VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

BRAVURA INDÔMITA (2010)

(True Grit)

 

Filmes em Geral #81

Dirigido por Joel Coen e Ethan Coen.

Elenco: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Doomhall Gleeson, Elizabeth Marvel, Leon Russom, Ed Corbin, Paul Rae, Nicholas Sadler, Bruce Green, Dakin Matthews, Brian Brown e Philip Knobloch.

Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen, baseado em livro de Charles Portis.

Produção: Scott Rudin, Joel Coen, Ethan Coen e Steven Spielberg.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmagem do longa que rendeu o único Oscar da carreira de John Wayne, este belo “Bravura Indômita” confirma o talento dos irmãos Coen ao trazer, além de imagens belíssimas e ótimas atuações, uma surpreendente abordagem clássica de um gênero quase extinto, é verdade, mas que sempre rende ótimos filmes quando pessoas talentosas resolvem investir nele. É uma pena, portanto, que os estúdios (e o público!) não estimulem a produção dos chamados westerns, pois o mais americano dos gêneros já provou inúmeras vezes que pode nos brindar com maravilhas como esta dirigida pelos Coen.

Escrito pelos próprios Joel e Ethan Coen com base no romance de Charles Portis, “Bravura Indômita” narra a história de Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota de apenas 14 anos que parte em busca de vingança após seu pai ser assassinado por Tom Shaney (Josh Brolin). Para isto, ela resolve contratar o agente federal J. Cogburn (Jeff Bridges), que após recusar a proposta inicial, acaba aceitando a oferta. Só que o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon) também está perseguindo o criminoso por causa de outro crime ocorrido em seu estado.

Como de costume, os diálogos escritos pelos Coen são um espetáculo à parte, desta vez chamando a atenção por surgirem realistas em sua simplicidade, refletindo a brutalidade daquelas pessoas movidas por um código de honra próprio que normalmente busca defender valores familiares (Mattie) e até mesmo suas origens (LaBoeuf). Por outro lado, o humor negro marcante dos Coen aparece pouco desta vez (como quando o índio sequer pode falar suas últimas palavras antes do enforcamento), o que não quer dizer que o bom humor não esteja presente, como podemos notar quando LaBoeuf passa a falar com dificuldade após quase perder a língua – num momento divertido da atuação de Damon – e quando eles disputam quem tem a melhor mira durante a viagem – agora num momento de destaque de Bridges, que cai do cavalo totalmente sem jeito e mal consegue mirar corretamente graças à bebedeira.

Mostrando um amadurecimento louvável, os Coen conduzem a narrativa de maneira direta e sem invencionismos, recheando a narrativa com planos belíssimos que poderiam ser transformados em quadros, numa abordagem classicista que John Ford teria orgulho de assinar. Responsáveis também pela ótima montagem, eles empregam um ritmo contemplativo coerente com o gênero, fugindo da abordagem subversiva tão comum em sua filmografia. Além disso, eles conduzem os grandes momentos do longa com tranqüilidade, como na cena em que Cogburn e Mattie observam à distancia uma cabana, repleta de tensão, especialmente porque a câmera subjetiva nos coloca na posição deles. O uso da câmera subjetiva, aliás, surge também em planos similares que revelam a visão de Mattie nos braços de Cogburn quando ela deixa o derradeiro confronto e quando ela deixa seu cavalo morto para trás. Por sua vez, a beleza plástica de “Bravura Indômita” surge logo em seu plano inicial, quando a câmera, embalada pela linda trilha sonora e pela narração poética da protagonista, lentamente revela o corpo do pai dela na entrada de um saloon.

Empregando um nostálgico tom sépia, o grande Roger Deakins cria um visual árido e colabora na elaboração destes lindos planos, explorando com maestria a paisagem e destacando-se também nos ambientes fechados que são banhados pelos raios solares – como no julgamento de Cogburn -, além de criar um visual fascinante nas cenas noturnas e até mesmo na neve – note, por exemplo, a iluminação marcante da cena em que Cogburn assassina um homem dentro de uma cabana à noite (também marcada pela violência gráfica e realista). Em certo momento, um trem de ferro se move e revela ao fundo a bela cidade típica do velho oeste, que realça o ótimo design de produção de Stefan Dechant e Christina Ann Wilson, notável também quando Cogburn é encontrado dormindo nos fundos de uma venda chinesa através dos patos mortos pendurados, da desgastada cama de cordas e dos objetos espalhados por todo o local que refletem o estado de espírito do personagem.

Colaborando na tarefa de ambientar o espectador à época da narrativa, os impecáveis figurinos de Mary Zophres também merecem destaque, especialmente pelos detalhes nas botas de LaBoeuf e pelas roupas sempre pretas de Mattie, que ilustram seu luto eterno. E fechando a competente parte técnica de “Bravura Indômita”, a trilha sonora de Carter Burwell confere uma aura clássica ao longa, empregando interessantes variações da linda “Leaning on the Everlasting Arms”.

Vivendo Mattie como uma garota decidida e sempre dura nas negociações, Hailee Steinfeld tem uma ótima atuação, sobressaindo-se até mesmo nos duelos verbais com os ótimos Matt Damon e Jeff Bridges. Movida por um desejo de vingança e um imutável código de honra, a garota transmite a sensação de que nada a impedirá de alcançar seu objetivo. Exatamente por isso, sua reação chega a ser comovente no único momento em que Mattie surge vulnerável, quando, após ouvir Cogburn dizer que a abandonará, praticamente implora à LaBoeuf que não desista da perseguição – e repare como a chuva torna a cena ainda mais sufocante, refletindo a angústia da garota. Da mesma forma, seu rosto expressivo cede lugar à sutileza quando ela sorri levemente ao perceber que convencerá o dono do estábulo a comprar seus pôneis, o que só confirma a qualidade de seu desempenho.

Introduzido com competência na narrativa, Cogburn rapidamente nos apresenta características importantes de sua personalidade através da forma irritada que responde às perguntas de Mattie de dentro da latrina. Em seguida, seu jeito debochado no julgamento confirma sua personalidade conturbada, numa cena em que vale observar também como os Coen atrasam ao máximo a revelação de seu rosto, com a câmera subjetiva simulando a visão de Mattie. Conferindo carisma e ambigüidade ao personagem, Bridges tem um excepcional desempenho, com sua voz alterada e rouca, a dificuldade de pronunciar certas palavras e a oscilação de humor que revelam a instabilidade daquele homem explosivo e quase sempre alcoolizado, mas que guarda valores admiráveis – como descobriremos no terceiro ato. Matt Damon, por sua vez, confere uma interessante tridimensionalidade ao seu Texas Ranger, que surge inicialmente como um homem atrapalhado, mas ganha força nas discussões com Cogburn e, especialmente, ao conquistar o respeito de Mattie com o passar do tempo. Ambos, aliás, protagonizam instantes aparentemente despretensiosos que servem como preparação para o clímax da narrativa, quando Cogburn conta como conseguiu vencer sozinho sete homens armados (e a forma como Bridges conta a história faz o espectador acreditar nele) e quando LaBoeuf fala sem tanta convicção das proezas de sua arma, capaz de acertar alvos muito distantes.

Despretensioso também é o encontro entre Mattie e Tom Shaney, que dá inicio ao clímax da narrativa. Interpretado por Josh Brolin, Shaney é o bandido ignorante que se meteu numa enrascada e não sabe como sair dela, agindo de maneira sempre instintiva, o que também lhe coloca em situações perigosas – aqui, leva um tiro por menosprezar a garota. Entretanto, o bandido jamais soa caricato ou unidimensional, exatamente pela forma como Brolin confere vulnerabilidade ao personagem. Ainda assim, ele consegue seqüestrar a intempestiva Mattie, o que nos leva ao esperado confronto entre os “bandidos” e os “mocinhos” (assim, entre aspas mesmo). O tiroteio realista traz Cogburn enfrentando quatro homens armados, num confronto conduzido de maneira primorosa pelos irmãos Coen, especialmente depois que ele cai ferido e passamos a acompanhar a cena sob o ponto de vista de LaBoeuf, que atira e nos faz torcer para que o inimigo caia do cavalo – o que acontece alguns (longos) segundos depois.

O final poético de “Bravura Indômita” então começa a ganhar forma quando Mattie atira em Tom Shaney e, como Cogburn alertou que aconteceria, é jogada para trás, caindo num enorme buraco e sendo picada por uma cobra antes que o agente federal consiga retirá-la de lá. Desesperado para salvar a valente garota, ele parte numa linda cavalgada noite adentro, embalada pela marcante trilha sonora e repleta de planos memoráveis sob a neve. A seqüência final traz a adulta Mattie de volta à cidade e confirma que seu esforço valeu à pena. Ambos encontraram no outro o papel que faltava em suas vidas. Enquanto Mattie sentiu nos braços de Cogburn o carinho perdido com a morte do pai, Cogburn teve a chance de se redimir após o fim do relacionamento conturbado com seu filho. E enquanto ela se afasta do túmulo de Cogburn e a trilha embala os créditos finais, temos a sensação de que algo realmente marcante está chegando ao fim.

Recheado de imagens belíssimas e trazendo personagens marcantes, esta refilmagem de “Bravura Indômita” comprova a versatilidade dos irmãos Coen e a competência de atores como Bridges e Damon. Revelando ainda o talento da jovem Steinfeld, o longa revigorou um gênero quase sempre esquecido, mas sempre capaz de nos presentear com bons filmes.

Texto publicado em 16 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

OS GOONIES (1985)

(The Goonies)

 

Videoteca do Beto #57

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Lupe Ontiveros, Mary Ellen Trainor, Keith Walker e Paul Tuerpe.

Roteiro: Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg.

Produção: Harvey Bernhard e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseada em estória de Steven Spielberg, esta deliciosa aventura juvenil dirigida pelo versátil e competente Richard Donner brinda o espectador com uma narrativa muito interessante, capaz de prender a atenção durante todo o longa e que conta ainda com algumas cenas simplesmente inesquecíveis. A excelente interpretação coletiva de um elenco jovem e muito competente – que conta com nomes como Josh Brolin e Sean Astin – é a cereja do bolo deste leve e delicioso “Os Goonies”, que marcou toda uma geração de cinéfilos pelo mundo, abordando temas recorrentes da adolescência, como o fortalecimento das amizades e a descoberta do sexo.

Prestes a deixar o local onde vivem, um grupo de adolescentes que se intitula “os Goonies” resolve organizar uma cerimônia de despedida do local e dos próprios integrantes do grupo. Mas ao descobrir o mapa de um tesouro perdido, resolvem partir em busca do misterioso tesouro para evitar a venda e demolição das casas onde moram.

O inteligente roteiro de Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg, mistura muito bem a ação e o humor, algo que fica ainda mais evidente graças à dinâmica montagem de Michael Kahn, que imprime um ritmo ágil à narrativa, bastante apropriado para uma aventura juvenil. Além disso, o roteiro aborda temas marcantes da adolescência, como o estabelecimento de fortes laços de amizade e a descoberta da atração pelo sexo oposto. Afinal de contas, o que seriam “os goonies” senão um grupo de amigos, destes que, ainda que o tempo distancie, guardamos na memória para sempre? Já a descoberta da atração pelo sexo oposto, um momento muito importante na vida de qualquer adolescente, é ilustrada, por exemplo, quando Michael (Sean Astin) acidentalmente beija Andy (Kerri Green), que esperava pelo irmão dele (Brandon, interpretado por Josh Brolin), numa das muitas cenas bem humoradas do longa. A criatividade, marca registrada do filme, aparece logo no início da narrativa, através da forma inteligente com que um dos bandidos foge da prisão, deixando claro desde então quem serão os vilões da estória. A criatividade volta a aparecer em diversos outros momentos, como no interessante método utilizado para abrir o portão dos Walsh e, principalmente, durante toda a aventura dos adolescentes na busca pelo tesouro escondido dentro de uma casa aparentemente abandonada. Além disso, o bom humor permeia toda a narrativa, como na cômica tradução de “Bocão” (Corey Feldman) para as palavras em espanhol da empregada e na acidental quebra da estátua da Sra. Walsh. Neste sentido, também merece destaque a ligação de “Bolão” (Jeff Cohen) para a polícia, que serve como lição nada sutil para crianças mentirosas.

Richard Donner dirige “Os Goonies” com extrema segurança, criando belas seqüências em diversos momentos, como no plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda que revela o local onde a aventura se passará. Em outro momento, o diretor movimenta a câmera rapidamente para a esquerda enquanto cada “goonie” fala uma frase, formando um interessante jogral. Já durante a descida por uma espécie de toboágua, a câmera agitada nos leva pra dentro da cena, conferindo realismo e garantido a emoção. Mas o principal destaque no trabalho de Donner vai mesmo para a direção de atores, que consegue extrair uma performance coletiva de alto nível de um elenco extremamente jovem. O drama familiar da eminente perda da casa motiva os jovens a seguir na busca pelo tesouro. E se nos identificamos e compramos a idéia deles, é devido às boas e convincentes atuações. Todos os nomes do elenco merecem destaque, com atenção especial para Jeff Cohen, que interpreta o “Bolão” e é o dono das melhores cenas do longa. Josh Brolin como Brandon Walsh, Sean Astin como Michael Walsh, Corey Feldman vivendo o “Bocão”, Jonathan Ke Quan como “Data” e Kerri Green interpretando Andy completam o coeso elenco juvenil. Ainda nas atuações, o marcante e deformado Sloth é interpretado por John Matuszak e entre os vilões, o destaque fica para a engraçada Mama Fratelli, muito bem interpretada por Anne Ramsey.

Assim como outro herói de Spielberg (o arqueólogo Indiana Jones), os “goonies” cometem erros constantemente, o que aumenta a empatia do espectador e faz com que este realmente tema pelo destino dos aventureiros. Colabora com este sentimento o fato de Donner não abrir mão da utilização de ameaças reais, como o uso de armas de fogo por parte dos bandidos, o que aumenta a sensação de perigo e transforma os vilões em personagens mais realistas. Mas ainda que o perigo pareça real, o clima alegre e divertido é o que prevalece. Os figurinos coloridos de Linda DeScenna e a trilha sonora divertida e empolgante (típica de aventuras) de Dave Grusin – que conta com música de Cindy Lauper – reafirmam a cara oitentista do filme. A fotografia (Direção de Nick McLean), também bastante colorida, reforça o clima alegre do filme. Além disso, capricha na iluminação e no jogo de luz e sombra, já que boa parte do filme se passa dentro de uma caverna.

A frase de Michael “Willie, você é o primeiro goonie” ilustra muito bem o espírito aventureiro do filme, que agrada em cheio tanto as crianças como os adultos – adultos estes que já foram adolescentes um dia e viveram todas as sensações desta fase tão cheia de dúvidas e, ao mesmo tempo, tão marcante em nossas vidas. Nem mesmo os efeitos visuais que hoje soam ultrapassados devem ser levados em conta na avaliação, já que não são mais importantes que a criativa narrativa do longa. Talvez o único pecado de “Os Goonies” seja mesmo o extenso terceiro ato, que demora demais para encerrar a narrativa após a resolução do principal conflito da trama, que é a descoberta do tesouro. Não fosse este pequeno detalhe, a pérola dirigida por Richard Donner seria um filme praticamente perfeito dentro daquilo que se propõe a fazer.

Extremamente leve e divertido, “Os Goonies” conta com um roteiro criativo e a direção competente de Richard Donner para brindar o espectador com uma aventura juvenil bastante agradável. Abordando temas marcantes da adolescência durante a empolgante jornada, consegue prender a atenção do espectador, que se identifica com diversas situações vividas por aquele grupo de jovens e realmente torce pelo sucesso deles. Por isso, pode-se dizer que “Os Goonies” é uma aventura acima da média, que consegue entreter espectadores de todas as idades de maneira bastante original.

Texto publicado em 09 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira