UM DIA DE FÚRIA (1993)

(Falling Down)

 

Videoteca do Beto #96

Dirigido por Joel Schumacher.

Elenco: Michael Douglas, Robert Duvall, Barbara Hershey, Tuesday Weld, Rachel Ticotin, Frederic Forrest, Lois Smith, Joey Hope Singer, Raymond J. Barry, D.W. Moffet, Steve Park, Kimberly Scott e James Keane.

Roteiro: Ebbe Roe Smith.

Produção: Timothy Harris, Arnold Kopelson e Herschel Weingrod.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida moderna, especialmente nas grandes cidades, propicia muitos momentos desgastantes, graças ao seu ritmo de vida alucinante e estafante, que a cada dia procura ser mais dinâmico, privilegiando a velocidade da informação e das atividades que realizamos diariamente. O grande problema, entretanto, é que esta busca gananciosa por um estilo de vida cada vez mais “dinâmico” acaba prejudicando o que de melhor nossa vida pode oferecer, aqueles momentos em que nos esquecemos de tudo, apenas para relaxar e deixar o tempo passar. Exatamente por isso, este ritmo acelerado é responsável pela proliferação de pessoas cada vez mais estressadas, que, diante de tantas situações irritantes, podem acabar explodindo de uma maneira ou outra. E é justamente o momento de explosão de uma pessoa comum que este interessante “Um Dia de Fúria” retrata com precisão, aproveitando ainda para criticar as inúmeras situações que a vida nas grandes cidades apresenta e que colaboram para que isto aconteça.

Após perder seu emprego, William Foster (Michael Douglas) decide ir ao encontro de sua ex-mulher Beth (Barbara Hershey) e sua filha (que faz aniversário), apesar de estar impedido legalmente de fazer isto. No caminho, ele é obrigado a enfrentar o transito congestionado da cidade de Los Angeles, debaixo de um sol escaldante e em meio à grande poluição. Irritado, William decide largar o carro e seguir a pé. Mas, ao parar para tentar fazer uma ligação, ele acaba discutindo com um comerciante e explodindo, dando início a uma série de situações que complicam cada vez mais o seu dia. Quando a situação sai totalmente de controle, o veterano policial Prendergast (Robert Duvall), prestes a se aposentar, decide tentar impedir que uma tragédia ainda maior aconteça.

Escrito por Ebbe Roe Smith, “Um Dia de Fúria” aborda a paranóia urbana, um tema contemporâneo que assola a grande maioria das pessoas que vivem nas principais cidades do planeta, refletindo os enormes problemas que a grande concentração de pessoas num mesmo local traz para o nosso cotidiano, como o trânsito carregado ou o atendimento padronizado em restaurantes (os chamados fastfoods, que visam somente à velocidade no atendimento, como numa linha de produção), entre tantas outras coisas. Dirigido por Joel Schumacher, o longa se concentra na vida do conturbado William Foster, recentemente demitido e obrigado pela justiça a se manter longe da ex-mulher e da filha por causa de seu temperamento agressivo, que é apresentado ao espectador logo na primeira cena do filme, quando um close em detalhes de seu rosto suado e angustiado dá inicio a seqüência que levará aquele homem a largar tudo pra trás. Aliás, a direção de Schumacher é competente na transmissão deste sentimento crescente de angústia, através do silencio que lentamente se transforma num barulho irritante, do travelling que passa pelas outras pessoas presentes nos carros parados no congestionamento, e do calor infernal daquele dia, refletido nas cores quentes da fotografia de Andrzej Bartkowiak. Quando William larga o carro parado na rua e sai andando, dizendo “Vou pra casa!”, sabemos que ele chegou ao limite.

Mas os problemas de William estavam apenas começando, pois a cidade grande ainda reservaria muitas situações desagradáveis, capazes de tirar a paciência de qualquer um. Momentos depois de deixar seu carro pra trás, ele entra numa loja, com a única intenção de comprar uma ficha telefônica. Mas, ao descobrir que teria que consumir algo e, pior do que isso, os preços abusivos praticados no local, ele explode. Obviamente, não se trata apenas da questão dos preços, que é apenas a chamada “gota d’água”. Aquela reação é apenas o resultado de todos os problemas que ele havia acumulado e que o levaram a destruir a loja e sair com o taco de beisebol que o dono dela iria usar para agredi-lo. Aliás, é interessante notar também como William jamais procura a violência, mas ela sempre acaba chegando até ele – e até mesmo as armas que carrega durante a narrativa surgem primeiramente nas mãos de seus agressores. A partir daí, o que vemos é um festival de situações que parecem corriqueiras, mas que são suficientes para tirar alguém do sério – o que, no caso de William, era algo mais fácil de acontecer, dadas as circunstâncias. Paralelamente, acompanhamos o trabalho de investigação da policia, que, inicialmente, não dá muita atenção ao caso, com exceção do praticamente aposentado Prendergast, que parece preocupado com as noticias que recebe. Graças à boa montagem de Paul Hirsch, a narrativa alterna com muita fluência entre o dia conturbado de William, a espera angustiada da ex-mulher dele em casa, as investigações da polícia e o drama da aposentadoria de Prendergast, demonstrando inteligência ao priorizar a linha narrativa mais interessante do longa, focando nos diversos problemas que cruzam o caminho de William. Também colabora com o clima de tensão a boa trilha sonora de James Newton Howard, que alterna entre momentos sombrios e agitados, como quando William invade a casa, enquanto Beth foge pela porta dos fundos.

No caminho de William, “Um Dia de Fúria” aproveita para criticar diversas situações normais do cotidiano nos grandes centros urbanos, como, por exemplo, a miscelânea cultural que se tornou a cidade de Los Angeles (e a maioria das grandes cidades do mundo hoje em dia), graças ao enorme número de imigrantes no país, representada pela gangue latina agredida com o taco de beisebol e pelos personagens chineses, japoneses e coreanos (interessante notar também como o filme critica o irritante vicio ocidental de confundir os povos destes países através dos comentários dos policiais). Além dos imigrantes, outra característica comum às grandes cidades, que também é reflexo do excesso de pessoas e da falta de oportunidades, é a grande quantidade de pedintes e mendigos que vagam pelas ruas, como aquele que irrita William (“Vá procurar emprego!”, diz ele, após ouvir o homem gritar “Me dá alguma coisa!”) e que ganha de presente, pra sua irritação, uma mala com duas frutas. Em outro momento, o longa faz uma excelente crítica aos fastfoods, através dos irritantes sorrisos forçados das atendentes, do tamanho e do aspecto do lanche (muito diferente da foto da propaganda) e da falta de tato das pessoas que ali trabalham para lidar com o cliente. Além disso, critica os bancos, mostrando o tratamento diferente dado aos “não economicamente viáveis”. Mas nem só de críticas vive “Um Dia de Fúria” e o clima tenso que predomina a narrativa faz a violência parecer um resultado inevitável diante de tudo que vemos. E por mais que a violência jamais se justifique, a reação maluca de William acaba se tornando compreensível, o que não quer dizer que devemos perdoá-lo (e confesso: entendo que a maioria das pessoas já viveu alguma situação em que ao menos pensou em fazer alguma loucura como esta). Felizmente, Joel Schumacher mostra qualidade na condução das ótimas cenas de violência do filme, como a briga com a gangue, o tiroteio em plena luz do dia, a bazuca disparada nas ruas que eram consertadas sem necessidade e o infarto de um jogador de golfe que se irritou com a invasão de seu terreno particular. Já a interessante seqüência que se passa na loja de um admirador do nazismo aproveita para pregar a ideologia americana da “liberdade de expressão”, além de fazer referência ao nome do filme, quando William diz que vai cair (“I’m falling down!”).

Evidentemente, a ótima atuação de Michael Douglas é essencial para que o espectador se envolva com a narrativa, transmitindo muito bem em seu semblante a fúria crescente do personagem, que enfrenta problemas com a esposa e a filha, provocados por seu temperamento explosivo. Vale destacar, entre tantos bons momentos do ator, sua expressão de surpresa ao constatar que, no mundo de hoje, um cirurgião plástico tem mais sucesso do que muitas outras profissões (o que reflete a crescente preocupação das pessoas com a aparência). Além disso, o ator emociona no tocante momento em que William se desespera ao ver sangue na mão da filha do criado da mansão, se esquecendo que era sangue dele mesmo e mostrando que ele tem seu lado bom, mas não consegue conter o temperamento explosivo, o que o levou a estourar diante de tantas situações estressantes em sua vida. Após este momento, a reflexão de William a respeito de tudo que perdeu também comove (e Douglas tem mérito nisso também), algo que os vídeos que assiste após invadir sua ex-casa comprovam, mostrando uma vida estável ao mesmo tempo em que já indicavam seu temperamento explosivo. E apesar de toda confusão que provoca, William demora a chamar a atenção da policia, com exceção do veterano policial Prendergast, interpretado pelo ótimo Robert Duvall, que será o responsável pela investigação que irá deter a fúria dele. Prestes a se aposentar, mas ainda trabalhando duro (apesar das criticas do chefe), o tranqüilo policial acompanha atentamente os acontecimentos do dia, ao mesmo tempo em que tenta convencer a esposa a deixá-lo resolver o caso ao invés de ir embora mais cedo pra casa, como ela queria. Aliás, Duvall retrata muito bem o trauma que a perda da filha causou no policial (o que explica a preocupação e a carência afetiva da esposa), tratando sua mulher com muito carinho e cuidado, até o momento em que não agüenta mais e explode também (talvez por reflexo da tensão crescente daquele dia). É interessante notar ainda o momento em que Prendergast fala para o capitão sobre a perda da menina, provocando o espanto de seu líder e evidenciando a falta de preocupação dele pela vida pessoal do funcionário, algo também comum nos dias de hoje. Mas este terrível trauma não tiraria a coragem dele. Determinado, o policial não descansaria enquanto não descobrisse o paradeiro do responsável por toda aquela confusão.

Depois de muitas tentativas frustradas de encontrar o “homem de gravata”, um simples outdoor pichado será a chave para que Prendergast se lembre de William e finalmente consiga encontrá-lo (num recurso interessante da narrativa, chamado “dica e recompensa”, que sempre agrada ao espectador). E após uma frustrada tentativa de reconciliação com a família, William se vê num verdadeiro duelo com Prendergast, que o leva a questionar espantado: “Eu sou o bandido? Como isto aconteceu?”. Só que infelizmente ele não teria tempo de descobrir como se transformou no vilão, e o duelo que segue culmina em sua morte, transformando-o em mais uma vítima do acelerado ritmo da vida moderna. O travelling final nos leva aos alegres vídeos de sua família, agora destruída, entre tantos outros fatores, por sua própria personalidade explosiva.

No transcurso de um dia, “Um Dia de Fúria” nos mostra os inúmeros problemas provocados pela vida moderna nas grandes cidades, através do drama enfrentado por seu personagem principal, alguém com tendência à violência e que encontrou, no acelerado ritmo contemporâneo, diversas situações capazes de provocar suas piores reações. Acertando ainda ao não justificar as ações de seu “vilão” com explicações mirabolantes, o longa deixa claro que, nas condições atuais, as chances de aparecer um maluco qualquer revoltado com o mundo a sua volta são consideravelmente maiores. E se levarmos em conta que o filme é de 1993, e que nossa vida ficou ainda mais estressante de lá pra cá, com certeza chagaremos a conclusão de que é bom abrirmos os olhos enquanto estamos parados no trânsito, pois qualquer pessoa em volta pode, de uma hora pra outra, resolver largar tudo pra trás.

Texto publicado em 11 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

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A CONVERSAÇÃO (1974)

(The Conversation)

 

Filmes em Geral #31

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Gene Hackman, John Cazale, Allen Garfield, Harrison Ford, Frederic Forrest, Cindy Williams, Michael Higgins, Elizabeth MacRae, Teri Garr, Mark Wheeler e Robert Duvall.

Roteiro: Francis Ford Coppola.

Produção: Francis Ford Coppola.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Francis Ford Coppola já era um diretor renomado quando decidiu filmar este pequeno e ousado projeto pessoal, que é ao mesmo tempo um thriller eletrizante de investigação e um maravilhoso estudo de personagem. Em “A Conversação”, o diretor invade a mente paranóica de um homem insatisfeito com a profissão que tem e, principalmente, com o mal que suas ações causam nas pessoas, ao mesmo tempo em que nos leva numa investigação devastadora e instigante.

O espião Harry Caul (Gene Hackman) é contratado pelo diretor de uma grande empresa (Robert Duvall) para vigiar e gravar a conversa de sua esposa com um amigo do trabalho, que supostamente seria seu amante. Conhecido por sua competência e profissionalismo, Harry começa a entrar em pânico quando percebe os efeitos de seu trabalho na vida das pessoas, principalmente após imaginar que sua investigação será responsável pela provável morte do casal de amantes.

Escrito pelo próprio Coppola, “A Conversação” é um thriller intenso, repleto de reviravoltas e que prende constantemente a atenção do espectador. Segundo o espetacular livro “Como a geração sexo-drogas-e-rock n’ roll salvou Hollywood”, de Peter Biskand, o próprio Coppola admitia ter se inspirado no mestre Hitchcock quando pensou em realizar o longa, e as influências do mestre do suspense podem ser percebidas, por exemplo, através das interessantes reviravoltas na trama, como quando as fitas gravadas vão parar nas mãos do presidente através da mulher que dormiu com Harry. Empregando freqüentemente o zoom, como na espetacular cena de abertura que mostra um enorme pátio e lentamente nos leva até Harry, seguida pela seqüência da gravação da conversa em que a câmera destaca o casal, o diretor nos coloca na mesma posição daqueles que ouvem as gravações, inclusive com as interferências no som provocadas pela movimentação de ambos. Desta forma, logo no início quando vemos Harry observando aquelas duas pessoas enquanto sua equipe cuida dos microfones estrategicamente posicionados em janelas, inconscientemente passamos a ter enorme interesse naquela conversa, o que serve para prender o espectador durante boa parte do primeiro ato, enquanto Harry tenta desvendar o conteúdo da gravação em sua equipada sala de trabalho. A detalhada (e bagunçada) aparelhagem, aliás, reflete também o estado psicológico de Harry, completamente atormentado pela vida que leva, atestando o bom trabalho de direção de arte. Observe o contraste entre seu ambiente de trabalho (repleto de objetos) e seu apartamento (vazio), refletindo a enorme diferença entre sua bem sucedida vida profissional e sua solitária vida pessoal. E é exatamente quando estes mundos começam a se misturar que os problemas começam, quando o espião demonstra enorme irritação diante das perguntas de seu parceiro Stan (John Cazale) – algo que ele já havia demonstrado antes, quando sua vizinha lhe dá um presente. Coppola nos coloca propositalmente na posição do detetive enquanto este ouve repetidas vezes as gravações, ilustrando com imagens da conversa enquanto ouvimos as falas do casal, e por isso, quando ele começa a desconfiar que seu trabalho servirá para provocar um assassinato, o espectador também compartilha deste sentimento. Coppola demonstra habilidade ainda quando utiliza o close em Hackman quando Harry confessa ao padre os seus pecados, criando um momento intimista e belo, além de utilizar novamente o zoom quando ele escuta uma conversa no quarto do hotel, nos levando junto com o personagem pra dentro da situação. Situação que pode ser resumida em um único plano, quando Harry contempla um quadro com a imagem de uma ilha, num simbolismo claro para a sua própria condição de isolamento e impotência diante do que descobrira e da impossibilidade de evitar aquele assassinato.

O longa claramente sofre uma queda de ritmo no segundo ato, enquanto Coppola aproveita para inserir elementos que servem para aumentar a paranóia do personagem (e do espectador também), como quando o assistente do diretor (Harrison Ford) pede para ficar com as gravações e passa a perseguir o vigia. Esta queda colabora ainda mais para que o tenso terceiro ato tenha grande impacto no espectador, o que se revela uma inteligente estratégia do diretor e de seus montadores Richard Chew e Walter Murch. Felizmente, o ritmo lento é compensado pela qualidade dos diálogos e pela constante sensação de medo do personagem principal, como por exemplo, durante a festa após a feira, quando temos mais um indício do estado psicológico de Harry, que se revolta ao saber que suas falas foram gravadas por uma simples caneta – e Hackman demonstra bem a raiva do personagem neste momento. Este clima angustiante é ainda mais palpável graças à tensa trilha sonora de David Shire, toda tocada em piano.

Coppola conta também com a fotografia granulada e com poucas cores de Bill Butler, reforçada pelos figurinos sem vida de Aggie Guerard Rodgers, que ilustram a angústia de Harry. E conta principalmente com um inspirado Gene Hackman, que transmite muito bem o incomodo do personagem diante da vida que leva. Extremamente desconfiado, exatamente por saber das possibilidades que a espionagem possibilita, Harry demonstra até mesmo através da fala contida e do olhar inquieto sua enorme insegurança, algo que fica evidente quando deixa o prédio sem entregar as fitas para a pessoa que o contratou. Quando liga para Stett, o assistente do diretor, ele gagueja e sua perna treme, transmitindo com exatidão a aflição do personagem, que começa efetivamente a se transformar quando ouve uma frase da moça na gravação, sobre as pessoas que dormem na praça. A reflexão dela ecoa na cabeça de Harry em todo instante, pois assim como aquelas pessoas, as vítimas de suas gravações também já foram um dia os queridinhos de um pai e de uma mãe, o que faz Harry se sentir cada vez mais culpado pela profissão que tem – algo refletido também pela fotografia sombria quando ele se deita na cama após a festa e tem um pesadelo. Hackman é o elo entre o espectador e a trama e graças à sua boa atuação o espectador embarca junto com ele na narrativa. Personagem vital na cena que dá os primeiros indícios do estado mental de Harry, Stan, interpretado pelo ótimo John Cazale, é alguém extremamente curioso e falastrão, o que se revela um perigo real para o angustiado Harry e, conseqüentemente, provoca uma grande mágoa em Stan quando este descobre a desconfiança do parceiro de trabalho – algo que Cazale demonstra muito bem, especialmente quando encontra o parceiro numa feira. Vale citar ainda a pequena participação de Robert Duvall como o presidente da empresa, demonstrando em poucos minutos o quanto estava irritado com toda aquela situação. Ainda assim, naquele instante o espectador não sabe exatamente do que se trata, pensando apenas ser mais um caso de traição e de crime passional.

A trama é conduzida com segurança para um momento digno de gelar a espinha de qualquer um. Após resolver tentar evitar aquele final trágico, Harry parte para o local do encontro do casal citado nas gravações. A cena caminha lentamente até o momento em que o espião ouve gritos e vê sangue no vidro do quarto vizinho, provocando o desespero no personagem. Só que quando ele decide invadir o quarto, encontra tudo limpo e tranqüilo, o que gera dúvida sobre a realidade do que vimos até então. A dúvida se dissipa no aterrorizante momento em que Harry descobre sangue dentro da privada, capaz de provocar verdadeiro pânico no espectador, até por causa da excepcional condução de Coppola, que cria o suspense através do silêncio e da lenta descoberta do espião. Assim como o personagem, estamos chocados com o que vemos, mas também como Harry, ainda temos dúvidas sobre a veracidade de tudo aquilo. Seria realidade ou apenas fruto da imaginação do personagem? O final sensacional revela a última grande reviravolta da narrativa e, no melhor estilo Hitchcock, atira de volta na platéia tudo que estávamos pensando até aquele momento. O grande vilão na realidade era a vítima de toda aquela conspiração. Assim como Harry, terminamos o filme desolados, inquietos e até mesmo um pouco paranóicos.

Conduzindo a narrativa com extrema segurança e prendendo a atenção do espectador até o último plano, Coppola entrega um thriller intenso, que ainda tem o mérito de investigar a fundo a mente conturbada de um homem claramente afetado pelo trabalho que realiza. Com uma interpretação brilhante de Gene Hackman, “A Conversação” se estabelece como mais um trabalho memorável na carreira do genial Francis Ford Coppola.

Texto publicado em 19 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira

APOCALYPSE NOW (1979)

(Apocalypse Now) 

 

 

Videoteca do Beto #44

Dirigido por Francis Ford Coppola.

Elenco: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G.D. Spradlin, Harrison Ford, Jerry Ziesmer, Scott Glen e Francis Ford Coppola (Diretor de TV). 

Roteiro: Francis Ford Coppola e John Milius, baseado no romance “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad. 

Produção: Francis Ford Coppola. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não bastasse ter dirigido as obras-primas “O Poderoso Chefão” e “O Poderoso Chefão: Parte II”, o que já garantiu seu nome na história do cinema para sempre, Francis Ford Coppola ainda viria a dirigir e produzir em 1979 “Apocalypse Now”, maravilhoso estudo sobre a ambigüidade do ser humano e os irreparáveis efeitos causados pela guerra em sua mente. Repleto de cenas memoráveis e atuações marcantes, o longa consegue ser mais do que um libelo anti-guerra, explorando a fundo os limites da loucura e do poder, e mostrando ainda como é curta a distância e frágil a linha que separa a racionalidade da irracionalidade dentro do ser humano.

Após voltar do Vietnã, o capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) é convocado pelas Forças Especiais do Exército para a secreta missão de encontrar e matar o coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) que, segundo as autoridades do exército norte americano, enlouqueceu e passou a agir de maneira absolutamente incompreensível na selva do Camboja. Durante esta viagem o capitão Willard descobrirá, através dos horrores da guerra e de seu efeito alucinatório, que a distância entre o que se julga racional e irracional não é tão grande quanto imaginamos.

Logo no início de “Apocalypse Now” somos apresentados ao clima alucinante do longa, através das imagens de bombardeios na selva ao som da música “The End”, do The Doors. Em seguida, as imagens de um ventilador e de uma hélice de helicóptero se misturam, refletindo o pensamento do capitão Willard, que deseja desesperadamente voltar para a selva por não saber mais conviver em sociedade. Encontrado em meio a uma crise de alcoolismo, onde inclusive se fere ao quebrar um espelho, ele vê no convite das Forças Especiais do Exército (repare a pequena participação de Harrison Ford, que se consagraria um astro dois anos depois) a oportunidade de regressar ao combate, sem saber que ao aceitar o convite, viveria uma experiência que mudaria sua vida para sempre.

Coppola (que faz uma ponta no filme como o diretor de TV) dirige “Apocalypse Now” com extrema elegância, criando planos e seqüências absolutamente inesquecíveis, como o ataque aéreo a uma aldeia vietnamita na beira da praia, ao som de “A Cavalgada das Valquírias”, de Wagner, e a cena em que jatos espalham napalm na selva. Além disso, o diretor consegue criar seqüências incrivelmente realistas durante os combates, fazendo com que o espectador se sinta dentro do conflito e permitindo que ele viaje pelo horror da guerra ao lado de Willard. Observe, por exemplo, os excepcionais planos aéreos durante um ataque dos helicópteros, intercalados com imagens de crianças brincando na aldeia, deixando clara a crueldade daquele ataque, escancarada quando estas pequenas crianças correm pra se esconder. Coppola ainda explora ao máximo as lindas paisagens da região para compor imagens impactantes, como no impressionante ataque dos nativos ao barco do capitão Willard, logo após uma fumaça rosa ser espalhada pelo ar. O diretor também cria momentos de suspense, provocando grande susto na cena do ataque do tigre, que arranca do Chefe (Frederic Forrest) as mais profundas verdades (e arranca também qualquer um da cadeira), e cenas tocantes, como quando Clean (Laurence Fishburne, muito jovem e em boa atuação) morre ao lado do gravador em que ouvia a voz de sua mãe.

O extremo realismo alcançado em “Apocalypse Now” é mérito também da excepcional qualidade do trabalho técnico da equipe. Durante o surfe de um soldado no rio, a fotografia dourada (direção de Vittorio Storaro) reflete a alegria do jovem naquele momento. Por outro lado, nas cenas de combate Storaro adota um tom mais dessaturado, dominado pelo verde musgo, o amarelo e o marrom, refletindo a vida difícil e pouco colorida da guerra. O som é espetacular, captando a hélice dos helicópteros, os tiros, as bombas que explodem e até mesmo os pequenos insetos dentro da mata, e o constante barulho dos helicópteros na primeira metade do longa colaboram para o perfeito clima de guerra, assim como a competente direção de arte de Angelo P. Graham, perceptível nos equipamentos e barcos do exército americano, e os figurinos de Charles E. James. Pra finalizar, a bela trilha sonora do trio Carmine Coppola, Francis Ford Coppola e Mickey Hart adota um tom misterioso, com batidas secas durante a subida do rio, totalmente oposto aos temas da abertura, do ataque à aldeia e do encerramento, embalados pelas clássicas e belas canções do grupo The Doors e pela música clássica de Richard Wagner.

Mas nem só de competência técnica vive um grande filme. E as marcantes atuações de “Apocalypse Now” começam com Robert Duvall, que está sensacional como o Tenente Kilgore, demonstrando firmeza com sua voz imponente e seu olhar determinado, mas demonstrando também liderança na forma como conduz seus soldados. Kilgore parece não temer nada, ou simplesmente achar que não tem mais nada a perder, encontrando tempo até mesmo para incentivar o surfe no meio de um ataque, o que leva o capitão Willard a fazer sérias reflexões sobre a maneira como seu país está encarando aquele conflito. A marcante seqüência em que diz que o cheio do napalm simboliza vitória é captada com precisão pela câmera que se aproxima lentamente de seu rosto através de um zoom, realçando a grande atuação de Duvall. Martin Sheen está muito bem na pele do capitão Willard. Desde a narração convincente (repleta de questionamentos e reflexões), passando pela determinação do personagem em encontrar o coronel Kurtz e chegando ao apoteótico final de sua trajetória, podemos notar a qualidade do trabalho de Sheen. As reflexões de Willard aumentam ao ver os soldados fumando maconha e se embebedando com freqüência, e ele tem certeza de que está tudo errado quando presencia o show das garotas da revista Playboy em pleno Vietnã. (“Os vietcongues não se divertem. Nas horas vagas, comem arroz frito e ratos”). Dennis Hopper está espetacular como o agitado fotógrafo que se tornou um admirador de Kurtz. Sua fala rápida, seu gaguejar e sua respiração ofegante demonstram a ansiedade do personagem, que não consegue parar de falar, tamanha a empolgação que sente ao encontrar o capitão Willard. E finalmente, a lenda Marlon Brando dispensa comentários como o misterioso coronel Kurtz. Completamente devastado pelo horror da guerra, o entorpecido coronel Kurtz é alguém cego pelo poder. A construção de seu mito é lenta e cuidadosamente conduzida pela narrativa, levando Willard (e o espectador) constantemente a questionar quais seriam suas reais motivações. Brando expressa a encarnação do poder que seu personagem representa de forma magnífica, através de seu olhar superior e intimidante. Suas falas, repletas de simbolismos e reflexões, criam seqüências hipnóticas e inesquecíveis. Observe como seu rosto é revelado lentamente, como se estivéssemos cuidadosamente sendo preparados para estar diante de um deus. Até mesmo a forma como Coppola filma o personagem demonstra isto, deixando-o praticamente inacessível, submerso nas sombras e mais parecido com um espírito ou uma divindade (Kurtz muito provavelmente se considerava como tal). É então que, ao se deparar com o mito, as reflexões de Willard começam a ganhar ainda mais forma. Afinal de contas, quem está realmente louco: Kurtz, seus comandantes ou todos eles? A resposta pode estar nas inúmeras frases espalhadas pelo excelente roteiro do próprio Coppola, dentre as quais podemos citar: “Acusar um homem de homicídio neste lugar era a coisa mais absurda que se podia imaginar”, “No coração de todo homem há um conflito entre o racional e o irracional, entre o bem e o mal e nem sempre é o bem que sai vencedor” e “Um dia esta guerra vai acabar. Para os garotos do barco, está bom. Eles não querem nada mais do que encontrar um caminho para casa. O problema é que eu já voltei e sei que aquele lugar não existe mais”.

“Apocalypse Now” é o marco cinematográfico de um efeito importante ocorrido na cultura americana logo após a guerra do Vietnã: a perda da inocência. A guerra do Vietnã deixou claro para os cidadãos norte-americanos que não existia o lado bom e o lado mau da história. O cidadão deixou de ver seu país com ingenuidade e o longa de Coppola representa esta etapa na história do cinema. A seqüência final em que a montagem (crédito para Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Richard Marks, Walter Murch e Randy Thom) coloca imagens do ataque de Willard à Kurtz simultaneamente ao ataque dos nativos a um animal simboliza perfeitamente uma das grandes discussões que o filme propõe: será mesmo o ser humano tão racional? O que nos diferencia dos animais é a capacidade de raciocinar, mas o que estamos fazendo com ela? Nas palavras finais do coronel Kurtz, “o horror” que a guerra proporciona é o exemplo perfeito de que a racionalidade do homem nem sempre vence seus impulsos primitivos e irracionais. O poder e a loucura caminham próximos e podem deixar o homem cego.

Dirigido magistralmente por um gênio do cinema, interpretado de forma magnífica por um elenco de peso e contando ainda com um apurado e maravilhoso trabalho técnico, “Apocalypse Now” transcende e muito o gênero “filme de guerra”, levantando inúmeras questões sobre a natureza cruel do homem, os resultados trágicos de sua busca pelo poder e os efeitos irreversíveis do horror da guerra. E o melhor de tudo é que “Apocalypse Now” jamais responde diretamente as questões que levanta, deixando o espectador refletir sobre tudo o que viu e chegar às suas próprias conclusões, o que é sempre admirável. Após assistir esta obra-prima de Francis Ford Coppola, o espectador tem a sensação de que, independente de seu resultado final, a guerra não tem vencedores.

Texto publicado em 09 de Fevereiro de 2010 por Roberto Siqueira