X-MEN: O FILME (2000)

(X-Men)

 

Videoteca do Beto #242

Dirigido por Bryan Singer.

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shawn Ashmore, Shawn Roberts e Aron Tager.

Roteiro: David Hayter.

Produção: Lauren Shuler Donner e Ralph Winter.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

É verdade que o cinema já tinha exportado dos quadrinhos para a telona a história de personagens como o Superman ou o Batman quando “X-Men: O Filme” foi lançado, ainda na virada do século, mas o fato é que o longa dirigido por Bryan Singer representa um marco na história dos filmes baseados em HQ’s. Até então, a relação entre filmes e HQ’s era marcada por altos e baixos, atingindo o fundo do poço no terrível “Batman & Robin”, de Joel Schumacher, que quase sepultou as chances dos grandes estúdios voltarem seus olhos para personagens dos quadrinhos novamente. Foram precisos 3 anos para que um grande estúdio abrisse as portas outra vez para uma adaptação. Felizmente, o excelente trabalho de Singer não apenas restaurou a imagem arranhada das adaptações de HQ’s diante da crítica e do público como ainda marcou o início de uma era de enorme sucesso para filmes do gênero que dura até hoje.

Escrito por David Hayter, “X-Men: O Filme” tem início quando um grupo de mutantes se vê ameaçado pelo projeto de lei do senador conservador Kelly (Bruce Davison) que, caso aprovado, obrigaria todos a revelarem suas identidades. Liderados pelo professor Xavier (Patrick Stewart), parte deles busca pacificamente manter sua dignidade diante de uma sociedade que tem enorme dificuldade em aceitá-los, supostamente por conta de seus poderes especiais e os riscos que eles poderiam representar. Outra parte, liderada por Magneto (Ian McKellen), entende que a única forma de sobreviver é através do confronto com os seres humanos, o que leva o primeiro grupo a defender os mesmos que tanto preconceito demonstram por eles.

Investindo mais tempo nos dilemas dos personagens do que nas cenas de ação em si, Singer e seus montadores Steven Rosenblum, Kevin Stitt e John Wright acertam ao focar naquilo que o longa realmente traz como diferencial, explorando questões políticas e sociais universais como a perseguição as minorias por uma maioria autoritária e influente – substitua os mutantes por judeus, negros, gays ou mulheres e a discussão será a mesma. Ao inserir um subtexto político contemporâneo, “X-Men: O Filme” consegue não apenas a empatia de muitos espectadores como deixa claro que a abordagem será bem diferente do que era usual em filmes baseados em HQ’s, demonstrando ambição temática sem por isso deixar de funcionar como filme de ação.

Esta opção fica clara já nos minutos iniciais quando acompanhamos a traumática infância de Magneto num campo de concentração nazista, numa sequência que torna-se ainda mais pesada pela escolha da paleta acinzentada da fotografia de Newton Thomas Sigel, que contrasta com as cores mais quentes que dominarão o filme posteriormente. Em seguida, somos apresentados aos temas centrais da narrativa, como o preconceito gerado pelo medo do que é diferente, a intolerância, os temores da raça humana diante dos poderes dos mutantes e os dilemas dos próprios mutantes, que temem serem segregados por conta de seu DNA evoluído. Pois sim, “X-Men: O Filme” claramente trata o conceito de mutação como uma evolução da espécie através de frases como “Nós somos o futuro”, ao mesmo tempo que escancara sua crítica ao preconceito em frases como “Não somos todos assim” ou diálogos entre os próprios mutantes como:

– “Você odeia os humanos?”

– “Sim.”

– “Por que?”

– “Acho que tenho medo deles.”

É interessante notar também como os poderes dos mutantes são apresentados não como algo divertido, mas como um fardo que traz dilemas para muitos deles. Assim, ao contrário de muitos filmes de super-heróis em que simplesmente acompanhamos os personagens utilizando seus poderes para vencer a clássica luta entre o bem e o mal, aqui o que temos são reflexões sobre como de fato seria caso existissem seres tão poderosos em nosso meio e como eles próprios se sentiriam diante de tanto poder e da desconfiança dos seres humanos em relação a isso.

A apresentação do universo dos X-Men e dos personagens em si também é muito bem conduzida pelo diretor, que não precisa de muitos minutos para estabelecer questões importantes como a incapacidade de Vampira (Anna Paquin, muito bem por sinal) de ter contato físico e o efeito psicológico que isso gera nela, além de trabalhar bem a expectativa dos fãs em momentos como a apresentação de Wolverine (Hugh Jackman), que surge inicialmente de costas, para somente depois demonstrar sua força através da expressão raivosa, do olhar compenetrado e, claro, da potência de seus golpes – e Jackman se sai muito bem na tarefa de encarnar um dos mais icônicos ex-humanos. A lamentar, apenas a forma infantil como ele e Ciclope (James Marsden) passam o tempo todo se alfinetando.

Outros mutantes não demoram a surgir e, de maneira eficiente e econômica, Singer introduz um a um na narrativa, estabelecendo rapidamente a divisão entre os que buscam conviver pacificamente com os humanos e os que buscam o conflito, numa abordagem unidimensional que, acredito eu, segue a tradição dos quadrinhos (e aqui deixo claro que não sou grande conhecedor de HQ’s), mas que não prejudica o desenvolvimento dos personagens centrais. Um dos grandes méritos, aliás, reside justamente no desenvolvimento de um vilão que não apenas tem um passado trágico como ainda apresenta motivações bastante plausíveis. Afinal de contas, como podemos julgar o temor de alguém que já sofreu na pele os horrores da segregação racial? Assim, Ian McKellen compõe um personagem que rivaliza em inteligência com o centrado professor Xavier vivido com serenidade por Patrick Stewart, ganhando o respeito do espectador e de quebra protagonizando uma das cenas mais emblemáticas do longa, quando controla os carros e armas da polícia e demonstra todo seu poder.

Com tantos personagens interessantes e um subtexto dramático mais profundo, “X-Men: O Filme” nem precisaria, mas até que funciona bem nas sequências de ação, ainda que não traga lutas tão bem coreografadas e que seus efeitos visuais hoje soem datados, com exceção daqueles que demonstram como funciona o localizador cerebral de Xavier. Datada também é a trilha sonora de Michael Kamen, com notas rápidas que destoam da composição principal em boa parte do tempo. Por sua vez, o design de produção de John Myhre e os figurinos de Louise Mingenbach conseguem dar vida aquele universo, apesar do exagero no aspecto visual de personagens como Dentes-de-Sabre (Tyler Mane), Groxo (Ray Park) e principalmente Mística (Rebecca Romijn). Vale destacar ainda a empolgante escola dos mutantes administrada pelo professor Xavier e explorada com calma por Singer, permitindo ao espectador se familiarizar com os personagens e acompanhar o interessante processo de aprendizagem deles.

Encerrando a narrativa com um simbólico jogo de xadrez entre os dois amigos e rivais Xavier e Magneto, “X-Men: O Filme” cumpre muito bem a missão de estabelecer um universo que serviria como base para os próximos filmes da série sem por isso deixar de amarrar suas pontas e ter uma conclusão satisfatória para sua própria narrativa. Mais do que isso, conseguiu resgatar a confiança de Hollywood num gênero até então subestimado, elevando o patamar das produções sobre super-heróis e estabelecendo um padrão que seria seguido desde então. Os inúmeros grandes filmes que surgiram nestas quase duas décadas seguintes devem muito a Wolverine e companhia.

Texto publicado em 01 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

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QUASE FAMOSOS (2000)

(Almost Famous)

4 Estrelas 

Filmes em Geral #111

Dirigido por Cameron Crowe.

Elenco: Patrick Fugit, Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Philip Seymour Hoffman, Jason Lee, Zooey Deschanel, Michael Angarano, Anna Paquin, Fairuza Balk, Noah Taylor, John Fedevich, Jimmy Fallon e Rainn Wilson.

Roteiro: Cameron Crowe.

Produção: Ian Bryce e Cameron Crowe.

Quase Famosos[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Precocemente convidado para escrever numa das revistas mais conceituadas do universo do rock, Cameron Crowe não demorou a estrear também no cinema, primeiro como roteirista do ótimo “Picardias Estudantis” e depois realizando entre outros filmes o bom “Jerry Maguire”. No entanto, seu grande momento atrás das câmeras foi mesmo em “Quase Famosos”, uma espécie de autobiografia nada disfarçada que narra de maneira apaixonada suas experiências nos bastidores do rock nos tempos de revista Rolling Stone.

Obviamente escrito pelo próprio Crowe, o roteiro de “Quase Famosos” narra a trajetória de William Miller (Patrick Fugit), um jovem de apenas 15 anos que é contratado pela revista Rolling Stone para escrever sobre a turnê da promissora banda Stillwater, mas, para o desespero de sua mãe (Frances McDormand), acaba envolvendo-se não apenas com os integrantes da banda, mas também com um universo de sexo, drogas e garotas ousadas, dentre as quais se destaca a bela Penny Lane (Kate Hudson).

Em certo momento de “Quase Famosos”, um personagem diz que “ser fã é amar tanto uma banda que chega a doer”, naquela que talvez seja a frase que, dentre os inúmeros bons diálogos do roteiro, melhor capte o espírito nostálgico do longa. Inspirado na própria trajetória que levou Crowe a ser precocemente contratado como crítico da famosa revista Rolling Stone e aproximar-se de bandas mitológicas como o Led Zeppelin (a favorita de Crowe), a narrativa comandada pelo diretor exala criatividade desde a apresentação dos créditos iniciais e demonstra não apenas sua paixão pela música, mas também por todo o universo que a cerca. E ainda que espalhe momentos cômicos por toda a narrativa, a abordagem de Crowe é na maior parte do tempo repleta de encanto.

Compensando o excesso de informações mastigadas através desta abordagem extremamente sensível, Crowe reverencia o rock na maior parte do tempo, seja através da excelente trilha sonora repleta de bandas do primeiro time como o próprio Zeppelin, The Who e Black Sabbath, seja na própria abordagem visual, começando pela fotografia de John Toll, que até utiliza cenas noturnas e ambientes fechados em muitos momentos para ilustrar a luta daquele grupo para sair das sombras e ganhar projeção, mas jamais deixa as cores tão marcantes naquela época de lado, conferindo um brilho especial às cenas diurnas e às muitas sequências nostálgicas embaladas por músicas (que lembram videoclipes e escancaram a origem do diretor), como por exemplo, quando Penny volta pra casa de avião enquanto William corre pelo aeroporto ou na belíssima cena em que todos cantam “Tiny Dancer” no ônibus, assim como na encantadora cena em que as garotas se juntam para tirar a virgindade de William.

Apresentação dos créditos iniciaisCenas noturnasTiny DancerAinda na parte técnica, enquanto a montagem de Joe Hutshing e Saar Klein confere um bom ritmo a narrativa, intercalando a turnê da banda com as cenas envolvendo a mãe de William, os editores da Rolling Stone e o crítico Lester Bangs interpretado por Philip Seymour Hoffman, os figurinos de Betsy Heimann e o design de produção de Clay A. Griffith, Clayton Hartley e Virginia L. Randolph nos transportam para a época da narrativa através das roupas coloridas e do próprio ônibus escolhido para acompanhar a turnê. Finalmente, o ótimo design de som cria o ambiente perfeito nos shows através das reações do público e dos diálogos entre os integrantes da banda, caprichando até mesmo nos pequenos detalhes, como quando ouvimos um diálogo no backstage e, ao fundo, o som do show do Black Sabbath.

No entanto, Crowe faz ainda mais bonito na direção de atores. Vivendo a mãe opressora que proíbe muitos prazeres da vida aos seus filhos, Frances McDormand evita que Elaine Miller se torne uma personagem detestável e unidimensional ao conferir humanidade a ela através da forma como se preocupa com o bem estar do filho e da empatia que cria com o jovem William. Equilibrando-se entre o rosto inocente e o sorriso carismático, o jovem Patrick Fugit tem sucesso na difícil tarefa de compor o tímido personagem central da narrativa, criando empatia com os integrantes da banda e, especialmente, com a bela Penny Lane – o momento em que o pequeno William volta para pegar a camiseta que causou uma briga na banda é muito divertido. Através da visão encantada dele, temos acesso aos bastidores do cotidiano de uma banda menor e somos levados pelas estradas na árdua busca por um lugar ao sol, por isso, a empatia entre o personagem e a plateia é essencial para o sucesso do longa.

Carismática, sensual e descolada, a Penny Lane de Kate Hudson é o elo entre o protagonista e a banda, funcionando como o alicerce daquela complexa cadeia – e não à toa, a ausência dela provoca turbulências ainda maiores entre os músicos. Compondo a personagem com sensibilidade, Hudson destaca-se na cena em que Penny sofre uma crise no quarto após ser desprezada pelo guitarrista Russel, o mais carismático integrante do Stillwater interpretado por Billy Crudup, que é também o pivô das constantes brigas motivadas pelos egos inflados dele e do vocalista Jeff Bebe, vivido por Jason Lee – um conflito muito comum nas bandas de rock, diga-se. Infelizmente, a forte influência de empresários também se tornou comum e “Quase Famosos” aborda o tema quando os integrantes da banda são convencidos a viajar de avião para fazer mais shows – algo que Crowe realça num plano no qual vemos o ônibus ficando para trás enquanto o avião decola ao fundo. Ironicamente, é durante uma tempestade que coloca em risco um voo da banda que eles aproveitam para lavar a roupa suja e escancarar seus problemas, o que não soluciona todos eles, mas ao menos faz com que a maioria dos músicos se sinta melhor.

Se preocupa com o bem estar do filhoRosto inocenteCarismática Penny LaneFechando o elenco, Philip Seymour Hoffman encarna bem o crítico alternativo que orienta o jovem William, destilando seu veneno contra tudo que lhe desagrada e revelando importantes informações a respeito da indústria da música. Seu apartamento bagunçado e cheio de LPs diz muito sobre ele, assim como as dicas que ele dá ao garoto, que terão reflexo no futuro, quando William sentirá na pele a dificuldade de criticar o trabalho da banda após fazer amizade com eles.

Viagem interessante pelos bastidores de uma banda de rock sob o olhar de um fã, “Quase Famosos” é uma verdadeira homenagem a este gênero que encanta gerações há décadas. Sem jamais soar ácido demais e sem por isso deixar de expor o universo polêmico no qual conviveu, Cameron Crowe realizou um ótimo trabalho, capaz de agradar roqueiros e cinéfilos com a mesma eficiência. E olha que estes dois grupos são muito exigentes – e eu faço parte de ambos!

Quase Famosos foto 2Texto publicado em 13 de Setembro de 2013 por Roberto Siqueira