OS INTOCÁVEIS (1987)

(The Untouchables)

 

Videoteca do Beto #51

Dirigido por Brian De Palma.

Elenco: Kevin Costner, Robert De Niro, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Richard Bradford, Jack Kehoe, Brad Sullivan, Billy Drago, Patricia Clarkson e Peter Aylward.

Roteiro: David Mamet, baseado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness e Paul Robsky.

Produção: Art Linson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O estilo marcante e o visual refinado de Brian De Palma aparecem com força total neste tradicional confronto entre o bem e o mal, que conta como o agente do tesouro Eliot Ness conseguiu combater e prender o poderoso Al Capone, em pleno período da lei seca, na Chicago dos anos trinta. O ritmo empolgante, o impressionante visual e as marcantes atuações fazem de “Os Intocáveis” um filme muito interessante, que trouxe de volta os bons filmes de gângster ao cenário de Hollywood.

Nos anos trinta, a lei seca impedia o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago, o que não quer dizer que este comércio não existia. Com praticamente todos os poderosos no bolso, Al Capone (Robert De Niro) mandava e desmandava na cidade. É quando o jovem agente Eliot Ness (Kevin Costner) é contratado para acabar com o reinado do terror e da corrupção e, ao lado do guarda de rua Jim Malone (Sean Connery), do contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith) e do novato policial Giuseppe Petri (Andy Garcia), forma uma equipe de homens corajosos e incorruptíveis, conhecida como “os intocáveis”.

O trabalho técnico merece grande destaque em “Os Intocáveis”, conseguindo ambientar perfeitamente o espectador à época. A começar pela magnífica recriação da Chicago dos anos trinta, resultado do trabalho em conjunto da excelente Direção de Arte de William A. Elliott e dos figurinos de Giorgio Armani e Marilyn Vance. Desde os charmosos carros, passando pelo interior dos ambientes – como o luxuoso hotel Lexington onde Capone se hospeda – até os elegantes ternos, sobretudos e chapéus, a sensação é de estarmos em outra época. O toque final no apurado visual vem da boa direção de fotografia de Stephen H. Burum, que utiliza cores dessaturadas freqüentemente, lembrando em diversos momentos imagens antigas de jornal. Além disso, Burum também utiliza um tom vermelho, que remete ao sangrento destino de Malone, quando sua surpreendente fonte é revelada – Mike (Richard Bradford) – e diz que ele é um homem morto. Pra completar o grande trabalho técnico, ainda nos créditos iniciais que aparecem sob o reflexo da sombra do nome do filme, podemos notar a qualidade da empolgante trilha sonora do ótimo Ennio Morriconne, que apresenta diversas variações interessantes durante o longa. Repare como a trilha indica tensão quando Ness, antes de invadir o primeiro depósito, vê um homem suspeito e se aproxima dele, somente para descobrir que era um repórter. Já após a frustrada batida, quando o desolado agente sai vagando triste pelas ruas até chegar à ponte, a trilha melancólica indica a tristeza dele. Finalmente, quando “os intocáveis” conseguem a primeira batida com sucesso, a trilha triunfal eleva ainda mais o grande momento.

Além do trabalho técnico, De Palma precisou contar também com um elenco afiado, pois a empatia do público com o quarteto principal é essencial para que “Os Intocáveis” funcione. Felizmente, o elenco corresponde. A começar por Sean Connery, numa atuação excepcional, notável desde a primeira aparição na ponte, quando tem seu primeiro contato com Eliot Ness, até sua terrível morte, onde transmite perfeitamente a dor de Malone, massacrado pelos tiros e mal conseguindo falar com Ness antes de seu último suspiro. Quem também está muito bem é Kevin Costner, no papel do correto Eliot Ness. Determinado em prender Al Capone, Ness é um personagem complexo, que tenta cumprir a lei, mas sabe que apesar de não querer, poderá ter que usar métodos que a própria lei proíbe para cumprir seu objetivo. Afinal, Malone foi bem claro com ele no interessante diálogo dentro da Igreja (“Você quer pegar Capone? É assim que se pega Capone: ele puxa uma faca e você, uma arma. Ele manda um dos seus para o hospital, e você manda um dos dele pra cova”). Mas Ness não consegue conviver tranquilamente com este violento ambiente, ficando claramente desconfortável quando mata um dos gângsteres de Capone. Por outro lado, sabe da enorme responsabilidade que tem nas costas, e o peso de sua missão fica evidente quando conversa com a mãe da garota morta na explosão do bar – e Costner é competente ao transmitir a angústia e preocupação do personagem neste momento. O ator também se mostra muito solto no papel, por exemplo, quando questiona ironicamente no meio da rua e com as mãos na cintura o novo amigo Malone (“Porque está me ajudando?”). A química entre os dois amigos, aliás, é essencial para a empatia do público e ambos têm sucesso absoluto. Repare como, após ficar transtornado por matar um homem, Ness rapidamente se reanima com as palavras diretas de Malone. Neste momento, aliás, Malone comprova sua astúcia ao utilizar um homem morto como elemento chave para conseguir a informação que precisava de um gângster capturado.O terceiro integrante da exemplar equipe é muito bem apresentado ao espectador, demonstrando sua habilidade com a arma na mão e sua forte personalidade ao confrontar sem medo o veterano Malone. Mas Andy Garcia, se não compromete, também não consegue grande destaque na pele do exímio atirador Stone (ou Giuseppe Petri). Finalmente, o quarto integrante do grupo é Oscar Wallace, interpretado por Charles Martin Smith, que se sai bem no papel do contador que cai de pára-quedas na missão e acaba tendo papel fundamental, ainda que saia cedo de cena. Seu melhor momento acontece quando, depois de sair atirando em tudo que vê pela frente, encosta num barril onde a bebida jorra e, após olhar para os lados e confirmar que ninguém está vendo, toma uns goles do líquido proibido. Finalmente, a razão da existência desta equipe de homens honestos é justificada pela marcante presença de Robert De Niro como o poderoso Al Capone, impondo respeito toda vez que entra em cena (De Palma acentua seu poder ao filmá-lo constantemente em ângulo baixo). Seu cinismo exala na tensa seqüência em que fala sobre beisebol e trabalho em equipe, momentos antes de espancar com o taco de beisebol um dos integrantes da máfia, numa cena extremamente violenta. Em dois momentos, De Niro tem um duelo direto com Costner e ambos transmitem muita segurança no que falam. No primeiro deles, Ness, inconformado com a morte de Wallace, invade o hotel Lexington e chama Capone pra briga. No segundo, Capone, derrotado nos tribunais, é provocado por Ness e precisa de alguns capangas para segurá-lo, tamanha a fúria que sentia. Fechando os destaques do elenco, Patricia Clarkson vive a serena esposa de Eliot Ness, se transformando na estrutura familiar que ele precisa para desempenhar sua função com sucesso.

“Os Intocáveis” conta também com o bom roteiro de David Mamet que, além da boa construção dos personagens, é repleto de frases marcantes, como a citada orientação de Malone sobre como se faz para pegar Capone e as polêmicas declarações do poderoso mafioso. Além disso, a montagem de Gerald B. Greenberg e Bill Pankow mantêm a narrativa num ritmo ágil, permitindo, por exemplo, que o espectador saiba quem são os personagens principais, quais são as suas motivações e o que está em jogo de forma rápida e direta, além de colaborar decisivamente na melhor cena do filme, dentro da estação de trem. E finalmente, chegamos a Brian De Palma. Diretor com grande apreço pelo visual estilizado, permite que o espectador note sua inventividade logo no primeiro plano, quando vemos em plongèe (filmado por cima) o poderoso Al Capone rodeado de jornalistas numa barbearia dizendo que “existe violência em Chicago, mas não vem de mim”. Em seguida, um lento travelling nos leva à porta de um bar onde uma pequena garota está entrando. A recusa do dono do bar em comprar cerveja contrabandeada, a presença da pequena garota e uma suspeita maleta “esquecida” por um gângster são os ingredientes de um início explosivo, que desmente logo de cara as palavras de Capone. O espectador sabe, a partir deste instante, do que o mafioso é capaz. Por isso, quando um gângster ameaça a família de Ness na porta da casa dele, o desespero do agente ao subir as escadas é compartilhado com o espectador, que leva um pequeno susto ao ver a cama vazia, acalmando-se com o movimento de câmera para a direita que mostra a filha dele. O diretor, aliás, abusa dos movimentos “não convencionais”, como a câmera que circula a mesa com os quatro intocáveis ou o travelling que sai da janela onde Ness e Wallace conversam sobre o imposto de Capone e revela que eles estão num avião. Em outro momento, a câmera funciona como o ponto de vista do invasor da casa de Malone, deixando o espectador grudado na cadeira até o violento desfecho da cena. De Palma é competente também na condução de seqüências espetaculares, como o flagra na divisa entre os EUA e Canadá, onde – embalada pela ótima trilha sonora – a montagem alterna muito bem entre os diversos planos, tornando a seqüência ainda mais empolgante. E, obviamente, demonstra seu talento na melhor cena do longa, durante a espetacular seqüência na estação de trem (uma bela homenagem a “O Encouraçado Potemkin”, de 1925). A câmera lenta mostra em detalhes o show orquestrado por De Palma, com o carrinho do bebê lentamente descendo as escadarias enquanto os gângsteres trocam tiros com Ness e Petri, num balé perfeito que é puro cinema.

Apesar do clima tenso, “Os Intocáveis” não é carregado dramaticamente. Mesmo assim, não deixa de ter cenas extremamente tocantes e tristes, como a morte de Wallace, que escancara de vez a corrupção da polícia de Chicago, e a atordoante morte de Jim Malone. Por outro lado, as empolgantes intervenções do grupo no tráfico de bebidas e o grande final garantem a sensação de satisfação ao espectador. A seqüência final, aliás, não poderia ser menos do que sensacional, iniciando quando Ness, agora poderoso após conseguir o julgamento, aparece gigante na tela ao sair da côrte (De Palma também utiliza um ângulo que o engrandece na tela). O inteligente roteiro utiliza o fósforo (“1634 Rancine”) como forma de indicar para Ness quem matou Malone (num artifício chamado pista e recompensa, que normalmente agrada muito ao espectador), dando início a outra ótima perseguição, ainda que tenha pequenos exageros (Ness erra um tiro a meio metro). E novamente, o estilo marcante de Brian De Palma aparece, quando após empurrar Nitti (Billy Drago), a câmera faz um movimento interessante buscando Ness em cima do prédio. O empolgante final, com a troca do júri e a prisão de Capone, completa a perfeita conclusão da narrativa.

Impecável tecnicamente, “Os Intocáveis” conta de maneira muito interessante como o poderoso Al Capone viu seu império cair diante do determinado agente Eliot Ness. O refinado estilo visual de seu diretor e suas grandes atuações fazem com que este seja um grande momento do cinema nos anos oitenta, explorando de maneira divertida um gênero normalmente mais pesado e mesmo assim, conseguindo sucesso absoluto.

Texto publicado em 25 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

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10 Respostas to “OS INTOCÁVEIS (1987)”

  1. Gabriel Says:

    Gostei muito do filme apesar de ter algumas ressalvas. É um filme de gangster diferente de Godfather, Scarface, Goodfellas, etc, pois apresenta um “Mocinho”, e o filme é todo mostrado sob sua visão. Apesar de apresentar a violência costumeira desse gênero do cinema, o longa muitas vezes passa um clima de filme de ação, vide a cena um tanto quanto “Indiana Jones” da tocaia na ponte e a forma bem ao estilo “Blockbuster” como foi formada a equipe de caça a Al Capone. Me lembrou em certo momento o fracassado Liga Extraordinária, com o mesmo Sean Conery. A se destacar a brilhante direção do de Palma e as ótimas atuações do elenco principal, principalmente Costner, Conery e de Niro. A trilha sonora do gênio Ennio Morricone tb está excelente, apesar de ressaltar o clima de filme de ação. De 0 a 10 dou nota 8,5.

    • Roberto Siqueira Says:

      Eu não me importo com este clima de filme de ação. Acho que funciona muito bem.
      Obrigado pelo comentário e volte sempre Gabriel.

  2. Mateus Aquino Says:

    Tão bom quanto o chefão

  3. Anônimo Says:

    existe um erro de sequencia, o velho policial hora está conversando com Ness com a camisa abotoada até em cima e hora está com o primeiro botão desabotoado.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá, este tipo de erro é normal, acontece em muitos filmes, o que não tira nenhum mérito desta grande obra – e de nenhuma outra também.
      Abraço.

  4. Mario Delio Radialista de Santos Says:

    A cena da escadaria da estação ferroviária, toda rodada em slow motion, mostrando o tiroteio entre polícia e gangsters entra em definitivo para a história do cinema mundial.
    Os psicólogos forenses sabem que quando estamos num conflito armado, com gente atirando e tentando nos matar, a percepção de tempo e espaço muda completamente. Passamos a vivenciar tudo numa camera lenta eletrizante e infernal, como não ocorre em nenhum outro momento em nossas vidas.
    O fenômeno é único e foi brilhantemente retratado pelo filme de Brian de Palma.
    Filmaço !!!

    • Roberto Siqueira Says:

      Que interessante Mario.
      Obrigado pelo comentário.
      Seja bem vindo ao Cinema & Debate e volte sempre.

  5. francisco Says:

    Excelente comentário, inclusive por ter citado a cena de Al Capone com aquele taco de beiseball…eu nunca tinha visto antes violência tão real , que inclusive mostra um lado de Capone que outros filmes não tinham revelado ! Antes de “Untouchables” eu imaginava aquele famoso gangster como apenas um fora-da-lei muito esperto e influente, etc…confesso que fiquei surpreso e extremamente chocado em conhecer os verdadeiros motivos dele ter se tornado tão temido e respeitado no submundo do crime! Antes de 1987, só um filme deste gênero tinha me impressionado em termos de cenas realistas de violencia : The Godfather (1972) ! Um abraço e obrigado !

    • Roberto Siqueira Says:

      Grande filme de um diretor subestimado, mas muito talentoso. E conta ainda com um elenco de peso e muito afiado.
      A cena do taco de beiseball é realmente chocante.
      Abraço Francisco.

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