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MONTY PYTHON – O SENTIDO DA VIDA (1983)

6 dezembro, 2013

(The Meaning of Life)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #120

Dirigido por Terry Jones e Terry Gilliam.

Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Michael Palin e Terry Jones.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle e Terry Jones.

Produção: John Goldstone.

Monty Python - O Sentido da Vida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após realizarem dois dos mais engraçados e influentes filmes de comédia da história, os britânicos do Monty Python decidiram tentar o impossível e, à sua maneira muito peculiar, explicar o sentido da vida, misturando muito bom humor com críticas ácidas a diversos setores da sociedade britânica. Contando com o talento e a criatividade ímpar de seus integrantes, o grupo realizou mais um bom trabalho, ainda que as gargalhadas conquistadas com tanta frequência nos longas anteriores não surjam com a mesma intensidade aqui. Por outro lado, desta vez o espectador deixará o filme não apenas com um largo sorriso no rosto, mas também com interessantes reflexões.

Dividindo a narrativa em vários capítulos que funcionam como esquetes, o roteiro escrito por cinco dos integrantes clássicos do Monty Python nos leva por várias fases da vida, começando no nascimento e obviamente terminando na morte, enquanto tenta neste processo descobrir algum sentido para tudo que vivemos. Assim, se por um lado a quebra em diversos capítulos pode prejudicar um pouco o ritmo da narrativa, por outro o espectador sabe que se por acaso algum segmento não lhe agradar, o próximo pode trazê-lo de volta ao filme, o que mantém a nossa expectativa constantemente.

Menos engraçado e mais cerebral que os longas anteriores, “O Sentido da Vida” dispara críticas ácidas contra a falta de humanidade de alguns partos e hospitais contemporâneos, num esquete rápido e eficiente. Critica também a cegueira imposta pela igreja na sociedade, desta vez através de uma sequência hilária que começa na casa de um casal católico lotada de crianças e termina na sensacional música “Todo esperma é sagrado”, entoada pelas crianças como se fosse um hino. Há também uma ácida crítica a imbecilidade dos conflitos bélicos, primeiro num segmento divertido em que os soldados presenteiam seu comandante e depois durante a Guerra Zulu, duas sátiras que apostam no exagero para expor os absurdos da guerra.

Mais uma vez comprovando ser o mais engraçado dentre todo o elenco, Michael Palin nos diverte quase sempre que entra em cena, seja como o pai católico ou como o divertido Sargento do exército. Por sua vez, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones também se divertem em diversos papeis, abusando do humor sutil e inteligente tão característico dos britânicos em atuações bastante niveladas e consistentes.

Todo esperma é sagradoDivertido Sargento do exércitoAnimações datadasTerry Jones e Terry Gilliam, aliás, também mantém características marcantes do grupo na condução da narrativa, quebrando convenções e abusando do visual propositalmente “tosco” que marca a filmografia do Monty Python, seja através das animações datadas, seja através de sequências que escancaram o baixo orçamento do longa. Quase anárquicos, os diretores não hesitam, por exemplo, em utilizar o curta-metragem que abre o filme para interromper a narrativa em determinado instante, pedindo desculpas pela interrupção minutos depois, numa escolha criativa e divertida.

O curta que abre “O Sentido da Vida”, aliás, também destila seu veneno, desta vez utilizando a metáfora para criticar o feroz sistema financeiro e suas selvagens especulações através da revolta dos funcionários da Crimson Permanent Assurance, que navegam até Wall Street e invadem os prédios lotados de Yuppies. A crítica à ganância do capitalismo não poderia passar em branco na filmografia do Monty Python.

Em “O Sentido da Vida”, os diretores se mostram inclusive mais inventivos visualmente, como no plano em que o casal de protestantes fala dos católicos (num diálogo hilário, aliás) enquanto dezenas de crianças saem em fila indiana da casa ao fundo ou na engraçada aula de educação sexual, em que a composição do plano nos permite ver a reação dos alunos enquanto o professor ensina na prática como ter uma relação sexual. Finalmente, temos até mesmo um interessante plano-sequência que nos permite acompanhar o garçom Gaston enquanto este fala sobre as coisas importantes em sua vida, num instante, aliás, em que outra convenção narrativa é deixada de lado, já que o personagem fala diretamente com a câmera e quebra a quarta parede.

Navegam até Wall StreetEngraçada aula de educação sexualSistema de doação de órgãosEscorregando numa piada escatológica totalmente sem graça num restaurante, “O Sentido da Vida” provoca boas reflexões na excelente sequência musical que fala sobre o tamanho do universo e a nossa insignificância diante dele, logo após outra cena muito engraçada que aborda o sistema de doação de órgãos. Divertida também é a aparição do Senhor Morte, num esquete que brinca com a figura icônica normalmente associada à morte ao mesmo tempo em que nos leva ao encerramento da narrativa.

Após tudo que vimos, a pergunta é: temos a resposta para o sentido da vida? Não, não temos, mas talvez a vida ganhe mais sentido quando buscamos pensar nela de maneira bem humorada e criativa. O bom humor é uma excelente válvula para expor os nossos problemas e nos fazer refletir sobre eles. É isto que o Monty Python sempre buscou fazer.

Monty Python - O Sentido da Vida foto 2Texto publicado em 06 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

OS 12 MACACOS (1995)

18 junho, 2012

(Twelve Monkeys)

 

Videoteca do Beto #131

Dirigido por Terry Gilliam.

Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Jon Seda, Frederick Strother, Frank Gorshin, Carol Florence, Lisa Gay Hamilton e Felix Pire.

Roteiro: David Peoples e Janet Peoples, inspirado no filme “La Jetée” de Chris Marker.

Produção: Charles Roven.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Carregando em cada fotograma o estilo visual caótico e marcante de seu diretor, “Os 12 Macacos” é uma ficção científica interessante, que conta também com atuações inspiradas de seu elenco e uma narrativa ao mesmo tempo complexa e fascinante para conquistar o espectador. Apresentando um ambiente deprimente no futuro e outro prestes a entrar em colapso no passado, o longa de Terry Gilliam mais parece um pesadelo, prendendo a atenção do espectador não apenas por seu visual, mas também pela maneira inteligente que sua ótima premissa é desenvolvida.

Inspirado no filme “La Jetée”, de Chris Marker, o intrincado roteiro de David e Janet Peoples tem inicio em 2035, quando James Cole (Bruce Willis) é enviado de volta ao passado para coletar informações sobre um vírus letal que dizimou os seres humanos em 1996, matando cerca de cinco bilhões de pessoas. Só que, por um erro dos cientistas, James retorna a 1990 e acaba internado num hospício, onde conhece a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e o jovem Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho do Dr. Goines (Christopher Plummer) e provável responsável pelo nascimento do grupo conhecido como o “exército dos doze macacos”, que teoricamente teria espalhado o vírus letal pelo mundo.

Logo em seus primeiros minutos, “Os 12 Macacos” demonstra sua faceta onírica através do misterioso sonho de seu protagonista num aeroporto que, na verdade, mais parece um atormentador e recorrente pesadelo, surgindo em diversos momentos para aterrorizá-lo. Em seguida, James aparece numa cela bastante desconfortável, conversando com outro prisioneiro no mundo subterrâneo (onde os poucos sobreviventes ao vírus tentam sobreviver) momentos antes de ser convocado para uma misteriosa missão. Desta forma, o diretor busca facilitar a identificação do espectador com seu protagonista, que surge vulnerável, em condições precárias e prestes a ser enviado numa missão incerta. Com a ajuda do montador Mick Audsley, Gilliam imprime dinamismo à narrativa, mantendo-a sempre intrigante justamente por conduzi-la sob a perspectiva de James, nos colocando assim na mesma posição do protagonista, acertando ainda ao inserir as viagens no tempo de maneira orgânica – com exceção do primeiro salto brusco do presente para 1990 em Baltimore.

Criando um mundo sujo e abandonado no presente e outro tampouco atraente no passado, o diretor reflete na tela a confusão mental de seu protagonista. O caótico local onde James se encontra com os cientistas, por exemplo, ajuda a criar a atmosfera conturbada e anárquica pretendida pelo diretor. Aliás, as cenas que se passam no presente chegam a ter um tom caricato tão exagerado que, por vezes, acabam arrancando o riso da plateia – o que serve como alívio cômico numa narrativa que exige muita atenção. Já no passado, as paredes descascadas do hospício tornam o ambiente bastante realista e ajudam a ilustrar a repulsa do protagonista naquele lugar. E se a direção de arte de William Ladd Skinner é essencial neste processo, os interessantes figurinos de Julie Weiss não apenas reforçam este visual como ainda distinguem bem cada época, como na segunda guerra mundial e nos anos 90.

Sempre carismático, Bruce Willis conquista o espectador com seu vulnerável James Cole, levando a plateia com ele naquela jornada e convencendo até mesmo quando começa a questionar sua própria sanidade – destaque especial para duas cenas, uma na cama de um hospital diante dos cientistas e outra num quarto de hotel com Kathryn. Exibindo a angústia de quem se sente deslocado e confuso e a determinação de quem tem uma missão a cumprir, Willis cria um personagem cativante e muito humano. Já Brad Pitt está sensacional como o pirado Jeffrey Goines, com seus tiques, a fala rápida, a oscilação no tom de voz e a constante movimentação no olhar, que caracterizam muito bem um personagem simultaneamente perigoso e fascinante. Juntos, eles são responsáveis pelos melhores momentos de “Os 12 Macacos”. Contudo, existem outros momentos interessantes, especialmente quando envolvem a Kathryn de Madeleine Stowe, que transmite bem a aflição e a confusão na mente da personagem diante de James e suas afirmações. E não podemos deixar de citar Christopher Plummer, que encarna com eficiência o famoso pai de Jeffrey, ainda que surja poucas vezes em cena.

Em certo momento da trama, o espectador passa a compartilhar da dúvida de James e questiona se tudo aquilo não existe mesmo apenas na mente do protagonista. Mas a reviravolta completa acontece quando um menino é encontrado no celeiro (conforme ele havia dito que aconteceria) e, somado a uma fotografia da primeira guerra mundial e à bala retirada da perna dele, comprova para Kathryn e para o espectador que James falava a verdade. E então a referencia ao clássico “Um corpo que cai” surge no disfarce de Kathryn, nas imagens do longa de Hitchcock dentro de um cinema e até mesmo na trilha sonora, amarrando tematicamente a narrativa e escancarando a mensagem do longa: jamais poderemos alterar o passado. Esta mensagem se confirma na emblemática cena final, onde o “sonho” se repete. O olhar de Kathryn para o jovem James, acompanhado de um leve sorriso, torna esta dolorosa cena num momento belo, ilustrando o instante em que ela percebe que James viveria eternamente neste ciclo.

Utilizando com inteligência o complicado conceito da viagem no tempo, “Os 12 Macacos” nos apresenta um futuro decadente e um passado povoado por personagens cativantes, numa narrativa que exige muita atenção do espectador, mas o recompensa por sua coerência e complexidade. Somando ainda atuações marcantes e uma direção eficiente, o longa se confirma como uma ficção científica melancólica, intrigante e competente, que nos permite discutir horas e horas a respeito de seus interessantes conceitos. Precisa mais?

Texto publicado em 18 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO (1975)

26 agosto, 2009

(Monty Python and the Holy Grail)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #118

Filmes Comentados #4 (Comentários transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013)

Dirigido por Terry Gilliam e Terry Jones.

Elenco: John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones, Michael Palin, Coonie Booth e Carol Cleveland.

Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Terry Jones.

Produção: Mark Forstater e Michael White.

Em Busca do Cálice Sagrado[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Criadores e intérpretes da série cômica de enorme sucesso na televisão no final dos anos 60 intitulada como Monty Python’s Flying Circus, o Monty Python estreou no cinema com este divertido “Em Busca do Cálice Sagrado”, filme que carrega em cada fotograma as principais marcas do influente grupo britânico. Abusando da criatividade e apostando em cenas tão surreais que beiram o absurdo, o sexteto deixou sua marca eternizando um estilo autêntico de fazer comédia que é exaustivamente explorado (na maioria das vezes muito mal) até hoje.

Escrito por cinco dos seis integrantes clássicos do grupo e dirigido pela dupla Terry Gilliam e Terry Jones, “Em Busca do Cálice Sagrado” se passa na Inglaterra durante a Idade Média e narra a jornada do lendário Rei Arthur em busca dos famosos Cavaleiros da Távola Redonda. Após reunir todo o grupo, ele recebe a missão divina de encontrar o cálice sagrado, há muito tempo perdido em algum lugar esquecido da ilha britânica.

Por ser a primeira incursão do Monty Python no cinema (antes eles haviam apenas compilado alguns esquetes no longa “E agora para algo completamente diferente”), “Em Busca do Cálice Sagrado” não hesita em fazer inúmeras brincadeiras com a falta de recursos do projeto, numa abordagem irreverente que surge já nas legendas dos créditos iniciais e que acompanhará toda a narrativa, por exemplo, através do som da batida de metades de coco simbolizando o som dos cavalos. Além disso, Gilliam e Jones não tem medo de ousar e conduzir a narrativa de maneira nada convencional, quebrando a quarta parede em diversos momentos e brincando com a ideia do filme ser “apenas um filme”, como na piada envolvendo o cartunista e na cena final do ataque ao castelo abruptamente interrompido. Outro recurso narrativo muito bem utilizado é aquele conhecido como “dica e recompensa”, através da piada envolvendo andorinhas numa ponte já no ato final que remete ao primeiro diálogo do longa.

Já tecnicamente o longa é bem simplório. A começar pela fotografia dessaturada de Terry Bedford que, em conjunto com os uniformes dos soldados (figurinos de Hazel Pethig) e os castelos concebidos pelo design de produção de Roy Smith (na realidade, maquetes, como comenta um dos personagens), remetem a época medieval, mas sempre num tom muito mais cômico e surreal do que propriamente numa recriação que busca apoiar-se no realismo, ainda que a trilha sonora remeta às composições triunfais típicas de filmes sobre aquela época. Este surrealismo ganha ainda mais força através das animações propositalmente “toscas” que surgem durante a narrativa em diversos momentos, que também fazem piadas constantes com a falta de recursos e abusam da metalinguagem. Por outro lado, a montagem de John Hackney é essencial para que o excelente timing cômico de algumas piadas funcione, assim como é responsável pelo ritmo dinâmico que intercala as histórias dos Cavaleiros através de uma sequência inspirada de esquetes que mantém o espectador sempre interessado.

Batida de metades de cocoMorte do cartunistaAnimações propositalmente toscasAssim, o grande mérito de “Em Busca do Cálice Sagrado” fica mesmo por conta do roteiro extremamente criativo, nada convencional e recheado pelo típico humor autodepreciativo britânico (como nas muitas piadas envolvendo a histórica rivalidade entre ingleses e franceses), que fica ainda melhor graças às interpretações inspiradas de todo o elenco. Encarnando diversos papéis ao longo da narrativa, John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin se divertem enquanto protagonizam cenas antológicas, que se tornam ainda mais engraçadas pela maneira como eles pronunciam as palavras e pela imprevisibilidade que caracteriza a narrativa, que impede que o espectador antecipe o que vai acontecer. Inteligentes, os integrantes do Monty Python ensinam como utilizar o perigoso humor pastelão de maneira ousada e criativa, o que está longe de ser uma tarefa simples.

Destacar os momentos cômicos de “Em Busca do Cálice Sagrado” é tarefa hercúlea. A luta contra o temível cavaleiro negro e o ataque do coelho assassino certamente estão entre os meus favoritos, mas não posso deixar de citar o resgate repleto de piadas sexuais de Sir Gahlard num castelo repleto de mulheres, o curioso diálogo sobre as andorinhas que abre o filme, as aparições dos cavaleiros que dizem “Ní”, as perguntas que antecedem a travessia da ponte, o resgate do príncipe preso na torre e o temível monstro Aaahhhhrrrrgggghhhh.

Luta contra o temível cavaleiro negroAtaque do coelho assassinoCavaleiros que dizem “Ní”Mesmo com tantos momentos surreais, o longa não deixa de fazer interessantes críticas, como no diálogo entre o Rei Arthur e um camponês sobre o que dá direito ao Rei de comandar ou não um país, que, além de ser muito engraçado, toca em um tema bastante polêmico: a monarquia. Da mesma forma, a sequência em que uma jovem é acusada de ser bruxa demonstra como o povo medieval era ignorante (será que evoluímos?), utilizando argumentos estúpidos para condenar mulheres à morte. Morte que é utilizada durante a perseguição do monstro ao grupo, na primeira inserção de um recurso conhecido como “Deus ex-macchina”, que será essencial na piada que encerra a narrativa – e quando policiais surgem investigando os vestígios deixados por Arthur e companhia, a narrativa indica o que acontecerá no excelente final, em que as viaturas interrompem as gravações e prendem os protagonistas.

Apostando no humor irreverente que influencia muitos comediantes ainda hoje, “Em Busca do Cálice Sagrado” confirmou o enorme talento do grupo Monty Python, cravando seu nome na história do cinema. Mesmo décadas depois, o longa ainda serve como referência e deveria ser obrigatório para todo e qualquer comediante, para evitar que piadas frustrantes e sem criatividade alguma invadissem nossas vidas como acontece hoje. Não é preciso ser politicamente incorreto para ser engraçado, mas se decidir seguir por este caminho, que o faça com competência.

PS: Depois de assistir “A Vida de Brian” e “Em Busca do Cálice Sagrado” ficou evidente pra mim a influencia do grupo inglês sobre a “TV Pirata” e o “Casseta & Planeta”. Pena que os brasileiros, principalmente no segundo caso, não conseguiram realizar um trabalho do mesmo nível.

PS2: Comentários divulgados em 26 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 02 de Dezembro de 2013.

Em Busca do Cálice Sagrado foto 2Texto atualizado em 02 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira

MONTY PYTHON – A VIDA DE BRIAN (1979)

19 agosto, 2009

(Monty Python’s Life of Brian)

5 Estrelas 

Filmes em Geral #119

Filmes Comentados #3 (Comentários transformados em crítica em 04 de Dezembro de 2013)

Dirigido por Terry Jones.

Elenco: Graham Chapman, Terry Jones, John Cleese, Michael Palin, Eric Idle, Terry Gilliam, Spike Milligan, Sue Jones-Davis, Ken Colley e Terence Bayler.

Roteiro: Graham Chapman e John Cleese.

Produção: John Goldstone.

A Vida de Brian[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Segundo longa-metragem do lendário grupo britânico Monty Python, “A Vida de Brian” mantém o frescor e a força criativa do primeiro filme, apesar do distanciamento temático e cronológico entre eles. Na verdade, o bom espaço de tempo entre os dois filmes só ajudou, retirando a pressão por uma nova empreitada cinematográfica e dando o tempo necessário para a elaboração de novas piadas, o que seria algo muito mais complicado de se conseguir nos tempos de hoje. Assim, Terry Jones e companhia puderam presentear os fãs com outro longa divertidíssimo, repleto de cenas memoráveis e tiradas inspiradas.

Desta vez escrito apenas por Graham Chapman e John Cleese, “A Vida de Brian” tem início na Judéia quando o jovem judeu Brian Cohen (Graham Chapman) se torna acidentalmente um importante líder religioso, sendo seguido por multidões e, para o desespero de sua mãe (Terry Jones), caçado pelos soldados romanos à serviço de Pilatos (Michael Palin).

Ácido como de costume, o roteiro de Chapman e Cleese aborda de forma inteligente temas polêmicos, como na hilária cena da sandália e da cabaça que satiriza a divisão de igrejas que teoricamente se baseiam na mesma fé, seguida pelo falso milagre da árvore no deserto, criticando também o fanatismo religioso na ótima cena do apedrejamento, na qual eles acusam de blasfêmia qualquer simples menção ao nome sagrado e, finalmente, ilustrando como as inúmeras divisões dentro do povo judeu (que teoricamente lutava pelo mesmo objetivo, mas na prática lutava entre si) deixavam de lado a causa do movimento e priorizavam o poder.

No entanto, a qualidade principal de “A Vida de Brian” não está no teor crítico de suas piadas, mas sim na qualidade das mesmas. Construindo diálogos primorosos que se tornam ainda mais engraçados pela maneira como os atores encarnam seus personagens, Chapman e Cleese acumulam uma série de momentos hilários, conduzidos com precisão pela câmera de Terry Jones, como na reunião em que os judeus discutem que benefícios os romanos trouxeram pra eles ou na cena em que Pilatos cita o nome de seu amigo romano, na qual os soldados mal conseguem segurar o riso diante do imperador.

A sandália e a cabaçaÓtima cena do apedrejamentoJudeus discutem que benefícios os romanos trouxeramEsta conversa de Pilatos com Brian e os soldados está entre os momentos mais engraçados do longa, dentre os quais também vale destacar seu discurso diante da multidão que se diverte enquanto escolhe qual prisioneiro será libertado – com participação de seu amigo romano -, a perseguição de Brian por um grupo de soldados e a conversa entre um prisioneiro animado e o calmo soldado romano que dá as orientações na fila da crucificação. Finalmente, a cena em que os líderes do movimento são avisados que Brian será crucificado e decidem fazer uma reunião de emergência para discutir o caso deveria ser usada em palestras para grandes corporações contemporâneas.

Exibindo sua melhor forma, os integrantes do Monty Python interpretam nada menos que 40 personagens em “A Vida de Brian”, em atuações de alto nível que confirmam a versatilidade do grupo. Mas se todos têm os seus bons momentos, o grande destaque certamente vai para Michael Palin na pele de um engraçado Pilatos que não consegue pronunciar a letra R – observe, por exemplo, sua hilária expressão facial ao questionar seu amigo se os cidadãos judeus estão zombando dele.

Já tecnicamente “A Vida de Brian” não tem grande destaque, evidenciando o lado B das produções do Monty Python sem pudor, ainda que a fotografia árida e cheia de cores quentes de Peter Biziou e a reconstituição de época de Roger Christian colaborem na imersão do espectador naquela época. Por outro lado, Terry Jones e seu montador Julian Doyle são inteligentes o bastante para imprimir um ritmo ágil e evitar que a narrativa perca tempo com cenas desnecessárias, como fica evidente no momento em que o líder do movimento dos judeus narra como será o plano de invasão do palácio de César enquanto as imagens já mostram a execução do plano.

Conversa de Pilatos com Brian e os soldadosHilária expressão facialPasseio de Brian com os ET´sEsta benéfica economia narrativa também se reflete na direção discreta de Jones, que emprega movimentos de câmera mais estilizados apenas quando estes tem alguma função, como quando a câmera se afasta de Jesus Cristo e, auxiliada pelo design de som, ilustra a dificuldade dos personagens para ouvir o sermão da montanha. Da mesma forma, Jones prolonga ao máximo o suspense antes de revelar o grupo rival que invade o palácio de César no mesmo instante que os parceiros de Brian. Além disso, o diretor mostra coragem ao nos tirar completamente do universo da narrativa através do passeio de Brian com os ET´s, numa estratégia arriscada que poderia arruinar completamente a experiência do espectador, mas que funciona justamente pelo absurdo da situação – e por sabermos que o grupo não costuma seguir convenções narrativas ou respeitar regras cinematográficas.

Assim, os ingleses do Monty Python conseguiram mais uma vez nos divertir com seu humor criativo, baseado na inteligência da composição de seus diálogos e situações em detrimento do humor puramente físico (que também pode funcionar nas mãos de pessoas talentosas, vale dizer). A excelente canção “Always look to the good side of life” cantada pelos prisioneiros crucificados no final mostra bem a real intenção do grupo. Olhar para o lado bom da vida, dar risada e levar as coisas de um modo menos sério. Muito bom.

PS: Comentários divulgados em 19 de Agosto de 2009 e transformados em crítica em 04 de Dezembro de 2013.

A Vida de Brian foto 2Texto atualizado em 04 de Dezembro de 2013 por Roberto Siqueira