MAD MAX (1979)

(Mad Max) 

 

Videoteca do Beto #20

Dirigido por George Miller.

Elenco: Mel Gibson, Joanne Samuel, Hugh Keays-Byrne, Steve Bisley, Tim Burns, Roger Ward, Lisa Aldenhoven, David Bracks, Bertrand Cadart, David Cameron, Max Fairchild e Sheila Florence. 

Roteiro: George Miller e James McCausland. 

Produção: Byron Kennedy. 

 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um pequeno orçamento de 400 mil dólares foi o responsável pela estréia de duas importantes carreiras no cinema mundial, além de gravar na história do cinema o nome desta aventura futurista com um ar decadente, que se tornou cult com o passar dos anos. Mad Max é um filme cheio de adrenalina, com uma densa carga dramática e personagens interessantes. O mundo cruel dominado por gangues retratado no longa serve de pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição na estrada, que se tornaram famosas ao longo dos anos e inspiraram duas continuações (o bom Mad Max 2: A caçada continua e o fraco Mad Max 3: Além da cúpula do trovão).

Num futuro caótico, o mundo foi dominado por gangues que vivem à procura de gasolina. Após o jovem e talentoso policial Max Rockatansky (Mel Gibson) matar acidentalmente um integrante de uma perigosa gangue, sua família e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) passam a ser perseguidos e as conseqüências trágicas desta perseguição despertam o pior dos sentimentos em Max, a vingança.

George Miller abusou da criatividade para realizar Mad Max. Como o orçamento do filme era extremamente limitado, muitos carros e motos foram remendados e reutilizados o que, somado às roupas nada convencionais das gangues, contribuiu para criar um visual diferente e atraente. O diretor acertou ao manter o ritmo ágil da narrativa, sem muitos floreios, utilizando criativos planos cheios de estilo nas cenas de perseguição – com a câmera no nível do asfalto, na frente de motos e carros, nos olhos de Max, entre outros – que aumentam ainda mais a alta carga de adrenalina. Em muitas destas cenas, Miller utiliza uma quantidade menor de frames (quadros por segundo) para dar uma sensação maior de velocidade, como na cena em que Max passa pelos motoqueiros e os joga da ponte. Nesta cena, aliás, ele alterna da alta velocidade para a câmera lenta durante a queda dos motoqueiros, mostrando em detalhes o impacto do choque. O diretor também utiliza a câmera para aumentar o suspense, como no plano onde vemos uma mão no tronco da árvore enquanto Jessie caminha até a praia. Toda esta tensa seqüência, desde a praia até a volta pra casa, passando por pombos, um cachorro morto e pelo deficiente Benno (Max Fairchild), culmina com a fuga de carro de Jessie (Joanne Samuel, em atuação que não compromete) e May (Sheila Florence) para a estrada, onde a tragédia se consumará. E nesta cena, que é a de maior impacto no espectador, Miller nos poupa ao mostrar um plano subjetivo, com a bola e o tênis do bebê na estrada indicando o resultado trágico. E se o resultado já seria trágico naturalmente, soa ainda mais dolorido porque o bom roteiro do próprio George Miller, auxiliado por James McCausland, acerta ao nos envolver no relacionamento cheio de amor e carinho de Max e Jessie. O impacto do drama vivido por Max após o ataque à sua família é maior justamente porque sentimos simpatia pelo casal. Também direto e sem muitos rodeios, o roteiro funciona perfeitamente, pecando apenas no terceiro ato, que é curto demais. Culpa também da montagem de Cliff Hayes e Tony Paterson, que por outro lado, acerta em cheio nas cenas de perseguição na estrada, criando seqüências de tirar o fôlego. A direção de fotografia de David Eggby explora ao máximo a beleza das estradas australianas e cria um visual quente e seco, aproveitando o maravilhoso brilho do sol naquele país. Finalizando a parte técnica, merece destaque a qualidade do som, principalmente na estrada com o barulho das motos e dos carros, e da trilha sonora de Brian May, rápida, alucinada e perfeita para aquele mundo.

O ataque ao jovem casal na estrada mostra o perigo que aquela gangue de motoqueiros representa. Malucos e arruaceiros, estes nômades não tem piedade de ninguém. A insanidade do grupo fica ainda mais evidente na cena em que Jessie vai comprar sorvete, quando todos partem como animais que cercam a presa para cima da moça, até que ela se aproveita do interesse do líder da gangue para se livrar dele e escapar. O próximo encontro entre eles só confirma a crueldade destes vilões. E mesmo que quisessem mudar este comportamento não poderiam, como fica evidente quando um dos motoqueiros se recusa a matar Goose da forma que seu líder queria, mas é obrigado a fazê-lo para evitar ser assassinado por eles. Por outro lado, as fracas interpretações de praticamente todos os atores do grupo prejudicam o tom ameaçador da gangue, que poderia soar muito mais perigosa e assustadora. O visual dos bandidos é muito mais assustador que eles próprios.

Para que “Mad Max” realmente funcionasse, seria necessário um personagem principal carismático, e Miller acertou em cheio na escolha. Desde sua excelente introdução (o diretor cria um suspense para lentamente revelar seu rosto, mostrando inicialmente as botas, óculos e luvas pretas) nos identificamos com Max, um policial destemido que não foge do choque e provoca a morte do até então temível “Dark Knight”. Vivido com competência por Mel Gibson, Max é uma pessoa simples, apaixonada pelo que faz, e que ama sua família. O ator é talentoso ao transmitir esta paixão de Max pela esposa, como podemos observar na bela cena em que, deitado na grama com Jessie, tenta dizer o quanto à ama usando como exemplo sua dificuldade em demonstrar afeto pelo falecido pai quando ainda era criança. Por outro lado, Max é também uma pessoa destemida e que gosta da adrenalina da estrada. Seu diálogo com Fifi Macafee (Roger Ward) deixa claro que ele está começando a gostar daquilo tudo e, se continuar nesta profissão, ficará tão louco quanto os baderneiros motoqueiros. Esta perigosa mistura de paixão e loucura o torna uma bomba relógio, pronta pra explodir caso algo aconteça às pessoas que ama. E a tragédia acontece, transformando Max no pior dos inimigos para aquela gangue, aquele que não tem mais nada a perder. O plano em que Max olha fixamente para a máscara do monstro é bastante simbólico, já que agora, sem a mulher, o filho e seu melhor amigo, ele se tornou o próprio monstro.

 

 

 

 

 

 

Além das excelentes cenas de perseguição que são um prato cheio para quem gosta de carros, colabora para o sucesso do filme (e o status de cult alcançado ao logo dos anos) o árido e sujo mundo futurista criado pela boa Direção de Arte de Jon Dowding (“Velocidade é só uma questão de dinheiro. Quão rápido você pode ir?” é a interessante frase de uma borracharia). Mais importante ainda são os excêntricos figurinos dos motoqueiros criados por Clare Griffin. Os figurinos, aliás, também tem função dramática no filme, pois indicam o estado psicológico de Max. Inicialmente, ele se veste muitas vezes de branco, colocando o preto somente pra trabalhar. Mas depois da morte de sua família, Max não abandona o preto, refletindo a escuridão que tomou conta de sua vida. E até mesmo o carro de perseguição colabora. Inicialmente utilizando o Interceptor amarelo, Max muda para o carro completamente preto na seqüência final. E aqui, Gibson também é competente ao retratar com o olhar a angústia, fúria e sede de vingança de Max.

Vingança, aliás, é o tema principal de “Mad Max”. O filme utiliza a vingança pessoal do policial como pano de fundo para as sensacionais cenas de perseguição. E mesmo que esta violência “justificada” não seja algo que eu, racionalmente, considere correto, é inegável que julgar a reação de Max ao enorme sofrimento que sentia seria leviano e hipócrita. Desta forma, ele parte sem medir conseqüências em busca da vingança, e o espectador torce por ele. Vale notar também como o modo cruel que Max faz sua última vítima inspirou um filme recente de bastante sucesso, com a sugestão de utilizar a serra como forma de escapar da morte.

O visual criativo e original se tornou um clássico com o passar dos anos, assim como as cenas em alta velocidade. Repleto de adrenalina, com um personagem carismático e cenas de perseguição de tirar o fôlego, “Max Mad” é um exemplo de que mesmo com orçamento baixo é possível fazer bons filmes, desde que se tenha talento para isto. Felizmente, este é o caso da dupla George Miller e Mel Gibson.

 

Texto publicado em 28 de Novembro de 2009 por Roberto Siqueira

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23 Respostas to “MAD MAX (1979)”

  1. Adriana Ribeiro Says:

    Ontem em Fortaleza, precisamente no Cine Teatro São Luiz, foi reprisado três filmes da franquia Mad Max. E um deles, o clássico de 1979. Ótimo filme com personagens bizarros e perseguições incríveis que com certeza, alguns dublês saíram de muleta.

    Uma ótima película que lançou a carreira do diretor George Miller.

  2. Marcos Davi Oliveira Says:

    Esqueci de citar que achei a trilha sonora um erro, pois é quase onipresente, comentando e induzindo sentimentos no espectador a cada cena.

  3. Marcos Davi Oliveira Says:

    Achei todas as atuações corretas, inclusive dos intérpretes da gangue de motos. Achei que o mais apagado foi na verdade o próprio Mel Gibson, mas creio que isso se deva ao próprio personagem, que era um ser comum e pouco carismático no meio de figuras exóticas. Agora, achei a estrutura do roteiro mediana. O primeiro ato foi muito longo, ocupando mais de 1/3 do filme, e o 3º durou cerca de 15 minutos. Hj, em 2015, foi a primeira vez em q vi esse filme, e confesso que o tempo enferrujou-o um pouco pois é um filme que se galga muito no aspecto tecnológico, nas cenas de ação, e portanto achei não muito enérgicas, apesar de que na época tenham sido uma revolução.

  4. Alexander Fideles Divino. Says:

    Uma observação em cima de outra observação, mas o Crawford Montazano era Night Rider motoqueiro da noite e não cavaleiro motoqueiro Knight rider, só uma observação final.
    Essem filme foi formidável pena o orçamento foi baixo, eles deveriam ter colocado toda a gangue aparecendo no final e Rockatasnki matando todos eles, e os outros policiais só colhendo os corpos mortos, assim como foi em A Aparição.

    • Anônimo Says:

      Não entendi, pois rider é cavaleiro, knight é cavaleiro e motoqueiro e biker. Não entendo de inglês mas nas traduções da tudo cavaleiro. Desculpe a minha ignorância.

  5. Anônimo Says:

    ok

  6. Diego Francora (@diegofrancora) Says:

    Eu sou um super fã desse filme. Mad Max realmente representa muito para mim.

    Sua análise foi perfeita, abordou vários pontos interessantes. Parabéns! Continue postando sobre o filme.

    Abraço.

  7. Leonardo Says:

    Tive a oportunidade de assistir alguns clássicos do cinema em forma de “bis” em algumas salas pelo país.

    Tais como: Blade Runner versão diretor, 2001 Odisséia Espacial versão diretor, amostra do Laranja Mecânica, o insano Apocalypse Now Redux e em Dezembro de 1986, Mad Max 1.

    Tinha apenas 11 anos e a censura era 16, não fui barrado! Foi no antigo e já fechado Cine Imperial de Caxias do Sul (RS). Confesso que foi uma experiência única até por causa de minha pouca idade e pela violência do filme; no final das contas, me amarrei nessa película!

    Obs: Eu, meu irmão e dois primos, logo antes da experiência Mad Max, tínhamos sido barrados em outro cinema pelo nacional “As sete Vampiras” que tinha como censura os 16 anos.

    Mad Max – um ótimo filme.

  8. Anônimo Says:

    Esse e´ um classico que gosto muito, que influenciou muitos filmes depois. Numa lista pessoal dos 100 melhores filmes eu incluiria ele.
    Uma observacao, o cara que o mad max mata no comeco do filme se chamava knight rider e nao Dark Knight.
    Obrigado pela critica. valeu
    Vinicius

  9. jose luiz defende Says:

    UM, dos melhores filmes q assisti ate hoje, seguido por sua trilogia logo apos .

  10. cross98 Says:

    Embora seja legal , não é o Coração Valente

    • Roberto Siqueira Says:

      São propostas completamente diferentes. Mad Mad é eficiente dentro de sua proposta.
      Abraço.

  11. Thiago Barrionuevo Says:

    Já conversamos bastante sobre esse filme, mas vou registrar aqui minha opinião.

    Bom filme! Pena que, na hora que começa a esquentar, o filme fica corrido e acaba muito rápido. A cena final é ótima e claramente inspirou o criador do assassino Jigsaw muitos anos depois.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Thi,
      Também acho que o filme acaba rápido e concordo que a cena final inspirou Jogos Mortais.
      Um abraço.

  12. Gust@avo Says:

    Muito bom o filme, o melhor é o 1°, o visual do 2° é muito bom, e a música do 3° é excelente

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Gustavo, eu prefiro o segundo filme, mas gosto muito do primeiro também. O terceiro eu não gosto nada.
      Abraço.

  13. Marcos Juliano Cogo Says:

    Mad Max é 100%, assisto os filmes do Mad Max desde 1984 até hoje, obrigado George Miller……….

  14. MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA (1981) « Cinema & Debate Says:

    […] humano está extremamente desgastado. Por isso, apesar da importância do primeiro “Mad Max”, que até mesmo confere bagagem dramática para esta seqüência, este segundo filme se […]

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