CURTINDO A VIDA ADOIDADO (1986)

(Ferris Bueller’s Day Off)

 

Videoteca do Beto #116

Dirigido por John Hughes.

Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Jeffrey Jones, Jennifer Grey, Cindy Pickett, Lyman Ward, Charlie Sheen, Edie McClurg e Kristy Swanson.

Roteiro: John Hughes.

Produção: John Hughes e Tom Jacobson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Os filmes adolescentes eram uma verdadeira febre nos anos oitenta, talvez porque as produtoras perceberam que os jovens formavam a grande parte do público que freqüentava os cinemas. Apesar disto, a quantidade de bons filmes voltados para este público era bem superior ao que vemos atualmente, como atestam a deliciosa aventura “Os Goonies”, a magnífica trilogia “De Volta para o Futuro” e comédias muito divertidas como este “Curtindo a Vida Adoidado”, que, com seu protagonista carismático e situações muito divertidas, conquista imediatamente o espectador.

Ferris Bueller (Matthew Broderick) é um aluno bastante popular na escola, que decide matar aula para curtir um belo dia de sol ao lado da namorada Sloane Peterson (Mia Sara) e de seu melhor amigo Cameron (Alan Ruck). Sua desculpa, porém, não engana o diretor Ed Rooney (Jeffrey Jones), que tenta de todas as formas descobrir suas falcatruas, e nem mesmo sua irmã Jean (Jennifer Grey), que também tenta atrapalhar seus planos.

Escrito, produzido e dirigido por John Hughes, “Curtindo a Vida Adoidado” é uma comédia adolescente leve, que representa bem o gênero que o próprio Hughes se especializaria em dirigir posteriormente. Repleta de boas idéias e piadas divertidas, a narrativa tem um ritmo ágil, essencial para agradar seu público alvo, o que é mérito também da montagem dinâmica de Paul Hirsch. Ciente do que queria, Hughes explora muito bem situações conhecidas pelo espectador mais jovem, como aquelas intermináveis aulas chatas que nos fazem quase babar nas mesas escolares, exatamente como acontece com os personagens que, letárgicos, assistem ao professor repetir insistentemente o nome de “Bueller”, mesmo vendo sua cadeira vazia. Partindo desta premissa, uma atitude até comum (pelo menos na minha geração) como “matar aula” serve de ponto de partida para um dia inesquecível, repleto de situações inusitadas, sempre lideradas pelo carismático protagonista. Ferris convida seu grande amigo Cameron para passar o dia ao seu lado, num momento divertido em que ficam evidentes os métodos alternativos que eles utilizam pra matar aula e até mesmo o estado de espírito de cada um. Enquanto Cameron vegeta em seu quarto embalado por uma trilha sombria, Ferris toma uma bebida em sua cadeira de praia, acompanhado por uma trilha bem suave. Depois, após uma hilária ligação, Ferris arma uma situação e consegue a companhia da namorada Sloane. Está montado o cenário para um dia inesquecível.

Sempre num contexto cômico, Hughes faz ainda algumas referências a outros personagens importantes do cinema, como “Alien” e “Dirty Harry”, que, aliás, faz Rooney se encher de orgulho ao ser comparado com o personagem durão de Clint Eastwood. Além disso, o diretor dá total liberdade para que seu protagonista quebre constantemente a quarta parede ao falar com a câmera e se dirigir a platéia, num artifício narrativo que nos surpreende e nos faz rir, além de fugir da abordagem realista ao inserir tópicos escritos na tela, por exemplo. Mas apesar da direção eficiente, é na força da atuação de Matthew Broderick que o longa se sustenta. Carismático, o ator cria um personagem adorável desde os primeiros minutos em cena, que se tornou um símbolo dos jovens em sua época. Os adolescentes queriam ser Ferris Bueller. Mimado pelos pais, Ferris é o verdadeiro bon vivant, capaz de criar inúmeras situações para curtir seu “dia de folga”, sempre driblando aqueles que tentam impedi-lo. E apesar de algum exagero, as armações de Ferris – como na cena do restaurante e a fita gravada em seu quarto – funcionam muito bem, provocando o riso no espectador.

Além de seu carismático protagonista, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com coadjuvantes adoráveis, como o medroso e engraçado Cameron, interpretado por Alan Ruck, que é quem mais se transforma na narrativa, criando coragem para enfrentar o pai e levar a vida mais na boa, inspirado pelo amigo Ferris. Revoltado, ele extrapola e acaba detonando a Ferrari do pai, em outro momento bastante engraçado. Interpretada pela graciosa Jennifer Grey, Jean, a irmã de Ferris, tem a função narrativa de criar dificuldades para Ferris e inserir um pouco de suspense na trama, mas sempre de maneira leve e descontraída. Apesar disso, Grey constantemente aparece séria, demonstrando irritação com o irmão, até o momento em que encontra um garoto drogado (Charlie Sheen, em participação hilária) na delegacia e muda de comportamento – e Grey se sai muito bem após o beijo, demonstrando a empolgação da garota. Vale destacar ainda Jeffrey Jones, que faz do diretor Ed Rooney um personagem adoravelmente atrapalhado em sua tentativa de soar ameaçador.

O clima leve da narrativa é reforçado pela fotografia clara do bom Tak Fujimoto, que explora bem o dia ensolarado em que se passa a trama para empregar um visual bastante alegre e coerente com o espírito do longa. Também colaboram as roupas coloridas de Ferris e seus amigos (figurinos de Marilyn Vance) e a trilha sonora agitada de Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie e Yello, que pontua muito bem o empolgante dia do trio, como quando eles saem da escola na Ferrari do pai de Cameron após enganarem o diretor, acompanhados pela trilha cheia de adrenalina, ou quando eles visitam o museu, acompanhados pelo som de músicas clássicas. A trilha acerta ainda na escolha de músicas infalíveis, como “Twist and Shout”, dos Beatles, que mexe o esqueleto de qualquer um e faz o espectador se sentir bem enquanto assiste ao filme.

Com esta atmosfera jovial, “Curtindo a Vida Adoidado” conta ainda com um arsenal de piadas criativas, como os efeitos sonoros do teclado que imitam a tosse do “doente” Ferris, que sensibilizam seus colegas de escola e dão início ao engraçado movimento “Save Ferris”. Entre tantos momentos memoráveis, vale destacar também a hilária conversa telefônica entre o diretor Rooney e o suposto Sr. Peterson, em que a câmera demora a revelar Cameron do outro lado da linha, fazendo com que o espectador pense que o diretor de fato está falando com o pai de Sloane. Finalmente, na corrida desesperada de Ferris pra casa já no final, torcemos muito por ele, ainda que tenha matado aula e enganado a todos, justamente pelo inegável carisma do personagem. Após os créditos, Ferris ainda brinca com câmera, usando a metalingüística de maneira bastante divertida.

Criativo e cativante, “Curtindo a Vida Adoidado” é um filme despretensioso sobre um personagem igualmente despretensioso. Ferris não tem grandes aspirações, não se preocupa com os problemas ao seu redor e só quer saber de se divertir. Certamente, ele não poderá viver assim pra sempre. Por isso, trata de aproveitar enquanto pode. E seu dia de diversão acabou se transformando em algo muito maior: um clássico do cinema nos anos 80.

Texto publicado em 13 de Outubro de 2011 por Roberto Siqueira

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O REI LEÃO (1994)

(The Lion King)

 

 

Filmes em Geral #52

Videoteca do Beto #150 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 06 de Janeiro de 2013)

Dirigido por Roger Allers e Rob Minkoff.

Elenco: Matthew Broderick, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg, Jeremy Irons, Nathan Lane, Niketa Calame, Jim Cummings, Robert Guillaume, James Earl Jones, Moira Kelly, Zoe Leader, Cheech Marin, Ernie Sabella, Madge Sinclair e Jonathan Taylor Thomas.

Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, baseado em história de Jim Capobianco, Lorna Cook, Thom Enriquez, Andy Gaskill, Francis Glebas, Ed Gombert, Kevin Harkey, Barry Johnson, Mark Kausler, Jorgen Klubien, Larry Leker, Ricki Maki e Burny.

Produção: Don Hahn.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de alguns tropeços ao longo de sua história, os estúdios Disney se especializaram em produzir animações de grande qualidade, que utilizam uma estrutura narrativa simples e o talento de seus animadores para deixar mensagens marcantes tanto para crianças como para adultos. Mas existem alguns momentos em que este trabalho em conjunto se supera e alcança a perfeição, entregando filmes capazes de marcar gerações, como é o caso deste lindo “O Rei Leão”, que consegue narrar uma história vigorosa, utilizando como pano de fundo a deslumbrante paisagem da selva africana para ensinar valores fundamentais de maneira tocante. Em outras palavras, trata-se de um filme belo tematicamente e deslumbrante visualmente. Em resumo, uma obra-prima.

O rei leão Mufasa (voz de James Earl Jones) apresenta seu filhote Simba (voz de Matthew Broderick) aos animais do reino, provocando a ira de seu invejoso irmão Scar (voz de Jeremy Irons), que arquiteta um plano cruel na busca pelo trono. Aproveitando a inocência e a curiosidade do pequeno Simba, Scar consegue colocar em prática seu plano, mas, com o passar do tempo e a ajuda do astuto macaco Rafiki (voz de Robert Guillaume), Simba volta para ocupar o seu lugar de direito.

Por razões óbvias, a selva africana é um local dos sonhos para animadores, que podem criar (ou reproduzir) cenários capazes de tirar o fôlego de qualquer um. Felizmente, a equipe da Disney não perdeu a oportunidade, permitindo aos diretores Roger Allers e Rob Minkoff viajarem pelos belíssimos cenários, nos levando por deslumbrantes paisagens e, auxiliados pela excelente trilha sonora de Hans Zimmer (que remete aos sons típicos da África), nos ambientando ao local onde se passará à narrativa. Na realidade, o trabalho de criação de cenários e o som – que, por exemplo, permite distinguir nitidamente gotas da chuva, raios e os ruídos de cada animal – fazem mais do que ambientar o espectador, conseguindo uma verdadeira imersão no universo de “O Rei Leão”. Impressiona também a fidelidade com que a narrativa recria os hábitos dos animais, como quando Scar diz que “é função das leoas trazerem comida para o bando”, assim como os animadores retratam com perfeição os movimentos dos leões, como quando Simba caminha de um lado para o outro pensativo, da mesma forma que um leão real faria. Repare ainda como os movimentos felinos de caça são idênticos à realidade, assim como o movimento de praticamente todos os animais, reforçando a qualidade do trabalho dos animadores. Captando este visual rico e cheio de cores com competência, Allers e Minkoff criam planos belíssimos, que soam como um verdadeiro deleite visual, seja na chuva, seja no sol, fazendo com que diversos momentos do longa mais pareçam um quadro vivo. E até mesmo os locais mais sombrios têm sua beleza, como o obscuro cemitério dos elefantes, apresentado lentamente ao espectador através de um zoom e habitado pelas cinzentas hienas, que criam um contraste interessante com os pardos leões. Aliás, não são poucos os momentos em que um movimento de câmera nos revela algo deslumbrante, como nos elegantes travellings que passeiam pela selva, ou algo importante para a narrativa, como quando somos apresentados às centenas de gnus que pastam no monte próximo ao local onde Simba se encontra. Quando os gnus aparecem na tela, o espectador sente o perigo e praticamente prevê a tragédia – ainda que neste momento esteja mais preocupado com Simba do que com Mufasa -, que se consumará na impressionante cena do estouro dos gnus.

Mantendo a tradição Disney, a trama é interrompida algumas vezes por canções diegéticas que tem alguma função narrativa, como quando Timão e Pumba apresentam sua filosofia “Hakuna Matata”, no momento mais leve do filme, que aproveita para fazer a transição do jovem Simba para o Simba adulto. Aliás, já que citei a divertida dupla, vale ressaltar que a narrativa é preenchida por diversos personagens coadjuvantes fascinantes, como o sábio macaco Rafiki, o fiel Zazu e os próprios Timão e Pumba, que surgem após o momento mais intenso dramaticamente, funcionando como um alívio cômico perfeito. E ainda que seja o vilão, Scar, com sua juba preta, não deixa de ser um personagem interessante, amargurado por ser relegado ao segundo plano diante do poderoso irmão e seu legítimo herdeiro, o que o leva a arquitetar um plano diabólico, revelado num número musical sombrio, quando ele canta para as hienas – repare como a fotografia migra de tons esverdeados para o amarelo e, finalmente, para o vermelho, o que é coerente com as intenções demoníacas do invejoso leão.

Auxiliados pela montagem de Tom Finan, a dupla de diretores acertadamente investe boa parte da narrativa na relação entre Simba e Mufasa, estabelecendo a importância da figura paterna na formação do caráter daquele jovem. Além disso, Finan cria elegantes transições entre planos, como quando Rafiki está sentado e reflexivo durante a posse de Scar e, no plano seguinte, aparece dormindo numa árvore, assim como a imagem de Simba numa pedra se transforma no próprio leão, agora deitado e dormindo no deserto. Escrito por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton, “O Rei Leão” aborda temas fortes e universais, como o amor, a inveja e a morte – este último de maneira profunda e tocante. Desde o seu nascimento, Simba é festejado e reverenciado pelos outros animais. Mas, como seu pai lhe ensinaria a seguir, ser rei não era uma tarefa tão simples assim. E é justamente nos ensinamentos de Mufasa que reside a grande mensagem do longa, ao abordar o chamado “ciclo da vida” e a natureza finita de todos nós. Num destes diálogos, Mufasa explica para seu filhote que da mesma forma que eles se alimentam de antílopes, um dia eles morreriam, virariam grama e serviriam de alimento para estes mesmos animais, num exemplo interessante da vida selvagem, onde todos são importantes no equilíbrio do ecossistema. Em outro momento, o sábio Mufasa ensina ao filho que “o tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol”, numa bela metáfora para a própria vida – que serve também para preparar o espectador para a perda de Mufasa. Da mesma forma que viemos para o mundo, um dia partiremos, deixando o lugar para outro ser, que dará continuidade à nossa espécie. Nossos antepassados tiveram o seu tempo, depois vieram nossos pais e, finalmente, a nossa geração, que será sucedida pela dos nossos filhos e assim por diante. A lição, forte e direta, cai como uma bomba nos jovens espectadores (e afirmo isto porque assisti ao filme pela primeira vez com 13 anos de idade e lembro muito bem o quanto fiquei impressionado). Um dia, mais cedo ou mais tarde, teremos que assumir responsabilidades e ser como nossos pais.

Para que esta mensagem marcante funcione, é vital que a relação entre pai e filho conquiste a platéia, e felizmente o roteiro trata esta questão com carinho, criando um vinculo excepcional entre Mufasa e Simba. Desde os primeiros momentos, o pai pacientemente ensina tudo ao filho, sempre com muito carinho e amor, preparando seu pequeno para a vida. E mesmo quando precisa ser enérgico, Mufasa é sábio na condução da situação, como quando salva Simba no cemitério e pede para Zazu acompanhar Nala enquanto ele ensinaria uma lição ao filho. Misturando autoridade e amor, Mufasa transita do recado claro sobre os perigos da atitude de Simba para a brincadeira descontraída, numa cena linda e marcante. É nesta cena também que Mufasa fala sobre as estrelas e os reis, num diálogo que refletirá em outra cena emocionante, quando Simba, deitado na grama ao lado de Timão e Pumba, olha para as estrelas e lembra o pai (e observe como no momento em que Mufasa fala com o filho, o zoom out diminui os personagens em cena, refletindo a aflição de Simba ao pensar que um dia perderia seu pai). Assustado, o garoto encontra conforto em outra frase marcante de seu velho, que lhe ensina o quanto aquele sentimento era normal: “Os reis também têm medo”.

Conduzida com muita energia, a triste cena da morte de Mufasa provocará a fuga de Simba, impulsionado pelos gritos de seu tio Scar, que lhe aconselha a fugir, segundos antes de ordenar sua morte. Mas o jovem leão tinha o sangue dos grandes e consegue escapar, fugindo para a savana, num plano belíssimo onde podemos ver as hienas observando o pequeno leão que se perde no horizonte. E após viver bons momentos ao lado de Timão e Pumba, Simba, agora um leão adulto, reencontra sua amiga Nala quando ela pula em cima dele durante uma caçada, numa interessante rima narrativa que remete a “Bambi”, onde o personagem principal também reencontrava sua amada da mesma maneira que a conhecera na infância. Embalados pela bela “Can you feel the Love tonight”, Simba e Nala se apaixonam, só que a paixão não seria suficiente para levar o leão de volta ao seu lugar. Cabe então ao macaco Rafiki a árdua missão de convencê-lo, algo que ele consegue de maneira marcante, provando para Simba que Mufasa estava vivo. Simba, empolgado com a notícia, corre para o local apontado pelo macaco e vê, no reflexo da água, sua própria imagem, compreendendo que uma parte de seu pai existia dentro dele agora – confesso que, após esta bela cena, pensei imediatamente na frase “ter um filho é uma maneira de continuar vivo” e me emocionei. Ainda sentindo-se culpado pela morte do pai e demonstrando grande carência afetiva, Simba finalmente compreende seu lugar no ciclo da vida e decide voltar.

Chegamos então ao esperado confronto final entre “vilão” e “mocinho”, onde, após reencontrar o tio, Simba se vê na mesma situação em que seu pai morreu e descobre a verdade sobre a morte dele (repare novamente no tom vermelho da fotografia, que cria uma atmosfera tensa e violenta, remetendo ao sangue, à própria raiva de Simba e ao seu desejo de matar o tio). Buscando forças após a bombástica revelação, Simba manda o tio pelos ares, dando às hienas a oportunidade de se vingar de Scar, num exemplo claro da famosa lei da selva. E então, Simba assume seu posto, na mesma pedra em que foi apresentado aos outros animais e onde apresentará o seu filhote, que, da mesma maneira, dará seqüência ao ciclo da vida.

Com grandes ensinamentos, um visual rico e uma mensagem marcante, “O Rei Leão” é um lindo filme, capaz de emocionar sem ser melodramático. De maneira simples e direta, ensina valores importantes, conquistando o espectador com seus personagens graciosos e seu interessante conceito de continuidade da vida e inevitabilidade da morte. E já que a morte é inevitável, nada melhor do que aproveitar a vida da melhor maneira possível, amando, sendo amado, e assistindo a grandes filmes como este. Hakuna Matata!

Texto publicado em 09 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

O FEITIÇO DE ÁQUILA (1985)

(Ladyhawke)

 

Videoteca do Beto #35

Dirigido por Richard Donner.

Elenco: Matthew Broderick, Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Leo McKern, John Wood, Alfred Molina, Giancarlo Prete, Loris Loddi, Alessandro Serra, Nicolina Papetti, Charles Borromel e Ken Hutchinson.

Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Produção: Richard Donner e Lauren Shuler Donner.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O tema universal do amor impossível é o fio condutor deste simpático “O Feitiço de Áquila”, aventura medieval interessante e consideravelmente criativa dirigida pelo subestimado Richard Donner. Sua premissa inteligente já seria suficiente para garantir doses respeitáveis de drama e romantismo, mas este pequeno conto medieval vai além, apresentando uma estória encantadora, com boas atuações e uma direção competente. Por isso, mesmo apresentando pequenos defeitos, consegue envolver o espectador de maneira bastante agradável.

No século XII, a pequena cidade européia de Áquila é o palco para uma incrível história de amor. Ao perceber que sua amada Isabeau (Michelle Pfeiffer) está apaixonada pelo líder de sua guarda – o cavaleiro Navarre (Rutger Hauer) – o Bispo de Áquila (John Wood), enlouquecido de ciúme, lança uma terrível maldição sobre o casal. Durante o dia ela se transforma em um falcão e durante a noite ele se transforma em um lobo, impedindo assim que o casal consiga viver o seu amor. Mas a fuga de Phillipe Gaston (Matthew Broderick) da prisão da cidade e a inesperada ajuda do Padre Imperius (Leo McKern) será a luz de esperança que o casal precisava para finalmente poder ser feliz.

A premissa de “O Feitiço de Áquila” é muito interessante e inegavelmente criativa. O casal Navarre e Isabeau funciona como uma metáfora para o sol e a lua, que assim como os dois pombinhos (ou seria falcão e lobo?), nunca se encontram. Desta forma, o sempre atraente tema do amor impossível toma formas ainda mais dramáticas, impossibilitando até mesmo o contato físico entre os dois amantes. Os animais em que ambos se transformam também foram cuidadosamente escolhidos, já que o falcão é um conhecido símbolo de beleza, enquanto o lobo é um animal normalmente solitário – além do fato de ambos serem monogâmicos, como o próprio Navarre diz em certo momento. Até mesmo o uivo triste do lobo se encaixa perfeitamente ao lamento eterno de Navarre, o que se revela outra interessante sacada do inteligente roteiro de Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Makiewicz e David Webb Peoples, baseado em estória de Edward Khmara.

Com um bom roteiro nas mãos, Richard Donner consegue imprimir um ritmo ágil à narrativa, mantendo a atenção do espectador constantemente, sem por isso deixar de criar uma crescente expectativa para o esperado reencontro do casal. Dentro da proposta do filme faz um excelente trabalho, deixando a narrativa se desenvolver de forma leve e divertida. Infelizmente, os vilões (no caso, a guarda do Bispo) não conseguem representar uma série ameaça, soando patéticos sempre que tentam atacar Phillipe e Navarre, o que impede que tenhamos a sensação de que a missão do casal corra realmente algum perigo. Além disso, as cenas de luta são pouco verossímeis, dando a sensação de que Phillipe e Navarre são super-heróis. E quando finalmente acontece o grande momento do reencontro do casal, por mais que seja uma bela cena, não consegue atender à expectativa criada devido à falta de emoção dos atores. Felizmente, o foco principal da narrativa se mantém na impossibilidade do casal se encontrar e o sofrimento que isto representa, e neste aspecto, Donner consegue sucesso absoluto.

Outro fator que conquista a simpatia do espectador é a presença do engraçado Phillipe Gaston, mais conhecido como “o rato”. Matthew Broderick surpreende com uma excelente atuação desde o primeiro momento em que surge no meio da lama, fugindo da prisão de Áquila. Alegre, com ótimo timing cômico e bastante solto, ele é o elo entre o espectador e o casal, sendo responsável também pelas melhores piadas do filme, como a brincadeira que faz com o cavalo “Golias” ao dizer que precisa lhe contar a história de Davi. Rutger Hauer consegue transmitir a angústia de Navarre na maior parte do tempo, além de mostrar a frieza esperada de um homem amargurado como ele. Firme no papel do “mocinho que salvará a princesa”, consegue sucesso nas cenas de combate, mas falha no momento mais importante dramaticamente, que é o reencontro com Isabeau. Mesmo assim, consegue fazer com que o espectador torça pelo sucesso de sua jornada e se identifique com o drama do casal. Merece grande destaque a excelente atuação de Leo McKern como o arrependido Padre Imperius. Observe como ele transmite toda a amargura do personagem, na bela cena em que conta a triste história da origem do feitiço para Phillipe. Notável também é a imponente figura do Bispo, interpretado de forma cruel por John Wood, e que representa o poder da Igreja católica naquele período. Vale observar como Donner constantemente filma o bispo por baixo, de forma que ele sempre pareça grande na tela, simbolizando seu poder. Finalmente, chegamos à personagem que dá nome ao filme (no original, em inglês). Michelle Pfeiffer, com sua beleza estonteante, cai muito bem no papel da donzela que embala os sonhos de Navarre (e até mesmo de Phillipe, como ele mesmo confessa). Carismática, consegue transmitir emoção durante os angustiantes segundos em que vê o amado como humano, e seu triste semblante ao se transformar em falcão novamente é tocante. Suas aparições noturnas, normalmente envolta em sombras, acentuam ainda mais o brilho de seu olhar e de sua beleza. Por outro lado, ainda que demonstre mais emoção que Hauer, Pfeiffer também falha no momento alto do romance, quando os dois finalmente se reencontram. Felizmente, sua alegria espontânea no último plano do filme recupera parte de seu prestígio e esta pequena escorregada não impede que o espectador se satisfaça com o final feliz do casal.

“O Feitiço de Áquila” conta também com um bom trabalho técnico, especialmente pela citada agilidade da narrativa, que é mérito também da boa montagem de Stuart Baird. Os figurinos de Nanà Cecchi e a bela direção de arte de Ken Court e Giovanni Nataluci conferem realismo à cidade medieval, repleta de montanhas nevadas, masmorras, castelos e catedrais belíssimas, enquanto a direção de fotografia de Vittorio Storaro explora muito bem as lindas paisagens da região. Além disso, Storaro capta com precisão os lindos momentos em que o sol surge e desaparece no horizonte, que também tem importante função narrativa, destacando o marcante contraste entre a noite e o dia. A trilha sonora acelerada e moderna de Andrew Powell não é coerente com a época retratada, se redimindo na linda cena do vôo do falcão sobre o rio, com um tom melancólico e belo. Os efeitos especiais não conseguem alcançar o realismo necessário nas transformações do casal, apelando para truques de montagem, mas nem por isso comprometem o resultado final. De certa forma, exige algo a mais da imaginação do espectador, o que é sempre bom.

Mesmo com os problemas citados, “O Feitiço de Áquila” consegue manter seu encanto. O duelo de cavaleiros dentro da Igreja funciona enquanto os cavalos estão em cena. Quando a luta passa a ser corpo a corpo, a falta de realismo demonstrada em todo o filme volta a aparecer, com escapadas exageradas de Navarre. Curioso notar também como todos na igreja ficam simplesmente olhando, como se fosse um espetáculo e não uma briga que colocaria em risco a vida do bispo, que até então não apresentava motivos para ser odiado por aquelas pessoas. De todo modo, o duelo final tem emoção e se estabelece como um grande momento do longa. Nada comparado, porém, a mais bela cena do filme, que acontece no breve encontro entre Navarre e Isabeau durante a transição da noite para o dia. Enquanto o sol lentamente espalha seus raios pela superfície, podemos testemunhar em câmera lenta os breves segundos em que os amantes podem se ver ainda como humanos, antes que Isabeau se transforme em falcão novamente. A montagem joga imagens na tela que simbolizam sua transformação, enquanto a câmera lenta tem a importante função de prolongar este prazeroso momento para o espectador, por mais que em tempo real ele dure apenas alguns segundos. Um grande momento, capaz de emocionar ao mais frio dos espectadores.

A terrível maldição que assola o casal é repleta de simbolismo e é um prato cheio para provocar lágrimas nos casais apaixonados. “Sempre juntos, eternamente separados” é a frase dita por Phillipe Gaston, que representa muito bem o drama vivido pelo casal. O previsível final feliz neste caso é muito bem-vindo e agrada em cheio ao espectador, que testemunha durante quase todo o tempo o sofrimento quase palpável de Navarre e Isabeau, aliviado apenas pela simpatia do divertido Gaston. Mesmo com pequenos problemas, “O Feitiço de Áquila” é simpático o suficiente para atrair a atenção do espectador e a linda história de amor que o embala é inegavelmente envolvente.

Texto publicado em 12 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira