ESQUECERAM DE MIM 2 – PERDIDO EM NOVA YORK (1992)

(Home Alone 2: Lost in New York)

3 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #166

 

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, Catherine O’Hara, Brenda Fricker, John Heard, Devin Ratray, Hillary Wolf, Maureen Elisabeth Shay, Kieran Culkin, Tim Curry, Dana Ivey, Rob Schneider, Eddie Bracken, Ally Sheedy e Chris Columbus.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de Mim 2[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O primeiro “Esqueceram de mim” é um filme que depende essencialmente da predisposição do espectador em embarcar em sua premissa absurda para funcionar, mas que por outro lado diverte bastante aqueles que se deixam levar por sua narrativa leve através da sádica estratégia do pequeno Kevin para defender sua casa. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado na sequência “Esqueceram de mim 2 – Perdido em Nova York”, que, lançada somente dois anos após o primeiro filme, aposta exatamente na mesma estrutura narrativa para funcionar, alterando apenas pequenos detalhes que pouco interferem no objetivo final. Assim, se por um lado temos a oportunidade de dar algumas gargalhadas com as novas peripécias de Kevin, por outro temos a constante sensação de estarmos assistindo ao mesmo filme novamente.

Também escrito e produzido por John Hughes, “Esqueceram de mim 2” tem inicio quando a família McAllister se prepara para passar o natal na Flórida. Assim como ocorreu no natal anterior, eles perdem a hora, mas desta vez o pequeno Kevin (Macaulay Culkin) está junto com eles na van que sai desesperada para o Aeroporto. Só que ao chegar ao terminal de embarque, Kevin se perde de seu pai (John Heard) e acaba embarcando acidentalmente num voo para Nova York, onde ele aproveita para se hospedar num hotel renomado, já que está com o cartão de crédito de seu pai. O problema é que Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), exatamente os mesmos bandidos que tentaram invadir sua casa antes, também estão na cidade após fugirem da prisão.

Como podemos notar, Hughes não hesita em abusar das coincidências para criar a mesma situação que proporcionou os melhores momentos de “Esqueceram de mim”. Assim, mais uma vez temos a casa tumultuada na véspera da viagem (captada com os mesmos movimentos de câmera agitados de Chris Columbus), a mesma época do ano e os mesmos conflitos entre o pequeno Kevin e sua problemática família – especialmente com o irritante Buzz. Ao menos, estas repetições também geram algumas divertidas rimas narrativas com o primeiro longa, como quando a família assiste “A Felicidade não se compra” em versão dublada no hotel. Porém, basta raciocinar um pouquinho para que a inevitável pergunta surja: Que pais deixariam o filho para trás duas vezes? Ou seja, a premissa desta continuação é ainda mais ridícula que a do filme anterior, mas se você conseguir superar isto e embarcar na história será parcialmente recompensado por alguns bons momentos.

Casa tumultuadaConflitosFamília assiste “A Felicidade não se compra”Ciente disto, Columbus aposta outra vez numa abordagem descontraída e se sai bem em alguns momentos particularmente inspirados, como quando os próprios pais de Kevin fazem piada com a situação (“Está virando uma tradição da família”), evidenciando que ao menos o longa não se leva a serio e quer apenas nos divertir – o que até funciona, mas não serve como desculpa para perdoar seus claros equívocos narrativos. O diretor acerta também quando revela que Kevin está no veículo antes de sair da casa, numa subversão de expectativa interessante que quebra pela primeira vez a sensação de estarmos vendo “mais do mesmo”.

Pais fazem piada com a situaçãoKevin está no veículoChegada do garoto ao hotelEnxergando a história como uma fábula, o diretor realça o deslumbramento de Kevin através do tom de cenas como a da chegada do garoto ao hotel e seu passeio de limusine comendo pizza – algo que também ocorria no primeiro filme, já que, nas duas situações, o protagonista vive uma situação desejada por muitas crianças (ficar sozinho em casa e viajar sem a companhia dos pais). Também repetindo o que fizera antes, Columbus procura espalhar dicas importantes no primeiro ato que serão importantes durante a narrativa, como num plano detalhe de um rádio relógio com a hora alterada e nas cenas em que busca destacar o gravador de Kevin. Finalmente, o diretor ainda emprega interessantes movimentos de câmera, como quando acompanha uma espécie de telefone sem fio na descoberta de que Kevin não está com a família, criando também planos divertidos como aquele em que uma estátua indica o caminho que o menino deve seguir.

Passeio de limusine comendo pizzaRádio relógioEstátua indica o caminhoMas isto não seria suficiente para salvar “Esqueceram de mim 2” do fracasso, até porque o trabalho técnico da equipe liderada por Columbus limita-se a repetir as mesmas estratégias do primeiro filme, o que pode ser interpretado como algo coerente, mas acaba reforçando a sensação de “mais do mesmo”. Assim, a trilha sonora do ótimo John Williams outra vez utiliza composições agitadas, como aquela que acompanha todos acordando atrasados; a fotografia de Julio Macat novamente prioriza cores quentes no início – que, aliás, permitem a composição de belos planos da cidade de Nova York -, mudando para um tom sombrio na medida em que a narrativa avança (repare como o parque parece assustador à noite); e, finalmente, se os coloridos figurinos de Jay Hurley mais uma vez reforçam o clima agradável pretendido por Columbus, por outro lado à escolha da mesma roupa para o pai de Kevin e o homem que se parece com ele no Aeroporto, que obviamente tenta justificar a confusão do garoto, acaba soando forçada demais. Ou seja, tudo muito adequado, mas parecido demais com o que já tínhamos visto.

Cores quentesParque parece assustadorMesma roupaSeguindo a saga, novamente temos um trecho de um filme sendo usado para assustar personagens, mas apesar da falta de originalidade, a cena em que Kevin assusta os funcionários do hotel é ótima e ilustra o que “Esqueceram de mim 2” tem de melhor: o bom humor. E neste aspecto, assim como na direção de atores, Columbus faz um bom trabalho, extraindo gargalhadas da plateia em sequências inspiradas que contam com a montagem de Raja Gosnell para funcionar, como quando a mãe de Kevin diz que ele não sabe usar cartão de crédito e, em seguida, o vemos usando seu cartão VISA no hotel. Gosnell, aliás, cria também algumas transições bem elegantes, como no “boa noite” à distancia de Kevin e sua mãe ou quando o sorriso de uma animação e do Concierge do hotel (Tim Curry) se misturam logo após este descobrir que o cartão usado por Kevin tinha sido denunciado na polícia.

Trecho de um filmeSorriso da animaçãoSorriso do Concierge do hotelNo elenco, Devin Ratray continua chato como Buzz, mas ao menos temos alguns personagens novos e interessantes, como a moradora de rua vivida por Brenda Fricker, que tem exatamente a mesma função do homem da neve no filme anterior e, assim como ocorria com o personagem interpretado por Roberts Blossom, também rouba a cena numa conversa com o pequeno protagonista – aliás, nesta bela cena temos um raro momento de crítica social (“As pessoas não me querem na cidade deles”). Temos também o Concierge do hotel interpretado por Tim Curry que, com seu jeito levemente afeminado, consegue provocar o riso da plateia, além da adorável participação de Eddie Bracken como o Sr. Duncan, o simpático dono da loja de brinquedos, e do conhecido e nada talentoso Rob Schneider, que vive Cedric.

Moradora de ruaConciergeSimpático dono da loja de brinquedosE chegamos então ao sádico Kevin, novamente interpretado pelo carismático Macaulay Culkin, que carrega a narrativa com grande desenvoltura e facilidade, sentindo-se ainda mais à vontade no papel, como notamos, por exemplo, em sua conversa com uma recepcionista logo na chegada ao hotel. Vivendo um dos sonhos de qualquer garoto, ele se esbalda num quarto repleto de guloseimas e sai para passear sozinho pelas ruas de Nova York, mas o aparecimento dos bandidos que tentaram roubar sua casa traz novamente a tona sua faceta sarcástica, escondida sob seu rosto angelical. Ainda criança, mas claramente mais desenvolvido, Culkin baseia sua atuação muito mais nos diálogos do que nas caretas que marcaram o primeiro filme – e que aqui só surgem com quase uma hora de projeção. Finalmente, o desempenho divertido do garoto é essencial para que o reencontro com os bandidos funcione.

Sádico KevinConversa com a recepcionistaCaretasEncurtando a sequência de preparação da defesa da casa, Columbus ganha tempo para explorar o que o primeiro filme tinha de melhor, criando outra hilária tentativa de invasão dos ladrões, repleta de gags engraçadas e momentos inspirados que se baseiam puramente no humor pastelão, como na cena dos tijolos atirados por Kevin no pobre Marv – este humor físico, aliás, está presente desde o princípio na cena do canto das crianças no coral de natal. Desta vez vagando por em Nova York após fugirem da prisão (que coincidência, não?), os ladrões estúpidos vividos por Pesci e Stern jamais soam ameaçadores, o que, somado ao que já vimos no filme anterior, faz com que a plateia jamais tema pelo destino de Kevin. Ao menos, os atores mais uma vez não hesitam e se entregam ao humor físico sem reservas.

Tijolos atirados por KevinLadrões estúpidosReencontro de Kevin com a moradora de ruaApós o festival de gargalhadas, “Esqueceram de mim 2” chega ao seu final repleto de clichês, com a redenção de Buzz e o reencontro de Kevin com a moradora de rua, que ao menos emociona pela simplicidade de ambos. Além disso, a piada da conta do hotel encerra o filme com o astral lá em cima, o que é ótimo.

Apesar de seus inúmeros problemas, “Esqueceram de mim 2” ainda consegue nos divertir graças ao enorme carisma de seu protagonista e à engraçada sequência de defesa da casa. Por outro lado, a constante repetição de elementos usados no primeiro filme já evidenciava que a franquia poderia muito bem terminar por ali. E se você observar quantas vezes eu utilizei expressões como “novamente”, “outra vez” e “mais uma vez” neste texto, talvez concorde comigo. Ou simplesmente me considere um péssimo escritor.

Esqueceram de Mim 2 foto 2Texto publicado em 22 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

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ESQUECERAM DE MIM (1990)

(Home Alone)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #164

Dirigido por Chris Columbus.

Elenco: Macaulay Culkin, Joe Pesci, Daniel Stern, John Heard, Roberts Blossom, Catherine O’Hara, Angela Goethals, Devin Ratray, Gerry Bamman, Hillary Wolf, John Candy, Kieran Culkin e Hope Davis.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes.

Esqueceram de mim[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Dono de uma das carreiras infantis mais bem sucedidas da história do cinema, Macaulay Culkin tornou-se o exemplo perfeito de como os problemas externos podem prejudicar as estrelas de Hollywood. Após emplacar um sucesso atrás do outro e registrar uma ascensão meteórica no início dos anos 90, o jovem astro simplesmente sumiu das telonas, ganhando espaço na mídia apenas pela disputa jurídica que travou com seus pais para poder administrar sua fortuna, por seus problemas com drogas e por sua amizade com o astro pop Michael Jackson. E mesmo não sendo o filme de estreia do ator, foi justamente este divertido “Esqueceram de mim” que alçou aquele menino carismático à fama e tornou seu rosto um dos mais conhecidos da época.

Escrito e produzido por John Hughes, responsável por muitos filmes de sucesso voltados para o público adolescente nos anos 80, “Esqueceram de mim” parte de uma premissa que, de tão absurda, deixa evidente desde o princípio que a narrativa não pretender ser levada a serio, funcionando como um leve passatempo que busca simplesmente nos fazer rir. Afinal, por mais relaxados que sejam, que pais em sã consciência seriam capazes de esquecer o próprio filho em casa e partir numa viagem para o exterior? Pois é exatamente o que faz a atrapalhada família de Kevin (Macaulay Culkin), um menino de oito anos que é deixado acidentalmente em casa no Natal enquanto seus parentes viajam para a França. Sozinho, o garoto se torna uma aparente presa fácil para os ladrões Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern), que pretendem aproveitar a ausência dos pais para invadir a casa dele. No entanto, esta tarefa não será tão fácil quanto parece.

Partindo desta premissa pouco crível, Chris Columbus procura conferir a “Esqueceram de mim” uma atmosfera quase fabulesca, conduzindo a narrativa com uma leveza que encontra reflexo na fotografia de Julio Macat, com seu visual colorido nas cenas diurnas e às chamativas luzes que enfeitam as casas durante a noite. Da mesma forma, os figurinos de Jay Hurley utilizam cores vivas e coerentes com o espírito do longa, assim como a boa trilha sonora de John Williams faz diversas referências ao Natal (uma festa sempre associada à alegria), mudando o tom somente quando Marley (Roberts Blossom), o “homem da neve”, surge em cena, ao criar uma atmosfera de suspense que funciona corretamente, sem jamais quebrar o clima festivo que permeia as ótimas canções selecionadas por Williams.

Cenas diurnasChamativas luzesCores vivasTambém desde o início, Columbus trabalha bem elementos importantes da narrativa, como o grande número de pessoas presentes na casa de Levin, captado com precisão pela câmera inquieta do diretor. Esta sensação incômoda que sentimos ao ver aquelas pessoas transitando pela casa é importante para estabelecer a confusão que impera no local e tornar menos absurdo o esquecimento do garoto. Assim, quando eles acordam atrasados, fazem a contagem apressada das crianças (atrapalhada pela presença de um garoto vizinho) e partem sem Kevin, o absurdo da situação não deixa de existir, mas acaba funcionando no filme.

Grande número de pessoasSensação incômodaAcordam atrasadosIsto ocorre também porque o roteiro tem o cuidado de inserir elementos que colaboram na construção deste momento crucial, como os problemas de Kevin com a família e a evidente falta de atenção de seus pais, que conseguem se atrapalhar até mesmo no simples pagamento de uma pizza. Da mesma forma, diversas dicas espalhadas ainda no primeiro ato terão reflexo no clímax da narrativa, como o dente dourado do policial Harry, a lenda do homem da neve e a aranha de Buzz (Devin Ratray), o que é sempre divertido. Finalmente, os movimentos de câmera de Columbus ajudam a compreender a geografia da casa, o que é essencial para que a sequência da invasão dos ladrões funcione – e tanto a escolha da mansão como a dos objetos usados por Kevin para evitar a invasão são importantes neste processo, o que é mérito do design de produção de John Muto.

Problemas de Kevin com a famíliaDente dourado do policial HarryAranha de BuzzEmpregando closes nas inúmeras caretas e nos diversos gritos de Macaulay Culkin, Chris Columbus busca valorizar ao máximo seu carismático protagonista, o que se revela uma estratégia inteligente por parte do diretor. Indefeso e maltratado pela família, Kevin logo se coloca numa posição vulnerável e, desta forma, conquista a empatia da plateia com tranquilidade. É claro que o carisma de Culkin é crucial neste processo e, mesmo sendo ainda tão jovem, o garoto se sai muito bem, carregando a narrativa com facilidade. Seu rosto angelical evoca uma aura de inocência que tornará ainda mais surpreendente sua sádica estratégia para proteger a casa (“Fiz minha família desaparecer”, diz sorridente ao descobrir que estava sozinho). Em suma, a presença de Culkin é fundamental para que “Esqueceram de mim” funcione tão bem como comédia.

Indefeso e maltratado pela famíliaRosto angelicalSádica estratégiaComo era de se esperar, Kate, a mãe de Kevin vivida por Catherine O’Hara, se desespera assim que descobre o que aconteceu, mas não ao ponto de quebrar o clima leve da narrativa. Ainda assim, a atriz vive um grande momento quando, com os olhos marejados, implora para embarcar em um avião, demonstrando que está realmente sofrendo pelo que aconteceu com seu filho. Já os outros personagens, como o chato Buzz, obviamente não apresentam muita profundidade, mas isto não é exatamente um problema grave numa comédia leve e despretensiosa como esta. Até por isso, Roberts Blossom consegue roubar a cena nos poucos minutos em que ganha destaque como o homem da neve Marley, emocionando a plateia ao confessar para o pequeno Kevin os problemas de sua família; e aqui impressiona também a desenvoltura de Culkin, que desenvolve o diálogo com naturalidade, sem jamais ser ofuscado pelo momento brilhante de Blossom.

Implora para embarcar em um aviãoConfessa para o pequeno Kevin os problemas de sua famíliaDesenvoltura de Culkin“Esqueceram de mim” traz ainda outras cenas emocionantes, como o inocente pedido de Kevin para um “ajudante” do Papai Noel (“Sei que você não é o Papai Noel, mas pode dar um recado pra ele?”) e o instante em que ele contempla uma família de vizinhos curtindo a noite de Natal, além é claro do esperado reencontro entre Marley e sua família. Mas são mesmo os momentos engraçados que garantem o sucesso do longa, começando pelos excelentes truques do garoto que buscam enganar os ladrões, como a festa promovida com brinquedos e cartazes e o trecho de um filme repetido diversas vezes, além da empolgante sequência de preparação da defesa da casa, que, auxiliada pela montagem dinâmica de Raja Gosnell e pela trilha sonora agitada, consegue criar o clima ideal para o engraçadíssimo terceiro ato.

Reencontro entre Marley e sua famíliaFesta promovida com brinquedosTrecho de um filmeE então chegamos à hilária tentativa de invasão promovida pelos bandidos, recheada de gags divertidas baseadas no humor físico, numa verdadeira sucessão de trapalhadas dignas dos “Três Patetas” ou das animações de Chuck Jones – e se tudo funciona muito bem, é também porque Pesci e Stern se entregam completamente ao humor pastelão, sem jamais hesitarem ou temerem cair no ridículo. Depois dela, até perdoamos a óbvia mensagem moralista sobre a importância da família e a previsível trajetória de redenção do protagonista.

Hilária tentativa de invasãoHumor físicoHumor pastelãoUma boa comédia é aquela que consegue envolver o espectador e fazê-lo rir das situações que apresenta, por mais incoerentes que estas possam parecer. Sendo assim, “Esqueceram de mim” é uma ótima diversão, que cumpre muito bem o que se propõe a fazer.

Esqueceram de mim foto 2Texto publicado em 04 de Abril de 2013 por Roberto Siqueira

OS GOONIES (1985)

(The Goonies)

 

Videoteca do Beto #57

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Kerri Green, Martha Plimpton, Jonathan Ke Quan, John Matuszak, Robert Davi, Joe Pantoliano, Anne Ramsey, Lupe Ontiveros, Mary Ellen Trainor, Keith Walker e Paul Tuerpe.

Roteiro: Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg.

Produção: Harvey Bernhard e Richard Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseada em estória de Steven Spielberg, esta deliciosa aventura juvenil dirigida pelo versátil e competente Richard Donner brinda o espectador com uma narrativa muito interessante, capaz de prender a atenção durante todo o longa e que conta ainda com algumas cenas simplesmente inesquecíveis. A excelente interpretação coletiva de um elenco jovem e muito competente – que conta com nomes como Josh Brolin e Sean Astin – é a cereja do bolo deste leve e delicioso “Os Goonies”, que marcou toda uma geração de cinéfilos pelo mundo, abordando temas recorrentes da adolescência, como o fortalecimento das amizades e a descoberta do sexo.

Prestes a deixar o local onde vivem, um grupo de adolescentes que se intitula “os Goonies” resolve organizar uma cerimônia de despedida do local e dos próprios integrantes do grupo. Mas ao descobrir o mapa de um tesouro perdido, resolvem partir em busca do misterioso tesouro para evitar a venda e demolição das casas onde moram.

O inteligente roteiro de Chris Columbus, baseado em estória de Steven Spielberg, mistura muito bem a ação e o humor, algo que fica ainda mais evidente graças à dinâmica montagem de Michael Kahn, que imprime um ritmo ágil à narrativa, bastante apropriado para uma aventura juvenil. Além disso, o roteiro aborda temas marcantes da adolescência, como o estabelecimento de fortes laços de amizade e a descoberta da atração pelo sexo oposto. Afinal de contas, o que seriam “os goonies” senão um grupo de amigos, destes que, ainda que o tempo distancie, guardamos na memória para sempre? Já a descoberta da atração pelo sexo oposto, um momento muito importante na vida de qualquer adolescente, é ilustrada, por exemplo, quando Michael (Sean Astin) acidentalmente beija Andy (Kerri Green), que esperava pelo irmão dele (Brandon, interpretado por Josh Brolin), numa das muitas cenas bem humoradas do longa. A criatividade, marca registrada do filme, aparece logo no início da narrativa, através da forma inteligente com que um dos bandidos foge da prisão, deixando claro desde então quem serão os vilões da estória. A criatividade volta a aparecer em diversos outros momentos, como no interessante método utilizado para abrir o portão dos Walsh e, principalmente, durante toda a aventura dos adolescentes na busca pelo tesouro escondido dentro de uma casa aparentemente abandonada. Além disso, o bom humor permeia toda a narrativa, como na cômica tradução de “Bocão” (Corey Feldman) para as palavras em espanhol da empregada e na acidental quebra da estátua da Sra. Walsh. Neste sentido, também merece destaque a ligação de “Bolão” (Jeff Cohen) para a polícia, que serve como lição nada sutil para crianças mentirosas.

Richard Donner dirige “Os Goonies” com extrema segurança, criando belas seqüências em diversos momentos, como no plano aéreo em que os garotos andam de bicicleta, seguido por um pequeno travelling para a esquerda que revela o local onde a aventura se passará. Em outro momento, o diretor movimenta a câmera rapidamente para a esquerda enquanto cada “goonie” fala uma frase, formando um interessante jogral. Já durante a descida por uma espécie de toboágua, a câmera agitada nos leva pra dentro da cena, conferindo realismo e garantido a emoção. Mas o principal destaque no trabalho de Donner vai mesmo para a direção de atores, que consegue extrair uma performance coletiva de alto nível de um elenco extremamente jovem. O drama familiar da eminente perda da casa motiva os jovens a seguir na busca pelo tesouro. E se nos identificamos e compramos a idéia deles, é devido às boas e convincentes atuações. Todos os nomes do elenco merecem destaque, com atenção especial para Jeff Cohen, que interpreta o “Bolão” e é o dono das melhores cenas do longa. Josh Brolin como Brandon Walsh, Sean Astin como Michael Walsh, Corey Feldman vivendo o “Bocão”, Jonathan Ke Quan como “Data” e Kerri Green interpretando Andy completam o coeso elenco juvenil. Ainda nas atuações, o marcante e deformado Sloth é interpretado por John Matuszak e entre os vilões, o destaque fica para a engraçada Mama Fratelli, muito bem interpretada por Anne Ramsey.

Assim como outro herói de Spielberg (o arqueólogo Indiana Jones), os “goonies” cometem erros constantemente, o que aumenta a empatia do espectador e faz com que este realmente tema pelo destino dos aventureiros. Colabora com este sentimento o fato de Donner não abrir mão da utilização de ameaças reais, como o uso de armas de fogo por parte dos bandidos, o que aumenta a sensação de perigo e transforma os vilões em personagens mais realistas. Mas ainda que o perigo pareça real, o clima alegre e divertido é o que prevalece. Os figurinos coloridos de Linda DeScenna e a trilha sonora divertida e empolgante (típica de aventuras) de Dave Grusin – que conta com música de Cindy Lauper – reafirmam a cara oitentista do filme. A fotografia (Direção de Nick McLean), também bastante colorida, reforça o clima alegre do filme. Além disso, capricha na iluminação e no jogo de luz e sombra, já que boa parte do filme se passa dentro de uma caverna.

A frase de Michael “Willie, você é o primeiro goonie” ilustra muito bem o espírito aventureiro do filme, que agrada em cheio tanto as crianças como os adultos – adultos estes que já foram adolescentes um dia e viveram todas as sensações desta fase tão cheia de dúvidas e, ao mesmo tempo, tão marcante em nossas vidas. Nem mesmo os efeitos visuais que hoje soam ultrapassados devem ser levados em conta na avaliação, já que não são mais importantes que a criativa narrativa do longa. Talvez o único pecado de “Os Goonies” seja mesmo o extenso terceiro ato, que demora demais para encerrar a narrativa após a resolução do principal conflito da trama, que é a descoberta do tesouro. Não fosse este pequeno detalhe, a pérola dirigida por Richard Donner seria um filme praticamente perfeito dentro daquilo que se propõe a fazer.

Extremamente leve e divertido, “Os Goonies” conta com um roteiro criativo e a direção competente de Richard Donner para brindar o espectador com uma aventura juvenil bastante agradável. Abordando temas marcantes da adolescência durante a empolgante jornada, consegue prender a atenção do espectador, que se identifica com diversas situações vividas por aquele grupo de jovens e realmente torce pelo sucesso deles. Por isso, pode-se dizer que “Os Goonies” é uma aventura acima da média, que consegue entreter espectadores de todas as idades de maneira bastante original.

Texto publicado em 09 de Maio de 2010 por Roberto Siqueira