QUASE FAMOSOS (2000)

(Almost Famous)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #111

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Philip Seymour Hoffman, Jason Lee, Zooey Deschanel, Michael Angarano, Anna Paquin, Fairuza Balk, Noah Taylor, John Fedevich, Jimmy Fallon e Rainn Wilson.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: Ian Bryce e Cameron Crowe.

Quase Famosos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Precocemente convidado para escrever numa das revistas mais conceituadas do universo do rock, Cameron Crowe não demorou a estrear também no cinema, primeiro como roteirista do ótimo “Picardias Estudantis” e depois realizando entre outros filmes o bom “Jerry Maguire”. No entanto, seu grande momento atrás das câmeras foi mesmo em “Quase Famosos”, uma espécie de autobiografia nada disfarçada que narra de maneira apaixonada suas experiências nos bastidores do rock nos tempos de revista Rolling Stone.

Obviamente escrito pelo próprio Crowe, o roteiro de “Quase Famosos” narra a trajetória de William Miller (Patrick Fugit), um jovem de apenas 15 anos que é contratado pela revista Rolling Stone para escrever sobre a turnê da promissora banda Stillwater, mas, para o desespero de sua mãe (Frances McDormand), acaba envolvendo-se não apenas com os integrantes da banda, mas também com um universo de sexo, drogas e garotas ousadas, dentre as quais se destaca a bela Penny Lane (Kate Hudson).

Em certo momento de “Quase Famosos”, um personagem diz que “ser fã é amar tanto uma banda que chega a doer”, naquela que talvez seja a frase que, dentre os inúmeros bons diálogos do roteiro, melhor capte o espírito nostálgico do longa. Inspirado na própria trajetória que levou Crowe a ser precocemente contratado como crítico da famosa revista Rolling Stone e aproximar-se de bandas mitológicas como o Led Zeppelin (a favorita de Crowe), a narrativa comandada pelo diretor exala criatividade desde a apresentação dos créditos iniciais e demonstra não apenas sua paixão pela música, mas também por todo o universo que a cerca. E ainda que espalhe momentos cômicos por toda a narrativa, a abordagem de Crowe é na maior parte do tempo repleta de encanto.

Compensando o excesso de informações mastigadas através desta abordagem extremamente sensível, Crowe reverencia o rock na maior parte do tempo, seja através da excelente trilha sonora repleta de bandas do primeiro time como o próprio Zeppelin, The Who e Black Sabbath, seja na própria abordagem visual, começando pela fotografia de John Toll, que até utiliza cenas noturnas e ambientes fechados em muitos momentos para ilustrar a luta daquele grupo para sair das sombras e ganhar projeção, mas jamais deixa as cores tão marcantes naquela época de lado, conferindo um brilho especial às cenas diurnas e às muitas sequências nostálgicas embaladas por músicas (que lembram videoclipes e escancaram a origem do diretor), como por exemplo, quando Penny volta pra casa de avião enquanto William corre pelo aeroporto ou na belíssima cena em que todos cantam “Tiny Dancer” no ônibus, assim como na encantadora cena em que as garotas se juntam para tirar a virgindade de William.

Apresentação dos créditos iniciaisCenas noturnasTiny DancerAinda na parte técnica, enquanto a montagem de Joe Hutshing e Saar Klein confere um bom ritmo a narrativa, intercalando a turnê da banda com as cenas envolvendo a mãe de William, os editores da Rolling Stone e o crítico Lester Bangs interpretado por Philip Seymour Hoffman, os figurinos de Betsy Heimann e o design de produção de Clay A. Griffith, Clayton Hartley e Virginia L. Randolph nos transportam para a época da narrativa através das roupas coloridas e do próprio ônibus escolhido para acompanhar a turnê. Finalmente, o ótimo design de som cria o ambiente perfeito nos shows através das reações do público e dos diálogos entre os integrantes da banda, caprichando até mesmo nos pequenos detalhes, como quando ouvimos um diálogo no backstage e, ao fundo, o som do show do Black Sabbath.

No entanto, Crowe faz ainda mais bonito na direção de atores. Vivendo a mãe opressora que proíbe muitos prazeres da vida aos seus filhos, Frances McDormand evita que Elaine Miller se torne uma personagem detestável e unidimensional ao conferir humanidade a ela através da forma como se preocupa com o bem estar do filho e da empatia que cria com o jovem William. Equilibrando-se entre o rosto inocente e o sorriso carismático, o jovem Patrick Fugit tem sucesso na difícil tarefa de compor o tímido personagem central da narrativa, criando empatia com os integrantes da banda e, especialmente, com a bela Penny Lane – o momento em que o pequeno William volta para pegar a camiseta que causou uma briga na banda é muito divertido. Através da visão encantada dele, temos acesso aos bastidores do cotidiano de uma banda menor e somos levados pelas estradas na árdua busca por um lugar ao sol, por isso, a empatia entre o personagem e a plateia é essencial para o sucesso do longa.

Carismática, sensual e descolada, a Penny Lane de Kate Hudson é o elo entre o protagonista e a banda, funcionando como o alicerce daquela complexa cadeia – e não à toa, a ausência dela provoca turbulências ainda maiores entre os músicos. Compondo a personagem com sensibilidade, Hudson destaca-se na cena em que Penny sofre uma crise no quarto após ser desprezada pelo guitarrista Russel, o mais carismático integrante do Stillwater interpretado por Billy Crudup, que é também o pivô das constantes brigas motivadas pelos egos inflados dele e do vocalista Jeff Bebe, vivido por Jason Lee – um conflito muito comum nas bandas de rock, diga-se. Infelizmente, a forte influência de empresários também se tornou comum e “Quase Famosos” aborda o tema quando os integrantes da banda são convencidos a viajar de avião para fazer mais shows – algo que Crowe realça num plano no qual vemos o ônibus ficando para trás enquanto o avião decola ao fundo. Ironicamente, é durante uma tempestade que coloca em risco um voo da banda que eles aproveitam para lavar a roupa suja e escancarar seus problemas, o que não soluciona todos eles, mas ao menos faz com que a maioria dos músicos se sinta melhor.

Se preocupa com o bem estar do filhoRosto inocenteCarismática Penny LaneFechando o elenco, Philip Seymour Hoffman encarna bem o crítico alternativo que orienta o jovem William, destilando seu veneno contra tudo que lhe desagrada e revelando importantes informações a respeito da indústria da música. Seu apartamento bagunçado e cheio de LPs diz muito sobre ele, assim como as dicas que ele dá ao garoto, que terão reflexo no futuro, quando William sentirá na pele a dificuldade de criticar o trabalho da banda após fazer amizade com eles.

Viagem interessante pelos bastidores de uma banda de rock sob o olhar de um fã, “Quase Famosos” é uma verdadeira homenagem a este gênero que encanta gerações há décadas. Sem jamais soar ácido demais e sem por isso deixar de expor o universo polêmico no qual conviveu, Cameron Crowe realizou um ótimo trabalho, capaz de agradar roqueiros e cinéfilos com a mesma eficiência. E olha que estes dois grupos são muito exigentes – e eu faço parte de ambos!

Quase Famosos foto 2Texto publicado em 13 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira

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JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996)

(Jerry Maguire)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #94

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renée Zellweger, Kelly Preston, Jerry O’Connell, Bonnie Hunt, Jay Mohr, Regina King, Jonathan Lipnicki, Todd Louiso, Mark Pellington, Donal Logue, Eric Stoltz, Lucy Liu e Beau Bridges.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: James L. Brooks, Cameron Crowe, Laurence Mark e Richard Sakai.

Jerry Maguire - A Grande Virada[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Quando decidiu escrever e dirigir “Jerry Maguire”, Cameron Crowe era apenas um ex-colaborador da tradicional revista “Rolling Stone” com dois filmes no currículo. Entretanto, ao apostar na mistura de dois gêneros recheados de clichês e na força do então maior astro de Hollywood, ele finalmente alcançou o sucesso. Com boas atuações, alguns diálogos interessantes e uma abordagem mais humanista de temas batidos, o diretor/roteirista entregou um bom filme, que está longe de ser uma obra-prima, mas nos diverte de maneira delicada e eficiente.

O longa narra a trajetória de Jerry Maguire (Tom Cruise), um agente esportivo picareta e eficiente que, após ser confrontado pelo filho de um jogador lesionado, decide escrever uma declaração sugerindo que os agentes esportivos sejam mais humanos, ganhem menos e deem mais atenção aos seus clientes. Como consequência, ele acaba demitido da agência em que trabalha e acaba abrindo a própria agência, ao lado da também ex-funcionária Dorothy Boyd (Renée Zellweger). O problema é que dentre todos os atletas agenciados por Jerry, somente o jogador de futebol americano Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr.) decide continuar com ele.

Se comédias românticas dificilmente conseguem fugir de certos clichês, filmes de esporte não ficam nem um pouco atrás, normalmente trazendo histórias de superação repletas de situações batidas que já estamos mais do que acostumados a ver. Ciente disso, Crowe se mostra inteligente o bastante para não tentar desconstruir estes gêneros, já que esta tarefa exigiria um esforço tremendo e um talento digno de um Tarantino – algo que, convenhamos, Crowe sabe que não é. Ao invés disso, ele aposta numa abordagem mais realista, menos sentimental e mais humana, obtendo um resultado que, se não enche os olhos, ao menos soa sincero e, por isso, agrada.

Ainda assim, Crowe não escapa de situações convencionais dos dois gêneros, mostrando a queda em desgraça do protagonista que, obviamente, se recuperará, o atleta que não é conhecido e que chegará ao sucesso (ainda que, neste caso, seja através de uma situação bem diferente daquela que imaginamos) e o casal que só descobre que se ama de verdade após uma breve separação. Entretanto, se comete alguns equívocos que prejudicam seu trabalho, Crowe ao menos escapa do clichê “mocinha briga com mocinho e deixa a cidade” no último instante ao fazer com que ela fique e se case com ele. No entanto, a briga é apenas adiada e momentos depois eles decidem “dar um tempo”, num diálogo tocante em que Cruise e Zellweger se saem muito bem. Além disso, o igualmente previsível drama que Rod enfrenta no ato final tem um desfecho bem agradável e abre espaço para que Cuba Gooding Jr. abuse de seus maneirismos e exageros sem prejudicar a narrativa, da mesma forma que o esperado reencontro entre Jerry e Dorothy se salva pela forma delicada em que é conduzido pelo diretor – além, é claro, das atuações convincentes da dupla romântica.

Eles decidem dar um tempoDrama de RodReencontroTambém seguindo a fórmula das comédias românticas, a fotografia de Janusz Kaminski investe em cores quentes e cenas diurnas, colaborando para a sensação de bem estar da plateia que é reforçada pela montagem ágil de Joe Hutshing e David Moritz. Igualmente, a econômica trilha sonora aposta em belas músicas como “Secret Garden”, de Bruce Springsteen, para embalar momentos marcantes como a saída de Jerry e Dorothy para um jantar. E se não ganha grande destaque na maior parte do tempo, ao simular as batidas aceleradas do coração de Jerry o design de som nos prepara para uma negociação importantíssima para o futuro dele segundos antes do agente entrar na casa de Cush (Jerry O’Connell), além de se destacar durante as partidas, realçando o barulho das arquibancadas e os choques entre os atletas com precisão.

A abordagem leve da narrativa se confirma através de interessantes tiradas do diretor, como o divertido mentor de Jerry que surge de vez em quando para deixar algumas de suas mensagens motivacionais. Só que, para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” tem poucos momentos realmente capazes de provocar o riso, ainda que algumas sequências sejam memoráveis, como quando Jerry grita no telefone (“Show me the Money!”) ou quando Dorothy decide sair da empresa junto com ele, numa cena em que a boa atuação de Cruise ganha ainda mais destaque pelos trejeitos e exageros do ator. Aliás, se a parte técnica e até mesmo a direção de Crowe é discreta, é também porque o diretor sabe que “Jerry Maguire” é um filme essencialmente de personagens e, por isso, são eles que devem brilhar. Empregando constantemente o tradicional plano/contraplano, ele realça o que o longa tem de melhor e evita ofuscar as boas atuações com excesso de virtuosismos. Ainda assim, o diretor utiliza a câmera ágil para nos colocar dentro dos jogos, nos permitindo sentir o calor das partidas.

Jerry Maguire é tão egocêntrico que até mesmo a narração é feita em primeira pessoa. Famoso pela cara de pau com que mente e por enganar qualquer um, ele se beneficia desta fama para conseguir os melhores contratos para seus jogadores – e o sorriso constante de Cruise só colabora para criar esta aura de falsidade no personagem. Agindo com naturalidade em diversos momentos, como quando Jerry tenta cantar diversas músicas no carro até finalmente conseguir encontrar aquela que casa com seu estado de espírito, Cruise confere enorme carisma ao agente, conquistando a plateia quase que instantaneamente, o que é vital para que o espectador torça por seu sucesso profissional e pessoal, a despeito de seus métodos inicialmente desprezíveis. Inteligente, Jerry conquista Dorothy também através de seu filho Ray (Jonathan Lipnicki), afinal, que mãe não gosta de ver alguém tratando bem seu filho? Ele acaba criando tanta afinidade com o garoto que, no fim das contas, é justamente ao vê-lo chorando que Jerry decide propor Dorothy em casamento. Ironicamente, é também o garoto que serve de escudo para que Jerry evite discutir a relação com Dorothy quando fica evidente que ele casou por gratidão e não por amor.

Aura de falsidadeTratando bem seu filhoTímida e atrapalhadaTímida e atrapalhada, a Dorothy de Zellweger se mostra empolgada diante da presença de Jerry desde a saída do avião, ainda na sequência que abre o filme. Constantemente observando casais que trocam carícias, ela escancara sua carência para Jerry de maneira nada sutil, mas compensa sua falta de prática na arte da paquera com grande carisma, desarmando-se completamente enquanto se envolve com o novo chefe. Por isso, chega a ser dolorido acompanhá-los levando aquela relação adiante mesmo sabendo que estão apenas curando sua carência ao lado de outra pessoal igualmente ressentida. E, também por isso, tanto a breve separação quanto o esperado retorno do casal conseguem conquistar o espectador, ainda que seja apenas a repetição de uma velha fórmula do gênero.

Claramente se divertindo no papel, Cuba Gooding Jr. chama a atenção sempre que entra em cena com seu jeito espalhafatoso que cai muito bem no divertido Rod. Seus diálogos com Jerry são sempre envolventes e engraçados, demonstrando a química entre os atores e dando vida a narrativa. Por isso, é uma pena que o roteiro invista pouco na boa dinâmica dos dois, gastando muito tempo no previsível relacionamento entre Jerry e Dorothy. Por sua vez, Bonnie Hunt evita transformar Laurel no estereótipo da irmã mais velha e chata que sente inveja da mais nova, demonstrando carinho e preocupação com ela justamente por não querer vê-la sofrer, mas vibrando com os momentos felizes da irmã (como quando sorri sozinha na janela ao escutar a noite de amor da caçula). E fechando o elenco, Kelly Preston vive a agitada e maluca Avery, a ex-noiva de Jerry que termina com ele por um motivo totalmente artificial e arbitrário inserido pelos roteiristas apenas para liberar o caminho do protagonista.

Longo demais para uma comédia romântica, “Jerry Maguire” ao menos trata a relação entre o casal principal de maneira adulta, tornando seus personagens um pouco mais críveis e aproximando-os da plateia. Com um final alegre, este típico “feel good movie” se destaca também pelas boas atuações, nos divertindo e, ao mesmo tempo, deixando algumas reflexões que podem não mudar o mundo, mas fazem com que o espectador se sinta mais humano.

Jerry Maguire - A Grande Virada foto 2Texto publicado em 18 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira