, mãe de Jesus, já que ambas eram pessoas humildes e carregavam no ventre homens responsáveis pela “salvação” da humanidade. O desespero de Sarah ao conferir a lista telefônica e sair do bar olhando para todos os lados, como se qualquer pessoa na rua fosse suspeita, comprova a qualidade da interpretação de Linda Hamilton, que consegue transmitir a angústia da personagem através do olhar. Observe também como ela reage de forma convincente à morte da amiga Ginger, com um choro compulsivo na delegacia. Michael Biehn convence como Kyle Reese, conseguindo expor todo o drama de seu personagem, que viaja no tempo para salvar a humanidade e, além disso, encontrar a mulher por quem se apaixonou no futuro. Ironicamente, e talvez este pensamento já existisse em seu subconsciente, ele será o pai de John Connor. E foi exatamente o amor e, nas palavras dele, “a oportunidade de conhecer o mito”, que fizeram Reese voltar no tempo. Observe a convincente explicação de Reese para Sarah dentro do carro, num diálogo esclarecedor, que expõe toda a originalidade do excelente roteiro. E como era de se esperar, a compreensível incredulidade e ironia dos policias diante da história contada por Reese acaba por condenar a todos no local, deixando o caminho livre para que o temível Exterminador continue sua caçada.

Quando vemos Sarah e Reese iniciando uma relação sexual, sabemos, mesmo que de forma intuitiva, que ali está sendo gerado o lendário John Connor. Mérito do roteiro que, mesmo sem dizer muito, nos leva a imaginar que isto aconteça, nos compensando depois com a confirmação da gravidez dela no final do filme. A forma com que eles se relacionam, tornando-se amigos e confidentes, além das razões que levam Reese a voltar no tempo, são indícios de que eles teriam uma ligação maior do que imaginavam inicialmente. E a espetacular seqüência final nas máquinas é de um simbolismo tremendo. A máquina, que tanto lutou para destruir o homem, foi destruída por outra máquina. É claro que a inteligência humana teve participação nisto, mas a ironia é evidente ao ver o exterminador ser esmagado por uma máquina industrial. Porém o lado mais obscuro (e fascinante) de “O Exterminador do Futuro” reside no fato de que, mesmo após toda esta batalha, o terrível futuro da humanidade não havia sido evitado. Sarah e Reese garantiram o nascimento de John Connor, mas não o fim da guerra entre humanos e máquinas. Por isso, quando ouve o menino mexicano dizer que uma tempestade se aproxima, ela responde: “Eu sei”.

Pesado, seco, tenso e direto, “O Exterminador do Futuro” é um exemplo raro de ficção científica inteligente que consegue misturar elementos angustiantes de terror com cenas espetaculares de ação, alcançando um resultado final bastante agradável. Dirigido com competência por James Cameron e contando ainda com um elenco afiado, garante ao espectador entretenimento de primeira qualidade. Se o futuro da humanidade será sombrio como no filme eu não sei. Mas o passado nos concedeu obras maravilhosas, e este filme com certeza é uma delas.

Texto publicado em 31 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira