VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

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O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

(Ladyhawke)

 

Videoteca do Beto #35

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Matthew Broderick, Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina, Giancarlo Prete, Loris Loddi, Alessandro Serra, Nicolina Papetti, Charles Borromel e Ken Hutchinson.

Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Produção: Richard Donner e Lauren Shuler Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O tema universal do amor impossível é o fio condutor deste simpático “O Feitiço de Áquila”, aventura medieval interessante e consideravelmente criativa dirigida pelo subestimado Richard Donner. Sua premissa inteligente já seria suficiente para garantir doses respeitáveis de drama e romantismo, mas este pequeno conto medieval vai além, apresentando uma estória encantadora, com boas atuações e uma direção competente. Por isso, mesmo apresentando pequenos defeitos, consegue envolver o espectador de maneira bastante agradável.

No século XII, a pequena cidade européia de Áquila é o palco para uma incrível história de amor. Ao perceber que sua amada Isabeau (Michelle Pfeiffer) está apaixonada pelo líder de sua guarda – o cavaleiro Navarre (Rutger Hauer) – o Bispo de Áquila (John Wood), enlouquecido de ciúme, lança uma terrível maldição sobre o casal. Durante o dia ela se transforma em um falcão e durante a noite ele se transforma em um lobo, impedindo assim que o casal consiga viver o seu amor. Mas a fuga de Phillipe Gaston (Matthew Broderick) da prisão da cidade e a inesperada ajuda do Padre Imperius (Leo McKern) será a luz de esperança que o casal precisava para finalmente poder ser feliz.

A premissa de “O Feitiço de Áquila” é muito interessante e inegavelmente criativa. O casal Navarre e Isabeau funciona como uma metáfora para o sol e a lua, que assim como os dois pombinhos (ou seria falcão e lobo?), nunca se encontram. Desta forma, o sempre atraente tema do amor impossível toma formas ainda mais dramáticas, impossibilitando até mesmo o contato físico entre os dois amantes. Os animais em que ambos se transformam também foram cuidadosamente escolhidos, já que o falcão é um conhecido símbolo de beleza, enquanto o lobo é um animal normalmente solitário – além do fato de ambos serem monogâmicos, como o próprio Navarre diz em certo momento. Até mesmo o uivo triste do lobo se encaixa perfeitamente ao lamento eterno de Navarre, o que se revela outra interessante sacada do inteligente roteiro de Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Com um bom roteiro nas mãos, Richard Donner consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, mantendo a atenção do espectador constantemente, sem por isso deixar de criar uma crescente expectativa para o esperado reencontro do casal. Dentro da proposta do filme faz um excelente trabalho, deixando a narrativa se desenvolver de forma leve e divertida. Infelizmente, os vilões (no caso, a guarda do Bispo) não conseguem representar uma série ameaça, soando patéticos sempre que tentam atacar Phillipe e Navarre, o que impede que tenhamos a sensação de que a missão do casal corra realmente algum perigo. Além disso, as cenas de luta são pouco verossímeis, dando a sensação de que Phillipe e Navarre são super-heróis. E quando finalmente acontece o grande momento do reencontro do casal, por mais que seja uma bela cena, não consegue atender à expectativa criada devido à falta de emoção dos atores. Felizmente, o foco principal da narrativa se mantém na impossibilidade do casal se encontrar e o sofrimento que isto representa, e neste aspecto, Donner consegue sucesso absoluto.

Outro fator que conquista a simpatia do espectador é a presença do engraçado Phillipe Gaston, mais conhecido como “o rato”. Matthew Broderick surpreende com uma excelente atuação desde o primeiro momento em que surge no meio da lama, fugindo da prisão de Áquila. Alegre, com ótimo timing cômico e bastante solto, ele é o elo entre o espectador e o casal, sendo responsável também pelas melhores piadas do filme, como a brincadeira que faz com o cavalo “Golias” ao dizer que precisa lhe contar a história de Davi. Rutger Hauer consegue transmitir a angústia de Navarre na maior parte do tempo, além de mostrar a frieza esperada de um homem amargurado como ele. Firme no papel do “mocinho que salvará a princesa”, consegue sucesso nas cenas de combate, mas falha no momento mais importante dramaticamente, que é o reencontro com Isabeau. Mesmo assim, consegue fazer com que o espectador torça pelo sucesso de sua jornada e se identifique com o drama do casal. Merece grande destaque a excelente atuação de Leo McKern como o arrependido Padre Imperius. Observe como ele transmite toda a amargura do personagem, na bela cena em que conta a triste história da origem do feitiço para Phillipe. Notável também é a imponente figura do Bispo, interpretado de forma cruel por John Wood, e que representa o poder da Igreja católica naquele período. Vale observar como Donner constantemente filma o bispo por baixo, de forma que ele sempre pareça grande na tela, simbolizando seu poder. Finalmente, chegamos à personagem que dá nome ao filme (no original, em inglês). Michelle Pfeiffer, com sua beleza estonteante, cai muito bem no papel da donzela que embala os sonhos de Navarre (e até mesmo de Phillipe, como ele mesmo confessa). Carismática, consegue transmitir emoção durante os angustiantes segundos em que vê o amado como humano, e seu triste semblante ao se transformar em falcão novamente é tocante. Suas aparições noturnas, normalmente envolta em sombras, acentuam ainda mais o brilho de seu olhar e de sua beleza. Por outro lado, ainda que demonstre mais emoção que Hauer, Pfeiffer também falha no momento alto do romance, quando os dois finalmente se reencontram. Felizmente, sua alegria espontânea no último plano do filme recupera parte de seu prestígio e esta pequena escorregada não impede que o espectador se satisfaça com o final feliz do casal.

“O Feitiço de Áquila” conta também com um bom trabalho técnico, especialmente pela citada agilidade da narrativa, que é mérito também da boa montagem de Stuart Baird. Os figurinos de Nanà Cecchi e a bela direção de arte de Ken Court e Giovanni Nataluci conferem realismo à cidade medieval, repleta de montanhas nevadas, masmorras, castelos e catedrais belíssimas, enquanto a direção de fotografia de Vittorio Storaro explora muito bem as lindas paisagens da região. Além disso, Storaro capta com precisão os lindos momentos em que o sol surge e desaparece no horizonte, que também tem importante função narrativa, destacando o marcante contraste entre a noite e o dia. A trilha sonora acelerada e moderna de Andrew Powell não é coerente com a época retratada, se redimindo na linda cena do vôo do falcão sobre o rio, com um tom melancólico e belo. Os efeitos especiais não conseguem alcançar o realismo necessário nas transformações do casal, apelando para truques de montagem, mas nem por isso comprometem o resultado final. De certa forma, exige algo a mais da imaginação do espectador, o que é sempre bom.

Mesmo com os problemas citados, “O Feitiço de Áquila” consegue manter seu encanto. O duelo de cavaleiros dentro da Igreja funciona enquanto os cavalos estão em cena. Quando a luta passa a ser corpo a corpo, a falta de realismo demonstrada em todo o filme volta a aparecer, com escapadas exageradas de Navarre. Curioso notar também como todos na igreja ficam simplesmente olhando, como se fosse um espetáculo e não uma briga que colocaria em risco a vida do bispo, que até então não apresentava motivos para ser odiado por aquelas pessoas. De todo modo, o duelo final tem emoção e se estabelece como um grande momento do longa. Nada comparado, porém, a mais bela cena do filme, que acontece no breve encontro entre Navarre e Isabeau durante a transição da noite para o dia. Enquanto o sol lentamente espalha seus raios pela superfície, podemos testemunhar em câmera lenta os breves segundos em que os amantes podem se ver ainda como humanos, antes que Isabeau se transforme em falcão novamente. A montagem joga imagens na tela que simbolizam sua transformação, enquanto a câmera lenta tem a importante função de prolongar este prazeroso momento para o espectador, por mais que em tempo real ele dure apenas alguns segundos. Um grande momento, capaz de emocionar ao mais frio dos espectadores.

A terrível maldição que assola o casal é repleta de simbolismo e é um prato cheio para provocar lágrimas nos casais apaixonados. “Sempre juntos, eternamente separados” é a frase dita por Phillipe Gaston, que representa muito bem o drama vivido pelo casal. O previsível final feliz neste caso é muito bem-vindo e agrada em cheio ao espectador, que testemunha durante quase todo o tempo o sofrimento quase palpável de Navarre e Isabeau, aliviado apenas pela simpatia do divertido Gaston. Mesmo com pequenos problemas, “O Feitiço de Áquila” é simpático o suficiente para atrair a atenção do espectador e a linda história de amor que o embala é inegavelmente envolvente.

Texto publicado em 12 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

SCARFACE (1983)

(Scarface)

 

Videoteca do Beto #29

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Al Pacino, Steven Bauer, Michelle Pfeiffer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colon, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna, Michael P. Moran e Al Israel.

Roteiro: Oliver Stone.

Produção: Martin Bregman.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Scarface é um filme violento. O mundo em que é ambientado também. E é exatamente por retratar com muita veracidade o perigoso e sanguinário mundo do tráfico de drogas que o grande filme dirigido por Brian De Palma acerta em cheio e agrada bastante. É claro, o carisma e o talento de Al Pacino na criação de um personagem absolutamente fascinante, por mais nojento e sem escrúpulos que seja, colabora e muito para o sucesso do longa. E é justamente este personagem que, aliado à violência gráfica e a dinâmica das cenas criadas por De Palma, consegue fazer de Scarface um filme empolgante.

Em Maio de 1980, Fidel Castro abriu o porto de Mariel, em Cuba, com a aparente intenção de liberar os cubanos para visitar seus familiares nos Estados Unidos. Em menos de 72 horas, as três mil embarcações que chegaram a Cuba perceberam que não só os civis embarcavam, mas também todos os tipos de criminosos, que eram obrigados por Castro a deixar o país. Entre eles estava Tony Montana (Al Pacino), que pouco tempo depois de chegar à Miami, começa a trabalhar pra o chefão do tráfico local. Será apenas questão de tempo para que Tony passe por cima de todos e alcance o topo da organização criminosa, conquistando tudo que desejava: poder, dinheiro e Elvira (Michelle Pfeiffer), a mulher de seus sonhos.

Scarface começa, acertadamente, descrevendo a situação política que levou o criminoso Tony Montana de Cuba até os EUA. A legenda e o vídeo mostram a saída dos exilados, deixando claro em que circunstâncias aquelas pessoas estavam deixando o país de Fidel, resultando numa invasão de criminosos latinos em Miami. Esta ótima introdução do filme é mérito do bom roteiro de Oliver Stone, que desenvolve muito bem os personagens e cria uma cadeia de relacionamentos responsável pelo crescimento, e posteriormente, pela queda trágica de Tony. O roteiro tem o mérito ainda de mostrar sem constrangimentos como funciona o mundo do crime, através de um diálogo entre Tony e um policial na boate. Com um bom roteiro em mãos, o talentoso Brian De Palma abusa do estilo e da elegância na criação de planos ousados e travellings, como na cena em que a câmera sai do meio da revolta na prisão e vai até o local onde Rebenga será morto, ou em outro momento ainda mais inspirado, em que o travelling vai desde o quarto do Hotel onde Tony e um amigo estão acuados até o carro onde Manny (Steven Bauer) paquera uma garota, somente para voltar ao banheiro do hotel logo em seguida, onde podemos ouvir o som da serra elétrica já atacando o amigo de Tony. Nos retorcemos na cadeira e nos desesperamos, torcendo para que os amigos cheguem à tempo de salvá-lo. De Palma é competente também no extremo realismo das cenas, que muitas vezes apenas sugerem o que acontece, como nesta do banheiro, onde podemos ver o sangue espirrando na cortina ao som da serra elétrica. Muitas outras cenas se destacam, como o tiroteio na boate, que é o estopim para o grande salto de Tony, a pesada morte de Frank (quando o diretor mostra o relógio apontando três horas e volta para Frank, sabemos que ele vai morrer), a simbólica cena em que Tony olha para o balão com a frase “O mundo é seu” e o belo clipe que mostra a construção do império Montana (a negociação com o banco, o casamento, o salão de beleza para a irmã). Além disso, De Palma demonstra sensibilidade naquela que talvez seja a cena com a maior carga emocional do longa: a triste morte de Manny. De certa forma previsível, devido ao temperamento explosivo de Tony, a cena não deixa de ser chocante e a câmera lenta diminui o impacto no espectador, ao mesmo tempo em que realça as reações dos personagens, principalmente de Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio).

Mas se Tony é um criminoso tão podre e desprezível, porque torcemos tanto pelo seu sucesso? O segredo está na excelente introdução do personagem. Quando vemos Tony Montana pela primeira vez, ele está numa posição altamente vulnerável, cercado por policiais, sendo interrogado e claramente acuado. Até o movimento de câmera (na altura da visão dele e mostrando os policiais da cintura pra baixo) influencia em nossa identificação, fazendo com que o espectador também se sinta intimidado. Esta ligação criada no começo do filme será o elo para que, mesmo rejeitando grande parte das atitudes de Montana, o espectador torça pelo seu sucesso, ou pelo menos, por sua salvação. Colabora, é claro, o grande talento e carisma de Al Pacino, e sua atuação é espetacular. Com sotaque perfeito, olhar desconfiado e provocador, oscilações repentinas no tom de voz, poucos sorrisos e mostrando claramente a obstinação em alcançar o topo (“Neste país, primeiro é necessário ganhar dinheiro, depois poder e só depois as mulheres”), ele cria um criminoso mais que temível. Sua fala é sempre convicta. Tony não tem piedade, não teme ninguém e não respeita nenhuma regra. Sua ética se resume a não matar mulheres e crianças inocentes. Por outro lado, seu frio coração é capaz de demonstrar sentimentos também. O primeiro deles é a verdadeira obsessão pela mulher de Frank (Robert Loggia), o chefão do crime na cidade. Elvira é uma mulher sensual, que mais parece um troféu do que uma pessoa para Tony. E ele não sossega enquanto não a conquista, somente para depois tratá-la de forma desprezível. Os outros sentimentos são por aquela que talvez seja a única pessoa que ele ama de verdade, sua irmã Gina. O olhar dele quando vê a irmã dançando – reforçado pela trilha e pelo close em seus olhos – indica a fúria que sentia ao imaginar que alguém pudesse fazer mal a ela. Extremamente ciumento e super protetor, não permite que sua irmã cuide da própria vida, o que não deixa de ser egoísta da parte dele. Egoísmo e ganância, aliás, são palavras que definem muito bem a personalidade de Montana. Ele critica o capitalismo, mas nas palavras de Elvira, “é o maior capitalista” que ela já conheceu. Seu palácio demonstra o quanto gostava de ostentar riqueza, com objetos dourados e luxuosos (Direção de Arte de Edward Richardson). Em uma discussão dentro dele com Elvira e Manny, expõe todo seu egoísmo, dizendo que não precisa de ninguém. O criminoso até ensaia uma auto-reflexão num jantar com a esposa e o amigo, onde bêbado, questiona o que conquistou com o dinheiro (“Então é isso… Bebidas, comidas, cocaína, chegar aos cinqüenta anos barrigudo e com o fígado estragado… Foi pra isso que trabalhei tanto?”), mas, diante de tantos aspectos podres, o único que se salva mesmo é a sua decisão de não matar mulheres e crianças, que fica evidente na forte cena em que mata um comparsa para evitar uma tragédia (o que, ironicamente, leva ao seu fim).

Nos restante do elenco, o maior destaque fica para Mary Elizabeth Mastrantonio, muito bem como Gina, a irmã de Tony, como podemos observar na cena dentro do banheiro, quando se revolta contra o irmão, e no final do filme, quando explode contra ele. Fica evidente quando Montana tenta cuidar dela, já morta, que seu sentimento era muito difícil de entender, até mesmo pra Gina. Cego, ao tentar protegê-la, impedia que ela vivesse e fosse feliz. Michele Pfeifer tem atuação irregular como Elvira, uma mulher que despreza aquelas pessoas ao mesmo tempo em que não consegue largar o luxo que elas proporcionam. Pfeifer fracassa na cena mais dramática, dentro do restaurante, não mostrando a agressividade que o momento pedia. Por outro lado, vai muito bem quando é irônica, como quando diz que não entra no carro de Tony (gerando um olhar muito engraçado de Pacino para o Cadillac), além de demonstrar sutilmente seu interesse por Tony dando um leve sorriso quando ele coloca um chapéu feminino. Já a atuação de Miriam Colon como a mãe de Tony merece grande destaque, como podemos perceber logo em sua primeira aparição, demonstrando que não teme o criminoso e nem o respeita. Ele é uma decepção na vida dela e Colon deixa isto bem claro, de forma explosiva. F. Murray Abraham interpreta sem muito destaque o criminoso Omar e a forte cena de sua execução mostra que não existe lealdade neste mundo do tráfico. Completando o elenco, Steven Bauer tem boa atuação como Manny Ray, o amigo fiel de Tony, sempre tentando controlar os impulsos do parceiro. Malando, sabe exatamente os seus limites, como deixa claro na conversa com Gina no carro. O curioso é que justamente quando achou que podia cruzar esta linha, Manny encontrou a morte. E claro, vale a pena citar a engraçada reação de Arnaldo Santana, que interpreta Earnie, quando Montana, após matar Frank, pergunta pra ele: “Quer um emprego Earnie? Me liga amanhã”.

Tecnicamente, Scarface é muito competente. A montagem de Gerald B. Greenberg e David Ray é ágil e mantém o ritmo empolgante da narrativa (em certo momento faz uma interessante transição no tempo através dos ponteiros do relógio), enquanto o som funciona muito bem, por exemplo, durante o tiroteio no Hotel, onde podemos ouvir os gritos das pessoas na rua e nos quartos ao lado. A trilha sonora alterna momentos delicados, especialmente quando envolve as mulheres, com momentos de ritmo acelerado, principalmente nas cenas de ação. Observe como na primeira aparição de Elvira, a trilha sonora (reforçada pelo olhar fixo dele) indica o interesse de Tony por ela. A direção de fotografia de John A. Alonzo mistura as tradicionais sombras dos filmes de gângster com o festival de cores da cidade de Miami.

Scarface apresenta o mundo do tráfico de forma crua, sem jamais tentar discuti-lo, se resumindo a mostrar da forma mais violenta possível como se vive neste meio. Desta forma, evita criar um debate, por exemplo, sobre os motivos que levam alguém a vender, comprar ou utilizar drogas. Tony até tenta argumentar que o governo não quer autorizar a legalização porque todos ganham com isso (o próprio governo, a policia e os traficantes), o que merece discussão. Mas o propósito do filme não é este. O plano de Tony com quilos de cocaína em volta dele demonstra visualmente como aquela droga e o poder que ela trouxe engoliram o criminoso. Ele foi tragado pelo poder, pela ganância, e destruiu sua vida. Mesmo assim, o durão e destemido vilão não cai com as balas, num final que remete à “Touro Indomável”, quando La Motta diz que seu adversário não o derrubou. Mas Montana, ao contrário de La Motta, não resistiu ao último golpe, e o tiro de misericórdia o jogou na piscina, enfeitada com o irônico letreiro “o mundo é seu”. Tony desejou o mundo e o teve, mas este mesmo mundo o destruiu.

Mostrando a ascensão e queda de um dos maiores criminosos já retratados em celulóide, Scarface consegue causar impacto através de imagens chocantes, realistas e extremamente violentas. Por outro lado, cria empatia com o espectador, graças a um personagem que, mesmo sendo uma pessoa absolutamente desprezível do ponto de vista ético e moral, consegue ser fascinante. O mérito é da excelente direção de Brian De Palma e da grande atuação de Al Pacino. A ambição de Tony o levou ao topo e também o derrubou. A ambição de Brian De Palma e Al Pacino nos brindou com um grande filme. E este não vai cair, nem mesmo com o tempo.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira