MATRIX (1999)

(The Matrix)

5 Estrelas 

 

Videoteca do Beto #229

Dirigido por Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantoliano, Marcus Chong, Julian Arahanga, Matt Doran, Belinda McClory, Anthony Ray Parker, Gloria Foster, Paul Goddard, Robert Taylor, Marc Aden Gray, Ada Nicodemou, David Aston, Deni Gordon, Rowan Witt, Fiona Johnson e Bill Young.

Roteiro: Larry Wachowski e Andy Wachowski.

Produção: Joel Silver.

Matrix[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Não são raras as vezes em que um filme é ignorado na época de seu lançamento e, muitos anos depois, acaba sendo descoberto por uma nova geração que o transforma no chamado cult. Raros, porém, são os casos de filmes que já nascem com este conceito. Mais raros ainda são casos como o de “Matrix” que, em pouco tempo, tornou-se mais do que um filme cult, consolidando-se como um fenômeno cultural do final do século passado que arrastou milhões de fãs pelo mundo não apenas para a frente das telas, mas para um universo particular, repleto de ideias complexas, banhadas em conceitos trazidos das mais diversas fontes.

Escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski, “Matrix” nos leva ao futuro, num mundo já dominado pelas máquinas, que utilizam os seres humanos como fonte de energia para manterem suas baterias carregadas. Para isto, construíram um complexo sistema em que as pessoas hibernam e, através de um programa de computador, sonham viver no planeta exatamente como este era concebido no passado já distante. No entanto, alguns humanos dissidentes conseguem escapar e iniciam um movimento de resistência, que aguarda a chegada do líder que os guiará na luta pela liberdade de toda a raça humana. O mais importante deles é Morpheus (Laurence Fishburne), que conta com a ajuda de Trinity (Carrie-Anne Moss) para encontrar aquele que ele acredita ser o escolhido: um hacker chamado Neo (Keanu Reeves).

Neste breve resumo não é possível identificar o tamanho e a complexidade do universo criado pelos irmãos Wachowski, que como mencionado transformou-se ao longo dos anos num fenômeno cultural de extrema importância para toda uma geração, inspirando não apenas duas continuações, mas também versões em anime, um universo expandido e até mesmo um site dedicado a explorar a “Matrix”. Capaz de agradar aos mais diversos tipos de fã por conta da diversificada colagem cultural em que se apoia, da qualidade de sua narrativa e das ótimas cenas de ação, o longa representou ainda um marco em termos de efeitos visuais, tornando-se referência para inúmeros filmes que surgiriam nos anos seguintes.

Visualmente impactante, “Matrix” conta com a direção de fotografia sóbria de Bill Pope, que deixa claro já quando o logo da Warner surge em verde que a cor característica dos caracteres dos antigos computadores daria o tom, ao lado de ambientes tomados pelas sombras e por paletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentado. A ideia é justamente refletir o ambiente característico das máquinas, criando um contraponto bem interessante para os planos mais coloridos que por vezes surgem quando estamos no ambiente que simula a vida real criado para manter os humanos aprisionados – e a ironia entre o contraste do mundo virtual colorido e o verdadeiro mundo real dessaturado é muito interessante.

Logo da Warner em verdePaletas que se misturam entre o esverdeado e o acinzentadoPlanos mais coloridos

Da mesma forma, o ótimo design de produção de Owen Paterson suga o espectador para dentro daquele universo através dos aparatos tecnológicos improvisados utilizados pelos hackers, sendo responsável ainda pela criação de cenários impressionantes como a própria matrix, que se materializa quase que como uma espécie de colônia de escravos adormecidos, nos permitindo compreender bem o conceito apenas através do visual. Da mesma forma, os figurinos de Kym Barrett apostam em roupas sóbrias e de cores escuras para ampliar a sensação claustrofóbica, além de serem responsáveis por criar o icônico visual dos personagens que surgem em roupas de couro e estilosos óculos escuros (o que ainda remete ao acessório clássico necessário para visualizar algo em 3D).

Aparatos tecnológicos improvisadosEspécie de colônia de escravosIcônico visual dos personagens

E se a trilha sonora de Don Davis ajuda a construir a atmosfera de mistério envolvendo tudo que cerca a matrix, o excepcional design de som é crucial para conferir ainda mais realismo às ótimas cenas de ação, como quando nos permite ouvir o barulho da hélice do helicóptero que chama a atenção dos agentes segundos antes do resgate de Morpheus. No entanto, são mesmo os efeitos visuais que se destacam na parte técnica de “Matrix”. Famosos pelo efeito que ficou conhecido como “bullet time”, os inovadores efeitos visuais não apenas são responsáveis por alguns dos momentos mais marcantes do filme, como ainda respeitam a lógica interna da narrativa, o que é importante para não tirar nossa atenção. E se diversos instantes saltam aos olhos pelo preciosismo do que vemos na tela, são mesmo os momentos em que a câmera gira lentamente em 180 ou 360 graus ao redor dos personagens que nos encantam, como fica claro logo na primeira vez em que isto ocorre, quando Trinity escapa do cerco dos policiais de maneira espetacular.

Obviamente, a direção dos Wachowski é crucial para que estas cenas sejam tão bem conduzidas e os irmãos demonstram grande competência nesta tarefa, criando lutas muito bem coreografadas e que jamais deixam o espectador confuso com o que vê na tela, graças ao ótimo controle dos diretores. Desde a citada fuga de Trinity, que funciona como a primeira sequência de ação capaz de fisgar o espectador ainda nos primeiros minutos de “Matrix”, os Wachowski nos presenteiam com várias sequências memoráveis, como a perseguição de Neo, o empolgante resgate de Morpheus e, claro, o duelo entre Neo e o agente Smith (Hugo Weaving) numa estação de metrô, que remete aos westerns com papéis voando e os homens se encarando com as mãos próximas das armas por alguns segundos antes do confronto.

Trinity escapa do cerco dos policiaisEmpolgante resgate de MorpheusDuelo entre Neo e o agente Smith

No entanto, “Matrix” está longe de ser apenas uma proeza técnica. Aliás, é justamente na complexidade de sua narrativa e nos inúmeros conceitos que a sustentam que reside boa parte de seu sucesso, na época soando como potencial candidato a criar uma nova mitologia no estilo de “Star Wars”. Rico tematicamente, o longa parte de uma premissa ousada e muito interessante, na qual tudo que os homens enxergam e vivem não passa de um universo criado virtualmente. Só que só teremos acesso a este conceito após algum tempo de projeção. Até lá, somos colocados na mesma posição de Neo, buscando desvendar as palavras misteriosas de Trinity enquanto somos guiados até Morpheus. Após uma espécie de pesadelo surreal do protagonista que depois se revelaria uma das primeiras transições entre os dois mundos, vamos aos poucos conhecendo conceitos importantes como os telefones que servem para transportar os personagens e os agentes sentinelas que servem como espiões inseridos pelas máquinas para eliminar todo e qualquer humano que queira se rebelar, até culminar na primeira aparição de Morpheus que, depois de apresentar a função das pílulas azul e vermelha, finalmente explica de forma didática e envolvente a origem e o funcionamento da matrix.

Agentes sentinelasPílulas azul e vermelhaPapel de messias

Passamos então a transitar junto com os personagens entre o ambiente real e o virtual num ritmo intenso, o que é mérito do montador Zach Staenberg, que jamais nos permite relaxar, abrindo caminho para que os Wachowski possam enfim apresentar sua profusão de ideias envolvendo conceitos científicos, religiosos e filosofia, misturando ainda cultura pop como animes, HQ´s e kung fu. Assim, enquanto Neo é claramente colocado no papel de messias, Trinity (a trindade) surge como uma figura feminina, causando o espanto do próprio escolhido (“Pensei que fosse homem”). Vivido por um surpreendentemente intenso Keanu Reeves, Neo representa a esperança para uma raça humana dominada e fadada ao fim, o que explica a clara ansiedade que ele demonstra enquanto é sugado por tudo que o cerca. Neo era um homem já descrente do mundo à sua volta e acaba encontrando do outro lado a chama perdida há tempos. Até por isso, a cena em que ele finalmente desperta no mundo real faz uma clara alusão ao nascimento, com ele rompendo a bolsa que o envolve e cortando o cordão umbilical que o prendia a matrix.

Determinada e dona de um olhar penetrante capaz de nos fazer acreditar que sua personagem pode mesmo vencer diversos oponentes num confronto, Carrie-Anne Moss faz de Trinity a parceira ideal para um ainda novato Neo, conduzindo-o com firmeza total em suas convicções. Por sua vez, Laurence Fishburne confere uma aura misteriosa e imponente a Morpheus, cujo nome é o mesmo do deus grego dos sonhos, da mesma forma que Gloria Foster faz com Oráculo, com sua fala segura e em tom de voz baixo e confiante. Fechando os destaques do elenco, vale citar o olhar gélido de Hugo Weaving na pele do agente Smith, impondo respeito e soando ameaçador sem precisar dizer muitas palavras.

A trindadeAlusão ao nascimentoAura misteriosa e imponente a Morpheus

Além dos diversos simbolismos religiosos espalhados pela narrativa, como a nave Nabucodonosor e a referência ao versículo Marcos 3:11 (“E quando os espíritos impuros o viam, se jogavam gritando: `Tu és o filho de Deus`”, numa óbvia referencia a Neo), temos ainda diversas menções a “Alice no país das maravilhas”, sejam literais ou até mesmo através dos coelhos que aparecem na televisão, passando por fundamentos do budismo e citações a diversos filósofos como Sócrates e Platão. Para fechar, a temática diversificada ainda trabalha o tema homem versus máquina de maneira bastante inventiva, mostrando também como maquiar a realidade é uma das formas mais eficientes de controle das massas, seja através de uma realidade virtual ou de qualquer outra forma que mantenha a falsa sensação de felicidade – algo que serve inclusive para motivar a traição de Cypher (Joe Pantoliano), outro com nome repleto de simbolismos. Na verdade, discursar sobre os inúmeros simbolismos e as teorias de “Matrix” é uma tarefa árdua, que pode gerar textos e mais textos.

São poucos os eventos culturais capazes de marcar toda uma geração e este é o caso do longa dirigido pelos Wachowski. Ousado tematicamente e com ótimas cenas de ação, “Matrix” foi um marco não apenas em termos de efeitos visuais, mas também pelo complexo universo que nos apresentou e os inúmeros debates que proporcionou.

Matrix foto 2Texto publicado em 04 de Maio de 2016 por Roberto Siqueira

AMNÉSIA (2000)

(Memento) 

 

 

Filmes em Geral #45

Dirigido por Christopher Nolan.

Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano, Mark Boone Junior, Stephen Tobolowsky, Harriet Sansom Harris, Callum Keith Rennie, Larry Holden, Jorja Fox, Russ Fega e Kimberly Campbell.

Roteiro: Christopher Nolan, baseado em história de Jonathan Nolan.

Produção: Jennifer Todd e Suzanne Todd.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

“Acordado. Onde estou?”. A frase repetida seguidas vezes neste criativo “Amnésia” reflete bem o grave problema de memória que assola seu personagem principal. Mas o competente Christopher Nolan, auxiliado por sua ótima equipe técnica e um bom elenco, fez mais do que isto, colocando o espectador na mesma situação do protagonista e ilustrando, através de sua inovadora narrativa, como se comporta a memória do rapaz. Desta forma, assim como Leonard, nós também não sabemos o que aconteceu há poucos instantes, justamente porque na narrativa, o instante cronologicamente anterior só aparecerá nos momentos seguintes.

Após ver sua mulher ser estuprada e assassinada, Leonard (Guy Pearce), também atingido no crime, passa a sofrer de uma doença que o faz perder completamente a memória recente. Inconformado, ele parte em busca de respostas na tentativa de descobrir o assassino de sua mulher, o que obviamente se torna uma tarefa complicada diante de sua condição. A solução? Leonard anota tudo que pode, chegando a tatuar em seu próprio corpo as informações mais importantes como “John G. estuprou e matou minha esposa”. No caminho, ele contará com a ajuda do policial Teddy (Joe Pantoliano) e da garçonete Natalie (Carrie-Anne Moss), mas Leonard não sabe até que ponto pode confiar nestas pessoas.

Nos primeiros minutos de “Amnésia”, vemos algumas imagens sumirem de fotos tiradas pelo protagonista (um inteligente artifício, como descobriremos depois – ou antes? –, utilizado para gravar informações importantes), num indício de como funciona a memória dele. Em seguida, a imagem que acabamos de ver retrocede diante de nossos olhos, indicando como funcionará a narrativa, que, justamente por ser invertida, nos colocará na mesma situação de Leonard, evidenciando que a escolha do diretor não é apenas um exercício de estilo, tendo clara função narrativa. Desta forma, Christopher Nolan faz com que o espectador experimente a mesma agonia do personagem e passe a construir em sua mente diversas possibilidades de montagem do quebra-cabeça em que somos envolvidos. Para que esta estratégia criativa funcione, Nolan conta com a montagem excepcionalmente competente de Dody Dorn, responsável por fazer com que o espectador nunca saiba o que vai acontecer em seguida. Eu disse em seguida? Na realidade, cronologicamente falando, não sabemos o que aconteceu momentos antes daquilo que estamos vendo na tela, exatamente como o pobre Leonard. Além disso, Dorn inteligentemente insere no início de cada seqüência uma imagem que remete ao final da seqüência cronologicamente anterior (e que, na narrativa, veremos em seguida), funcionando como uma espécie de gancho que facilita nossa compreensão.

Escrito pelo próprio Christopher Nolan, baseado em história de seu irmão Jonathan Nolan, o bom roteiro de “Amnésia” apresenta uma séria de possibilidades durante a narrativa, fazendo com que o espectador desconfie de praticamente todos os personagens, não por ser intrincado, mas justamente por causa da condição do protagonista (e do espectador). Além disso, “Amnésia” apresenta pequenas reviravoltas que soam convincentes e interessantes, transformando personagens que pareciam vilões em amigos de Leonard e fazendo o caminho inverso, como no caso do policial Teddy e da misteriosa Natalie.

Além da interessante forma de narrar à história, “Amnésia” apresenta ainda uma segunda linha narrativa, que segue a ordem cronológica, envolvendo a curiosa história do casal Jankis, investigada por Leonard. E graças à excelente escolha do diretor de fotografia Wally Pfister, que utiliza imagens em preto e branco para diferenciar a segunda linha narrativa da primeira (que tem imagens coloridas), o espectador se situa perfeitamente na trama, sem jamais se sentir perdido ou confuso. Por isso, com este excelente trabalho técnico ao seu lado, Nolan fica à vontade para empregar uma direção segura, que prende o espectador desde o primeiro minuto de projeção através de escolhas acertadas, com o constante uso do close em objetos, que ressalta a importância das pequenas coisas na memória do ser humano. O diretor ainda demonstra sensibilidade nos poucos momentos em que nos permitimos ter compaixão de Leonard, como quando deitado numa cama e afundado nas sombras, ele lembra sua esposa e o lento zoom in de Nolan realça a tristeza do personagem. Observe ainda como este mesmo movimento serve para retirar Natalie do plano, como se Nolan quisesse que aquele momento fosse apenas de Leonard e suas lembranças – algo que fica evidente quando, ao citar a esposa, Nolan corta rapidamente para Natalie, que abre os olhos como quem se sente deslocada naquele instante. Além disso, a câmera sempre inquieta do diretor reflete a mente perturbada de Leonard por causa de sua doença, algo reforçado também pela evocativa trilha sonora de David Julyan (ainda assim, esta câmera inquieta é diferente da ágil câmera de mão que nos coloca dentro da cena quando Leonard foge do traficante Dodd). Observe também como Nolan insere imagens de uma injeção piscando rapidamente na tela, alertando para a possível confusão na mente de Leonard, apontada no terceiro ato por Teddy. E pra finalizar, não posso deixar de mencionar o maravilhoso momento em que as imagens em preto e branco se transformam em imagens coloridas e indicam a junção das duas linhas narrativas.

E se Leonard parece confuso e inseguro, é porque Guy Pearce consegue transmitir esta sensação de maneira discreta, porém bastante eficiente. Empregando um olhar compenetrado e até mesmo triste, que, associado ao tom de voz baixo, denota certa melancolia ao personagem, refletida até mesmo em suas roupas pouco coloridas (figurinos de Cindy Evans), Pearce compõe um Leonard complexo, que comove em sua luta para vingar a esposa, mas principalmente por acordar sempre nos “momentos seguintes” ao assassinato dela e, desta forma, sofrer eternamente. Constantemente tendo que explicar a natureza de sua doença (“Não é amnésia. Minha memória tem um problema, não me lembro de coisas recentes”), Leonard transita entre momentos de profunda concentração, quando precisa anotar correndo alguma informação para que não a esqueça completamente minutos depois, e momentos de angustia e aflição, como quando fala com um policial ao telefone – e o ator transmite este leque de sensações com muita competência. Com a plena consciência de que a “memória distorce as imagens”, Leonard luta para manter viva a lembrança de sua esposa e por isso fez de sua vingança uma razão para viver. Mas, como ele mesmo diz, como Leonard vai cicatrizar esta ferida se não consegue sentir o tempo? É, portanto, plausível que Teddy tenha razão, e que Leonard viva repetidas vezes esta fantasia, num ciclo contínuo e triste, ilustrado na tocante cena em que queima os objetos da esposa e pensa que ele já pode ter feito aquilo inúmeras vezes antes. E por falar em cena tocante, é impossível não se emocionar ao ver Leonard acordando e tentando falar com a esposa enquanto toca a cama vazia, somente para em seguida se lembrar que ela já não estava mais ali.

Justamente por estarmos na mesma situação de Leonard, não sabemos o que esperar das pessoas que o cercam, como o policial Teddy, interpretado por Joe Pantoliano e, principalmente, a misteriosa Natalie, muito bem interpretada por Carrie-Anne Moss. Num primeiro momento, pensamos, assim como o protagonista, que ela o ajuda por pena. Mas ela mesma esclarece a situação, dizendo que também perdeu alguém e que o ajuda porque ele a ajudou. Só que na realidade, Natalie é mais esperta do que parece, e descobriremos isto da pior maneira, vendo como ela utiliza a doença de Leonard a seu favor, criando situações para forçar um assassinato que lhe interessa, chegando ao ponto de usar informações extremamente pessoais para convencê-lo e até mesmo conquistá-lo (“Minha esposa me chamava de Lenny”, diz Leonard, ao ouvir Natalie chamá-lo desta maneira). Já Harriet Sansom Harris se sai muito bem como a Sra. Jankis, especialmente quando questiona Leonard, pedindo sua opinião “pessoal” e não sua opinião “profissional” a respeito de seu marido Sammy (Stephen Tobolowsky). Aliás, o casal Jankis vive uma das cenas mais dramáticas do longa, quando Sammy aplica a injeção de insulina seguidas vezes na esposa e provoca a morte dela. Ironicamente, a história de Sammy pode mesmo ser a história de Leonard. Ou não.

O final irônico, com Leonard utilizando a própria doença para se vingar do policial Teddy, fecha muito bem este criativo “Amnésia” (e abre outras possibilidades de interpretação, porque não?), filme que explorou com competência o conceito de montagem para entregar uma narrativa intrigante e, além disso, nos colocar na mesma situação desconfortável de seu protagonista. O cinema precisa de sopros de criatividade como este de vez em quando. E, felizmente, obras originais como esta só serão esquecidas por pessoas como Leonard. Ou não.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira