VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

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TRAFFIC (2000)

(Traffic)

 

 

Videoteca do Beto #241

Dirigido por Steven Soderbergh.

Elenco: Benicio Del Toro, Jacob Vargas, Tomas Milian, Clifton Collins Jr., Don Cheadle, Luis Guzmán, Miguel Ferrer, Catherine Zeta-Jones, Steven Bauer, Dennis Quaid, Michael Douglas, Amy Irving, Erika Christensen, Topher Grace, James Brolin, Albert Finney, Benjamin Bratt, Yul Vazquez, Salma Hayek e Peter Riegert.

Roteiro: Stephen Gaghan.

Produção: Laura Bickford, Marshall Herskovitz e Edward Zwick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entrelaçar várias linhas narrativas não era exatamente uma novidade quando “Traffic” chegou aos cinemas na virada do milênio. Vários cineastas de peso já haviam feito algo parecido até então. Também não tinha nada de novo em abordar o tráfico de drogas e seus trágicos efeitos sociais. Diversos filmes tentaram, sob diferentes pontos de vista e com maior ou menor sucesso, fazer isso. No entanto, a razão do sucesso do longa dirigido com maestria por Steven Soderbergh reside exatamente na mistura das duas coisas. Dando vida a um roteiro ambicioso que trazia nada menos que 110 personagens, o diretor conseguiu traçar um complexo painel sobre o tema, fugindo de estereótipos e maniqueísmos e deixando claro que trata-se de uma questão muito mais ampla, profunda e difícil do que sugerem as soluções prontas e simplistas que ainda hoje ouvimos por aí.

Escrito por Stephen Gaghan, “Traffic” nos apresenta ao juiz Robert Wakefield (Michael Douglas) quando este se prepara para assumir o cargo de chefe da luta contra o tráfico de drogas em Washington enquanto sua filha Caroline (Erika Christensen) se aprofunda no vício, algo que sua esposa Barbara (Amy Irving) já sabia há algum tempo. Em San Diego, o figurão do tráfico Carlos Ayala (Steven Bauer) é preso, para surpresa de sua esposa Helena (Catherine Zeta-Jones) que se sente obrigada a inteirar-se dos negócios do marido e acaba envolvendo-se em busca da manutenção do padrão de vida que tinha, sem saber que está sendo monitorada pelos policiais Ray (Luis Guzmán) e Montel (Don Cheadle), que também têm a missão de manter o pequeno traficante Eduardo Ruiz (Miguel Ferrer) sob custódia, pois ele é parte chave da investigação contra Ayala. Enquanto isso, o policial mexicano Javier Rodriguez (Benicio Del Toro) acompanha o trabalho do general Salazar (Tomas Milian), que supostamente tenta desmontar o cartel de Tijuana.

Como fica evidente no parágrafo anterior, “Traffic” se propõe a analisar a questão das drogas em suas várias camadas de maneira contundente, abordando desde a dificuldade de controlar as fronteiras e de rastrear os poderosos que controlam o tráfico até a forma como as drogas estão disseminadas em todas as classes sociais. Neste sentido, é interessante como o longa jamais cai na tentação de colar rótulos, mostrando como um traficante de armas como Francisco Flores (Clifton Collins Jr.) pode perfeitamente morar em San Diego nos Estados Unidos e, ainda assim, ter influência no tráfico do outro lado da fronteira. Da mesma forma, podemos acompanhar jovens ricos que abusam das drogas enquanto discutem um tema qualquer, ao passo em que nas periferias muitas vezes a venda ilegal dos narcóticos representa uma oportunidade que muitos dali raramente teriam de obter lucros altíssimos, algo que boa parte da fatia rica da população certamente faria se estivesse naquela situação, como fica evidente no excelente diálogo entre Seth (Topher Grace) e Robert num carro sobre a realidade do tráfico de drogas que provoca esta reflexão.

Conduzindo esta intricada narrativa de maneira firme, Soderbergh nos brinda com momentos de alta tensão como a negociação entre Ray, Montel e Ruiz logo no início que desencadeia um tiroteio e uma perseguição pelas ruas de San Diego. Abusando da câmera de mão, o diretor confere um ar documental ao longa que se encaixa muito bem no tom proposto e aumenta a sensação de realismo e a imersão do espectador naquele universo. Também é muito interessante a forma como os personagens se cruzam fisicamente em vários instantes de maneira orgânica e natural, evidenciando com sutileza como todos estão de alguma forma interligados. Obviamente, a montagem de Stephen Mirrione é crucial neste processo, mantendo o espectador igualmente interessado nas três linhas narrativas através da forma que alterna entre elas, sem jamais parecer se estender demais em alguma delas.

Ainda mais impactante é a fotografia do próprio Steven Soderbergh (que usa o pseudônimo Peter Andrews), que além de ajudar o espectador a se situar através dos diferentes filtros, de quebra traz também funções narrativas. Assim, enquanto o visual amarelado reforça o calor e o clima seco do México, fazendo com que o espectador sinta-se sufocado naquele ambiente hostil, os tons azulados em Washington servem não apenas para realçar a frieza do universo político onde decisões que custarão milhares de vidas são tomadas, mas também para transmitir o desconforto crescente de Robert ali. Já em San Diego, as cores naturais simbolizam o ponto de equilíbrio entre os tons predominantes daqueles dois universos distantes, já que naquele ambiente os efeitos das ações de ambos se cruzam, como fica evidente quando dois agentes norte-americanos se encontram com Javier numa piscina, onde o brilho do sol mistura-se ao azul da piscina. Fechando a parte técnica, vale destacar também a trilha sonora de Cliff Martinez, que com suas notas longas e uso de sintetizadores, amplia a tensão em diversos momentos.

O outro grande mérito de Soderbergh reside nas excelentes atuações que ele consegue extrair de seu vasto elenco, a começar por Tomas Milian, que confere dualidade ao general Salazar em momentos como quando ele se aproxima de Flores, dando a entender que iria protegê-lo das desumanas torturas apenas para, em seguida, obter a informação que precisava. Ainda no México, Benicio Del Toro oferece uma atuação estupenda como Javier, um personagem complexo que precisa se adaptar e sobreviver num ambiente extremamente hostil, algo que faz com maestria graças a sua habilidade de ler o cenário em que está inserido e agir de acordo com o que cada situação exige.

Catherine Zeta-Jones também está muito bem como Helena, vivendo um arco dramático interessante na pele da esposa que não sabia (ou não queria saber) a natureza real dos negócios do marido e que acaba assumindo as rédeas, chegando a viajar para o México para negociar diretamente com os fornecedores. Esta mudança começa a ficar evidente, por exemplo, durante o julgamento de Carlos, quando a câmera que foca constantemente nela ao invés do marido realça a importância daquela ocasião para a personagem. Em certo momento, ela diz que seu filho não irá viver na pobreza que ela viveu, evidenciando que seria capaz de fazer qualquer coisa para manter o status que tinha atingido. Ciente desta característica de Helena, Arnie (Dennis Quaid) se aproveita da situação e se envolve com a esposa de seu sócio, reforçando como não existem inocentes neste verdadeiro jogo de interesses. Do lado de fora da mansão, Luis Guzmán e Don Cheadle nos divertem com os diálogos entre Ray e Montel, como aquele em que falam sobre o vício de um deles no cigarro e quando Ray afirma que sonhava com o momento em que pegaria figurões, ricos e brancos cometendo um crime.

Núcleo dramaticamente mais pesado da narrativa, a família Wakefield simboliza perfeitamente a hipocrisia da chamada guerra ao tráfico, como fica evidente quando a Barbara de Amy Irving menciona a própria juventude para contrapor os argumentos do marido e lembrá-lo que ela também já usou drogas ou quando joga na cara dele o seu vício em bebidas – e repare como ele reage negativamente afirmando que não pode ser considerado alcóolatra, como se o vício dele fosse diferente dos demais. Por sua vez, Erika Christensen rouba a cena com sua ótima atuação na pele da viciada Caroline, destacando-se em diversos momentos, como quando demonstra sua resignação no primeiro encontro com outros viciados, deixando evidente que não estava preparada para aquilo, mas principalmente nas crises provocadas pelas drogas, quando surge com olhar arregalado e a boca entreaberta, praticamente nos fazendo sentir o prazer e a dor da personagem com suas expressões. E finalmente, Michael Douglas compõe com sutileza e sensibilidade um homem que, entre um copo e outro de uísque, tenta conciliar a árdua tarefa profissional que lhe foi atribuída com a ainda mais difícil missão de compreender o universo da filha viciada, completando seu arco dramático em dois momentos comoventes, primeiro num quarto de hotel e depois quando interrompe um discurso pré-fabricado para dizer o que realmente pensa, abandonar o cargo e escancarar a posição antiguerra às drogas do filme.

Instantes antes de seu personagem ser envenenado, Miguel Ferrer tem seu grande momento na pele de Ruiz ao oferecer uma visão muito interessante sobre a inutilidade do trabalho daqueles policiais que, digamos, estão apenas enxugando gelo, num dos inúmeros instantes em que “Traffic” critica abertamente a falida guerra às drogas – e a cena do envenenamento, aliás, também é muito bem conduzida pelo diretor, fazendo com que o previsível desfecho soe verossímil. A belíssima sequência final em que crianças mexicanas jogam basebol sob as luzes que iluminam o campo exatamente como sonhado por Javier, que contempla tudo aquilo embalado pela bela trilha sonora, evoca uma certa esperança sem soar como uma solução fácil para um problema extremamente complexo. Afinal, não custa sonhar com um futuro onde jovens de periferia possam passar suas noites divertindo-se e praticando esportes ao invés de lutarem para sobreviver diante do medo provocado por políticas míopes criadas por pessoas distantes daquela realidade.

Ambicioso e extremamente bem conduzido, “Traffic” é um libelo contra a inútil guerra ao tráfico, traçando um amplo painel político e social sobre um tema tantas vezes tratado de maneira simplista. Ao contrário do que pregam pessoas com pensamento binário e, pior ainda, poderosos que vivem de frases de efeito para ganhar projeção, a questão das drogas não tem solução fácil e, como fica evidente no longa, atinge todas as camadas da sociedade em maior ou menor grau, com resultados trágicos para muitas delas – sejam os que sofrem os efeitos do vício, sejam aqueles que são diretamente afetados não pelas drogas em si, mas pela imbecil guerra que traz o conflito para dentro das periferias, enquanto os que realmente faturam com aquilo dormem tranquilos em seus bairros de elite em países como os Estados Unidos ou o Brasil.

Texto publicado em 22 de Março de 2019 por Roberto Siqueira

BOOGIE NIGHTS – PRAZER SEM LIMITES (1997)

(Boogie Nights)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #170

Dirigido por Paul Thomas Anderson.

Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, Heather Graham, Don Cheadle, John C. Reilly, Luis Guzmán, William H. Macy, Alfred Molina, Philip Seymour Hoffman, Melora Walters, Thomas Jane, Philip Baker Hall e Joanna Gleason.

Roteiro: Paul Thomas Anderson.

Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons e Joanne Sellar.

Boogie Nights – Prazer sem Limites[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Paul Thomas Anderson tinha apenas um filme no currículo quando “Boogie Nights – Prazer sem Limites” chegou aos cinemas, chamando a atenção não apenas pelos virtuosismos técnicos e narrativos do diretor/roteirista, mas também por seu elenco igualmente numeroso e talentoso. Abordando um universo nada convencional e trazendo inúmeros personagens interessantes, o longa sinalizava claramente que um grande diretor estava chegando para ficar, confirmando ainda o enorme talento de atores como Mark Wahlberg, Julianne Moore, John C. Reilly, William H. Macy e Philip Seymour Hoffman, além é claro do veterano Burt Reynolds.

Escrito pelo próprio Anderson, “Boogie Nights” narra a trajetória de ascensão e queda de Eddie Adams (Mark Wahlberg), um jovem que é descoberto pelo grande cineasta pornô Jack Horner (Burt Reynolds) e acaba se tornando o grande astro do meio, já sob o nome artístico de Dirk Diggler. Lá, ele conhece a famosa Amber Waves (Julianne Moore), uma das muitas pessoas extravagantes que frequentam as agitadas festas recheadas com muito álcool e cocaína, além é claro do próprio sexo. Mas esta vida de excessos obviamente não permitiria que eles saíssem ilesos daquilo tudo.

O primeiro grande desafio de “Boogie Nights” começa no próprio roteiro, que consegue a proeza de criar uma estrutura narrativa interessante e desenvolver bem seus muitos personagens através de linhas narrativas paralelas que eventualmente se cruzam durante a trama. Além disso, Anderson tem o mérito de criar empatia com a plateia mesmo num universo claramente distante da maioria dos espectadores e que normalmente é visto com reservas pelo público através de personagens que fogem de estereótipos e se tornam mais humanos aos nossos olhos graças também ao talento dos atores.

Mas se o roteiro chama a atenção, atrás das câmeras Anderson não fica atrás, dando um show de direção com seus movimentos elegantes como o belíssimo plano-sequência que passeia pelos personagens espalhados na casa noturna e nos ambienta àquele submundo logo na abertura do longa. Movimento de câmera sempre chamativo, o plano-sequência (que viria a se tornar uma marca registrada do diretor) surge em outros diversos momentos de “Boogie Nights”, como na primeira festa na casa de Jack e na excelente sequência em que acompanhamos a trajetória de Bill (William H. Macy) na noite em que ele mata sua mulher e se suicida. O diretor é competente também na utilização de técnicas mais simples, como os closes em objetos que muitas vezes enfatizam a sensibilidade aguçada daqueles personagens, os inúmeros planos que trazem o uso explícito de cocaína e ilustram a trajetória de autodestruição daquele grupo e os planos fechados que realçam o espanto das pessoas diante dos atributos físicos de Eddie que garantem seu sucesso na indústria pornográfica.

Passeia pelos personagensPrimeira festa na casa de JackNoite em que ele mata sua mulherContando com a ajuda do diretor de fotografia Robert Elswit, Anderson cria um universo colorido que, além de ilustrar a intensidade com que aquelas pessoas viviam e enxergavam o mundo, ainda mostra-se coerente com a época em que se passa à narrativa. No entanto, o diretor e seu diretor de fotografia são inteligentes o bastante para mudar este aspecto quando necessário, como na briga de Eddie com sua mãe em que os personagens surgem mergulhados nas sombras, ampliando a sensação sufocante do momento. Repare ainda como a imagem surge granulada em alguns instantes, especialmente quando vemos as filmagens dos controversos longas dirigidos por Jack – numa alusão a natureza “B” destas produções -, e compare com as cenas ultra coloridas e repletas de luzes na casa noturna e nas festas.

Briga de Eddie com sua mãeFilmagens dos controversos longasLuzes na casa noturnaColoridos também são os figurinos de Mark Bridges, que reforçam o visual bem anos 70, assim como a fantástica trilha sonora de Michael Penn é muito coerente com a época, com suas músicas animadas e chamativas. Realçando traços da personalidade de Eddie através da decoração de seu quarto repleto de pôsteres de carros, mulheres e Bruce Lee, o design de produção de Bob Ziembicki mantém a coerência na nova casa dele, com cômodos chamativos e nada discretos como o quarto oriental que escancara sua admiração pelo ícone das artes marciais, inteligentemente demonstrada anteriormente e que refletiria também em sua carreira como ator depois que ele viesse a ganhar poder e passasse a interferir na trama das produções.

Coloridos figurinosPôsteres de carros, mulheres e Bruce LeeQuarto orientalEssencial num filme com tantas linhas narrativas paralelas, a montagem de Dylan Tichenor consegue evitar que a narrativa se torne confusa, mantendo o espectador interessado no que acontece mesmo com tantos personagens e ainda nos brindando com elegantes transições como aquela que sai de Jack sentado na cadeira observando o desempenho de Eddie e vai para a mãe do garoto sentada na cadeira esperando sua chegada.

E já que falamos em desempenho, a grande atuação de praticamente todo o elenco de “Boogie Nights” dificulta muito a tarefa de apontar destaques. Mesmo atores com participações menores chamam a atenção, como é o caso de William H. Macy na pele de Bill, o pobre homem constantemente humilhado pela esposa que encontra uma maneira trágica de solucionar a situação. John C. Reilly confirma seu talento como o acelerado Reed e Philip Seymour Hoffman está excelente como o afeminado Scotty J., demonstrando com sutileza sua atração por Dirk através do olhar e da expressão corporal quanto está diante dele, destacando-se ainda na cena do carro novo em que tenta beijar o amigo a força e se arrepende logo em seguida.

Bill constantemente humilhado pela esposaAcelerado ReedAfeminado Scotty J.Entre os personagens com mais tempo em cena, Burt Reynolds tem presença marcante como o centrado Jack Horner, o cérebro que faz toda aquela engrenagem funcionar e que sonha em realizar um filme pornográfico significante, mas que tem dificuldade para compreender os caminhos que a indústria seguiria após tantos anos de sucesso. Quase sempre ao seu lado, Julianne Moore dá vida a doce e sensual Amber com muita competência, comovendo a plateia quando assume sua verdadeira identidade e demonstra o quanto Maggie sofre por não poder ver seu filho, especialmente na cena da audiência que culmina em seu choro devastador. Tanto ela quanto a Patinadora vivida por Heather Graham são pessoas carentes que encontram consolo uma na outra, mas Amber é mais complexa, exalando este lado terno e maternal com a mesma naturalidade com que lida com o vício em cocaína e o sexo profissional. E no centro de todo este turbilhão está Mark Wahlberg, que constrói o astro Dirk com precisão, passando do garoto simpático e carismático que conquista as pessoas em volta para um egocêntrico e nojento superstar de maneira convincente.

Centrado Jack HornerDoce e sensual AmberAstro DirkNum momento brilhante, Anderson expõe a decadência geral daquelas pessoas através de duas ações paralelas que dialogam entre si, com Jack e a Patinadora espancando um homem na rua exatamente da mesma forma que um grupo de jovens faz com Dirk, como se fosse um acerto de contas entre os pilares da discussão que levou a destruição da bem sucedida parceria entre eles – um momento, aliás, que exemplifica bem a violência gráfica que permeia a narrativa. Além disso, o diretor também brinda a plateia com cenas extremamente tensas, como o assalto à loja de Donut´s e especialmente a angustiante negociação na casa de um traficante, na qual a música alta, os explosivos e os próprios diálogos deixam personagens e plateia com os nervos à flor da pele. E finalmente, a conversa de Dirk com o espelho exatamente como fez Jake La Motta em “Touro Indomável” faz uma referência óbvia à outra trajetória de ascensão e queda.

Jack e a Patinadora espancando um homemGrupo de jovens agride DirkAssalto à loja de Donut´sApós tantas menções ao órgão sexual do garoto, Paul Thomas Anderson finalmente revela a razão de seu sucesso naquela indústria, numa cena explícita que poderia soar gratuita, mas que neste caso – com o perdão do trocadilho – se encaixa perfeitamente à narrativa. Mas se a superficialidade é algo inerente às produções pornográficas, “Boogie Nights” tem muito mais a dizer do que sua embalagem chamativa faz parecer, trazendo reflexões a respeito de questões delicadas como a dependência química e o abuso de menores, além de tratar os excessos dos personagens e suas consequências de maneira ambígua.

Se por um lado temos a maneira preconceituosa como a sociedade vê aquele mundo na audiência de Maggie e na tentativa frustrada de conseguir crédito para abrir uma loja de aparelhos de som de um ator pornô (Don Cheadle), por outro vemos como aquela vida de excessos pode realmente ser muito prejudicial – e o momento mais emblemático neste sentido é quando Maggie é acusada em juízo de usar drogas e prontamente nega, sabendo que a verdade neste caso só a afastaria ainda mais do filho. É como se “Boogie Nights” erguesse um painel com os prós (glamour, dinheiro, carrões, sexo fácil, festas) e contras (baixa escolaridade, preconceito, afastamento da família, dificuldade para sair do ramo, vício em drogas) deste complexo e desconhecido universo.

Angustiante negociação na casa de um traficanteTentativa frustrada de conseguir créditoMaggie é acusada em juízo de usar drogasClaramente influenciado por cineastas geniais como Martins Scorsese (no aspecto visual) e Robert Altman (na estrutura narrativa), Paul Thomas Anderson fincou de vez o pé na indústria de Hollywood com o belíssimo trabalho feito em “Boogie Nights”, demonstrando capacidade para conduzir um grande elenco e extrair excelentes atuações de praticamente todos eles. O resultado é um filme simultaneamente delicioso e sombrio, que aborda um segmento polêmico da indústria sem jamais soar panfletário ou careta, mas que nem por isso esconde os riscos que oferece para aqueles que decidem se aventurar nele.

Boogie Nights – Prazer sem Limites foto 2Texto publicado em 09 de Junho de 2013 por Roberto Siqueira