VINGADORES: ULTIMATO (2019)

(Avengers: Endgame)

 

Lançamentos #2

Dirigido por Anthony Russo e Joe Russo.

Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Brie Larson, Josh Brolin, Paul Rudd, Don Cheadle, Chadwick Boseman, Sebastian Stan, Elizabeth Olsen, Chris Pratt, Vin Diesel, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Evangeline Lilly, Rene Russo, Michelle Pfeiffer, Tilda Swinton, Karen Gillan, Gwyneth Paltrow, Dave Bautista, Benedict Cumberbatch, Tom Hiddleston, Pom Klementieff, Anthony Mackie, Jon Favreau, Tom Holland e Samuel L. Jackson.

Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby.

Produção: Kevin Feige.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Responsável por concluir uma trajetória de 11 anos e nada menos que 22 filmes, “Vingadores: Ultimato” é o capítulo derradeiro de um dos projetos mais ambiciosos da história do cinema, o que, por si só, coloca enorme pressão por um resultado que soe satisfatório não apenas para a horda de fãs de seus personagens tão famosos e queridos, mas também para o espectador comum que passou a acompanhá-los ao longo dos anos. Felizmente, o longa cumpre muito bem sua missão, amarrando de maneira brilhante as pontas soltas até então, concluindo os arcos dramáticos de seus principais personagens e entregando uma série de momentos épicos que fazem o mais frio dos espectadores vibrar diante da telona.

Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado nos personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby, “Vingadores: Ultimato” tem início quando os Vingadores, logo após Thanos (Josh Brolin) pulverizar metade de toda a vida no universo, procuram pelo Titã em busca de vingança e não apenas o encontram com certa facilidade como de fato conseguem matá-lo, só que sua morte não reverte o estrago causado por sua ação. Cinco anos depois, os já cansados e deprimidos heróis são surpreendidos pela reaparição de Scott Lang (Paul Rudd) e, diante de uma informação surpreendente, decidem tentar através da ciência recuperar as joias do infinito e desfazer a tragédia.

Após exterminar boa parte de seus heróis em “Vingadores: Guerra Infinita”, seria preciso de alguma forma trazê-los de volta para o universo Marvel e, assim, garantir a continuidade de franquias lucrativas, por isso, confesso que esperava alguma solução razoavelmente convencional para desfazer o trágico final do filme anterior, o que na época reduziu o impacto dramático daquela conclusão para mim. Só que a solução encontrada pelos roteiristas e diretores neste capítulo derradeiro vai muito além do trivial, demonstrando ousadia, inteligência e conseguindo seu objetivo sem fazer com que o espectador se sinta traído, apostando numa abordagem mais elaborada e criativa que foca boa parte do tempo no impacto daquela tragédia na vida de todos, fazendo com que o público sinta junto com eles o peso da ação de Thanos antes que finalmente surja uma luz no fim do túnel, o que ocorre de uma forma que não apenas cumpre a missão de trazer seus heróis pulverizados de volta num momento chave como também permite que o espectador reviva momentos marcantes de outros filmes através das viagens no tempo, reforçando a nostalgia que este encerramento naturalmente carrega. Ao invés de seguir por um caminho fácil e sem riscos, os irmãos Russo preferem apostar numa solução corajosa e até surpreendente, o que é louvável – e nem mesmo a saída encontrada para resgatar Tony Stark (Robert Downey Jr.) no espaço me incomodou, já que a natureza poderosa da Capitã Marvel (Brie Larson) faz dela a própria Deusa Ex-Machina encarnada e os diretores parecem brincar com isso.

Quem não brinca em serviço é a equipe técnica de “Vingadores: Ultimato”, que mantém o alto padrão estabelecido nos filmes anteriores e nos brinda com momentos visualmente marcantes, começando pelo design de produção de John Plas e Charles Wood, que capricha na criação de cenários impactantes como o local sombrio onde está guardada a joia da alma, onde iremos presenciar um tocante sacrifício, que torna-se ainda mais real e doloroso pela forma convincente como o relacionamento entre a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) se desenvolveu ao longo dos anos. Nós realmente sentimos a dor e o sacrifício dos personagens naquele momento, o que é vital para o sucesso da sequência. Ajudando o espectador a se localizar em cada ambiente, a fotografia de Trent Opaloch caracteriza tempos e locais de maneira distinta, adotando, por exemplo, tons dourados no planeta onde se encontra Thanos no presente, realçando seus poderes quase divinos, enquanto as sequências que acompanham o cotidiano dos fragilizados Vingadores surgem com paletas azuladas, simbolizando a tristeza da vida pós extermínio, assim como as cores sombrias que acompanham a batalha final realçam a tensão do conflito.


Os efeitos visuais como de costume são excepcionais, tornando crível aquele universo fantasioso e trazendo representações criativas para as viagens no tempo e os poderes dos personagens. Da mesma forma, os figurinos de Judianna Makovsky conseguem mais uma vez cumprir a missão de dar vida as funcionais armaduras dos heróis sem jamais fazer com que o espectador saia do filme e lembre estar assistindo uma fantasia. E finalmente, a empolgante trilha sonora de Alan Silvestri ganha destaque em momentos-chave, como o início da missão de volta ao passado em busca das joias do infinito.

Após surpreenderem o espectador ao simplesmente antecipar para o primeiro ato o esperado confronto entre os heróis e Thanos, criando um enorme ponto de interrogação sobre o caminho que tomariam a seguir, os irmãos Russo demonstram controle absoluto sobre a narrativa, permitindo que o segundo ato se desenvolva com calma e ao seu próprio ritmo, passando do luto para a esperança de maneira gradual até finalmente nos conduzir a esperada conclusão épica. Neste sentido, a montagem de Jeffrey Ford e Matthew Schmidt tem papel crucial, acompanhando sem pressa a trajetória de cada personagem nesta fase difícil e saltando bem entre as diferentes linhas narrativas, especialmente durante a execução das três missões paralelas em busca das joias, que trazem momentos muito interessantes no passado, como o diálogo entre Thor e sua mãe (Rene Russo), a luta entre os dois Capitães América e o encontro entre Tony Stark e seu pai (John Slattery), que servem para explorar dilemas dos personagens e fortalecem exponencialmente o arco dramático de todos eles.

Personagem responsável por iniciar toda essa trajetória, o Homem de Ferro é também quem vive o arco dramático mais interessante, transformando-se do milionário egocêntrico que pensava somente em si no herói que irá se sacrificar pelo bem maior, numa conclusão tocante como poucos momentos vividos até então em filmes da Marvel. Da mesma forma, agrada bastante a maneira encontrada pelo Capitão América (Chris Evans) para seguir ajudando as pessoas, algo totalmente apropriado ao personagem, assim como é bem crível que a Viúva Negra continue sendo quem agrega todos eles, por enxergar ali a família que nunca teve. E se o Gavião Arqueiro encontra uma maneira nada honrosa de curar sua dor, Thor (Chris Hemsworth) abraça a desilusão e a depressão causada pela derrota para Thanos e se entrega ao alcoolismo, numa decisão também coerente com a história do personagem. Por sua vez, Hulk (Mark Ruffalo) encontra uma forma de equilibrar suas personalidades conflitantes, o que o transforma num personagem mais leve e divertido.


Com seus personagens bem desenvolvidos ao longo de tantos anos, naturalmente o elenco inteiro mostra-se muito a vontade nos papéis, destacando-se não apenas nos momentos de impacto dramático, que aqui surgem em maior quantidade que o normal, mas também nas costumeiras brincadeiras entre eles, que desta vez soam mais funcionais e divertidas. Enquanto o Homem-Formiga (Paul Rudd) transforma-se no alvo principal do grupo e responsável por boa parte dos momentos de alívio cômico, outros momentos divertem pela desconstrução de seus personagens icônicos, como quando Hulk tira selfie tranquilamente com fãs e, principalmente, na hilária sequência em que Thor surge barrigudo e relaxado, contrariando a aura construída em torno do personagem de forma surpreendente, o que demonstra coragem e funciona muito bem. Vale citar ainda a forma criativa como o relacionamento entre Gamora (Zoe Saldana) e o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) é praticamente levado à estaca zero, ao contrário do caminho trilhado por Nebula (Karen Gillan, que confere expressão a personagem mesmo debaixo de muita maquiagem), que desta vez acaba sendo crucial para ajudar seu pai, mesmo que uma de suas versões não tivesse esta intenção.

Personagem extremamente bem construído no filme anterior, Thanos é um vilão memorável, que faz com que o espectador de fato tema pelo futuro dos heróis, o que é raro em filmes do gênero. Este temor ecoa, é claro, na conclusão de “Vingadores: Guerra Infinita”, mas também vem do respeito que temos por um vilão que foge muito do convencional. Por mais que não caiba justificativa para sua visão distorcida do que fez, entendemos suas motivações e tememos seu poder, o que faz dele um vilão bastante respeitável. Some a isso pequenas ações que humanizam o personagem, como quando ele senta na escada após sua filha dizer que nunca gostou de seu trono, e instantes em que ele contraria nossas expectativas, como quando após chegar ao local da batalha com os heróis, ao invés de simplesmente atacá-los, Thanos senta e espera por eles, até que a luta (muito bem coreografada, por sinal) finalmente comece.


E chegamos então a esperada conclusão, numa batalha épica filmada em escala grandiosa pelos irmãos Russo, que conferem um visual apocalíptico totalmente apropriado ao momento e nos colocam dentro do confronto sem tornar nossa compreensão do espaço confusa, inserindo uma sequência de momentos simbólicos de tirar o fôlego e diversos presentes feitos para emocionar os fãs, como a volta dos personagens mortos em “Guerra Infinita”, na qual vale destacar a expressão do Homem de Ferro ao ver o ressurgimento do Homem-Aranha (Tom Holland), diversas rimas narrativas com outros filmes da franquia, como quando o Capitão América ouve alguém dizer “À sua esquerda”, e frases de efeito como “Eu sou o Homem de Ferro!” – que aqui ganha um significado completamente novo e conclui com perfeição o enorme arco dramático do personagem. Há espaço ainda para pequenas vinganças pessoais, como quando a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) confronta Thanos – num diálogo memorável –, além de momentos esperados há tempos pelos fãs, como quando o Capitão América finalmente consegue levantar o martelo de Thor, numa referência a uma brincadeira entre eles ocorrida em “Vingadores: A Era de Ultron”. É importante dizer que estes inúmeros momentos que buscam satisfazer os anseios dos fãs jamais soam deslocados, sendo integrados de maneira orgânica à narrativa ao mesmo tempo em que demonstram a total compreensão dos diretores sobre o que significa esta conclusão.

E por falar em significados, o momento em que a capitã Marvel surge dos céus para literalmente salvar todos é extremamente simbólico, assim como é emblemático o instante em que ela e as outras heroínas se juntam para atravessar o campo de batalha com a manopla, num recado direto a horda de frustrados que atacou “Capitã Marvel” e a atriz Brie Larson recentemente. Simbólico também é o momento em que o Capitão América, provavelmente o super-herói mais ufanista da Marvel, passa o seu escudo para Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Num país repleto de tensões raciais e num momento em que movimentos como Black Lives Matter são atacados pelo governo conservador que assumiu os Estados Unidos, a Marvel posicionar-se claramente ao entregar seu personagem símbolo do país a um ator negro é digno de aplausos.

Quando acompanhamos o triste ritual de despedida do Homem de Ferro, sabemos que estamos também nos despedindo de uma era – e aquele plano-sequência que acompanha todos os personagens presentes no local evidencia isso. É claro que a franquia continuará seu caminho com filmes de personagens importantes como Pantera Negra (Chadwick Boseman) e os Guardiões da Galáxia, mas o fato é que o funeral de Tony Stark simboliza o fim de um ciclo. Um ciclo que nos divertiu, nos transportou para universos distantes, nos empolgou e, finalmente, nos emocionou. Se para alguns os filmes baseados em quadrinhos são apenas uma forma de escapismo – e obviamente não são –, que bom que podemos buscar refúgio em tempos tão sombrios como os que estamos vivendo hoje. Que o cinema continue sendo esta verdadeira máquina de gerar empatia, capaz de provocar reflexões e também de nos permitir, ainda que somente por alguns instantes, reservar o direito de, como Steve Rogers, viver um momento intimista com pessoas que amamos enquanto o mundo desmorona ao redor.

Texto publicado em 06 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

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UM CRIME PERFEITO (1998)

(A Perfect Murder)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #189

Dirigido por Andrew Davis.

Elenco: Michael Douglas, Gwyneth Paltrow, Viggo Mortensen, David Suchet, Sarita Choudhury, Michael P. Moran, Novella Nelson e Constance Towers.

Roteiro: Patrick Smith Kelly, baseado em peça de Frederick Knott.

Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Peter Macgregor-Scott e Christopher Mankiewicz.

Um Crime Perfeito[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Refilmar um grande clássico do passado é quase sempre um grande desperdício de tempo e dinheiro em minha opinião. Ao invés de investir em versões “modernas” de filmes que já são excelentes, a indústria do cinema deveria mesmo é buscar oferecer ao público novas histórias que pudessem se transformar em filmes clássicos também. Por outro lado, refilmar um clássico é também uma oportunidade de aguçar a curiosidade das novas gerações, chamando a atenção para filmes que, talvez, muitos sequer se interessariam em conhecer, mesmo numa época em que temos fácil acesso à filmografia de diversos grandes diretores e alguns festivais homenageando filmes do passado. Dito isso, é com grande surpresa e satisfação que afirmo: “Um Crime Perfeito” é destas exceções que confirmam a regra, revelando-se uma versão bem interessante de “Disque M para Matar”, clássico inesquecível do grande mestre do suspense – curiosamente, Hitchcock teria outro grande clássico refilmado em 1998, desta vez sem a mesma eficiência.

Adaptado por Patrick Smith Kelly com base na peça de Frederick Knott que, por sua vez, serviu como base para o filme de Hitchcock, “Um Crime Perfeito” nos apresenta ao milionário Steven Taylor (Michael Douglas), um acionista da bolsa de valores que descobre que sua esposa Emily (Gwyneth Paltrow) está tendo um caso com um artista chamado David (Viggo Mortensen). Após descobrir o passado criminoso do rapaz, Steven decide fazer uma proposta milionária para que o amante mate sua mulher, mas algo inesperado coloca em risco toda a operação.

Como podemos notar, “Um Crime Perfeito” tenta reciclar aspectos pontuais de “Disque M para Matar”, trazendo a narrativa para a época atual como forma de facilitar a identificação do espectador. Construindo uma atmosfera de tensão que cresce na medida em que a situação se complica mais e mais, o diretor Andrew Davis obtém sucesso na principal missão da narrativa, chamando a atenção da plateia ainda pelas diversas reviravoltas que contribuem para deixar o espectador sempre grudado na tela.

Por outro lado, o diretor peca pela falta de sutileza em diversos momentos, como na postura desconfiada do Detetive na noite do crime e nos avisos que Steven dá para Emily sobre seus planos (“E se não houver amanhã?”, diz ele em tom ameaçador). Além disso, a sombria trilha sonora de James Newton Howard pontua praticamente todas as cenas de suspense, numa abordagem exagerada que poderia ser evitada – ao menos, a composição de Howard é inspirada e de fato realça a tensão em outros instantes, como na apresentação do bagunçado e obscuro apartamento de Steven concebido pelo design de produção de Philip Rosenberg, que cria logo de cara a atmosfera pretendida pelo diretor. E finalmente, Andrew Davis investe até mesmo em sustos baratos criados puramente através do design de som, como quando Steven surge no espelho enquanto Emily se veste no quarto, acertando ao menos ao homenagear “Disque M para Matar” através do altíssimo toque do telefone.

Visualmente, “Um Crime Perfeito” segue as convenções do gênero, primeiro com a fotografia quase sempre sombria de Dariusz Wolski, que aposta em lugares fechados e no posicionamento estratégico dos pontos de luz, como na cena da proposta em que o rosto dos personagens é parcialmente coberto pelas sombras, numa ilustração visual da personalidade de Steven e David, duas pessoas que escondem seu lado obscuro sob a faceta iluminada que demonstram diante da sociedade.

Bagunçado e obscuro apartamentoSteven surge no espelho enquanto Emily se vesteA proposta

Saindo-se outra vez bem no costumeiro papel do acionista milionário, Michael Douglas impõe respeito com sua voz firme e sua postura corporal sempre agressiva, criando um Steven ameaçador. Desconfiado desde o início, ele lentamente cede espaço para que o ciúme o consuma, demonstrando também uma habilidade ímpar para sair das complicadas situações que surgem em seu caminho após o crime dar errado. Convincente também é a atuação de Gwyneth Paltrow, que surge apaixonada e até mesmo inocente no início, mas transforma-se numa pessoa assustada e deprimida após ser atacada – e o fato dela falar o mesmo idioma do Detetive dá a sensação de que isto teria alguma importância na solução da trama, mas este artifício parece ser descartado pelo roteiro.

Ainda muito jovem, Vigo Mortesen consegue criar razoável empatia com Paltrow, criando um David sedutor e misterioso, numa composição totalmente coerente com o histórico de crimes do personagem. Demonstrando talento nos duelos verborrágicos com Douglas, Mortesen estabelece o equilíbrio de forças entre os integrantes do triângulo amoroso, o que é essencial para que a narrativa funcione tão bem. Desta forma, os três personagens demonstram forças e fraquezas suficientes para que nenhum pareça se sobressair, o que cria a atmosfera de incerteza e tensão ideal. Talvez o único ponto negativo neste aspecto seja o ciúme injustificável e pouco verossímil de David ao vê-la voltando do almoço com o marido, num comportamento que vai contra os princípios do personagem. Por outro lado, os pequenos momentos de alivio cômico funcionam muito bem, como quando Steven brinca com o fato de pagar 100 mil dólares adiantados para David (“Aposto 400 mil que você não foge”).

Steven ameaçadorApaixonada e inocenteDavid sedutor e misteriosoContando com o auxilio de seus montadores Dov Hoenig e Dennis Virkler, Andrew Davis se sai muito bem na condução das cenas chave de “Um Crime Perfeito” – e aqui evito qualquer comparação com Alfred Hitchcock, já que seria não apenas injusto, como também totalmente fora de propósito. Destacando com um plano detalhe o objeto que será essencial na cena do crime, o diretor prolonga a tensão ao máximo até que Emily atenda ao telefone (e aqui sim quem já assistiu “Disque M para Matar” fica na expectativa do ataque repentino), dando início através de um forte susto ao tenso ataque na cozinha, que passará por uma feroz luta corporal até que o mencionado objeto salve a pele dela, num desfecho previsível para o espectador mais atento, mas ainda sim interessante.

Plano detalheEmily atende o telefoneFeroz luta corporalLogo após o assassinato do invasor, alguém diz a seguinte frase na mesa em que Steven joga cartas: “Novo jogo, novo vencedor”, num tipo de sutileza sempre interessante que poderia aparecer mais vezes em “Um Crime Perfeito”. Andrew Davis se sai bem ainda na revelação de que o invasor não era David, estendendo a cena ao máximo até revelar o rosto de outra pessoa debaixo da toca, mas peca pelo exagero nos confrontos extremamente físicos que fecham a narrativa entre David e Steven e entre o casal, mas estes pecadilhos não são suficientes para derrubar a qualidade do longa.

Repaginada inferior, mas eficiente de “Disque M para Matar”, “Um Crime Perfeito” comprova que com criatividade e talento, até mesmo as refilmagens podem se tornar interessantes, desde que tragam uma nova abordagem que justifique a empreitada. É uma pena, portanto, que Gus Van Sant não tenha assistido a este trabalho de Andrew Davis antes de cometer uma heresia que deve ter revirado o mestre do suspense em seu caixão.

Um Crime Perfeito foto 2Texto publicado em 13 de Abril de 2014 por Roberto Siqueira

SHAKESPEARE APAIXONADO (1998)

(Shakespeare in Love)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #188

Vencedores do Oscar #1998

Dirigido por John Madden.

Elenco: Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Geoffrey Rush, Colin Firth, Judi Dench, Tom Wilkinson, Ben Affleck, Martin Clunes, Simon Callow, Imelda Staunton, Steven O’Donnell, Tim McMullan, Rupert Everett, Steven Beard, Antony Sher, Patrick Barlow, Sandra Reinton, Nicholas Boulton, Jim Carter e Roger Morlidge.

Roteiro: Tom Stoppard e Marc Norman.

Produção: Donna Gigliotti, Marc Norman, David Parfitt, Harvey Weinstein e Edward Zwick.

Shakespeare Apaixonado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num ano em que tivemos tantas produções interessantes, “Shakespeare Apaixonado” está longe de merecer todos os prêmios que recebeu, assim como Gwyneth Paltrow jamais deveria vencer o Oscar de Melhor Atriz concorrendo, entre outras grandes atrizes, com a grande atuação de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. No entanto, a temporada de premiações não justifica o ódio coletivo que tomou conta de cinéfilos por todo o mundo pelo longa dirigido por John Madden. Criativo, envolvente e com ótimas atuações (sim!), a história fictícia do romance que inspirou William Shakespeare a escrever seu maior clássico é um filme delicioso, que merece ser admirado pelo que é, ou seja, um bom filme e nada mais.

Escrito por Tom Stoppard e Marc Norman, “Shakespeare Apaixonado” nos traz o famoso personagem título (Joseph Fiennes) no auge de uma crise criativa, impossibilitado de escrever sua nova peça que, inicialmente, deveria se chamar “Romeu e Ethel, a filha do pirata”. No entanto, sua inspiração volta com força total quando ele conhece a bela Viola De Lesseps (Gwyneth Paltrow), uma moça da alta sociedade com quem ele vive um intenso romance proibido, que servirá como base para o seu novo trabalho.

Extremamente bem estruturado e criativo, o roteiro de Stoppard e Norman emprega um tom de fábula à narrativa, trazendo um Shakespeare até mesmo engraçado em seu desespero diante do bloqueio criativo que o acomete. Desenvolvendo ainda outros personagens interessantes como a própria Viola e o espalhafoso, mas adorável Philip Henslowe de Geoffrey Rush, o roteiro escorrega apenas ao criar um Lord Wessex extremamente unidimensional e desprezível, deixando pouco espaço para que Colin Firth demonstre seu talento. Já Tom Wilkinson transmite toda a insegurança de Hugh Fennyman antes de sua participação na peça, num momento singelo e tocante que humaniza um personagem até então pouco significativo, enquanto Judi Dench encarna a poderosa Rainha da Inglaterra com autoridade, transmitindo segurança em cada frase pronunciada, numa participação rápida e eficiente que, ainda assim, jamais justificaria o Oscar que ela recebeu.

Espalhafoso, mas adorável Philip HensloweLord Wessex unidimensionalInsegurança de Hugh FennymanRepleto de diálogos elegantes inspirados na obra de Shakespeare, o roteiro utiliza diversos momentos do romance entre o dramaturgo e Viola como inspiração para passagens famosas da história de Romeu e Julieta, como o encontro na sacada e a noite de amor, que surgem logo após ele viver estas experiências com sua musa inspiradora. O texto faz ainda uma curiosa menção a John Webster, dramaturgo contemporâneo de William Shakespeare que se especializou em peças trágicas como “The White Devil” e “The Duchess of Malfi”.

Conduzindo esta narrativa envolvente com segurança, John Madden tem méritos ainda por tornar crível a relação central da narrativa, já que o sucesso deste romance é essencial para que “Shakespeare Apaixonado” funcione. Obviamente, a boa química entre os atores colabora muito neste sentido. Muito menos talentoso que o irmão famoso, Joseph Fiennes confere leveza e carisma ao dramaturgo, saindo-se muito bem em momentos especiais, como quando conta o final da peça num ensaio, no qual a expressão de alívio misturada com ressentimento em seu rosto transmite a satisfação do autor por ter concluído sua obra e, simultaneamente, a aflição do homem por trás do artista por estar perdendo a mulher amada.

Noite de amorDramaturgoDonzela apaixonadaMulher amada que é vivida por Gwyneth Paltrow, que se sai bem como a donzela apaixonada, pronunciando as lindas frases escritas por Shakespeare com fervor e transmitindo os sentimentos da personagem com precisão. E nem mesmo seu disfarce risível compromete sua atuação, já que a narrativa claramente brinca com este aspecto que poderia soar incômodo, como quando o barqueiro afirma que o disfarce dela “não enganaria uma criança” após revelar para Shakespeare que Thomas Kent, na verdade, é uma mulher. Completando o elenco, Ben Affleck tem uma pequena participação como Ned, que vive Mercutio na peça e é também quem sugere o famoso título “Romeu e Julieta”, enquanto Imelda Staunton vive a engraçada Ama de Viola, remetendo à atuação igualmente simpática de Pat Heywood no filme de Franco Zeffirelli.

Ajudando em nossa completa imersão naquele ambiente, a excepcional reconstituição de Londres concebida pelo design de produção de Martin Childs recria as ruas sujas da cidade com precisão e ainda cria ambientes grandiosos como os teatros e a casa de Viola, assim como a figurinista Sandy Powell capricha nas vestimentas portentosas das pessoas da alta classe, contrastando diretamente com as roupas rasgadas e maltrapilhas da fatia pobre da população, utilizando ainda vestimentas nos ensaios da peça que remetem diretamente ao citado clássico “Romeu e Julieta”, de 1968.

Disfarce risívelReconstituição de LondresVestimentas nos ensaiosAtravés da composição dos planos e da paleta de cores escolhida, Madden e seu diretor de fotografia Richard Greatrex também fazem diversas referências visuais a “Romeu e Julieta”, como na cena do baile e na conversa do casal na sacada. Explorando muito bem a beleza dos cenários, a fotografia de Greatrex se sai ainda melhor nas belas cenas noturnas, que ganham um colorido especial graças às escolhas dos diretores, como na conversa entre Shakespeare e Viola num barco, onde os rostos deles surgem iluminados enquanto o restante do plano é dominado pelas sombras. Madden também compõe belos planos na primeira noite de sexo deles, numa clássica cena de amor hollywoodiana que funciona muito bem aqui pelo carisma dos personagens e pelas escolhas estilísticas do diretor.

Ainda na parte técnica, a montagem de David Gamble confere um ritmo agradável ao longa, servindo também para escancarar a fonte de inspiração de Shakespeare ao intercalar cenas do ensaio da peça e do romance deles, numa sequência elegante que funciona ainda melhor graças à trilha sonora delicada de Stephen Warbeck. Outro momento inspirado acontece quando os atores ensaiam o duelo de espadas e são atacados pela turma do outro teatro, passando a misturar ensaio e realidade num balé coreografado com destreza pelo diretor. Nesta mesma sequência, quando Shakespeare e Viola se escondem embaixo do palco e se beijam, repare como o som ao redor praticamente some, num interessante recurso narrativo que ilustra a percepção deles naquele instante. É como se o mundo tivesse parado para que eles curtissem aquele momento.

Conversa entre Shakespeare e Viola num barcoDuelo de espadasSe escondem embaixo do palco e se beijamEmbalada por uma trilha sonora agora sombria, a tragédia toma conta da tela quando Viola descobre a existência da esposa de Shakespeare e, segundos depois, a morte de Marlowe (Rupert Everett) é anunciada, num momento chave da narrativa que começa a preparar o clímax. Esta sensação é ampliada pelo fechamento do teatro e a revelação de que ela é uma mulher no último ensaio, criando o conflito que nos levará ao desfecho empolgante de “Shakespeare Apaixonado”. Preparado com cuidado, o clímax no teatro é conduzido com precisão por John Madden e engrandecido pelas atuações apaixonadas. Assim, quando a interpretação da peça termina e os aplausos surgem efusivos após um breve silêncio, o espectador também está eufórico pela beleza do que vê na tela, num ótimo exemplo de como utilizar clichês com eficiência. Por mais previsível que seja, funciona muito bem.

O final bem amarrado ainda abre a deixa para a próxima obra de Shakespeare conhecida como “Noite de Reis” e protagonizada justamente por uma mulher chamada Viola, o que atesta a qualidade do roteiro, que aproveita muito bem a interessante ideia de misturar a obra de William Shakespeare com acontecimentos fictícios de sua vida pessoal.

Criativo, leve e muito bem interpretado, “Shakespeare Apaixonado” não é o melhor filme de 1998, mas nem por isso devemos fechar os olhos para os seus méritos. Misturando fatos e personagens reais com acontecimentos fictícios, o longa nos diverte com graça e leveza enquanto nos permite acompanhar um verdadeiro gênio em pleno processo criativo. E que sentimento pode nos dar mais inspiração do que o amor?

Shakespeare Apaixonado foto 2Texto publicado em 23 de Março de 2014 por Roberto Siqueira

SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS (1995)

(Se7en)

 

 

Videoteca do Beto #136

Dirigido por David Fincher.

Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Kevin Spacey, Daniel Zacapa, John Cassini, Richard Roundtree, John C. McGinley, Richard Portnow, Leland Orser, Andrew Kevin Walker, Richard Schiff e Charles S. Dutton.

Roteiro: Andrew Kevin Walker.

Produção: Phyllis Carlyle e Arnold Kopelson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Logo em seu segundo filme na carreira (antes ele dirigiu “Alien 3”), David Fincher já demonstrava todo seu talento neste sufocante thriller policial, capaz de grudar os espectadores na cadeira com sua atmosfera constante de tensão. Narrando uma história intrigante de maneira impecável, a obra-prima “Seven” não apenas funciona perfeitamente como uma complexa investigação policial na busca de um misterioso serial killer, como vai além, mostrando também a decadência da nossa sociedade e questionando os valores contemporâneos.

Muito bem escrito por Andrew Kevin Walker, o roteiro perfeito de “Seven” narra a investigação dos detetives David Mills (Brad Pitt) e William Somerset (Morgan Freeman), que tentam impedir um assassino em série que utiliza os sete pecados capitais como motivação para seus crimes.

Conduzindo uma narrativa envolvente e bem construída, o diretor David Fincher imprime um ritmo ágil durante todo o tempo, contando obviamente com a colaboração de seu montador Richard Francis-Bruce, que já demonstra seu talento nos sensacionais créditos iniciais, acompanhados de uma agitada música eletrônica (que denuncia a origem de Fincher, na época ex-diretor de videoclipes famosos na MTV) e que revelam ainda o planejamento meticuloso do criminoso antes que o espectador perceba o que está acontecendo. Indicando a passagem dos dias através de letreiros (não dá pra deixar de citar a beleza temática envolvendo o número de dias e os pecados capitais), eles cobrem os acontecimentos de maneira envolvente, sem jamais perder o foco nas investigações, mas encontrando espaço também para Interessantes discussões filosóficas e existenciais entre o desiludido Somerset e o esperançoso Mills, que rendem debates a respeito da degradação de nossa sociedade (tema favorito de Fincher) e do ser humano de forma geral.

Apostando num visual obscuro e repleto de sombras, a fotografia de Darius Khondji cria a atmosfera pretendida pelo diretor através dos diversos ambientes fechados que predominam na narrativa, iluminados apenas por poucos pontos de luz até mesmo quando estamos dentro dos escritórios da policia ou de uma simples biblioteca. Observe ainda como quando as ações se passam nas ruas, ou as cenas são noturnas ou são banhadas pela forte chuva (que, aliás, só não aparece no último dia). A decoração dos ambientes também reforça esta atmosfera, revelando o excepcional trabalho de direção de arte de Gary Wissner em lugares como o simétrico escritório do advogado assassinado, o conturbado quarto da prostituta, a apertada casa do homem obeso e o sinistro apartamento de John Doe (Kevin Spacey). Seguindo a mesma lógica, a sombria trilha sonora de Howard Shore só aumenta a aflição, pontuando as cenas com precisão e alternando para um ritmo intenso nas cenas com mais ação física.

Inteligente, Fincher aproveita esta atmosfera perfeita para criar planos sombrios que aumentam o clima sufocante da narrativa, conduzindo as ações de maneira sempre eletrizante, seja através de momentos mais agitados que são capazes de nos fazer perder o fôlego ou através de instantes mais intimistas que acompanham o raciocínio dos detetives na busca de informações. Aliás, o diretor acerta ao envolver a plateia nestas investigações, nos permitindo acompanhar os estudos sobre os sete pecados de Dante, por exemplo, como se fossemos parceiros de Mills e Somerset na caça ao misterioso assassino. Vale destacar ainda a destreza de Fincher na construção do suspense. Observe, por exemplo, como ele estica ao máximo os momentos que precedem a revelação do corpo da primeira vitima, trabalhando o suspense com precisão através de planos escuros, iluminados apenas pelas lanternas dos detetives.

O diretor também trabalha muito bem no desenvolvimento dos personagens, extraindo excelentes atuações de todo o elenco. Surgindo juntos inicialmente num plano baixo que os engrandece na tela, Mills e Somerset rapidamente estabelecem suas maneiras distintas de trabalhar. Transmitindo a segurança exigida por seu experiente personagem com incrível tranquilidade, Morgan Freeman revela-se a escolha ideal para viver o inteligente Somerset, um homem já acostumado a enfrentar diversas situações adversas e que, talvez por isso (e pelos crimes brutais que provavelmente investigou), já não acredita mais no futuro da humanidade. Entretanto, o ator demonstra com precisão que o caso dos pecados capitais é diferente de tudo que viu, transmitindo a crescente preocupação de Somerset através de seu semblante e de suas reações, que chamam a atenção do parceiro Mills (“Fala a verdade, você já viu algo assim antes?”, questiona Mills; Somerset responde: “Não”). Freeman consegue até mesmo a proeza de driblar com habilidade o velho clichê do policial prestes a se aposentar que decide encarar seu ultimo desafio, transmitindo o dilema de Somerset com enorme sensibilidade e de maneira verossímil, como quando reflete na cama sem conseguir dormir e, bastante abatido, joga seu metrônomo na parede, numa interessante rima com um dos primeiros planos do longa.

Por sua vez, Brad Pitt exala jovialidade demonstrando a ansiedade esperada de alguém que acaba de mudar do interior para uma metrópole e enxerga em sua nova posição a grande oportunidade de sua carreira, o que o leva, por exemplo, a aceitar sem hesitar todo e qualquer caso que apareça (“Dane-se ele, eu pego o caso!”). Transformando seu detetive Mills num personagem potencialmente tenso que raramente nos permite prever suas reações, o ator faz dele o contraponto ideal para o experiente e controlado Somerset. Observe, por exemplo, como ele praticamente desiste de investigar o caso na sala do advogado, mas rapidamente se empolga novamente quando Somerset descobre as digitais que revelam as palavras “Help me” escondidas na parede. Priorizando a ação física em detrimento do raciocínio lógico, Mills torna-se o ponto psicologicamente vulnerável da dupla – algo que o assassino não demora a perceber. Finalmente, ele consegue estabelecer boa química com sua esposa Tracy nos raros momentos em que eles surgem juntos.

Surgindo em raras ocasiões na primeira metade de “Seven”, Tracy lentamente passa a se aproximar de Somerset (e do espectador), convidando-o até mesmo para jantar em sua casa e, posteriormente, revelando sua gravidez ao experiente detetive (num ótimo momento de Paltrow), o que é essencial para aumentar o impacto do terceiro ato. Além disso, o divertido jantar na turbulenta casa dos Mills é responsável por um belo momento das atuações de Freeman, Pitt e Paltrow, num dos raros instantes de alivio cômico da narrativa. Além de Paltrow, vale destacar também R. Lee Ermey que, em seu segundo papel importante no ano (ele também estava em “Os últimos passos de um homem”), faz o chefe de polícia encarregado dos detetives.

Além de todas as qualidades citadas acima, Fincher ainda nos reserva cenas realmente espetaculares, daquelas que ficam gravadas por muito tempo na memória do espectador. A invasão da casa de Victor, por exemplo, é um destes grandes momentos conduzidos com precisão pelo diretor, que inicialmente emprega um ritmo ágil, mostrando as ações da SWAT com sua câmera agitada, mudando para um silêncio capaz de paralisar o espectador quando eles encontram o homem deitado na cama, quebrado somente pela tosse repentina do moribundo traficante – que, aliás, quase me matou de susto na primeira vez que assisti ao filme. Assustar, aliás, parece ser um dos prazeres de Fincher em “Seven”, como acontece também quando os detetives descobrem o apartamento de John Doe e, segundos depois, um homem surge no corredor, finge procurar a chave no bolso e atira repentinamente contra eles, iniciando uma sensacional sequência de perseguição na chuva, conduzida novamente num ritmo alucinante pela câmera agitada de Fincher, que só terminará quando o misterioso homem apontar uma arma para a cabeça de Mills – repare como o diretor evita revelar o rosto do criminoso, mantendo o suspense através das gotas que embaçam a câmera na chuva.

Após esta eletrizante sequência, a ligação de John Doe só confirma o quão respeitável ele é. De fala educada e polida, o assassino demonstra toda sua inteligência ao não provocar a ira dos policiais e demonstrar respeito por eles. Mesmo com a inesperada descoberta de seu apartamento, ele sabia que tinha o total controle da situação, sendo hábil para mudar a rota e continuar sua “obra”, o que o torna um vilão bastante temível, algo vital para que o espectador continue temendo pelo futuro dos detetives. A crueldade dos seus crimes também chama muito a atenção (e Fincher faz questão de não ocultar os resultados de seus atos violentos, o que é ótimo). Trabalhando nos mínimos detalhes para, como ele mesmo diz, virar o pecado contra seu pecador, Doe é capaz de torturar uma vítima por um ano, praticamente explodir outra ao alimentá-la à força e, naquele que considero o mais cruel dos cinco primeiros crimes, obrigar um homem a violentar uma prostituta com um artefato letal – e a atuação de Leland Orser como o desesperado homem encontrado na boate é digna de aplausos. Tudo isso ajuda na formação de um assassino realmente temível, capaz de deixar o espectador constantemente intrigado e tenso.

[Antes de seguir lendo o texto, vale repetir: só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme!]

Só que, quando menos esperamos, um taxi para na porta da delegacia logo após a chegada dos detetives. Em seguida, um homem desce e caminha lentamente para dentro do local, dando início à épica aparição de John Doe, que surpreendentemente se entrega aos policiais, deixando a todos atônitos. Porque ele teria feito isto? Porque se entregaria antes de completar os sete crimes? A mente dos investigadores e do próprio espectador passa a fervilhar e a resposta virá de maneira cruel e ainda mais surpreendente. Surgindo de maneira simplesmente sensacional como o psicopata capaz de realizar crimes tão cruéis, Kevin Spacey está absolutamente perfeito com seu olhar penetrante, tom de voz controlado e sua ideologia capaz de minar qualquer um que tente interrogá-lo (e me arrisco a dizer que ele merecia o Oscar daquele ano, mas por este papel e não pela boa atuação em “Os Suspeitos”). Ainda durante o interrogatório na delegacia, ele já demonstra seu assustador controle emocional, aguardando tranquilamente enquanto os policiais tentam desvendá-lo – e vale notar também como após a sua prisão, Mills menciona a esposa duas vezes, num indicio sutil do que viria pela frente.

Chegamos então ao momento mais fantástico de “Seven” (e uma das melhores cenas dos anos 90) durante a conversa entre Mills, Somerset e Doe dentro do carro, onde os três atores demonstram todo seu talento num diálogo memorável, penetrante e perturbador, em que o assassino questiona os valores contemporâneos e se intitula um escolhido por Deus enquanto Mills espuma de raiva e Somerset demonstra sabedoria ao tentar decifrar a mente do criminoso (“Vemos um pecado capital em cada esquina e toleramos”, afirma Doe, tentando explicar sua filosofia distorcida ao mostrar o lado podre de suas vitimas). O tenso final, também sensacional, ainda reserva uma surpresa capaz de abalar a plateia, encerrando a obra-prima de John Doe e de David Fincher de maneira brilhante (e aqui vale destacar a atuação de Pitt, que demonstra toda a ira de seu personagem com precisão).

Contudo, engana-se quem pensa que grande parte do sucesso do longa está em seu impactante final. Com sua narrativa complexa e envolvente, roteiro perfeito, atuações competentes e direção impecável, “Seven” é um thriller espetacular, uma verdadeira obra-prima que merece um lugar de destaque entre os grandes filmes da história da sétima arte.

Texto publicado em 29 de Julho de 2012 por Roberto Siqueira