COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (2019)

(How to Train Your Dragon: The Hidden World)

 

Lançamentos #1

Dirigido por Dean DeBlois.

Elenco: Vozes de Cate Blanchett, T.J. Miller, Kristen Wiig, Kit Harington, Jonah Hill, Jay Baruchel, America Ferrera, Djimon Hounsou, Christopher Mintz-Plasse, F. Murray Abraham, Craig Ferguson e AJ Kane.

Roteiro: Dean DeBlois.

Produção: Bonnie Arnold e Brad Lewis.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quase uma década após o lançamento de “Como treinar o seu Dragão”, longa responsável por elevar a Dreamworks a outro patamar em termos de ambição narrativa, finalmente chegamos a conclusão da trilogia que acompanha a amizade entre um garoto e seu dragão de estimação. E se não atinge o nível de excelência do primeiro filme, “Como treinar o seu Dragão 3” cumpre bem seu papel e encerra dignamente a trajetória dos personagens, colocando um ponto final naquele ciclo sem impedir que novos filmes surjam futuramente e garantam mais alguns milhões de dólares para o estúdio.

Mais uma vez escrito pelo próprio Dean DeBlois, o roteiro nos leva de volta ao vilarejo onde dragões e humanos convivem em harmonia, conforme sonhado por Soluço (voz de Jay Baruchel). No entanto, o agora líder de Berk decide ir em busca do mundo secreto citado por seu pai, enquanto Banguela conhece uma companheira de espécie que recebe o nome de Fúria da Luz. Só que o caçador de dragões Grimmel (voz de F. Murray Abraham) surge para estragar os planos da dupla e obriga ambos a tomares decisões complexas em busca da salvação de suas espécies.

Seguindo o padrão estético dos outros filmes e, o que é melhor, demonstrando evolução, “Como treinar o seu Dragão 3” é um deleite visual, a começar pela direção de fotografia de Gil Zimmerman que além de dar vida aos cenários imaginados pelo excelente design de produção de Pierre-Olivier Vincent, ainda tem função narrativa ao, por exemplo, contrastar as cores sombrias que predominam as cenas envolvendo os vilões com o visual colorido e agradável das cenas que envolvem os vikings, o que reforça a sensação de bem estar e a empatia do espectador com os personagens. Além disso, o capricho da animação nos presenteia com momentos visualmente belíssimos como quando somos apresentados a ilha que serve de abrigo para a nova Berk ou a arrebatadora caverna abaixo de uma cascata que nos leva ao deslumbrante mundo secreto do subtítulo onde vivem os dragões.

Este capricho é perceptível também nos pequenos detalhes como a barba por fazer do Soluço e os movimentos naturais dos personagens e do próprio Fúria da Noite, que em diversos momentos remetem a gestos de cães e gatos, ganhando a simpatia do público infantil ao fazê-lo parecer um animal domesticado. Observe também como durante o encontro dos dragões apaixonados, DeBlois destaca os olhos de ambos, reforçando a empatia do público e demonstrando que aprendeu a lição que Spielberg já tinha ensinado em “E.T.”. A sequência do namoro, aliás, diverte com gags engraçadinhas que colocam o poderoso Fúria da Noite na posição de bobo apaixonado que não sabe o que fazer para conquistar a amada que domina completamente as ações, o que torna o personagem vulnerável e ainda mais interessante, em especial se considerarmos que momentos depois ele seria reverenciado como o rei dos dragões, em outra bela cena.

Reforçando a aura épica pretendida pelos realizadores desde o primeiro filme, a trilha sonora de John Powell sublinha os momentos grandiosos do longa, como quando Soluço fala sobre o sonho de encontrar o mundo secreto, enquanto o design de som se destaca em cenas como o namoro dos dragões, quando estes cruzam nuvens carregadas e mergulham nas águas para finalmente consolidar a relação, algo indicado pelos trovões que transmitem a tensão natural pré-conquista. O relacionamento dos casais, aliás, é outro ponto positivo de “Como treinar o seu Dragão 3”. Tanto Soluço e Astrid (voz de America Ferrera) quanto o casal de dragões demonstram entrosamento e agradam, assim como boa parte dos personagens coadjuvantes que continuam interessantes e cumprem bem seu papel, funcionando ainda como alívio cômico com piadas que funcionam razoavelmente bem na maior parte do tempo, como a rima narrativa com o primeiro filme (“Tem mesmo um plano?”) ou a minha favorita em que um personagem afirma que o mundo é redondo, provocando risos de seus colegas – e cutucando a bobagem contemporânea dos terraplanistas.

Letal diante dos dragões, como fica evidente na cena em que vislumbramos pela primeira vez com clareza a Fúria da Luz, Grimmel é mencionado como uma ameaça e já na cena seguinte aparece em Berk e ataca os vikings, o que prejudica um pouco a construção do personagem e reduz o impacto que sua aparição no vilarejo poderia causar. Vivendo uma história distinta de Soluço ao tomar uma decisão contrária a dele no passado diante de um Fúria da Noite, o vilão inicialmente parece mais ameaçador do que é de fato, ainda que tenha bons momentos como quando liberta uma prisioneira, apenas para segui-la e encontrar Berk – infelizmente, sua real intenção é revelada de maneira nada sutil.

Sutis, no entanto, são os flashbacks que, se por um lado exploram o velho clichê da conversa entre pai e filho diante do horizonte, por outro funcionam ao reforçar a nostalgia que domina o capítulo derradeiro da trilogia e trazem ainda momentos elegantes como a transição da conversa entre eles para o momento em que Soluço admira a cidade de Berk repleta de dragões. A propósito, a montagem de John K. Carr merece destaque por saltar bem entre as diferentes linhas narrativas que envolvem o namoro dos dragões, a busca pelo mundo secreto, a jornada de Soluço rumo a liderança de Berk e a perseguição de Grimmel sem jamais tornar o longa confuso.

Reafirmando o amadurecimento da própria Dreamworks, a temática mais adulta completa a jornada de Soluço rumo a maturidade lidando com questões importantes como a liderança de seu povo, o casamento e o futuro de sua amizade com Banguela e é precisamente neste aspecto que reside boa parte do sucesso da trilogia, pois muitos fãs se identificam com os dilemas do protagonista justamente por estarem em fase similar na vida, assim como ocorria no primeiro filme lançado há nove anos. A evolução de Soluço é também a evolução deles como seres humanos, o que torna a identificação com o personagem inevitável.

O ato final tem início logo após a solução do conflito sentimental dos personagens e a decisão de separarem-se, mas a batalha, apesar de muito bem coreografada, tem solução fácil demais, jamais levando o espectador a temer de fato pelos personagens, trazendo momentos até mesmo embaraçosos como quando Banguela se solta sozinho do nada e ataca Grimmel. Ainda assim, por alguns instantes “Como treinar o seu Dragão 3” ensaia um final trágico que teria um peso dramático infinitamente maior e bem acima do tom adotado pela trilogia até então – e que parecia ser construído durante a narrativa através de frases como “Um dia você irá entrar numa luta que não poderá vencer”. Seria, no entanto, um drama excessivo.

Chegamos então ao tocante momento da emancipação do Fúria da Noite e a inevitável separação dos amigos, que traz reflexões muito interessantes sobre o conceito de amizade e até mesmo sobre o sentimento de posse, ensinando como o desapego e a preocupação genuína com a felicidade do outro podem ser recompensadores. Pena que, assim como o casamento de Soluço e Astrid, a cena do reencontro dele com o Fúria da Noite soe desnecessária e feita apenas para aliviar o tom dramático da separação ocorrida instantes antes, mas nada que prejudique demais o belo trabalho feito até ali.

Flertando com um final bem mais pesado dramaticamente, “Como treinar o seu Dragão 3” encerra bem uma trilogia coesa, visualmente belíssima e que traz uma convincente jornada de amadurecimento de seu herói. Pois o fato é que a amizade verdadeira seguirá viva em nossas memórias e em nossos corações independente dos caminhos que a vida nos leve. Afinal de contas, a separação física não pode apagar os momentos que compartilhamos com seres que por um curto ou longo período tanto amamos e tão importantes foram em nossas vidas.

Texto publicado em 27 de Abril de 2019 por Roberto Siqueira

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AMADEUS (1984)

(Amadeus)

 

Videoteca do Beto #30

Vencedores do Oscar #1984

Dirigido por Milos Forman.

Elenco: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersole, Jeffrey Jones, Charles Kay, Kenny Baker, Lisabeth Bartlett, Barbara Bryne, Martin Cavina, Roderick Cook, Milan Demjanenko e Peter DiGesu.

Roteiro: Peter Shaffer, baseado em peça de Peter Shaffer.

Produção: Saul Zaentz.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A vida e a obra de um verdadeiro gênio da música são apresentadas de forma louvável neste lindo filme dirigido pelo competente Milos Forman, através da visão de outro compositor que conviveu com Mozart, admirou o seu magnífico trabalho e desejou ter o mesmo talento que ele. A forma como foi obrigado a aceitar sua “mediocridade”, como ele mesmo diz, é tocante e diz muito sobre a frustração comum à maioria das pessoas que se aproximam da velhice e percebem que não conseguiram ser o que sonhavam.

Após tentar o suicídio, Antonio Salieri (F. Murray Abraham) resolve confessar a um padre que foi o responsável pela morte do gênio Wolfgang Amadeus Mozart (Tom Hulce), contando em detalhes como conheceu, conviveu e lentamente viu crescer seu ódio pelo jovem irreverente e criativo que, segundo ele, compunha como se sua música tivesse sido abençoada pelo próprio Deus. Baseado na peça de Peter Shaffer e com o roteiro escrito pelo próprio Shaffer, “Amadeus” nos conta a vida de Mozart curiosamente sob o ponto de vista de outro compositor da época, que conviveu com ele e que, apesar de ter talento, jamais conseguiu se igualar à genialidade dele. E é exatamente o efeito que a aparição daquele homem, com uma capacidade criativa muito acima da média, causaria em Salieri que iremos testemunhar ao longo da projeção.

Dirigido maravilhosamente por Milos Forman, o filme conta uma história triste e melancólica de forma absolutamente convincente e encantadora, o que não impede a existência de ótimos momentos de alívio cômico, notáveis principalmente nas falas de Salieri contra Deus, como na cena em que diz “de agora em diante somos inimigos”, e o plano seguinte mostra a imagem de Cristo. Cômica também é a forma que Salieri descreve como seu caminho se abriu para explorar seu talento musical inibido por seu pai, na engraçada cena da morte do Sr. Francesco Salieri. Milos Forman utiliza muitos closes nas reações de Salieri quando Mozart é elogiado, realçando sua inveja, que crescia paralelamente à sua admiração por ele. O filme mostra como ele ouvia e absolvia as músicas do gênio de uma maneira muito charmosa e encantadora, utilizando o inteligente recurso de tocar a canção que ele lia nas partituras para que o espectador sinta o que ele sentia. Forman também é inteligente ao mostrar o processo criativo do gênio, que enxergava música em coisas banais, como na interessante tirada em que ele, ao ouvir os brados de uma velha senhora quando sua mulher vai embora, se inspira para compor uma de suas mais famosas canções.

A interessante idéia de contar a história através da experiência de Salieri funciona muito bem, também porque a excelente montagem de Michael Chandler e Nena Danevic salta do narrador para a história em um ritmo muito bom, jamais sendo cansativo e mantendo-se sempre atraente. Alternando com agilidade do presente para o passado (em certo momento, a montagem salta ao presente somente para que Salieri diga que “aquele garoto obsceno, engatinhando no chão, era Mozart! Aquele era Mozart!”, indignado por esperar um ser humano “à altura do talento que tinha”), a montagem também faz elegantes transições de tempo, como quando Madame Cavalieri (Christine Ebersole) tem aulas com Salieri e pergunta sobre a nova ópera de Mozart, e no plano seguinte, está cantando na ópera citada. Aliás, o trabalho técnico de “Amadeus” é formidável, perceptível na excepcional direção de arte de Karel Cerny e nos fabulosos figurinos de Theodor Pistek, que ambientam o espectador na Viena da época com perfeição, além da notável maquiagem em Salieri já velho e em Mozart doente. O estado emocional de Mozart é refletido com competência através da excelente direção de fotografia de Miroslav Ondrícek. Inicialmente colorida, demonstra o mundo alegre e iluminado que o criativo e elétrico Mozart enxergava. Porém quando seu pai morre, o reflexo imediato vem em sua próxima ópera, sem cores, obscura e até mesmo fantasmagórica. E na medida em que Mozart vai enlouquecendo, a fotografia cada vez menos colorida e menos viva apenas reflete seu estado mental. Destaca-se também o ótimo trabalho de som, que capta com clareza cada instrumento das precisas composições. Finalmente, nem precisaríamos citar a maravilhosa trilha sonora de John Strauss, que espalha a vasta e deliciosa obra de Mozart por todo o filme.

Ao ouvir a experiência de Salieri ser contada para o Padre, praticamente podemos sentir sua tristeza e decepção por não ter nascido com o talento que aquele “jovem irreverente e obsceno” tinha graças ao magnífico desempenho de F. Murray Abraham. Observe como ele narra a história com paixão, demonstrando através do olhar, do tom de voz e de cada gesto, o forte sentimento de frustração que amargurava ao relembrar a história que viveu com o gênio. A fala precisa, pausada e com boa entonação garante um tom emocionado à narração. Sua feição enquanto conta a história denota uma tristeza incontida por não ter tido o talento do rival, refletida também na fotografia obscura. Por outro lado, sempre que pode Salieri deixa claro sua admiração pelo trabalho de Mozart. Sua emoção é palpável ao ouvir as músicas dele, às vezes até fazendo-o chorar. Observe como uma simples troca de olhares entre os presentes, quando Mozart começa a tocar e melhorar a música criada por Salieri na sala do Imperador – causando o espanto de todos com o talento dele – provoca um sorriso forçado de Salieri, que na realidade sentia inveja. Quando descreve para o Padre seu plano para matar o rival, Abraham transmite muita emoção, olhando para as mãos ao dizer que “planejar a morte de alguém é fácil, mas fazer o serviço com as próprias mãos não é”. “Como se mata um homem? Como é que se faz isso?” diz ele, numa das mais espetaculares cenas do filme.

Mas porque todo este ódio por parte de Salieri? A resposta está no talento do personagem que dá nome ao filme, Wolfgang Amadeus Mozart. Interpretado com muita energia por Tom Hulce, Mozart era dono de um talento absurdo para compor musica, o que o tornava um gênio, acima de todos os outros compositores de sua época. Apresentado como um jovem cheio de alegria quando persegue uma garota, percebemos através de um simples jogo de palavras que ele faz com ela a incrível velocidade de seu raciocínio. Desinibido e irreverente, como podemos perceber quando desafia o arcebispo em seu próprio palácio, abrindo à porta para que este escute os aplausos à sua música, Mozart era – como ele mesmo dizia – um homem vulgar. Mas sua música não era. Hulce demonstra a ansiedade do gênio de forma competente, como podemos observar quando o Imperador vai emitir uma opinião sobre sua música e faz uma pausa. Seu olhar arregalado, sua fala presa na boca e a respiração ofegante demonstram que ele mal podia esperar para ouvir a opinião dele. Jovial e descompromissado, ele tocava seu noivado enquanto se divertia, até ser desmascarado. Observe seu claro desconforto quando madame Cavalieri descobre que ele é noivo de Constanze (Elizabeth Berridge). Ele mal sabe para qual delas olhar. Também é marcante a engraçada e aguda risada criada por Hulce, que caracteriza muito bem o excêntrico personagem. Após se tornar um homem de família, Mozart valoriza muito a esposa, como fica claro em sua discussão com o pai, assim como é interessante notar como ele observa atentamente as reações do filho em uma ópera, demonstrando uma clara preocupação com o gosto do garoto. Mas a vida do gênio não era um mar de rosas. A inveja de Salieri criava problemas em sua vida (e se é verídico ou não, não é relevante neste caso), como a proibição de um balé em uma de suas óperas, a obrigação de fazer teste para dar aulas à filha do Imperador e, principalmente, a assombração do fantasma do pai que o levaria à morte. O teste, aliás, levanta uma interessante questão. Porque os melhores têm que ser tratados como os outros? Porque gênios devem se igualar aos medíocres? Quando afirma ser o melhor compositor, Mozart escuta que um pouco de humildade lhe faria bem. Por quê? A genialidade deve ser exaltada, e não igualada ao restante das pessoas. E é irônico notar como foi justamente em Salieri que Mozart encontrou alguém capaz de entender perfeitamente a grandiosidade de sua obra. Nem mesmo a ópera que fez o Imperador dormir desagradou ao rival (num paralelo interessante com o próprio cinema, onde a maioria do público não compreende obras que exijam um esforço intelectual maior). Sabendo do peso que seu pai representava, Salieri arquiteta um plano cruel, que vai lentamente degradando Amadeus, e fazendo com que ele se afunde na bebida, algo peculiar à maioria dos gênios. Normalmente dedicados àquilo em que são excepcionais, não conseguem ter uma vida normal, tendo muitos vícios e, não raramente, dificuldades financeiras. Mozart era assim. Precisando de dinheiro, se entregou à música popular e fez sucesso, mas jamais escondeu seu embaraço, como podemos notar quando pergunta à Salieri o que achou de sua ópera, somente para dizer depois que era “apenas um vaudeville”.

Durante a maravilhosa seqüência em que Mozart e Salieri trabalham juntos na criação de uma ópera (que ironicamente seria sobre a própria morte de Amadeus) podemos notar o fascinante processo de criação de um gênio. É notável sua agilidade, empolgação e paixão pelo que faz, assim como é assombrosa a sua facilidade para compor. Salieri, por outro lado, era talentoso, mas não era gênio, e por isso demonstra enorme dificuldade em acompanhar o raciocínio de Mozart. Também por isso, não se contentava com seu talento. Ao perceber que Amadeus se alegrava com sua ajuda e reconhecimento, provavelmente Salieri gostaria de voltar atrás, percebendo finalmente que mesmo sem o talento dele, sua existência era importante de alguma forma. Mas era tarde demais. A degradação e a loucura de Mozart o levaram ao fim. E a culpa seria o fardo pesado que Salieri levaria pelo resto da vida.

“Amadeus” mostra como a inveja corrói um ser humano. Frustrado por não ter conseguido ser aquilo que sonhou, Salieri sentia inveja, misturada com grande admiração pelo trabalho de Mozart, que segundo ele, era o próprio Deus fazendo música. A chuva, a trilha melancólica e a fotografia escura demonstram a tristeza dele no enterro do gênio. Mais triste ainda são as palavras finais de Salieri: “Medíocres em toda parte, eu os absolvo. Sou o campeão dos medíocres”. Não há problema algum em não ser gênio, isto é privilégio de poucos. O problema é deixar a frustração corroer sua alma e o levar a invejar alguém mais talentoso. Salieri se intitulava o campeão dos medíocres. Forman não pode dizer o mesmo. E Amadeus, o filme, está bem longe de ser medíocre. Pelo contrário, trata-se de uma obra que encantaria até mesmo o gênio que a inspirou.

Texto publicado em 28 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira

SCARFACE (1983)

(Scarface)

 

Videoteca do Beto #29

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran e Al Israel.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Martin Bregman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scarface é um filme violento. O mundo em que é ambientado também. E é exatamente por retratar com muita veracidade o perigoso e sanguinário mundo do tráfico de drogas que o grande filme dirigido por Brian De Palma acerta em cheio e agrada bastante. É claro, o carisma e o talento de Al Pacino na criação de um personagem absolutamente fascinante, por mais nojento e sem escrúpulos que seja, colabora e muito para o sucesso do longa. E é justamente este personagem que, aliado à violência gráfica e a dinâmica das cenas criadas por De Palma, consegue fazer de Scarface um filme empolgante.

Em Maio de 1980, Fidel Castro abriu o porto de Mariel, em Cuba, com a aparente intenção de liberar os cubanos para visitar seus familiares nos Estados Unidos. Em menos de 72 horas, as três mil embarcações que chegaram a Cuba perceberam que não só os civis embarcavam, mas também todos os tipos de criminosos, que eram obrigados por Castro a deixar o país. Entre eles estava Tony Montana (Al Pacino), que pouco tempo depois de chegar à Miami, começa a trabalhar pra o chefão do tráfico local. Será apenas questão de tempo para que Tony passe por cima de todos e alcance o topo da organização criminosa, conquistando tudo que desejava: poder, dinheiro e Elvira (Michelle Pfeiffer), a mulher de seus sonhos.

Scarface começa, acertadamente, descrevendo a situação política que levou o criminoso Tony Montana de Cuba até os EUA. A legenda e o vídeo mostram a saída dos exilados, deixando claro em que circunstâncias aquelas pessoas estavam deixando o país de Fidel, resultando numa invasão de criminosos latinos em Miami. Esta ótima introdução do filme é mérito do bom roteiro de Oliver Stone, que desenvolve muito bem os personagens e cria uma cadeia de relacionamentos responsável pelo crescimento, e posteriormente, pela queda trágica de Tony. O roteiro tem o mérito ainda de mostrar sem constrangimentos como funciona o mundo do crime, através de um diálogo entre Tony e um policial na boate. Com um bom roteiro em mãos, o talentoso Brian De Palma abusa do estilo e da elegância na criação de planos ousados e travellings, como na cena em que a câmera sai do meio da revolta na prisão e vai até o local onde Rebenga será morto, ou em outro momento ainda mais inspirado, em que o travelling vai desde o quarto do Hotel onde Tony e um amigo estão acuados até o carro onde Manny (Steven Bauer) paquera uma garota, somente para voltar ao banheiro do hotel logo em seguida, onde podemos ouvir o som da serra elétrica já atacando o amigo de Tony. Nos retorcemos na cadeira e nos desesperamos, torcendo para que os amigos cheguem à tempo de salvá-lo. De Palma é competente também no extremo realismo das cenas, que muitas vezes apenas sugerem o que acontece, como nesta do banheiro, onde podemos ver o sangue espirrando na cortina ao som da serra elétrica. Muitas outras cenas se destacam, como o tiroteio na boate, que é o estopim para o grande salto de Tony, a pesada morte de Frank (quando o diretor mostra o relógio apontando três horas e volta para Frank, sabemos que ele vai morrer), a simbólica cena em que Tony olha para o balão com a frase “O mundo é seu” e o belo clipe que mostra a construção do império Montana (a negociação com o banco, o casamento, o salão de beleza para a irmã). Além disso, De Palma demonstra sensibilidade naquela que talvez seja a cena com a maior carga emocional do longa: a triste morte de Manny. De certa forma previsível, devido ao temperamento explosivo de Tony, a cena não deixa de ser chocante e a câmera lenta diminui o impacto no espectador, ao mesmo tempo em que realça as reações dos personagens, principalmente de Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio).

Mas se Tony é um criminoso tão podre e desprezível, porque torcemos tanto pelo seu sucesso? O segredo está na excelente introdução do personagem. Quando vemos Tony Montana pela primeira vez, ele está numa posição altamente vulnerável, cercado por policiais, sendo interrogado e claramente acuado. Até o movimento de câmera (na altura da visão dele e mostrando os policiais da cintura pra baixo) influencia em nossa identificação, fazendo com que o espectador também se sinta intimidado. Esta ligação criada no começo do filme será o elo para que, mesmo rejeitando grande parte das atitudes de Montana, o espectador torça pelo seu sucesso, ou pelo menos, por sua salvação. Colabora, é claro, o grande talento e carisma de Al Pacino, e sua atuação é espetacular. Com sotaque perfeito, olhar desconfiado e provocador, oscilações repentinas no tom de voz, poucos sorrisos e mostrando claramente a obstinação em alcançar o topo (“Neste país, primeiro é necessário ganhar dinheiro, depois poder e só depois as mulheres”), ele cria um criminoso mais que temível. Sua fala é sempre convicta. Tony não tem piedade, não teme ninguém e não respeita nenhuma regra. Sua ética se resume a não matar mulheres e crianças inocentes. Por outro lado, seu frio coração é capaz de demonstrar sentimentos também. O primeiro deles é a verdadeira obsessão pela mulher de Frank (Robert Loggia), o chefão do crime na cidade. Elvira é uma mulher sensual, que mais parece um troféu do que uma pessoa para Tony. E ele não sossega enquanto não a conquista, somente para depois tratá-la de forma desprezível. Os outros sentimentos são por aquela que talvez seja a única pessoa que ele ama de verdade, sua irmã Gina. O olhar dele quando vê a irmã dançando – reforçado pela trilha e pelo close em seus olhos – indica a fúria que sentia ao imaginar que alguém pudesse fazer mal a ela. Extremamente ciumento e super protetor, não permite que sua irmã cuide da própria vida, o que não deixa de ser egoísta da parte dele. Egoísmo e ganância, aliás, são palavras que definem muito bem a personalidade de Montana. Ele critica o capitalismo, mas nas palavras de Elvira, “é o maior capitalista” que ela já conheceu. Seu palácio demonstra o quanto gostava de ostentar riqueza, com objetos dourados e luxuosos (Direção de Arte de Edward Richardson). Em uma discussão dentro dele com Elvira e Manny, expõe todo seu egoísmo, dizendo que não precisa de ninguém. O criminoso até ensaia uma auto-reflexão num jantar com a esposa e o amigo, onde bêbado, questiona o que conquistou com o dinheiro (“Então é isso… Bebidas, comidas, cocaína, chegar aos cinqüenta anos barrigudo e com o fígado estragado… Foi pra isso que trabalhei tanto?”), mas, diante de tantos aspectos podres, o único que se salva mesmo é a sua decisão de não matar mulheres e crianças, que fica evidente na forte cena em que mata um comparsa para evitar uma tragédia (o que, ironicamente, leva ao seu fim).

Nos restante do elenco, o maior destaque fica para Mary Elizabeth Mastrantonio, muito bem como Gina, a irmã de Tony, como podemos observar na cena dentro do banheiro, quando se revolta contra o irmão, e no final do filme, quando explode contra ele. Fica evidente quando Montana tenta cuidar dela, já morta, que seu sentimento era muito difícil de entender, até mesmo pra Gina. Cego, ao tentar protegê-la, impedia que ela vivesse e fosse feliz. Michele Pfeifer tem atuação irregular como Elvira, uma mulher que despreza aquelas pessoas ao mesmo tempo em que não consegue largar o luxo que elas proporcionam. Pfeifer fracassa na cena mais dramática, dentro do restaurante, não mostrando a agressividade que o momento pedia. Por outro lado, vai muito bem quando é irônica, como quando diz que não entra no carro de Tony (gerando um olhar muito engraçado de Pacino para o Cadillac), além de demonstrar sutilmente seu interesse por Tony dando um leve sorriso quando ele coloca um chapéu feminino. Já a atuação de Miriam Colon como a mãe de Tony merece grande destaque, como podemos perceber logo em sua primeira aparição, demonstrando que não teme o criminoso e nem o respeita. Ele é uma decepção na vida dela e Colon deixa isto bem claro, de forma explosiva. F. Murray Abraham interpreta sem muito destaque o criminoso Omar e a forte cena de sua execução mostra que não existe lealdade neste mundo do tráfico. Completando o elenco, Steven Bauer tem boa atuação como Manny Ray, o amigo fiel de Tony, sempre tentando controlar os impulsos do parceiro. Malando, sabe exatamente os seus limites, como deixa claro na conversa com Gina no carro. O curioso é que justamente quando achou que podia cruzar esta linha, Manny encontrou a morte. E claro, vale a pena citar a engraçada reação de Arnaldo Santana, que interpreta Earnie, quando Montana, após matar Frank, pergunta pra ele: “Quer um emprego Earnie? Me liga amanhã”.

Tecnicamente, Scarface é muito competente. A montagem de Gerald B. Greenberg e David Ray é ágil e mantém o ritmo empolgante da narrativa (em certo momento faz uma interessante transição no tempo através dos ponteiros do relógio), enquanto o som funciona muito bem, por exemplo, durante o tiroteio no Hotel, onde podemos ouvir os gritos das pessoas na rua e nos quartos ao lado. A trilha sonora alterna momentos delicados, especialmente quando envolve as mulheres, com momentos de ritmo acelerado, principalmente nas cenas de ação. Observe como na primeira aparição de Elvira, a trilha sonora (reforçada pelo olhar fixo dele) indica o interesse de Tony por ela. A direção de fotografia de John A. Alonzo mistura as tradicionais sombras dos filmes de gângster com o festival de cores da cidade de Miami.

Scarface apresenta o mundo do tráfico de forma crua, sem jamais tentar discuti-lo, se resumindo a mostrar da forma mais violenta possível como se vive neste meio. Desta forma, evita criar um debate, por exemplo, sobre os motivos que levam alguém a vender, comprar ou utilizar drogas. Tony até tenta argumentar que o governo não quer autorizar a legalização porque todos ganham com isso (o próprio governo, a policia e os traficantes), o que merece discussão. Mas o propósito do filme não é este. O plano de Tony com quilos de cocaína em volta dele demonstra visualmente como aquela droga e o poder que ela trouxe engoliram o criminoso. Ele foi tragado pelo poder, pela ganância, e destruiu sua vida. Mesmo assim, o durão e destemido vilão não cai com as balas, num final que remete à “Touro Indomável”, quando La Motta diz que seu adversário não o derrubou. Mas Montana, ao contrário de La Motta, não resistiu ao último golpe, e o tiro de misericórdia o jogou na piscina, enfeitada com o irônico letreiro “o mundo é seu”. Tony desejou o mundo e o teve, mas este mesmo mundo o destruiu.

Mostrando a ascensão e queda de um dos maiores criminosos já retratados em celulóide, Scarface consegue causar impacto através de imagens chocantes, realistas e extremamente violentas. Por outro lado, cria empatia com o espectador, graças a um personagem que, mesmo sendo uma pessoa absolutamente desprezível do ponto de vista ético e moral, consegue ser fascinante. O mérito é da excelente direção de Brian De Palma e da grande atuação de Al Pacino. A ambição de Tony o levou ao topo e também o derrubou. A ambição de Brian De Palma e Al Pacino nos brindou com um grande filme. E este não vai cair, nem mesmo com o tempo.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira