TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

Anúncios

WALL STREET – PODER E COBIÇA (1987)

(Wall Street)

4 Estrelas 

Videoteca do Beto #162

Dirigido por Oliver Stone.

Elenco: Charlie Sheen, Michael Douglas, Martin Sheen, Daryl Hannah, Hal Holbrook, Sean Young, Franklin Cover, Chuck Pfeiffer, James Karen, John C. McGinley, James Spader, Terence Stamp e Leslie Lyles.

Roteiro: Stanley Weiser e Oliver Stone.

Produção: Edward R. Pressman.

Wall Street - Poder e Cobiça[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Tanto tematicamente quanto narrativamente, Oliver Stone nunca foi um diretor de sutilezas. Com seu estilo histriônico e sua maneira direta de se posicionar diante dos temas que escolhe como centro de suas narrativas, Stone rapidamente foi rotulado como um diretor polêmico, gerando simpatia e rejeição em proporções similares. No entanto, existem momentos em que este estilo agressivo casa perfeitamente com o tema abordado, como acontece nos ótimos “Platoon”, “Nascido em 4 de Julho”, “Assassinos por Natureza” e na obra-prima “JFK”. Ao decidir explorar o universo especulativo da bolsa de valores, Stone acertou mais uma vez em cheio e, ao lado de seu talentoso elenco, fez deste “Wall Street – Poder e Cobiça” um ótimo filme.

Escrito pelo próprio Stone ao lado de Stanley Weiser, “Wall Street – Poder e Cobiça” narra à trajetória do jovem corretor da bolsa de Nova York Bud Fox (Charlie Sheen), que encontra a grande chance de se destacar no ramo das ações quando obtém uma importante informação sobre a empresa aérea em que seu pai (Martin Sheen) trabalha e decide repassá-la ao bilionário Gordon Gekko (Michael Douglas), um homem que não mede esforços para fazer sua fortuna crescer através do competitivo mercado financeiro.

Apenas um ano após ser consagrado pela Academia com o Oscar por “Platoon”, Oliver Stone confirmava sua coragem ao abordar outro tema delicado e cutucar o coração financeiro dos EUA: Wall Street. Filho de um corretor da bolsa, Stone enxergava com preocupação as ações dos chamados “Mestres do Universo” (assim intitulados por Tom Wolve em seu livro “A Fogueira das Vaidades”), homens poderosos que manipulavam o mercado financeiro descaradamente, gerando sentimentos contraditórios no cidadão comum, que se via enojado diante da falta de princípios que regrava aquele mundo quase incompreensível e, ao mesmo tempo, fascinado diante de tanta autoconfiança e poder.

Para retratar este ambiente misterioso e nada ético, Stone e seu bom diretor de fotografia Robert Richardson exploram cores sem vida como cinza, azul marinho e preto, que ecoam também nos ternos impecáveis dos figurinos de Ellen Mirojnick, que, por sua vez, ganham ainda mais importância num mundo onde as aparências são tão valorizadas. Da mesma forma, observe o contraste entre o quase asséptico escritório novo de Bud e o caótico escritório em que ele trabalhava (design de produção de Stephen Hendrickson), apresentado num curto plano-sequência logo nos primeiros minutos de projeção que serve também para nos familiarizar com a hierarquia do local. Quanto maior a sala, mais importante é aquela pessoa na corporação. Por outro lado, ainda que tenha a cara dos anos 80, a trilha sonora de Stewart Copeland hoje soa datada e pouco contribui na construção desta atmosfera opressora, salvando-se apenas em momentos onde tem alguma função narrativa, como quando ilustra a preocupação de Bud ao indicar as ações da Bluestar para Gekko, demonstrando que ele sabia o risco que corria ao tomar aquela perigosa decisão.

Ternos impecáveisEscritório novoCaótico escritórioAuxiliado pela montagem dinâmica de Claire Simpson, Stone ainda reflete com precisão a atmosfera de urgência da bolsa de valores, empregando closes, dividindo a tela e agitando a câmera assim que o relógio anuncia a abertura do mercado. Observe ainda como os cortes rápidos ilustram a tensão do ambiente, chegando ao auge na empolgante sequência da venda das ações da Anacott Steel, que reflete a euforia de Bud diante daquela importante transação (vale notar a rápida aparição do próprio Oliver Stone nesta sequência). Por outro lado, observe como quando as ações se passam no escritório de Gekko, tanto o ambiente mais amplo e organizado quanto à câmera mais controlada de Stone refletem o excepcional domínio que aquele homem tem sobre o que faz.

Dividindo a telaRelógio anuncia a abertura do mercadoAmbiente mais amplo e organizadoMas o grande mérito de “Wall Street – Poder e Cobiça” não está nos aspectos técnicos. Ciente de que a narrativa depende muito mais do desempenho dos atores, Oliver Stone consegue extrair boas atuações de quase todo seu elenco, a começar por papeis menores como o de Sean Young, que vive a artificial esposa de Gekko, e Hal Holbrook, que, vivendo o corretor da bolsa Lou Mannheim, faz bem o tipo experiente que já viu de tudo na carreira, enxergando de longe aonde a ganância de Bud poderia levá-lo. E se Martin Sheen encarna o Sr. Fox com simplicidade, isto não o impede de se impor diante do filho quando é preciso, ainda que ele não consiga conter o ímpeto do rapaz diante de tantas possibilidades – e o plano que ilumina o rosto de Bud em certo momento sugere uma aura mística e indica que ele era mesmo “o escolhido” por Gekko para entrar naquele seleto grupo de milionários.

Artificial esposa de GekkoCorretor Lou MannheimSr. FoxPai e filho na vida real, Charlie e Martin estabelecem a química dos personagens naturalmente, o que é essencial para compreender a reação de Bud ao descobrir as reais intenções de Gekko na aquisição da Bluestar. Jovem e ambicioso, Bud rapidamente conquista a confiança do bilionário, sendo recompensado com agrados e a meteórica ascensão social. Na época firmando-se como um ator dramático após o sucesso de “Platoon”, Charlie Sheen transmite este deslumbramento do personagem com precisão, mudando-se em pouco tempo para um apartamento luxuoso e conquistando a bela Darien de Daryl Hannah, que, por sua vez, também tira o máximo proveito daquele bem sucedido grupo social (financeiramente, diga-se) ao envolver-se secretamente com Gekko em troca de novos e importantes clientes.

Envolvendo-se gradualmente numa troca ilegal de informações sigilosas, Bud se torna mais e mais ganancioso, e este mundo luxuoso e repleto de regalias que se abre a sua frente não colabora em nada para impedir sua inserção naquele ambiente. Só que toda esta superficialidade tem um preço. Assim, quando o casal discute, Bud não hesita em deixar claro que sabe que Darien o enxerga apenas como uma oportunidade de continuar sua escalada social, mas as duras respostas dela mostram que ele não era tão diferente assim – e o bom desempenho da atriz neste momento nos faz acreditar que ela de fato gostava dele, o que torna tudo ainda mais intenso.

Química naturalDeslumbramentoCasal discuteControlando este complexo jogo de interesses com maestria, o persuasivo e arrogante Gordon Gekko soa quase como um vilão inabalável, ainda mais pela maneira visceral que Michael Douglas compõe o personagem, surgindo sempre confiante e poderoso, como se fosse capaz de prever tudo que acontece com grande antecedência. Enxergando o dinheiro como a única coisa pela qual vale a pena lutar (“Almoçar é para os fracos”), Gekko demonstra enorme habilidade nas negociações, mas mostra igual capacidade de passar por cima da ética se assim for preciso para conquistar seus objetivos. Destacando-se ainda em momentos marcantes como o icônico discurso feito aos sócios da Teldar Paper (“A ganância é boa”), Douglas consegue transformar um personagem que tinha tudo para ser detestável em alguém cativante através de sua maneira prática de enxergar o mundo e de dizer coisas profundamente cruéis.

Persuasivo e arrogante Gordon GekkoConfiante e poderosoIcônico discursoEntretanto, não são apenas as palavras de Gekko que provocam desconforto em “Wall Street – Poder e Cobiça”, como atesta a forte discussão entre os Fox no elevador, onde os cortes rápidos de Stone ajudam a nocautear a plateia, desnorteada diante das duras palavras trocadas por eles – num grande momento da atuação dos Sheen. Da mesma forma, a câmera inquieta realça a tensão na discussão entre Bud e Gekko sobre a liquidação da Bluestar, na qual o primeiro demonstra que não aceitará tão facilmente ser manipulado pelo bilionário, enquanto o segundo resume muito bem o que é o capitalismo e como funciona a divisão de renda nos EUA (e na maior parte do planeta, porque não?) – e repare como após ser enganado na venda da Bluestar, Gekko surge coberto pelas sombras, indicando sua decadência.

Forte discussão no elevadorDiscussão entre Bud e GekkoGekko surge coberto pelas sombrasObviamente, Oliver Stone não perde a oportunidade de criticar acidamente todo aquele sistema e insere seus comentários sociais em diversos momentos, como quando acompanhamos Bud ganhando uma sala ampla ao mesmo tempo em que um velho funcionário é demitido (“Tenho dois filhos para criar, vou parar na sarjeta”, argumenta). A intenção é clara: criticar o feroz sistema especulativo de Wall Street, responsável por fabricar jovens milionários da noite para o dia – e também por gerar algumas crises marcantes nas últimas décadas, como hoje sabemos bem. Soltas durante a narrativa, frases como “O dinheiro faz você fazer coisas que não quer fazer” e “Pare de ir atrás do dinheiro fácil e produza algo com sua vida” resumem bem a visão de Stone sobre o tema.

É verdade que para alcançar seu objetivo, o diretor acaba pesando a mão em alguns instantes. Assim, o milionário Gekko obviamente acaba punido e preso, enquanto Bud perde a namorada e o dinheiro, vende o apartamento, vê seu pai sofrer um enfarte e ainda é surpreendido em seu escritório pela polícia, num resultado trágico que nem sempre traduz a realidade do mercado financeiro – e é curioso notar como mesmo após fazer tantas coisas erradas, nós sentimos pena dele ao vê-lo deixando o escritório algemado e chorando. É evidente que nem todo trader é como Gekko e que é possível ser bem sucedido como corretor sem deixar-se cegar pela ganância, mas nem por isso “Wall Street – Poder e Cobiça” deixa de ser um grande filme que, curiosamente, acabou antevendo parte do processo de decadência dos “Mestres do Universo”.

Bud ganhando uma sala amplaVelho funcionário é demitidoDeixa o escritório algemado e chorandoEm “Wall Street – Poder e Cobiça”, Oliver Stone aponta sua metralhadora crítica não apenas para o especulativo mercado financeiro, mas também para a mentalidade de uma época em que a qualidade de um terno era mais importante do que a pessoa dentro dele e que o sucesso era medido pelos dígitos de sua conta bancária. O tempo provou que o diretor tinha certa dose de razão e que, ao contrário do que afirma Gordon Gekko, a ganância não é algo tão bom assim.

Wall Street - Poder e Cobiça foto 2Texto publicado em 16 de Março de 2013 por Roberto Siqueira

A FIRMA (1993)

(The Firm)

 

Videoteca do Beto #90

Dirigido por Sydney Pollack.

Elenco: Tom Cruise, Jeanne Tripplehorn, Gene Hackman, Ed Harris, Holly Hunter, David Strathairn, Hal Holbrook, Terry Kinney, Wilford Brimley, Gary Busey, Steven Hill, Barbara Garrick, Paul Sorvino e Tobin Bell.

Roteiro: David Rabe, Robert Towne e David Rayfiel, baseado em livro de John Grisham.

Produção: John Davis, Sydney Pollack e Scott Rudin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Baseado no best-seller de John Grisham, este empolgante “A Firma” é um thriller eletrizante, que prende a atenção do espectador, nos envolvendo na complicada situação do protagonista interpretado por Tom Cruise, que vê a grande oportunidade de sua vida lentamente se transformar num verdadeiro pesadelo. Dirigido por Sydney Pollack, o longa aposta na alta carga de tensão e em seu talentoso elenco, conseguindo sucesso simplesmente pela forma em que a narrativa é conduzida, sem apelar para inúmeras seqüências de ação ou suspense.

Após formar-se com honras, o jovem advogado Mitch McDeere (Tom Cruise) aceita a proposta de uma pequena firma localizada em Memphis, que lhe oferece um alto salário e diversos benefícios em troca de seu talento. Mas na medida em que ele inicia os trabalhos, começa a desconfiar da empresa e de seus companheiros, como o misterioso Avery (Gene Hackman), que paralelamente tenta seduzir sua esposa Abby (Jeanne Tripplehorn).

Em certo momento de “A Firma”, o jovem Mitch acompanha um garoto de rua durante uma série de cambalhotas, externando sua extrema alegria naquele momento de sua vida, logo após ser contratado e mudar-se para Memphis. Esta cena terá reflexo direto em outro momento da narrativa, quando o mesmo Mitch vê o garoto iniciar sua série de cambalhotas e sequer esboça reação, passando direto pelo menino como se nem tivesse notado sua presença. A diferença entre os dois instantes é que no segundo a firma já tinha transformado sua vida. Entre estes dois momentos antagônicos, o jovem Mitch e sua esposa Abby vivem o chamado “sonho americano”, algo simbolizado no interessante raccord que transforma o desenho das crianças da turma em que Abby dava aulas em Boston na imagem do casal viajando rumo à nova vida. E o diretor Sydney Pollack faz questão de refletir este sentimento em seus belos planos, que exploram o lindo pôr-do-sol em Memphis, as grandes pontes que cruzam o rio e o reflexo do sol nas estradas e prédios da cidade, conferindo uma aura dourada aquele momento promissor. E até mesmo a trilha sonora evocativa de Dave Grusin reflete o sentimento do casal, que realiza o sonho do sucesso profissional e da vida estável na chegada a Memphis. Aliás, logo na primeira conversa com a Bendini, Lambert (Hal Holbrook), um dos poderosos da empresa, afirma que a família é importante pra eles, mostrando uma receptividade refletida no local da conversa, bastante aconchegante e convidativo, criando uma atmosfera familiar que revela o bom trabalho de direção de arte de John Willett, notável também na decoração imponente dos escritórios e salas de reuniões da firma. Mas durante uma festa que acontece momentos depois, Lambert diz para Mitch que na firma nós “guardamos os segredos entre nós” e indica sutilmente o que viria a acontecer – e que também é indicado pela fotografia de John Seale, sempre clara e convidativa fora da firma e obscura dentro do ambiente de trabalho de Mitch.

Mas, logo após sua chegada, dois advogados morrem num mergulho e, após conversar com um misterioso agente do FBI (Ed Harris), com o homem que cuida dos barcos de mergulho e com um de seus clientes numa viagem feita com Avery, Mitch passa a desconfiar da firma – algo que Cruise demonstra bem em seu olhar cada vez mais inquieto. A partir daí, Pollack começa a empregar um ritmo cada vez mais intenso à narrativa, que nos levará ao momento crucial em que Denton (Steven Hill) conta a verdade sobre a firma para Mitch (e que remete à conversa entre o Sr. “X” e Jim Garrison no “JFK” de Oliver Stone, pois, nas duas cenas, um banco numa praça serve de local ideal para que um segredo seja revelado). Desde então, na medida em que Mitch tenta encontrar uma forma de sair do terrível labirinto em que se meteu, Pollack ilustra sua agonia através do ritmo crescente da narrativa, graças ao auxilio da montagem ágil da dupla Fredric e William Steinkamp. O trabalho dos Steinkamp, aliás, é notável desde a chegada dos McDeere à Memphis, quando ilustra o dia-a-dia corrido do casal através de uma seqüência de imagens embaladas pela empolgante trilha sonora, além de ilustrar o desespero de Mitch diante de tanto material pra estudar através da montagem fluída da cena em que diversos advogados deixam pastas em sua mesa.

Ao mesmo tempo em que investiga a firma, Mitch vê sua vida de conto de fadas rapidamente dar lugar ao excesso de trabalho e a rotina maçante, que começam a desestabilizar seu relacionamento com Abby. E se sentimos que a relação está se deteriorando, é porque Cruise e Tripplehorn conseguiram estabelecer uma boa dinâmica até então, nos fazendo acreditar naquele relacionamento. Observe, por exemplo, o momento em que Mitch se mostra impressionado com uma limusine enquanto sua esposa finge estar acostumada (“Se esteve em uma limusine, esteve em todas”) ou as brincadeiras do casal na casa nova, mostrando o quanto eles se dão bem. Sempre intenso, Tom Cruise destaca-se também nos momentos mais sutis, como em sua divertida reação ao pedido de Avery no restaurante, contrariando a regra que ele acabara de citar sobre bebidas. Mas é a partir da conversa com Denton que a atuação de Cruise verdadeiramente cresce. Desnorteado após a revelação bombástica, Mitch vai direto pra firma e, inteligentemente, fala com seus superiores de maneira que pareça inocente, mas, em seguida, prova que entendeu bem o recado do FBI na tocante conversa com sua esposa, conduzida com perfeição por Sydney Pollack, que, com sua câmera lenta e com o volume alto da música, torna desnecessário escutar as palavras no ouvido dela, pois somente sua reação (em grande momento de Tripplehorn) e sua saída em disparada da casa, como uma criança que não sabe para onde ir, servem para nos comover. Aliás, Tripplehorn também se destaca no momento em que Mitch conta sobre a traição na praia, quando o rosto da atriz demonstra a dor que a personagem sente com precisão. Bastante relutante após a chegada em Memphis, ela vê seu pesadelo tornar-se realidade com o passar do tempo, mas ainda assim encontra forças para ajudar o marido na hora em que mais precisa, aproveitando-se da atração de Avery por ela, indicada já na troca de olhares e no afiado diálogo entre eles no cemitério. Como Judas, ela consolida a traição com um beijo e, após o desmaio de Avery, inicia o processo que levará Mitch a sair ileso daquela complicada situação. Na manhã seguinte, a conversa sincera entre Avery e Abby demonstra o quanto o veterano advogado estava desgastado com aquela vida – e tanto Tripplehorn como Hackman são responsáveis por conferir emoção ao diálogo. Avery é hoje o que Mitch seria amanhã, alguém devastado pela vida que leva e incapaz de mudar a situação – e Hackman demonstra isto com precisão em seu semblante pesado e triste. Nas palavras dele mesmo, em algum momento do passado a firma havia feito aquilo com ele. Sempre convincente, Gene Hackman faz de seu Avery mais um vilão ambíguo e marcante em sua carreira. Já o competente Ed Harris se mostra muito seguro como o agente do FBI Wayne Tarrance, ao passo em que Holly Hunter quase rouba a cena com seu excelente desempenho na pele da corajosa e descolada Tammy, que ajuda e muito Mitch a sair da enrascada em que se meteu. E fechando o elenco, vale notar que um dos matadores da firma é interpretado por Tobin Bell, o Jigsaw de “Jogos Mortais”.

Escrito por David Rabe, David Rayfiel e pelo ótimo Robert Towne, o roteiro de “A Firma” (baseado em livro de John Grisham) cria situações que aumentam constantemente a tensão, alcançando níveis insuportáveis no ótimo terceiro ato da narrativa, além de apresentar diversos diálogos interessantes, como quando Mitch visita o irmão Ray (David Strathairn) na cadeia ou quando ele conversa com os Moroltos, demonstrando muita inteligência para lidar com aquela gente perigosa – aliás, nesta cena Cruise também se destaca, mostrando o cansaço de Mitch através do olhar e da voz; mesmo extenuado, ele consegue impor respeito e soar convincente. Além disso, o roteiro é hábil em espalhar situações que terão reflexo futuro na narrativa, como a conversa entre Mitch e uma moça machucada na areia da praia, quando ela toca em seu ponto fraco e fala sobre o desejo de se sentir rico – algo que, descobriríamos depois, era planejado para seduzi-lo, criando uma prova de sua traição que seria usada para intimidá-lo futuramente. Existe também um interessante questionamento do “código de ética profissional” dos advogados, que são obrigados a morrer com os segredos de seus clientes, por mais inescrupulosos que sejam. Talvez o único problema do excelente roteiro de “A Firma” (e da montagem dos Steinkamp) seja a trama envolvendo o irmão de Mitch, que, apesar de ter sua importância, ocupa tempo demais na narrativa.

O eletrizante terceiro ato contém as melhores cenas de ação do filme, com as ações paralelas que colocam em prática o plano de Mitch (as cópias, o roubo dos arquivos, a negociação com o FBI, a fuga de Ray) e, obviamente, a espetacular perseguição que se inicia no metrô de superfície – com Cruise mostrando muita energia na fuga pelas ruas -, que nos leva ao momento em que ele se esconde num galpão e escapa, por sorte, da morte – e em todas estas seqüências, vale destacar novamente a dinâmica montagem dos Steinkamp. Com muita inteligência, Mitch se sai bem da complicada situação em que se meteu, ganhando sua vida de volta sem violar a lei, o que em boa parte da narrativa parecia impossível. E se parecia impossível, é porque Pollack, sua equipe e seu talentoso elenco tiveram sucesso em sua empreitada.

Com um roteiro intrigante, boas atuações e uma narrativa eletrizante, “A Firma” revela-se um thriller envolvente, que cumpre muito bem o papel que se propõe e, de quebra, questiona uma das regras básicas da advocacia. E pedindo de antemão o perdão do leitor pela falta de originalidade, entendo que poucas vezes o dito popular “quando a esmola é grande, o santo desconfia” teve tanto significado.

Texto publicado em 16 de Março de 2011 por Roberto Siqueira