DON JUAN DEMARCO (1995)

(Don Juan DeMarco)

 

Videoteca do Beto #128

Dirigido por Jeremy Leven.

Elenco: Marlon Brando, Johnny Depp, Faye Dunaway, Géraldine Pailhas, Bob Dishy, Rachel Ticotin, Talisa Soto, Richard C. Sarafian, Stephen Singer, Franc Luz, Carmen Argenziano e Jo Champa.

Roteiro: Jeremy Leven, baseado em personagem criado por Lord Byron.

Produção: Francis Ford Coppola, Fred Fuchs e Patrick J. Palmer.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A comédia romântica já foi explorada tantas vezes em Hollywood que é difícil não torcer o nariz antes de assistir qualquer filme que insinue pertencer ao gênero, até porque é raro balancear romance e comédia sem abusar dos clichês ou, pelo menos, utilizá-los de maneira mais criativa. Felizmente, “Don Juan DeMarco” é mais uma prova de que é possível fazer uma boa comédia romântica sem apelar para fórmulas bobas e repetitivas, provando ainda que o pré-julgamento é um erro que jamais devemos cometer, sob a pena de perdermos bons filmes por puro preconceito.

Escrito e dirigido por Jeremy Leven, “Don Juan DeMarco” tem óbvia inspiração no lendário personagem homônimo famoso por conquistar milhares de mulheres nos séculos passados. Só que diferente da versão criada por Lord Byron, o Don Juan de Leven vive nos dias atuais. Pelo menos é o que afirma um jovem que deseja se matar (Johnny Depp), que jura ser o famoso amante Don Juan, mas é convencido a desistir do suicídio pelo psiquiatra Jack Mickler (Marlon Brando), que passa a cuidar de seu caso desde então, mas que tem apenas 10 dias para tratá-lo, pois está se aposentando. No tratamento, a forma como o paciente vê o amor começa a influenciar o comportamento do médico e afetar até mesmo sua relação com a esposa (Faye Dunaway).

Obviamente, sabemos que aquele jovem não pode ser o famoso conquistador que, segundo a lenda, viveu há muitos anos atrás, mas “Don Juan DeMarco” aproveita muito bem sua premissa para nos apresentar um personagem complexo, que literalmente inventou uma nova personalidade como forma de lidar melhor com seus traumas da infância e adolescência, já que ele perdeu o pai num acidente e sua mãe internou-se num convento buscando apagar seu passado de traição ao marido. Além da interessante premissa de seu roteiro, Leven busca inspiração no famoso amante para construir belas frases que buscam tratar a mulher como o mais especial dos seres, elevando-a ao status quase de divindade, construindo ainda diálogos cativantes, como aquele em que Dr. Jack pergunta sobre os sonhos que sua esposa deixou para trás, pecando apenas ao criar personagens unidimensionais na equipe de médicos, algo que fica evidente na reação exagerada da equipe após a liberação de “Don Juan”.

Graças ao bom trabalho do montador Antony Gibbs, a narrativa alterna num ritmo interessante entre o presente no hospital psiquiátrico e o passado de Don Juan – repare como a fotografia de Ralf D. Bode oscila das cores mais frias do presente para as cores quentes que reforçam a aura gloriosa das histórias contadas por ele, como na ilha “Eros”, onde lindos planos apresentam o breve romance com Doña Ana (Géraldine Pailhas). Apresentando curiosas variações para a música tema de Bryan Adams (“Have you ever really loved a woman”), a trilha sonora de Michael Kamen e Robert John Lange complementa a atmosfera romântica e a direção de arte de Jeff Knipp nos ambienta em cada época e local, passando pelos dias atuais nos EUA, pelas histórias no México e pelas arábias. Já a roupa que remete ao famoso personagem mascarado é mérito dos figurinos de Kirsten Everberg.

Apesar de alguns movimentos de câmera interessantes – especialmente no México, como quando a câmera diminui a família DeMarco na morte do pai dele -, Leven não se sai tão bem atrás das câmeras, falhando, por exemplo, ao não conseguir extrair uma atuação mais leve do excepcional Marlon Brando, que às vezes parece estar atuando no piloto automático (o que, vindo dele, ainda assim garante uma boa atuação). Mas Leven compensa esta falha balanceando bem os momentos românticos, como a história do primeiro amor de Don Juan, e a parte cômica da narrativa, como a divertida passagem em que ele é escolhido por uma sultana e vive num harém. Apostando alto no bom humor, especialmente nos momentos que envolvem mulheres se derretendo diante do protagonista, Leven consegue conquistar o espectador, graças também ao carisma de Johnny Depp.

Logo em sua primeira aparição, o “Don Juan” de Depp apresenta ao espectador seu poder de sedução ao conquistar uma bela moça no restaurante, fazendo-a delirar somente acariciando suas mãos (numa cena excelente, aliás). Com um engraçado sotaque castelhano, Depp conquista a platéia com seu carisma, algo bem explorado pelo diretor, que faz questão de destacar o ator através do uso constante de closes. Mas nem só de sua aparência vive o talentoso Depp e ele já deixava isto claro na época, numa boa atuação que já nos apresentava seu timing cômico, notável, por exemplo, na divertida reação dele quando Ana pergunta quantas mulheres Don Juan já teve. Suas histórias parecem hipnotizar o Dr. Jack, algo louvável se considerarmos que o psiquiatra é interpretado por ninguém menos do que a lenda Marlon Brando.

Mesmo parecendo desinteressado em alguns momentos, Brando mostra porque é considerado um dos maiores atores da história, atuando com naturalidade e fazendo de seu Dr. Mickler um personagem interessante, com uma trajetória lenta e consistente de mudança interior. Seguro, ele se destaca em alguns momentos especiais, como quando se comove com a história da morte do pai de Don Juan e especialmente quando demonstra carinho pela esposa, interpretada pela também carismática Faye Dunaway, que demonstra bem a surpresa que a mudança do marido provoca na personagem.

O último dia de trabalho do Dr. Jack marca também a data da análise de seu paciente pela comissão do hospital psiquiátrico. E pra surpresa geral (até mesmo da platéia), ele age normalmente na entrevista final, contrariando a expectativa criada até então. A versão coerente de sua história convence o médico de que ele não tem problema algum e garante sua liberação. Mas quem quer coerência naquela altura da narrativa? Neste instante, já estamos convencidos de que o melhor mesmo é dar asas a imaginação e se entregar ao amor, aos mais íntimos sentimentos, aquilo que os olhos não podem ver, mas que o coração pode sentir. Por isso, o final feliz da fábula na ilha de Eros é facilmente explicável: nas palavras do Dr. Jack, aquele jovem sofria de um romantismo incurável e altamente contagioso. Por isso, somos capazes de ignorar a realidade e entrar naquela fantasia – e eu fui apenas mais um espectador infectado por ele.

Leve e contagiante, “Don Juan DeMarco” é uma comédia romântica cativante, que, assim como seu personagem título, carrega alguma magia inexplicável e nos faz sair da projeção com o romantismo renovado. Aquele jovem era mesmo Don Juan? Como diz a mãe do protagonista em certo instante, a verdade está dentro de nós mesmos. A razão nos prova que não, mas às vezes vale à pena enxergar além do que nossa limitada visão nos permite ver.

Texto publicado em 30 de Maio de 2012 por Roberto Siqueira

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CHINATOWN (1974)

(Chinatown)

 

 

Filmes em Geral #77

Videoteca do Beto #210 (Filme comprado após ter a crítica divulgada no site e transferido para a Videoteca em 13 de Julho de 2015)

Dirigido por Roman Polanski.

Elenco: Jack Nicholson, Faye Dunaway, John Huston, Diane Ladd, Perry Lopez, John Hillerman, Darrell Zwerling, Roy Jenson, Richard Bakalyan, Joe Mantell, Bruce Glover, Nandu Hinds, Burt Young e Belinda Palmer.

Roteiro: Robert Towne.

Produção: Robert Evans.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apenas cinco anos após perder sua esposa Sharon Tate, assassinada no auge da contracultura pelo grupo liderado por Charles Manson, Roman Polanski voltou à Hollywood para dirigir este excepcional “Chinatown”, que com sua atmosfera noir e seu tom melancólico, reflete o estado de espírito de seu diretor e se confirma como uma das muitas obras-primas de Hollywood nos anos 70. Contando ainda com atuações inspiradas e um roteiro praticamente perfeito, o longa se estabelece também como uma das mais bem sucedidas incursões no gênero que se notabilizou nas décadas de 40 e 50.

Em “Chinatown”, acompanhamos a trajetória do detetive particular J. J. Gittes (Jack Nicholson) quando este é contratado pela esposa de Hollis Mulwray (Darrell Zwerling), o chefe do Departamento de Águas e Energia de Los Angeles, para descobrir se ele está tendo um caso extraconjugal. Após a confirmação da traição, Gittes descobre que a verdadeira esposa dele, Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), jamais solicitou os seus serviços, exatamente no mesmo dia em que Hollis aparece morto. Gittes decide então investigar o assassinato e as possíveis ligações entre o crime e o pai de Evelyn, o poderoso Noah Cross (John Huston), que também era sócio de Hollis.

Escrito pelo ótimo Robert Towne, “Chinatown” apresenta uma estrutura narrativa perfeita, que gradativamente envolve o protagonista numa situação bastante complicada e, conseqüentemente, conquista também a atenção da platéia. Com um texto precioso e coeso, a narrativa intrincada e repleta de sutilezas aborda muitos temas complexos sob sua superfície de filme policial, apresentando personagens nada unidimensionais, que parecem sempre serem muito mais do que o que vemos na tela. Towne também espalha diversas pistas pela narrativa, que obrigam o espectador a prestar atenção em cada pequeno detalhe da investigação conduzida por Gittes, somente para descobrir momentos depois que muitas delas eram falsas. Além disso, ele constrói diversos diálogos marcantes, entre os quais vale destacar aquele no restaurante em que Evelyn confessa que também traía o marido e o embate entre Noah e Gittes, que também acontece num almoço e nos deixa em dúvida sobre o caráter do milionário e de sua filha.

Com este ótimo roteiro em mãos, Polanski conduz o longa com paciência até os 30 minutos de projeção, quando a morte de Hollis Mulwray insere o elemento noir que faltava para a narrativa definitivamente engrenar: o crime. Claramente inspirado na estética noir, como podemos notar através do terno do detetive Gittes (figurinos de Anthea Sylbert) e dos ambientes fechados, como o escritório dele e a casa dos Mulwray – que, por exemplo, indica a boa situação financeira do casal (direção de arte de W. Stewart Campbell) -, “Chinatown” só não apresenta o forte contraste entre o preto e o branco característico do gênero, mas ainda assim tem diversos momentos em que as sombras tomam conta da tela, como no diálogo entre Gittes e Evelyn num carro, logo após ela revelar quem é a sua irmã, onde podemos ver apenas parcialmente o rosto dos personagens. Além disso, os tradicionais ambientes esfumaçados e as sombras das persianas que invadem os escritórios criam o típico visual noir. Neste aspecto, vale destacar a fotografia de John A. Alonzo, que emprega cores sóbrias na maior parte do tempo (preto, marrom, cinza), conferindo uma aura melancólica coerente com o tom da narrativa. Ainda na parte técnica, a trilha sonora de Jerry Goldsmith acentua o clima apreensivo em diversos momentos e a direção de arte de Campbell volta a se destacar nos pequenos detalhes com função narrativa, como os quadros na parede que indicam a sociedade entre Hollis e Noah, além dos carros e casas que nos jogam para a Los Angeles dos anos 30 com precisão.

Voltando à direção, Polanski também comanda com precisão as cenas de alta tensão, como quando Gittes tenta invadir o Departamento de Águas à noite e é surpreendido por um tiro, pela água e por dois homens (um deles, armado com uma faca, é interpretado pelo próprio Polanski) ou quando ele é atacado num laranjal e perseguido por homens montados em cavalos. Auxiliado pela montagem de Sam O’Steen, o diretor conduz a narrativa com tranqüilidade e sutileza, acelerando a trama na medida em que Gittes se aproxima da verdade sobre o assassinato de Hollis ao emendar uma grande cena após a outra, como na seqüência em que Gittes visita um asilo, foge com Evelyn de carro, dorme com ela e descobre a natureza da relação dela com a amante de Hollis. E apesar de parecer quebrar o ritmo, a cena em que eles ficam juntos (embalada pela trilha romântica) serve para revelar um pouco mais sobre o passado misterioso de Gittes em Chinatown e indicar que a morte de alguma mulher o traumatizou. Outro aspecto importante a se ressaltar é que Polanski procura nos guiar na narrativa sob a perspectiva de Gittes, o que justifica sua presença em todas as cenas e a câmera que o acompanha por trás dos ombros em diversos momentos.

Tranqüilo e com tom de voz baixo, Jack Nicholson cria um personagem diferente do habitual, comprovando sua versatilidade e competência como ator. Ainda assim, seu Gittes é determinado e impõe respeito junto aos seus subordinados, como podemos notar logo no início quando ele repreende um de seus assistentes, saindo-se ainda melhor nos embates verbais com Noah, Evelyn e com o tenente Lou, quando sempre soa convincente em suas afirmações. Extremamente inteligente, seu Gittes sabe muito bem se adaptar aos ambientes que freqüenta – o que explica sua preocupação com a aparência (repare sua reação ao molhar os sapatos) e sua constante mudança de comportamento (no escritório, conta piadas; diante dos milionários, fala de forma refinada). Faye Dunaway também se destaca, criando uma Evelyn misteriosa e imponente, que sempre parece esconder algo através da fala reticente e do olhar enigmático quando que se refere ao marido e, especialmente, ao pai – um comportamento, aliás, que descobriremos ser totalmente coerente com o passado da personagem. Interpretado por John Huston (que dirigiu “O Falcão Maltês”), Noah Cross é mesmo um personagem ameaçador e Huston tem grande mérito nisto com sua presença marcante na tela. No restante do elenco, vale destacar o tenente Lou Escobar, interpretado por Perry Lopez, e a jovem Katherine Cross, interpretada por Belinda Palmer, que se destaca na cena final, com seu desespero tocante ao ver a mãe ser assassinada.

Após um encontro inesperado entre Gittes e Lou no apartamento de uma prostituta, entramos na parte final de “Chinatown”, onde a revelação da relação incestuosa entre Noah e Evelyn abala as estruturas tanto do detetive como do espectador e inicia outra seqüência atordoante, em que descobrimos o verdadeiro assassino de Hollis e caminhamos para o clímax pessimista, na primeira vez em que o tão citado bairro chinês Chinatown aparece. E novamente, Polanski confirma sua habilidade na direção de maneira sutil. Em certo momento do filme, Evelyn encosta involuntariamente a cabeça na buzina de um carro. Parece uma cena sem propósito, mas não é à toa que ela está lá. Com este momento em mente, o espectador já sabe o destino cruel de Evelyn nesta cena final, somente através do som da buzina no plano distante em que vemos o carro parado na rua. Sua trágica morte é confirmada de maneira forte e tocante, com Katherine desesperada e o violento resultado do tiro surgindo na tela diante do espectador. O final amargo, com a chocante morte de Evelyn e Noah escapando ileso, deixa o espectador reflexivo e melancólico – algo refletido também na trilha que fecha a narrativa.

Repleta de momentos memoráveis, com um roteiro impecável e atuações inspiradas, a obra-prima “Chinatown” confirma o talento de Roman Polanski na direção e reforça o time dos maravilhosos filmes pessimistas que invadiram Hollywood em sua era dourada. Nestes casos, o gosto amargo que fica na boca do espectador ao final da projeção é gradualmente substituído pelo sentimento de respeito diante da grandiosidade da obra que testemunhamos.

Texto publicado em 25 de Novembro de 2011 por Roberto Siqueira

BONNIE & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS (1967)

(Bonnie and Clyde)

 

Filmes em Geral #22

Dirigido por Arthur Penn.

Elenco: Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard, Gene Hackman, Estelle Parsons, Denver Pyle, Dub Taylor, Evans Evans, Gene Wilder, Harry Appling e Mabel Cavitt.

Roteiro: Robert Benton e David Newman.

Produção: Warren Beatty.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Considerado o marco inicial da melhor fase de Hollywood (a chamada “Nova Hollywood”), “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” atingiu em cheio os anseios de uma platéia ávida por filmes diferentes, que fugissem do padrão ético e moral dominante no cinema norte-americano até aquele momento. Com o fim do rígido controle do “Código de Produção” próximo (ele seria substituído no ano seguinte pelo ainda vigente sistema de censura por idades), reforçado pelo turbulento momento vivido pelos estúdios à beira da falência e pela nova e bem sucedida forma de se fazer cinema em outros países como a Itália (neo—realismo, já existente há algumas décadas), o Japão (Akiro Kurosawa) e a França (nouvelle vague), o cinema norte-americano se viu obrigado a abrir as portas para os jovens diretores que surgiam. A soma de todos estes fatores resultou na fase mais frutífera da história de Hollywood e “Bonnie & Clyde” foi o responsável por puxar a fila.

Durante a grande depressão, Bonnie Parker (Faye Dunaway) conhece o ex-presidiário Clyde Barrow (Warren Beatty) enquanto este tenta roubar um carro na frente de sua casa. Atraída pelo rapaz e pela promessa de “fama e glória” da vida de crimes, ela o acompanha e ambos iniciam uma seqüência de assaltos e assassinatos pelas estradas dos Estados Unidos, acompanhados do mecânico C. W. Moss (Michael J. Pollard), a quem conheceram no caminho. Logo depois, Buck (Gene Hackman), o irmão de Clyde recém saído da cadeia, une-se ao grupo acompanhado de sua esposa Blanche (Estelle Parsons), e o quinteto fica famoso em todo país, passando a ser perseguido implacavelmente pela polícia.

“Bonnie & Clyde” é certamente um dos filmes mais importantes e com maior influência na história do cinema. Para entender sua importância, no entanto, é vital contextualizar seu lançamento e entender o que acontecia no cinema e no mundo na época. No final dos anos sessenta, o mundo vivia uma espécie de revolução liderada pelos jovens, com ideais libertários e o famoso lema “paz e amor”. Não à toa, foi nesta época que surgiu o movimento hippie e festivais como o Woodstock, refletindo bem o pensamento do público jovem na ocasião. Influenciados pelos inovadores cineastas da nouvelle vague, que estouraram para o mundo alguns anos antes, além de outros talentos mundo afora como Fellini, Kurosawa e Bergman, um grupo de jovens diretores decidiu mudar radicalmente a forma de fazer cinema em Hollywood, abordando temas nada convencionais e estilizando o visual, inclusive nas cenas violentas. Somado a todos os fatores já citados anteriormente, o caminho estava pavimentado para que diretores talentosos como Penn e atores jovens e ousados como Beatty pudessem produzir e brigar por filmes como “Bonnie & Clyde”, o primeiro desta nova safra (ao lado de “A primeira noite de um homem”) que marcaria a fase áurea do cinema de Hollywood em todos os tempos.

A ousadia temática de “Bonnie & Clyde” aparece logo no início da narrativa, quando Bonnie Parker demonstra interesse pela vida bandida de Clyde (“Como é assaltar?”), seguida pela seqüência em que ambos bebem cerveja, falam sobre armas com certa conotação sexual (repare o olhar sensual de Dunaway para a arma de Beatty) e partem para um assalto, fugindo em disparada num carro em alta velocidade. Somente depois de toda esta aventura é que ambos perguntam “qual seu nome?”. O clima revolucionário ganha força quando o casal fora da lei se depara com uma família despejada e atira contra uma placa, finalizando com a orgulhosa frase “Nós roubamos bancos”. Esta frase volta a aparecer quando o casal se encontra com C.W. Moss e pergunta: “Nós roubamos banco. Há algo de errado nisto?”. A pergunta é direcionada a Moss, mas serve também para a fatia conservadora da platéia. O filme veio para mudar a forma de fazer cinema em Hollywood e conseguiu, inovando também ao humanizar os bandidos, como por exemplo, na cena em que Clyde atira em um homem e sai dizendo que não queria feri-lo. Já não existia mais o certo e o errado. Já não existiam mais os códigos de conduta e moral. Ao constatar que Bonnie e Clyde jamais se arrependeram da vida que levaram, notou-se que a ambigüidade havia chegado ao cinema de Hollywood.

O bom roteiro escrito por Robert Benton e David Newman vai além da ousadia, expondo também o jogo da fama com propriedade, mostrando claramente como as pessoas gostam de ser famosas, como quando um policial orgulhosamente dá entrevista depois de ser pego pelo bando e quando um casal pega carona com o grupo somente para ver o que os amigos pensariam ao ver o nome deles nos jornais. Reforça este argumento o momento em que as pessoas cercam o carro dos bandidos feridos, somente para ver de perto aqueles indivíduos famosos. O roteiro acerta também na citada humanização dos bandidos, também exemplificada no momento em que Bonnie se preocupa com a velhice de sua mãe e demonstra seu medo de perdê-la. O encontro das duas, aliás, ilustra a qualidade da direção de fotografia de Burnett Guffey, que apresenta uma imagem sem vida, que simboliza a relação entre mãe e filha que se esvai.

Com um bom roteiro nas mãos e com liberdade para criar, o talentoso Arthur Penn não desperdiçou a oportunidade. Graças à sua coragem, o longa causou impacto não somente pelo tom da narrativa, mas também pelo aspecto visual. A violência extremamente gráfica aparece em muitas cenas, como no tiro de Clyde na cara de um homem, no massacre de Buck e no tiro que acerta Bonnie. Penn coloca ainda em diversos momentos a câmera sob o ponto de vista de Clyde, jogando o espectador para a perspectiva do bandido e fazendo com que este torça por ele. A própria fotografia ensolarada de Burnett Guffey romantiza e glorifica a vida do casal através de suas cores quentes, além de conferir um ar mais realista à narrativa ao escolher um visual mais cru e granulado. Os figurinos charmosos de Theadora Van Runkle (o chapéu de Bonnie, em especial) também ajudam a criar a imagem de “bandidos simpáticos”, reforçada pela própria atitude deles, como quando Clyde pergunta a um senhor se o dinheiro que ele segura é dele e, ao ouvir a resposta positiva, diz para o senhor ficar com o dinheiro. A primeira seqüência do tiroteio, com o grupo preso numa casa, é sensacional e reforça a qualidade da direção de Penn, que garante um ritmo frenético à cena sem jamais soar confuso, graças também à excelente montagem de Dede Allen, que alterna entre os planos com incrível vigor. Vale destacar também a qualidade do som, que permite distinguir com precisão desde pequenas vibrações até os barulhentos tiros. Voltando ao trabalho excepcional de Dede Allen na montagem, podemos observar também uma interessante passagem no tempo, feitas através das notícias de um jornal (repare a alegria de todos, especialmente de Bonnie ao ser citada), além da elegante transição da noite para o dia feita com o ferido Buck deitado no colo do irmão. Já o segundo tiroteio, com o grupo preso dentro de uma cabana, é ainda mais violento e resulta na morte de Buck (e a fotografia sombria no momento em que ele é baleado já indicava seu trágico destino). Finalmente, Penn confirma sua habilidade durante uma perseguição de carro da polícia, criando uma seqüência empolgante, auxiliado também pela trilha sonora agitada e divertida de Charles Strouse. Vale observar também a composição do plano seguinte, onde podemos observar o casal Velma (Evans Evans) e Eugene (Gene Wilder) namorando e, ao fundo, o carro deles sendo roubado, seguido pela engraçada perseguição que resulta na amizade entre todos os envolvidos.

E porque motivo duas pessoas comuns fariam amizade com um grupo de bandidos? A resposta é simples e exemplifica uma das mensagens principais do filme. É a mesma razão que fez Bonnie se apaixonar por Clyde, mesmo sem conseguir transar com o rapaz. A fama, e a glória que ela traz, encorajava toda aquela gente e o longa retrata isto claramente. Era essencial, no entanto, que a química do casal principal convencesse e felizmente Dunaway e Beatty se saem muito bem nesta tarefa, conquistando a empatia do espectador. Repare, por exemplo, a empolgação de Bonnie quando começa sua vida com Clyde e seu jeito irônico de falar, como quando zomba de Moss (“Uh, ele é fichado…”). Repare ainda como a garota não se abala com o assassinato de um homem, agindo tranquilamente no cinema e na conversa do casal num quarto. Ela gostava daquela vida e Dunaway retrata isto muito bem, como podemos notar no brilho de seus olhos quando Clyde a convida para viver com ele. Mas nem tudo são flores na relação do casal e na primeira briga, ambos jogam na cara um do outro o que lhes desagrada. Esta relação, aliás, é muito bem resumida no belo texto de Bonnie para os jornais. Beatty, por sua vez, demonstra muito bem o incomodo de Clyde com a impotência, refletindo em seu rosto a amargura que sentia, além de demonstrar de maneira visceral sua raiva com a notícia de um jornal sobre a morte do irmão. Clyde, aliás, extravasava sua impotência em seus crimes. Sua arma fazia aquilo que seu órgão não conseguia. Quando ele finalmente consegue se relacionar sexualmente com Bonnie, algo sugerido na cena em que conversam na grama, seus crimes terminam. Já Gene Hackman confirma todo seu talento, atuando com leveza e espontaneidade na pele do irmão de Clyde. Solto, sempre sorridente e fazendo piadas, seu Buck Barrow demonstra incrível afinidade e empatia com o irmão, graças ao talento do ator. Repare como os irmãos não conseguem parar de falar quando se reencontram, ao contrário das mulheres que ficam mudas no carro. Em seguida, quando passam a viver dentro de uma casa numa vida mais “normal”, é a vez de Bonnie deixar claro o quanto se sente deslocada, o que se agrava quando ela entra em conflito com Blanche, a esposa de Buck muito bem interpretada por Estelle Parsons. Completando o elenco, Michael J. Pollard interpreta o fiel C. W. Moss e Dub Taylor vive o esperto Ivan Moss, que tem participação chave na trama, numa cena onde sua conversa com um policial não necessita de palavras para indicar o que irá acontecer. Vale notar também sua aparente simpatia pelo famoso casal, desmascarada quando entra na casa com seu filho.

A cena final de “Bonnie & Clyde” é emblemática e extremamente bem conduzida por Penn. A simples troca de olhares do casal indica o trágico destino de ambos. E até mesmo neste momento eles são capazes de trocar olhares apaixonados, como se estivessem satisfeitos por terem chegado ao fim juntos. A condução da cena é maravilhosa, graças também à montagem que alterna entre os planos do banho de sangue com precisão e capta com detalhes a reação de cada personagem presente. Penn estiliza a cena ainda mais com o uso da câmera lenta, seguido pelo travelling através do carro destruído que finaliza com o plano silencioso em que as pessoas olham pra dentro dele. Chegava ao fim a lendária história do casal. E enquanto a tela escurecia, a platéia tinha a certeza de ter assistido algo diferente. Iniciava-se ali uma nova era em Hollywood.

Assim como o casal de bandidos que o inspirou, “Bonnie & Clyde, uma rajada de balas” saiu atirando em tudo que tinha em seu caminho, deixando marcas por onde passou. Mas ao contrário do final trágico de Bonnie Parker e Clyde Barrow, o longa resistiu aos ataques que sofreu e seu lançamento permanecerá eternamente na galeria dos momentos mais importantes da história do cinema e da cultura norte-americana.

Texto publicado em 08 de Novembro de 2010 por Roberto Siqueira