OS 12 MACACOS (1995)

(Twelve Monkeys)

 

Videoteca do Beto #131

Dirigido por Terry Gilliam.

Elenco: Bruce Willis, Madeleine Stowe, Brad Pitt, Christopher Plummer, David Morse, Jon Seda, Frederick Strother, Frank Gorshin, Carol Florence, Lisa Gay Hamilton e Felix Pire.

Roteiro: David Peoples e Janet Peoples, inspirado no filme “La Jetée” de Chris Marker.

Produção: Charles Roven.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Carregando em cada fotograma o estilo visual caótico e marcante de seu diretor, “Os 12 Macacos” é uma ficção científica interessante, que conta também com atuações inspiradas de seu elenco e uma narrativa ao mesmo tempo complexa e fascinante para conquistar o espectador. Apresentando um ambiente deprimente no futuro e outro prestes a entrar em colapso no passado, o longa de Terry Gilliam mais parece um pesadelo, prendendo a atenção do espectador não apenas por seu visual, mas também pela maneira inteligente que sua ótima premissa é desenvolvida.

Inspirado no filme “La Jetée”, de Chris Marker, o intrincado roteiro de David e Janet Peoples tem inicio em 2035, quando James Cole (Bruce Willis) é enviado de volta ao passado para coletar informações sobre um vírus letal que dizimou os seres humanos em 1996, matando cerca de cinco bilhões de pessoas. Só que, por um erro dos cientistas, James retorna a 1990 e acaba internado num hospício, onde conhece a psiquiatra Kathryn (Madeleine Stowe) e o jovem Jeffrey Goines (Brad Pitt), filho do Dr. Goines (Christopher Plummer) e provável responsável pelo nascimento do grupo conhecido como o “exército dos doze macacos”, que teoricamente teria espalhado o vírus letal pelo mundo.

Logo em seus primeiros minutos, “Os 12 Macacos” demonstra sua faceta onírica através do misterioso sonho de seu protagonista num aeroporto que, na verdade, mais parece um atormentador e recorrente pesadelo, surgindo em diversos momentos para aterrorizá-lo. Em seguida, James aparece numa cela bastante desconfortável, conversando com outro prisioneiro no mundo subterrâneo (onde os poucos sobreviventes ao vírus tentam sobreviver) momentos antes de ser convocado para uma misteriosa missão. Desta forma, o diretor busca facilitar a identificação do espectador com seu protagonista, que surge vulnerável, em condições precárias e prestes a ser enviado numa missão incerta. Com a ajuda do montador Mick Audsley, Gilliam imprime dinamismo à narrativa, mantendo-a sempre intrigante justamente por conduzi-la sob a perspectiva de James, nos colocando assim na mesma posição do protagonista, acertando ainda ao inserir as viagens no tempo de maneira orgânica – com exceção do primeiro salto brusco do presente para 1990 em Baltimore.

Criando um mundo sujo e abandonado no presente e outro tampouco atraente no passado, o diretor reflete na tela a confusão mental de seu protagonista. O caótico local onde James se encontra com os cientistas, por exemplo, ajuda a criar a atmosfera conturbada e anárquica pretendida pelo diretor. Aliás, as cenas que se passam no presente chegam a ter um tom caricato tão exagerado que, por vezes, acabam arrancando o riso da plateia – o que serve como alívio cômico numa narrativa que exige muita atenção. Já no passado, as paredes descascadas do hospício tornam o ambiente bastante realista e ajudam a ilustrar a repulsa do protagonista naquele lugar. E se a direção de arte de William Ladd Skinner é essencial neste processo, os interessantes figurinos de Julie Weiss não apenas reforçam este visual como ainda distinguem bem cada época, como na segunda guerra mundial e nos anos 90.

Sempre carismático, Bruce Willis conquista o espectador com seu vulnerável James Cole, levando a plateia com ele naquela jornada e convencendo até mesmo quando começa a questionar sua própria sanidade – destaque especial para duas cenas, uma na cama de um hospital diante dos cientistas e outra num quarto de hotel com Kathryn. Exibindo a angústia de quem se sente deslocado e confuso e a determinação de quem tem uma missão a cumprir, Willis cria um personagem cativante e muito humano. Já Brad Pitt está sensacional como o pirado Jeffrey Goines, com seus tiques, a fala rápida, a oscilação no tom de voz e a constante movimentação no olhar, que caracterizam muito bem um personagem simultaneamente perigoso e fascinante. Juntos, eles são responsáveis pelos melhores momentos de “Os 12 Macacos”. Contudo, existem outros momentos interessantes, especialmente quando envolvem a Kathryn de Madeleine Stowe, que transmite bem a aflição e a confusão na mente da personagem diante de James e suas afirmações. E não podemos deixar de citar Christopher Plummer, que encarna com eficiência o famoso pai de Jeffrey, ainda que surja poucas vezes em cena.

Em certo momento da trama, o espectador passa a compartilhar da dúvida de James e questiona se tudo aquilo não existe mesmo apenas na mente do protagonista. Mas a reviravolta completa acontece quando um menino é encontrado no celeiro (conforme ele havia dito que aconteceria) e, somado a uma fotografia da primeira guerra mundial e à bala retirada da perna dele, comprova para Kathryn e para o espectador que James falava a verdade. E então a referencia ao clássico “Um corpo que cai” surge no disfarce de Kathryn, nas imagens do longa de Hitchcock dentro de um cinema e até mesmo na trilha sonora, amarrando tematicamente a narrativa e escancarando a mensagem do longa: jamais poderemos alterar o passado. Esta mensagem se confirma na emblemática cena final, onde o “sonho” se repete. O olhar de Kathryn para o jovem James, acompanhado de um leve sorriso, torna esta dolorosa cena num momento belo, ilustrando o instante em que ela percebe que James viveria eternamente neste ciclo.

Utilizando com inteligência o complicado conceito da viagem no tempo, “Os 12 Macacos” nos apresenta um futuro decadente e um passado povoado por personagens cativantes, numa narrativa que exige muita atenção do espectador, mas o recompensa por sua coerência e complexidade. Somando ainda atuações marcantes e uma direção eficiente, o longa se confirma como uma ficção científica melancólica, intrigante e competente, que nos permite discutir horas e horas a respeito de seus interessantes conceitos. Precisa mais?

Texto publicado em 18 de Junho de 2012 por Roberto Siqueira

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