Posts Tagged ‘Christopher Plummer’

O INFORMANTE (1999)

22 maio, 2016

(The Insider)

5 Estrelas 

 

 

Videoteca do Beto #230

Dirigido por Michael Mann.

Elenco: Al Pacino, Russell Crowe, Christopher Plummer, Diane Venora, Philip Baker Hall, Lindsay Crouse, Debi Mazar, Stephen Tobolowsky, Colm Feore, Bruce McGill, Gina Gershon, Michael Gambon, Rip Torn, Cliff Curtis, Breckin Meyer, Lynne Thigpen, Vyto Ruginis, Wanda De Jesus e Roger Bart.

Roteiro: Michael Mann e Eric Roth, com base em artigo de Marie Brenner.

Produção: Pieter Jan Brugge e Michael Mann.

O Informante[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Por incrível que pareça, ainda existem muitas pessoas que acreditam na imparcialidade da grande mídia e que verdadeiramente confiam que as informações que encontram em telejornais, sites, revistas e jornais impressos se baseiam no princípio básico do jornalismo, que é (ou deveria ser) a necessidade de transmitir informação. Assim, quando confrontadas por questionamentos que escancaram a ingenuidade de seu pensamento, estas pessoas tendem a ignorar ou a atribuir ao interlocutor a posse de teorias conspiratórias. No entanto, não precisa muito raciocínio lógico para entender os motivos que levam a mídia a agir como age – e os tristes fatos recentes ocorridos no Brasil atestam isso de maneira exemplar. O motivo é simples: interesse econômico – ou, sendo mais direto, o dinheiro. Contundente e eficiente, “O Informante” é um retrato perfeito de tudo que envolve este jogo nada ético, movido a interesses que nem sempre atendem às necessidades da sociedade.

Escrito pelo diretor Michael Mann em parceria com Eric Roth e com base em artigo de Marie Brenner, “O Informante” narra a trajetória do ex-diretor e biologista da Brown & Williamson, Jeffrey Wigand (Russell Crowe), que após ser demitido e coagido a assinar um acordo de confidencialidade, acaba sendo convencido pelo jornalista e produtor do programa “60 minutos”, Lowell Bergman (Al Pacino), a dar uma entrevista reveladora. A ideia é transmitir ao público os malefícios que as empresas de tabaco sabem causar às pessoas e os componentes que propositalmente levam ao vício, garantindo assim o lucro eterno ao segmento.

Baseado em história real ocorrida em 1994, o roteiro muito bem estruturado desenvolve seus dois personagens centrais, apostando na busca por semelhanças entre duas pessoas em posições teoricamente antagônicas (algo que ocorria de maneira mais gritante em “Fogo contra Fogo”, também de Mann). Assim, temos de um lado o jornalista que busca desesperadamente uma matéria bombástica e do outro o homem que busca tirar um enorme peso da consciência – e é justamente a maneira ética com que se comportam num cenário dominado por interesses que os une. Construindo um clima de tensão crescente, Mann conduz a narrativa sem pressa, explorando os dois excelentes personagens sem jamais nos permitir relaxar por um minuto sequer. A sensação constante é de que algo potencialmente perigoso pode ocorrer. Ainda que Jeffrey e Lowell conversem dentro de um quarto de hotel, o simples toque do telefone serve para injetar adrenalina em cena, o que é mérito do diretor.

Neste sentido, a montagem do trio William Goldenberg, David Rosenbloom e Paul Rubell é crucial, primeiro para nos manter interessados numa narrativa focada essencialmente em diálogos, segundo por alternar muito bem entre o drama de Jeffrey e o impacto causado em sua vida e a luta de Lowell na busca por conseguir a entrevista e sua posterior veiculação. Obviamente, a trilha sonora contundente de Pieter Bourke e Lisa Gerrard reforça o clima de mistério que gradualmente cerca Jeffrey, assim como a fotografia fria de Dante Spinotti, que prioriza tons em azul e cinza e explora o tempo sempre fechado, como quando os dois discutem debaixo de forte chuva em frente à casa de Jeffrey, refletindo a aflição que dominava a narrativa naquele instante.

Movendo a câmera lentamente e de forma elegante, Mann abusa de closes no rosto dos personagens, exaltando a tensão que domina “O Informante” e realçando as expressões de dois homens lentamente consumidos por todo aquele processo. De maneira inteligente, o diretor consegue transmitir muitas sensações apenas através dos movimentos de câmera, como na conversa deles num restaurante japonês em que a câmera se aproxima conforme a discussão fica intensa, ilustrando a tensão crescente. Já no fim do depoimento de Jeffrey no tribunal estadual do Mississippi, a câmera diminui o personagem e, reforçada pela trilha sonora melancólica, indica o futuro sombrio que ele teria dali pra frente. Repare ainda como em sua volta para casa, um carro em chamas à beira da estrada reforça a angústia do personagem e, de quebra, simboliza que ele havia incendiado a própria vida ao decidir enfrentar a indústria do tabaco.

Dois discutem debaixo de forte chuvaConversa deles num restaurante japonêsDepoimento de Jeffrey

Colocando a própria família em risco, o Jeffrey de Russell Crowe surge constantemente abatido, sendo consumido pelas ameaças veladas que tentam lhe intimidar e que levam a ruptura da harmonia em seu lar. Com o semblante pesado, o ator transmite muito bem a aflição de um personagem visivelmente conturbado, que não consegue lidar muito bem com aquela enorme pressão e que busca alguma saída para a situação complicada em que se meteu. Talentoso, Crowe demonstra de maneira sutil, por exemplo, que Jeffrey quer dizer mais do que realmente diz nas primeiras conversas com Lowell, somente através de suas expressões e pelas pausas em sua fala. Da mesma forma, é notável o alívio que toma conta do personagem conforme a entrevista se aproxima do fim, assim como ocorre com Christopher Plummer, que não esconde a satisfação do entrevistador Mike Wallace diante do que ouviu com seu leve sorriso no final da conversa.

Constantemente abatidoJeffrey quer dizer mais do que realmente dizNão esconde a satisfação do entrevistador

Infeliz deste o instante em que o marido perdeu o emprego, Diane Venora demonstra a preocupação de Liane Wigand com exatidão, num sentimento que pode parecer egoísta a princípio, mas que é justificável primeiro pela falta de segurança social dos EUA, um país onde inexistem políticas de proteção ao cidadão que perde o emprego, depois por razões ainda mais fortes como o apego sentimental à casa antiga (“Neste gramado nossa filha deu os primeiros passos”). Assim, por mais que possamos questionar a falta de suporte ao marido num momento tão difícil, podemos perfeitamente compreender as razões que levaram Liane a abandoná-lo – e o olhar da filha ao ver a entrevista do pai finalmente ser transmitida simboliza o alívio que toda a família sentiu ao perceber que ao menos tudo aquilo não foi em vão.

A responsabilidade pela divulgação da entrevista é quase que exclusiva de Lowell Bergman, que enfrentou não apenas a indústria do tabaco como a própria CBS para conseguir o que queria. Vivido pelo sempre talentoso e intenso Al Pacino, Lowell é um jornalista competente e respeitado que ainda enxerga sua profissão com o romantismo de outrora, sem se importar muito com os interesses econômicos que cercam seu ambiente de trabalho. Dono de uma personalidade forte, ele não hesita em enfrentar a frieza dos próprios colegas numa reunião na CBS, na qual Pacino explode e demonstra a ira do personagem ao perceber os interesses financeiros que moviam as opiniões dos demais em detrimento do ser humano envolvido em toda aquela questão. Para atestar a versatilidade de Pacino, compare este momento com aquele em que ele tenta criar empatia com Jeffrey num diálogo no carro dele no qual pergunta de maneira descontraída sobre coisas corriqueiras, conseguindo aproximar-se e tornando mais fácil a missão de obter as informações que precisava.

Preocupação de Liane WigandOlhar da filhaNão hesita em enfrentar a frieza dos próprios colegas

Esta dinâmica entre ambos é o motor de “O Informante”, que funciona tanto como thriller quanto como estudo de personagens. No entanto, o longa dirigido por Michael Mann não para por aí, abordando como tema central da narrativa o poder das grandes corporações num ambiente sócio econômico que as favorece. Observe, por exemplo, como diante da falta de um sistema de saúde que ao menos ofereça proteção a alguém em situação econômica desfavorável, a indústria do tabaco não hesita em ameaçar cortar o seguro saúde do ex-diretor, sabendo do impacto que esta decisão teria na vida de sua família. Da mesma forma, Jeffrey é atacado psicologicamente e financeiramente pela empresa, que diante de um sistema educacional que não oferece educação gratuita para todos como o norte-americano, sabe a importância de ter dinheiro para poder pagar boas escolas e não comprometer seriamente o futuro das filhas, colocando-o numa posição nada confortável diante da empresa. Em regimes neoliberais como o dos EUA, a meritocracia costuma funcionar somente para quem tem dinheiro – e tanto Jeffrey quanto a empresa que o demitiu sabiam disto.

Tratando o ex-diretor como um bandido após demiti-lo (algo infelizmente muito comum no impessoal mundo corporativo), a empresa expõe a podridão de um ambiente que não vê problema algum em ameaçar a integridade e a estabilidade de uma família para atender seus interesses econômicos, ignorando completamente os seres humanos envolvidos nesta equação. E num sistema sem regras e regulação de mercado como o norte-americano, até mesmo quem deveria investigar as grandes corporações como o FBI pode facilmente ser influenciado pelo poder financeiro delas, o que leva os investigadores a duvidarem das afirmações de Jeffrey durante a investigação das ameaças sofridas por ele.

Existe ainda uma variante importante neste contexto e que, como afirmei no primeiro parágrafo, deveria funcionar como o veículo responsável por apontar para a sociedade os absurdos mencionados acima. No entanto, não é exatamente o que ocorre na realidade. Impiedosa e igualmente orientada pelos interesses financeiros representados por seus patrocinadores, acionistas e os próprios donos das emissoras, a mídia raramente se opõe ao jogo proposto pelas grandes corporações, preferindo, por exemplo, esmiuçar o passado de Jeffrey e demonizá-lo diante da opinião pública, já que é muito mais fácil e rentável atacar um homem desempregado do que enfrentar uma indústria tão poderosa quanto a do tabaco. “Que vida sob uma lupa não tem defeitos?”, questiona ele irritado, quando descobre que a mídia investiga seu passado em busca de qualquer aspecto que possa comprometê-lo diante da sociedade. A resposta é óbvia, mas a massa manipulada e envenenada pela mídia não consegue raciocinar.

Atacado psicologicamente e financeiramenteTratado como um bandidoImpiedosa e igualmente orientada pelos interesses financeiros

Esta manipulação da mídia e do grande capital representado pelas megacorporações escancara a farsa do capitalismo neoliberal, onde a falta de regulação do mercado e, principalmente, de proteção social criam um ambiente feroz propício para que os donos do dinheiro façam o que quiserem da vida de todos, algo muito bem resumido na frase de Lowell: “Imprensa livre para seus donos”. Uma sociedade mais protegida também tem seus problemas, mas ao menos dificulta o processo e oferece um equilíbrio maior aos seus cidadãos. Não à toa, sociedades com maior proteção social e regulação lideram todas as listas de melhores lugares para viver.

Trazendo a luta de um jornalista de verdade para vencer o poder das grandes corporações que, infelizmente, infestaram e destruíram o jornalismo em boa parte do mundo (especialmente aqui no Brasil), “O Informante” retrata uma realidade que poucos querem falar e que, como ficou claro recentemente em nosso país, ainda permanece muito atual. Uma pena que não tenhamos tantos Lowell Bergman mais por aqui.

O Informante foto 2Texto publicado em 22 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

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A NOVIÇA REBELDE (1965)

22 janeiro, 2013

(The Sound of Music)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #155

Vencedores do Oscar #1965

Dirigido por Robert Wise.

Elenco: Julie Andrews, Christopher Plummer, Eleanor Parker, Richard Haydn, Peggy Wood, Charmian Carr, Heather Menzies, Nicholas Hammond, Duane Chase, Angela Cartwright, Debbie Turner, Kym Karath, Anna Lee, Portia Nelson, Ben Wright e Norma Varden.

Roteiro: Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse.

Produção: Robert Wise.

A Noviça Rebelde[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Se explicar a magia do cinema em palavras é uma tarefa complicada, mais difícil ainda é explicar porque certos filmes jamais envelhecem e permanecem encantadores ao longo de décadas. No entanto, basta assistir ao clássico musical “A Noviça Rebelde” para compreender as razões pelas quais estes filmes tornaram-se imortais. Por mais que o tempo passe e certos aspectos soem datados (as roupas, penteados, a maneira de falar, etc.), o espírito jovial e empolgante do longa dirigido por Robert Wise segue intacto – e é justamente por se apoiar nele que a narrativa jamais perde sua magia.

Escrito por Ernest Lehman, baseado em musical de Howard Lindsay e Russel Crouse, “A Noviça Rebelde” tem início quando Maria (Julie Andrews) não consegue se adaptar as rígidas regras do convento em que vive e, por isso, acaba sendo enviada para trabalhar na casa do capitão Von Trapp (Christopher Plummer), um homem viúvo e que educa seus sete filhos com a mesma disciplina que costumava comandar a Marinha. A chegada da moça muda completamente o destino daquela família, ainda mais quando ela se apaixona pelo Capitão, que já estava comprometido com uma rica baronesa (Eleanor Parker).

Apesar de criar conflitos interessantes que alteram o seguimento natural da narrativa, o roteiro de “A Noviça Rebelde” não prima exatamente pela originalidade, o que inevitavelmente torna previsíveis as ações dos personagens. Ainda assim, Lehman consegue criar algum suspense com eficiência, por exemplo, ao focar no conflito de sentimentos de Maria que impede que ela fique com o Capitão num primeiro instante, o que, consequentemente, torna ainda mais saboroso o reencontro dela com as crianças quando ela decide voltar para a casa. Por outro lado, algumas transições acontecem rápido demais, como a mudança de comportamento do próprio Capitão. Só que o segredo do sucesso da narrativa não se baseia nestas pequenas reviravoltas, ainda que elas funcionem bem. A força do clássico está mesmo na direção de Robert Wise e na qualidade das canções que conferem ao longa uma aura de fábula.

Conflito de sentimentosReencontro dela com as criançasMudança de comportamento do CapitãoMesmo com quase três horas de duração, “A Noviça Rebelde” jamais se torna um filme cansativo, graças ao ritmo delicioso empregado pela montagem de William Reynolds que intercala as canções e as ações com precisão e, o que é ainda melhor, faz com que as músicas sempre deem seguimento a narrativa, surgindo naturalmente em diversos momentos, como quando Maria ajuda as crianças a superar o medo de uma tempestade. Obviamente, as inúmeras canções criativas compostas por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II são cruciais para isto, como fica evidente desde o travelling inicial que passeia pelas lindas paisagens de Salzburg e nos apresenta a protagonista sob o embalo da bela “The Sound of Music” (o nome original do filme). Além dela, merecem destaque as divertidas “Do-Re-Mi” e “My Favorite Things”, assim como a divertida “Sixteen Going on Seventeen”, cantada por Liesl (Charmian Carr) e Rolfe (Daniel Truhitte) no charmoso namoro deles sob o luar.

Medo da tempestadeLindas paisagens de SalzburgCharmoso namoro sob o luarConduzida com o mesmo charme por Wise, outra cena que se destaca é a linda dança entre o Capitão e Maria, que serve também para evidenciar pela primeira vez a química existente entre eles. Esta lenta aproximação chegará ao auge no primeiro beijo do casal, não por acaso conduzido sem a mínima pressa pelo diretor. Enriquecido pela atmosfera romântica daquela bela noite, pela trilha sonora envolvente e pelo lindo plano que enquadra o casal de mãos dadas sob a luz do luar, o beijo de Von Trapp e Maria é um destes momentos belíssimos que só o cinema consegue criar, o típico beijo cinematográfico capaz de deixar o espectador em êxtase e conduzido com uma sensibilidade rara nos tempos atuais.

Dança entre o Capitão e MariaPrimeiro beijo do casalMãos dadas sob a luz do luarAinda que estes dois momentos aconteçam à noite, a fotografia de Ted McCord aproveita a luz do dia na maior parte do tempo e aposta em cores vivas para criar um visual coerente com o espírito alegre de “A Noviça Rebelde”, ressaltado também nas roupas coloridas das crianças (figurinos de Dorothy Jeakins) e nos planos gerais de Wise que realçam a beleza da região – aliás, o design de produção de Boris Leven também se destaca, não apenas por acertar em cheio na escolha da mansão em que se passa à narrativa (e que hoje se tornou um dos pontos turísticos mais visitados de Salzburg), mas também por escolher a própria Áustria, um país famoso por respirar música e que, por isso, se configura no cenário ideal para um musical. Por contraste, o visual sombrio do convento nos indica o quanto Maria se sente deslocada ali, assim como o uso das sombras torna ainda mais tensa a eletrizante sequência em que os Von Trapp se escondem dentro do convento e são caçados pelos nazistas, logo após o festival de música que não por acaso ocorre à noite.

Roupas coloridas das criançasMansãoVisual sombrio do conventoLiderando os encantadores irmãos Von Trapp, a bela Liesl é interpretada por Charmian Carr com muito carisma e auxilia na empatia entre o público e os personagens. Entre o elenco secundário, merecem destaque ainda a sábia Madre Abbess de Peggy Wood e o sarcástico Max de Richard Haydn, além da Baronesa de Eleanor Parker que, apesar de mostrar seu lado cruel na festa, jamais se torna uma caricatura, também pela maneira adorável com que Parker encarna a personagem. Afinal, não dá pra ter raiva de alguém que sai de cena com tamanha elegância e honestidade, aceitando o fim do relacionamento e sugerindo que o Capitão fique com Maria.

Bela LieslSarcástico MaxBaronesaPronunciando as palavras pausadamente, Christopher Plummer cria um Capitão simultaneamente severo e charmoso, escondendo sob aquela carcaça de durão seu coração enorme e sua simpatia, que aflora primeiramente ao lado da Baronesa e especialmente quando aceita que os filhos cantem novamente. Para ele, a disciplina parece ser a única forma de controlar seus filhos atentados, funcionando também como uma maneira de esquecer a dor da perda da esposa. Por isso, a primeira discussão entre o Capitão e Maria funciona tão bem, nos levando ao emocionante momento em que o pai quebra o gelo e volta a cantar com os filhos. A música tem este poder de agregar as pessoas. Finalmente, é ótimo constatar que o Capitão começa a mudar seu comportamento antes da metade do filme, evitando o clichê da mudança final repentina e injustificável, ainda que esta transição aconteça abruptamente.

Severo e charmosoPrimeira discussãoPai quebra o geloMas se todas estas atuações são satisfatórias para a época, não há como negar que a grande performance de “A Noviça Rebelde” é mesmo da carismática Julie Andrews, que carrega a narrativa com enorme facilidade, transformando Maria numa protagonista alegre e encantadora, que conquista nossa empatia desde o instante em que chega atrasada ao convento. Divertida e ousada, a garota consegue mudar completamente o ambiente hostil em que é inserida, com seu jeito gracioso e empolgante de encarar a vida. Se o espírito jovem e alegre é a alma do filme, a atuação enérgica de Andrews contribui muito para isto. Finalmente, a atriz convence até mesmo nos momentos dramáticos, demonstrando o sofrimento de Maria diante da situação complicada em que o Capitão se mete após a chegada dos nazistas.

Alegre e encantadoraDivertida e ousadaSofrimento de MariaCitado algumas vezes na primeira metade da narrativa em tom ameaçador, o nazismo terá função importante no desfecho de “A Noviça Rebelde”. Após o casamento de Maria e Von Trapp, um travelling seguido por um imponente plano geral revela a chegada dos alemães e inicia o último ponto de virada do roteiro, ampliando consideravelmente a carga dramática do longa. A partir deste instante, o espectador acompanha tenso o desenrolar dos acontecimentos e torce pelo sucesso dos Von Trapp – e o fato de nós nos importarmos com o destino deles só evidencia a eficiência da narrativa.

Casamento de Maria e Von TrappChegada dos alemãesTorcemos pelo sucesso dos von TrappAlém de rimar tematicamente com a abertura, o encerramento nas montanhas ainda eleva o espírito da plateia e nos deixa com uma deliciosa sensação de alegria por sairmos satisfeitos com o que vimos. E é justamente esta magia que faz de “A Noviça Rebelde” um filme delicioso, que permanece empolgante mesmo décadas depois de lotar as salas de cinema pelo mundo afora.

A Noviça Rebelde foto 2Texto publicado em 22 de Janeiro de 2013 por Roberto Siqueira

OS 12 MACACOS (1995)

18 junho, 2012

(Twelve Monkeys)

 

Videoteca do Beto #131

Dirigido por Terry Gilliam.

Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Jon Seda, Frederick Strother, Frank Gorshin, Carol Florence, Lisa Gay Hamilton e Felix Pire.

Roteiro: David Peoples e Janet Peoples, inspirado no filme “La Jetée” de Chris Marker.

Produção: Charles Roven.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Carregando em cada fotograma o estilo visual caótico e marcante de seu diretor, “Os 12 Macacos” é uma ficção científica interessante, que conta também com atuações inspiradas de seu elenco e uma narrativa ao mesmo tempo complexa e fascinante para conquistar o espectador. Apresentando um ambiente deprimente no futuro e outro prestes a entrar em colapso no passado, o longa de Terry Gilliam mais parece um pesadelo, prendendo a atenção do espectador não apenas por seu visual, mas também pela maneira inteligente que sua ótima premissa é desenvolvida.

Inspirado no filme “La Jetée”, de Chris Marker, o intrincado roteiro de David e Janet Peoples tem inicio em 2035, quando James Cole (Bruce Willis) é enviado de volta ao passado para coletar informações sobre um vírus letal que dizimou os seres humanos em 1996, matando cerca de cinco bilhões de pessoas. Só que, por um erro dos cientistas, James retorna a 1990 e acaba internado num hospício, onde conhece a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e o jovem Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho do Dr. Goines (Christopher Plummer) e provável responsável pelo nascimento do grupo conhecido como o “exército dos doze macacos”, que teoricamente teria espalhado o vírus letal pelo mundo.

Logo em seus primeiros minutos, “Os 12 Macacos” demonstra sua faceta onírica através do misterioso sonho de seu protagonista num aeroporto que, na verdade, mais parece um atormentador e recorrente pesadelo, surgindo em diversos momentos para aterrorizá-lo. Em seguida, James aparece numa cela bastante desconfortável, conversando com outro prisioneiro no mundo subterrâneo (onde os poucos sobreviventes ao vírus tentam sobreviver) momentos antes de ser convocado para uma misteriosa missão. Desta forma, o diretor busca facilitar a identificação do espectador com seu protagonista, que surge vulnerável, em condições precárias e prestes a ser enviado numa missão incerta. Com a ajuda do montador Mick Audsley, Gilliam imprime dinamismo à narrativa, mantendo-a sempre intrigante justamente por conduzi-la sob a perspectiva de James, nos colocando assim na mesma posição do protagonista, acertando ainda ao inserir as viagens no tempo de maneira orgânica – com exceção do primeiro salto brusco do presente para 1990 em Baltimore.

Criando um mundo sujo e abandonado no presente e outro tampouco atraente no passado, o diretor reflete na tela a confusão mental de seu protagonista. O caótico local onde James se encontra com os cientistas, por exemplo, ajuda a criar a atmosfera conturbada e anárquica pretendida pelo diretor. Aliás, as cenas que se passam no presente chegam a ter um tom caricato tão exagerado que, por vezes, acabam arrancando o riso da plateia – o que serve como alívio cômico numa narrativa que exige muita atenção. Já no passado, as paredes descascadas do hospício tornam o ambiente bastante realista e ajudam a ilustrar a repulsa do protagonista naquele lugar. E se a direção de arte de William Ladd Skinner é essencial neste processo, os interessantes figurinos de Julie Weiss não apenas reforçam este visual como ainda distinguem bem cada época, como na segunda guerra mundial e nos anos 90.

Sempre carismático, Bruce Willis conquista o espectador com seu vulnerável James Cole, levando a plateia com ele naquela jornada e convencendo até mesmo quando começa a questionar sua própria sanidade – destaque especial para duas cenas, uma na cama de um hospital diante dos cientistas e outra num quarto de hotel com Kathryn. Exibindo a angústia de quem se sente deslocado e confuso e a determinação de quem tem uma missão a cumprir, Willis cria um personagem cativante e muito humano. Já Brad Pitt está sensacional como o pirado Jeffrey Goines, com seus tiques, a fala rápida, a oscilação no tom de voz e a constante movimentação no olhar, que caracterizam muito bem um personagem simultaneamente perigoso e fascinante. Juntos, eles são responsáveis pelos melhores momentos de “Os 12 Macacos”. Contudo, existem outros momentos interessantes, especialmente quando envolvem a Kathryn de Madeleine Stowe, que transmite bem a aflição e a confusão na mente da personagem diante de James e suas afirmações. E não podemos deixar de citar Christopher Plummer, que encarna com eficiência o famoso pai de Jeffrey, ainda que surja poucas vezes em cena.

Em certo momento da trama, o espectador passa a compartilhar da dúvida de James e questiona se tudo aquilo não existe mesmo apenas na mente do protagonista. Mas a reviravolta completa acontece quando um menino é encontrado no celeiro (conforme ele havia dito que aconteceria) e, somado a uma fotografia da primeira guerra mundial e à bala retirada da perna dele, comprova para Kathryn e para o espectador que James falava a verdade. E então a referencia ao clássico “Um corpo que cai” surge no disfarce de Kathryn, nas imagens do longa de Hitchcock dentro de um cinema e até mesmo na trilha sonora, amarrando tematicamente a narrativa e escancarando a mensagem do longa: jamais poderemos alterar o passado. Esta mensagem se confirma na emblemática cena final, onde o “sonho” se repete. O olhar de Kathryn para o jovem James, acompanhado de um leve sorriso, torna esta dolorosa cena num momento belo, ilustrando o instante em que ela percebe que James viveria eternamente neste ciclo.

Utilizando com inteligência o complicado conceito da viagem no tempo, “Os 12 Macacos” nos apresenta um futuro decadente e um passado povoado por personagens cativantes, numa narrativa que exige muita atenção do espectador, mas o recompensa por sua coerência e complexidade. Somando ainda atuações marcantes e uma direção eficiente, o longa se confirma como uma ficção científica melancólica, intrigante e competente, que nos permite discutir horas e horas a respeito de seus interessantes conceitos. Precisa mais?

Texto publicado em 18 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira