TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976)

(All the President’s Men)

5-estrelas

 

obra-prima

 

Videoteca do Beto #211

Dirigido por Alan J. Pakula.

Elenco: Robert Redford, Dustin Hoffman, Jason Robards, Martin Balsam, Jack Warden, Hal Holbrook, Jane Alexander, Meredith Baxter e James Karen.

Roteiro: William Goldman, baseado em livro de Carl Bernstein e Bob Woodward.

Produção: Walter Coblenz.

Todos os Homens do Presidente[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

No dia 18 de Junho de 1972, o jornal Washington Post estampou em sua capa o assalto ocorrido na noite anterior à sede do Partido Democrata no hotel Watergate, que levou os cinco homens presentes a julgamento. A investigação que se seguiu levou a descoberta de um dos maiores crimes políticos da história dos Estados Unidos, culminando na renúncia do então presidente Richard Nixon, já em 09 de Agosto de 1974. Coube então a Alan J. Pakula a missão de transpor para as telonas o histórico processo de investigação. Com a ajuda de um elenco competente e a forte colaboração do influente Robert Redford, o diretor realizou seu maior trabalho atrás das câmeras, uma verdadeira obra-prima do cinema que ainda hoje serve como aula de jornalismo investigativo.

Adaptado por William Goldman com base no livro dos jornalistas do Washington Post diretamente envolvidos no caso Carl Bernstein e Bob Woodward (que aqui são interpretados por Dustin Hoffman e Robert Redford respectivamente), “Todos os Homens do Presidente” acompanha todo o processo investigativo desde a manhã seguinte ao assalto a Watergate ainda durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1972 até a publicação da matéria que levaria o então presidente Nixon a renúncia. Condensar num filme de pouco mais de duas horas uma investigação envolvendo dezenas de pessoas e diversos diálogos reveladores sem ser maçante não é uma tarefa fácil, mas o trabalho de Goldman é digno de nota, não apenas por ser fiel aos acontecimentos, mas também por evitar que o espectador se perca diante de tantas informações. Com este excelente roteiro em mãos, restou a Alan J. Pakula a tarefa de dar vida ao material e o diretor se saiu maravilhosamente bem.

Baseando a narrativa no trabalho dos jornalistas, Pakula e seu montador Robert L. Wolfe imprimem um ritmo ágil que se revela essencial para manter o espectador envolvido no processo investigativo, colocando-nos na posição de investigadores ao lado de Bernstein e Woodward. Para auxiliar nesta aproximação entre a plateia e os jornalistas, Pakula utiliza a câmera muitas vezes próxima dos atores, nos permitindo praticamente sentir o que eles sentem e, ao compartilhar conosco o trabalho tanto no escritório quanto em suas residências, o diretor também faz com que o espectador processe as informações e se sinta parte da investigação. Observe, por exemplo, como na sequência em que eles buscam sem sucesso documentos que comprovem certa conexão dentro da Biblioteca Nacional, a câmera se afasta e diminui os personagens em cena, transmitindo a sensação de impotência de ambos naquele instante específico.

Por outro lado, sempre que eles conseguem alguma informação nova ou estão no meio de um diálogo importante, a câmera se movimenta com agilidade, transmitindo a empolgação dos personagens e o senso de urgência destes momentos, especialmente através dos travellings que acompanham Bernstein e Woodward correndo pela redação do Washington Post, servindo ainda para nos apresentar ao grande número de jornalistas presentes no local, o que realça o tamanho do feito da dupla principal, já que para encabeçar aquela importante investigação, eles tiveram que superar diversos concorrentes até mesmo mais experientes.

Câmera muitas vezes próxima dos atoresBiblioteca NacionalBernstein e Woodward correndo pela redaçãoA redação do Washington Post, aliás, realça o excepcional design de produção de George Jenkins, que além de reconstituir o local com precisão, ainda reflete através da profundidade de suas linhas retas e de seu ambiente amplo e caótico o universo de informações que os personagens estavam mergulhando (algo perfeitamente ilustrado também no plano plongè na biblioteca acima mencionado), servindo também para realçar traços da personalidade dos protagonistas. Repare, por exemplo, como as anotações de Woodward, ainda que desorganizadas, transmitem sua sede por informações relevantes e sua maneira de organizar o raciocínio, contrapondo-se muito bem ao comportamento mais atirado de Bernstein, que utiliza métodos mais agressivos para obter o que deseja, como quando engana uma secretária para conseguir falar com determinado personagem.

Redação do Washington PostAnotações de WoodwardMétodos mais agressivosEstabelecendo uma excelente dinâmica entre eles, Redford e Hoffman dão um show de interpretação, transmitindo a importância de cada informação obtida através de suas reações, realçadas pela câmera de Pakula – repare, por exemplo, o close no rosto de Redford durante o diálogo com Dahlberg, que se confirmaria como um importante passo na investigação, assim como ocorre com Bernstein já no ato final quando através de uma inteligente sacada ele arranca uma confirmação de uma fonte sem necessitar de uma palavra sequer.

Aliás, os dois exibem um verdadeiro arsenal de técnicas investigativas que se demonstram eficientes ao conseguir as informações desejadas sem, para isto, colocar os informantes em posição muito desconfortável. É óbvio que vez por outra é necessário jogar alguém contra a parede, mas este processo é sempre feito de maneira ética e sagaz pela dupla, como quando conseguem a ajuda de uma colega de redação, mesmo com Woodward se recusando a forçar a garota a dizer o que não queria – e a atuação de Lindsay Crouse neste instante é tocante, transmitindo o quão dolorido seria aquele ato pra ela somente através de sua expressão ao ouvir a proposta dos colegas. Trazendo uma verdadeira lição de jornalismo, os repórteres obtêm informações muitas vezes sem necessitar de declarações explícitas, trabalhando nas entrelinhas e, o que é mais importante, checando cada informação duas ou três vezes antes de publicar a matéria.

Vestidos em ternos sóbrios que transmitem a seriedade da dupla (figurinos de Bernie Pollack), Bernstein e Woodward se complementam num trabalho em equipe eficiente que abre espaço para opiniões divergentes, mas sempre com respeito pela posição contrária. Este é, aliás, o clima que predomina também na redação do Washington Post, liderada pelo excelente Jason Robards, que se destaca como o chefe Bradlee, mostrando-se um líder de verdade ao apoiar seus repórteres nos momentos mais difíceis e extrair o máximo deles durante a investigação, recusando-se a divulgar matérias quando entende faltar sustentação e, por outro lado, enfrentando a fúria dos poderosos quando acha que o material tem base suficiente para chegar ao público. Tomando a frente nas reuniões de pauta, Robards se destaca num elenco que conta ainda com atores talentosos como Martin Balsam, Jack Warden e Hal Holbrook, além é claro de Jane Alexander, que protagoniza uma das melhores cenas do longa ao lentamente ceder informações para Bernstein e escancarar a ameaça por trás daquilo tudo, num diálogo intenso e tocante ocorrido dentro da casa dela.

Ajuda de uma colega de redaçãoChefe BradleeDiálogo intenso e tocanteTambém dentro de uma residência, desta vez o apartamento de Woodward, ocorre outro momento interessante quando, para evitar ser ouvido pelo grampo instalado no local, Bernstein aumenta o volume da música, numa das raras ocasiões em que a discreta trilha sonora de David Shire chama a atenção, desta vez utilizando o som diegético e não sua composição minimalista. Nada discreta, porém, é a forma como o mestre Gordon Willis fotografa “Todos os Homens do Presidente”, abusando de momentos extremamente sombrios que contrastam com o visual mais claro da redação do jornal, simbolizando que ali revelações obscuras viriam à tona. Repare também como o uso das sombras torna ainda mais tensa à sequência do assalto à sede do Comitê Nacional Democrata em Watergate, conduzida com precisão pelo diretor. Da mesma forma, as citadas cenas chave dentro das residências surgem predominadas pelas sombras, assim como as conversas no estacionamento de um shopping entre Woodward e o misterioso “Garganta Profunda” (interpretado pelo ótimo Hal Holbrook), que mal pode ser identificado com seu rosto quase completamente imerso na escuridão.

Revelações obscuras viriam à tonaGarganta ProfundaPresidente NixonUtilizando ainda imagens de arquivo do presidente Nixon para conferir mais realismo a narrativa, Willis e Pakula conseguem transmitir o tom de seriedade que a história pedia ao ser levada às telas pouquíssimo tempo depois do ocorrido. Diante da sensibilidade do tema e da proximidade do fato, uma abordagem incorreta poderia afundar a carreira dos envolvidos, mas felizmente não foi o que aconteceu. Numa imagem que ilustra perfeitamente a força do chamado Quarto Poder, o plano final com Woodward e Bernstein escrevendo a matéria enquanto o reeleito Nixon faz sua declaração na televisão é sensacional, registrando a ironia de um instante em que o homem mais poderoso do país era glorificado enquanto dois jornalistas de um jornal nem tão importante trabalhavam duro na matéria que iria desmascará-lo pouco tempo depois.

Com sua narrativa envolvente, atuações competentes e a segura direção de Pakula, “Todos os Homens do Presidente” é uma obra-prima que não deveria servir apenas como aula de jornalismo investigativo. O longa estrelado por Redford e Hoffman é, na verdade, uma verdadeira aula de cinema.

Todos os Homens do Presidente - foto 2Texto publicado em 26 de Julho de 2015 por Roberto Siqueira

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A UM PASSO DA ETERNIDADE (1953)

(From Here to Eternity)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #101

Vencedores do Oscar #1953

Dirigido por Fred Zinnemann.

Elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Jack Warden, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Philip Ober, Mickey Shaughnessy, Ernest Borgnine e George Reeves.

Roteiro: Daniel Taradash, baseado em peça de James Jones.

Produção: Buddy Adler.

A um passo da eternidade[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O cotidiano de uma base militar do exército norte-americano é retratado com sensibilidade neste belo “A um passo da eternidade”, um dos grandes vencedores da história do Oscar que, infelizmente, parece um pouco esquecido atualmente. Contando com atuações inspiradas de praticamente todo seu talentoso elenco, o diretor Fred Zinnemann utilizou o tenso período que antecedeu a entrada definitiva dos EUA na segunda guerra mundial para criar um profundo estudo sobre as relações humanas.

Baseado em peça de James Jones, o roteiro de Daniel Taradash se passa praticamente o tempo inteiro numa ilha do Havaí, onde o novato recruta Prewitt (Montgomery Clift) é submetido a um tratamento de choque por parte de seus superiores somente porque não aceita lutar boxe pela companhia do exército. Com o passar do tempo e a ajuda do soldado Angelo Maggio (Frank Sinatra) e da prostituta Lorene (Donna Reed), ele acaba conquistando o respeito do Sargento Warden (Burt Lancaster), que, por sua vez, se apaixona pela bela Karen Holmes (Deborah Kerr), a esposa de seu superior imediato, o rígido Capitão Holmes (Philip Ober).

Como podemos perceber somente pela premissa da narrativa, “A um passo da eternidade” nos apresenta uma vasta gama de personagens, algo que, nas mãos de um diretor menos habilidoso, poderia tornar o longa confuso. No entanto, a maneira como Zinnemann desenvolve aqueles relacionamentos faz com que o espectador compreenda a narrativa com clareza, ainda que fique intrigado diante das insinuações sobre o passado de alguns deles. Obviamente, é preciso dar crédito também ao roteiro de Taradash, que através de diálogos muito bem construídos confere uma ambiguidade interessante aquele grupo de pessoas, que se tornam ainda mais complexas graças às boas atuações de todo o elenco. Ali, ninguém é exatamente o que parece ser.

Seguindo na linha da direção discreta de Zinnemann, a fotografia de Burnett Guffey abusa das luzes e mesmo nas cenas noturnas não chega a ser obscura, evitando chamar a atenção para si e permitindo que o espectador se concentre exclusivamente no desenvolvimento daquelas relações. Da mesma forma, a econômica trilha sonora de George Duning surge apenas em momentos pontuais, mas sempre de maneira eficiente, como no primeiro encontro entre Warden e Karen e especialmente na icônica cena do beijo deles na praia.

Assim, a narrativa acertadamente se concentra muito mais no relacionamento entre os personagens do que no desenvolvimento da história em si. Num primeiro momento, esta escolha pode dar a sensação de que nada de fato está acontecendo, mas lentamente percebemos as diversas camadas daqueles personagens complexos e a narrativa engrena. Aliás, o longa tem um ritmo bem interessante que jamais se torna aborrecido, também pela forma como o montador William A. Lyon equilibra as diversas linhas narrativas (o caso de Warden e Karen, a relação de Prewitt e Lorene, as ações dentro e fora do exército, etc.).

Em “A um passo da eternidade” tudo é muito sutil, o que pode levar espectadores mais precipitados a criarem uma visão unidimensional daqueles personagens. Só que ninguém ali é exatamente bom ou ruim, com exceção do Capitão Holmes de Philip Ober que, ainda assim, tem seu momento de humanidade quando afirma dolorosamente que só traiu a esposa uma vez. Até mesmo o sexo é sugerido de maneira sutil, como quando Lorene sai para atender um cliente e deixa Prewitt esperando, voltando momentos depois.

Prewitt que é interpretado com competência e carisma por Montgomery Clift, que antes mesmo de dizer qualquer palavra já indica aos seus novos líderes que não deseja mais lutar somente através de um leve movimento no olhar. Determinado, o jovem provoca a ira do Capitão, um apaixonado por boxe que planeja vencer um campeonato e aposta no talento de Prewitt para conquistar seu objetivo. Só que nem mesmo as irritantes punições impostas ao garoto conseguem dobrá-lo; e é impressionante a maneira como Clift demonstra firmeza e, ao mesmo tempo, transmite a sensação de que o personagem está sempre próximo de seu limite, o que é essencial para que o espectador compreenda o único momento em que ele não resiste e parte para a briga com o Sargento Galovitch (John Dennis), ainda que seja numa luta a céu aberto e não no ringue como o Capitão queria. Finalmente, Clift se sai muito bem no tocante momento em que Prewitt revela porque parou de lutar, demonstrando a dor que ainda sente pela fatalidade ocorrida no passado.

Passado que também atormenta o relacionamento entre o Capitão Holmes e sua esposa Karen, como notamos numa discussão que, se não explica muito, já diz o suficiente para indicar o desgaste da relação provocado por uma traição. Deborah Kerr encarna a personagem com um ar misterioso que funciona muito bem, revelando lentamente a razão da infelicidade dela. Primeiro compreendemos que ela foi traída, depois observamos sua solidão e a forma grosseira que é tratada pelo marido e, finalmente, descobrimos seu desejo de ter filhos, que terá reflexo no tocante momento em que ela revela para Warden como perdeu seu bebê. Vulnerável, Karen passou a se envolver com diversos homens em busca da felicidade perdida em algum lugar do passado, o que motiva os comentários nada elegantes feitos pelos colegas de exército de Warden.

Impondo respeito com seu porte físico e grande carisma, Burt Lancaster encarna Warden com a mesma ambiguidade dos outros personagens, intercalando momentos em que parece agressivo e outros em que demonstra grande sensibilidade. Sua trajetória talvez seja a mais interessante dentre todos, especialmente pela forma como se aproxima de Prewitt e, especialmente, pela maneira como se entrega a paixão que sente por Karen, ainda que demonstre grande incômodo diante das insinuações a respeito do passado dela.

Prewitt revela porque parou de lutarKaren revela como perdeu seu bebêSe entrega a paixãoAliás, é interessante notar como os homens se preocupam com o passado das mulheres em “A um passo da eternidade”, já que Prewitt também demonstra uma mórbida curiosidade pelo passado de Lorene e, assim com Warden, se incomoda com isto. Linda e charmosa, a Lorene de Donna Reed é outra mulher misteriosa e ambígua, que num instante parece apaixonada por Prewitt e no outro fala de seus planos para o futuro de maneira assustadoramente ambiciosa (“Não quero casar com um soldado”), demonstrando grande preocupação com sua dignidade e segurança (o que, convenhamos, também é compreensível). Isto não significa que ela não goste de Prewitt de verdade e não se importe com ele; e seu desespero ao vê-lo retornar para o exército durante o ataque dos japoneses comove justamente por acreditarmos na personagem.

Fechando o elenco, Frank Sinatra tem uma boa atuação como o esquentado Angelo Maggio, que se torna o porto seguro de Prewitt naquele mar de hostilidade, saindo-se bem em momentos especiais como quando surge alcoolizado na boate ou quando foge da prisão para morrer nos braços do amigo. Maggio é também o responsável por iniciar uma das grandes cenas do filme, quando, logo após ver o amigo Prewitt dar um pequeno show no bar, não resiste à provocação do grandalhão Sargento Fatso (Ernest Borgnine) e inicia uma briga que só terminará com a imponente intervenção do Sargento Warden, num momento que é vital para selar a amizade entre este último e Prewitt e que também influenciará o trágico destino do próprio Maggio.

Ainda que a grande força da narrativa esteja nos relacionamentos, Zinnemann consegue construir bem os poucos momentos de tensão, como nesta briga em que Warden se impõe e conquista o respeito de Prewitt. Além disso, o diretor encontra espaço para raras ousadias, como quando mostra apenas as caixas que encobrem o momento crucial da briga entre Prewitt e o Sargento Fatso, deixando o espectador ainda mais tenso quando o segundo levanta antes do protagonista, somente para cair ensanguentado logo depois enquanto Prewitt surge no segundo plano. Vale mencionar ainda o impressionante plano aéreo durante o surpreendente ataque dos japoneses à base militar, numa sequência que hoje pode até soar visualmente datada, mas que ainda mantém o senso de urgência planejado pelo diretor.

Desespero ao vê-lo retornar para o exércitoImponente intervenção do Sargento WardenMomento crucial da brigaOutro momento memorável ocorre quando Warden e Prewitt se encontram numa noitada e conversam bêbados sobre seus problemas no meio de uma estrada, num grande momento da atuação de Lancaster e Clift que antecede a triste morte de Angelo. Mas talvez o momento mais sublime do longa seja mesmo o melancólico diálogo em que Warden diz para Karen que “nunca foi tão infeliz quanto é agora com ela” e que “não trocaria isto por nada”, somente para ouvir a mesma resposta duas vezes: “Eu também”. Este pequeno e precioso diálogo define muito bem os personagens de “A um passo da eternidade”.

Encerrado num tom melancólico que nos apresenta os personagens sobreviventes ao ataque a Pearl Harbor seguindo caminhos distintos, “A um passo da eternidade” deixa uma desconfortável sensação de que a felicidade plena jamais poderia ser alcançada por aquelas pessoas. Por mais que elas tentassem superar os obstáculos, novos sempre surgiriam para atrapalharem seus planos. E é justamente este gosto agridoce e tão próximo da realidade que torna o filme dirigido por Fred Zinnemann tão humano e tão belo.

A um passo da eternidade foto 2Texto publicado em 20 de Fevereiro de 2013 por Roberto Siqueira

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (1957)

(12 Angry Men) 

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #13

Dirigido por Sidney Lumet.

Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Jack Klugman, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, Ed Binns, Jack Warden, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber. 

Roteiro: Reginald Rose. 

Produção: Henry Fonda e Reginald Rose. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“É sempre difícil deixar o preconceito fora de uma questão dessas. Não importa pra que lado vá, o preconceito sempre obscurece a verdade”. A poderosa frase dita por um personagem chave em determinado momento da trama resume bem a mensagem principal deste filme absolutamente corajoso, envolvente e surpreendentemente original. Filmado quase que em sua totalidade dentro de uma única sala (somente 3 minutos acontecem fora dela), “Doze Homens e uma Sentença” é a prova de que um filme pode sim ser do mais alto nível sem a necessidade de grandes investimentos, apenas utilizando a criatividade e o talento.

Doze jurados têm a responsabilidade de decidir se um jovem garoto, acusado de matar o próprio pai, é culpado ou inocente. Com base na enorme quantidade de provas apresentadas pela promotoria, onze deles têm absoluta certeza de que o menino é culpado. Mas um dos jurados não pensa desta forma. Como a lei exige unanimidade na decisão, todos tentarão argumentar para convencer o último jurado de que eles têm razão.

A obra-prima de Lumet nos leva inicialmente ao tribunal onde o julgamento do garoto está acontecendo. Minutos depois, somos transportados, junto com os atores, para dentro da sala onde a importante decisão será tomada. O close no garoto antes de nos jogar dentro dela, auxiliado pela lenta e triste trilha sonora, nos lembra o que está em jogo naquele momento. Um dos grandes méritos do filme, aliás, é que o roteiro de Reginald Rose nunca nos diz se o garoto é de fato inocente ou culpado. Mesmo assim, a perfeita argumentação de apenas um jurado é suficiente para nos fazer concordar com ele logo no início do filme. Desta forma, quando a segunda votação proposta pelo personagem de Henry Fonda tem inicio, nos pegamos torcendo para alguém ter escrito “não culpado” no papel, pois os argumentos apresentados por ele foram convincentes e nos provam que não temos a certeza necessária para acusar o menino.

A direção de Lumet é absolutamente competente na direção de atores, evitando que o filme se torne maçante (o que seria compreensível em um filme que se passa o tempo todo no mesmo local). Observe como os atores sempre fazem algo para ter um pouco de movimentação em cena, como tirar os casacos, mexer nos óculos, levantar, olhar pela janela, ligar o ventilador ou mudar de posição na mesa. Este absoluto controle da movimentação em cena (misè-en-scene) pode ser observado em detalhes na cena em que um jurado preconceituoso (Ed Begley) começa a fazer seu discurso inflamado contra o garoto. Os outros jurados começam a se levantar e ficar de costas pra ele, demonstrando que não concordam com o que ele fala. A câmera se distancia lentamente, diminuindo o personagem na cena. Simultaneamente, ele vai diminuindo o tom de voz, até ficar desolado e sentar numa cadeira. O elenco atua em conjunto e a cena visualmente é perfeita na tradução do sentimento de todos. Além disso, Lumet explora ao máximo as possibilidades que a situação oferece, utilizando a câmera para nos transmitir sentimentos. Em uma das votações, Lumet vai aproximando lentamente a câmera do imigrante enquanto eles contam nove a três para “culpado”. Quando a câmera está bem próxima, ele muda de opinião e vota inocente. A câmera traduz visualmente o momento em que ele se convence e muda, engrandecendo-o na tela, como se a coragem para mudar estivesse crescendo dentro dele até o ponto de externar esta decisão. Outro detalhe perceptível é que a câmera inicia o longa filmando a maioria do tempo por cima, em plano geral. Com o passar do tempo ela vai descendo e filma os atores pela metade do corpo e quando se aproxima o final do filme, Lumet abusa da utilização de close no rosto deles. Desta forma, o diretor traduz visualmente o aumento da tensão e da sensação de angústia dos jurados. A chuva também é um artifício muito bem utilizado para aumentar esta sensação de incomodo e desconforto, como se eles estivessem se sentindo enclausurados. Finalmente, Lumet capta muito bem as excelentes atuações de todo o elenco. Repare, por exemplo, a cena em que os jurados discutem sobre a velocidade dos passos de uma das testemunhas do caso. Um jurado diz que “um velho daquele jamais saberia precisar esta informação” e a câmera da um close nele exatamente no momento em que percebe ter escancarado seu preconceito, o que se agrava pela presença de um senhor de idade na sala.

É preciso dizer que, para o sucesso absoluto do filme, a excepcional direção de Lumet não seria suficiente. Seria preciso também um elenco extremamente capaz. E felizmente, este é o caso. Isto porque mesmo quando não estão diretamente ligados à cena, os atores estão sempre aparecendo, mesmo que seja em segundo plano, o que os obriga a “atuar” praticamente durante todo o filme. Logo na primeira votação dois detalhes já mostram sutilmente como é o ser humano, graças à fenomenal interpretação coletiva do elenco. Ao perguntar quem considera o garoto culpado, alguns erguem as mãos na hora. Outros aguardam alguns segundos, observam e só depois erguem, claramente seguindo a opinião da maioria sem a menor convicção. Já quando começa a contagem, ao ver que Fonda não ergueu a mão, o rapaz que conta faz uma pausa, mostrando-se impressionado com o voto dele. Todos olham pra ele como forma de intimidá-lo pela atitude tomada. Henry Fonda encabeça o elenco com uma atuação do melhor nível. Inicialmente pensativo, ele vai lentamente mostrando que os seus argumentos são mais do que suficientes para não condenar o garoto. Quando o jurado nº 1 (Martin Balsam) pergunta: “Você não acha que ele é culpado?”, ele responde: “Eu não sei”. Esta é à base do seu argumento, e a grande lição do filme, ou seja, se você não tem certeza absoluta, não pode condenar uma pessoa à morte. Um dos seus grandes momentos acontece logo após a demonstração de que a testemunha não conseguiria correr determinada distância em 15 segundos. Um dos jurados (interpretado magnificamente por Lee J. Cobb) diz que eles estão loucos, sendo convencidos por contos de fadas e deixando o garoto escapar pelas mãos. Ao ser provocado por Fonda, Cobb explode em cena, rangendo os dentes, cerrando os olhos e furiosamente partindo pra cima dele. Fonda, cinicamente, prova que estava certo antes ao afirmar que nem sempre queremos fazer o que dizemos. Lee J. Cobb reafirma seu talento quando altera seu voto, mostrando com muita emoção o motivo de sua posição firme até ali. É até difícil apontar destaques no elenco, já que todos têm atuações de alto nível. O jurado nº 7 (Jack Warden), por exemplo, se mostra logo no inicio como alguém fanático por esporte e que pouco se importa com o que está em jogo. Seu desinteresse fica ainda mais evidente quando muda seu voto sem nenhum motivo plausível, o que gera a revolta do jurado imigrante, interpretado por George Voskovec. John Fiedler, como o jurado nº 2, mostra através da voz sua timidez e insegurança. Martin Balsam conduz a votação com firmeza e se mostra bem justo e convicto de suas opiniões. O jurado nº 4 (E. G. Marshall) também mostra a mesma postura e quando Fonda questiona o que ele fez nos últimos dias, suas respostas são rápidas, como quem quer mostrar que tem certeza do que está falando. Joseph Sweeney, como o jurado nº 9, fala com muita propriedade sobre os motivos que levariam uma testemunha a mentir, numa alusão clara a ele mesmo, que também é um senhor de idade. Observe como ele faz uma pequena pausa quando alguém tosse e depois prossegue no discurso. Estes pequenos detalhes mostram a qualidade da interpretação de todo elenco.

O roteiro de Reginald Rose também tem grande mérito no sucesso do filme. Com diálogos ágeis e sempre interessantes, consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. Aborda também diversos temas polêmicos e escancara preconceitos, o que é bastante válido. Na primeira votação, por exemplo, os jurados começam a explicar porque votaram em “culpado”. E já no primeiro jurado podemos ver um erro que é freqüentemente cometido pelas pessoas, quando ele diz que acha que é culpado porque ninguém provou o contrário. Ora, como diz o personagem de Fonda, o ônus da prova é da promotoria, ou seja, o réu pode ficar calado. Quem tem que provar é quem acusa. Só que infelizmente o ser humano tem a tendência de julgar imediatamente como culpado alguém que é apenas acusado de algo. Outro trecho interessante do roteiro é a cena em que um jurado diz que o menino não sabe nem falar o inglês correto (“He don’t speak good english”. O imigrante corrige: “He doesn’t”). Este trecho irônico mostra que o preconceito dele é idiota, já que o imigrante fala inglês melhor do que ele próprio.

Como se não bastassem todas estas qualidades, “Doze Homens e uma Sentença” propõe ainda uma reflexão interessante no espectador, ao abordar o já citado preconceito de diversas formas diferentes. Temos o preconceito contra a origem da pessoa (um dos homens diz que o cortiço é uma escola de bandidos), contra os imigrantes (o esportista diz: “eles vêm para o nosso país e já querem dar opinião”), o preconceito contra os mais velhos e até mesmo contra os jovens, que é o grande motor da fúria de um dos jurados que havia brigado com o filho e deixou este problema pessoal afetar sua decisão no caso. Em resumo, o filme nos mostra claramente que jamais devemos nos deixar levar pelas aparências. Por tudo isso, podemos dizer que a parte técnica discreta e limitada pelo ambiente único não faz nenhuma falta. O filme é completo e não precisa de mais nada.

Sidney Lumet conseguiu realizar em “Doze Homens e uma Sentença” uma verdadeira aula de cinema, utilizando de forma excepcional o seu talentoso elenco, abusando de sua qualidade como diretor e criando, no fim das contas, uma verdadeira obra-prima. Admiradores do cinema devem saborear este filme singular, que é a prova de que mesmo sem grandes recursos técnicos o cinema pode nos oferecer grandes obras.

PS: Para ver outra crítica interessante do filme no Blog Cinepapo, de meu amigo Augusto, clique aqui.

Texto publicado em 29 de Setembro de 2009 por Roberto Siqueira