O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925)

(Bronenosets Potyomkin)

 

Filmes em Geral #43

Dirigido por Sergei Eisenstein.

Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky, Grigori Aleksandrov, Mikhail Gomorov, Ivan Bobrov, Sergei Eisenstein, Julia Eisenstein, Beatrice Vitoldi e N. Poltavseva.

Roteiro: Nina Agadzhanova.

Produção: Jacob Bliokh.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Pense na imagem de um copo d’água tremendo no painel de um carro. Agora imagine o rosto de uma criança apavorada. Finalmente, crie em sua mente a imagem imponente de um Tiranossauro Rex surgindo diante de um carro desligado, sob forte chuva. Agora junte estas três imagens na seqüência e terá uma das mais poderosas cenas do sucesso de Spielberg, “Jurassic Park”. Exemplos assim existem em praticamente todos os filmes da história da sétima arte. Mas nada disto existiria se Sergei Eisenstein não tivesse revolucionado o cinema com sua teoria da montagem semântica, a base dos formalistas, exemplificada com perfeição neste “O Encouraçado Potemkin”.

Os marinheiros do navio de guerra Potemkin se revoltam com os maus tratos recebidos durante uma viagem, onde tinham que comer carne estragada e dormir apertados em redes, e tomam conta do navio, jogando os oficiais da embarcação no mar. O fato ficou famoso na cidade de Odessa, o que inspirou as pessoas a marcharem para o porto pra recepcionar os heróis, porém uma trágica decisão do governo resultou num verdadeiro massacre e impediu a grande festa.

Antes de analisar “O Encouraçado Potemkin”, é importante entender os conceitos que fizeram seu diretor ser conhecido e que fizeram seus filmes serem considerados a grande influencia da montagem no cinema contemporâneo. Basicamente, para Eisenstein (sob influência da experiência de Lev Kuleshov) uma imagem complementa o significado da outra, mas quando analisadas separadamente, elas não significam muito. É na junção das imagens que o filme ganha vida, que aquelas imagens ganham sentido, ou seja, duas imagens juntas têm maior significado do que separadas. São as ovelhas de “Tempos Modernos” complementando a imagem anterior dos trabalhadores entrando na fábrica. E é exatamente a montagem que faz com que a imagem seguinte complemente o sentido da imagem anterior. Se fosse uma fórmula matemática, o russo diria que 1 + 1 é maior do que 2.

Utilizando seu conceito como base, Eisenstein apresenta a história real de uma embarcação conhecida como Potemkin, que em 1905 viu os seus marinheiros, cansados dos maus tratos recebidos, se revoltarem, dando início a um motim que tomaria o navio, numa das várias etapas que culminariam na revolução russa de 1917, formando a base do socialismo no país. Exatamente por isso, é evidente que o longa apresenta um subtexto político forte, mas diferentemente de “O Nascimento de uma Nação”, onde o racismo prejudica bastante a avaliação do filme, aqui o apelo político não tem força suficiente para depreciar a qualidade da obra. Em outras palavras, o longa dirigido por Griffith é importante, mas o longa dirigido por Eisenstein vai além, sendo importante sem tropeçar em preconceitos.

Apresentando todas as características do cinema mudo tradicional, com diálogos na tela, imagens em preto-e-branco e trilha sonora (de Edmund Meisel) ininterrupta (sempre pontuando as cenas, com um tom sombrio nos momentos dramáticos e acordes mais agitados na tensa cena da escadaria), o filme que revolucionou a montagem tem atuações exageradas, com exceção do tocante momento em que uma mãe implora com o olhar pela vida do filho, uma fotografia sombria (direção de Vladimir Popov e Eduard Tisse), que reflete inicialmente a vida dura daqueles marinheiros e, principalmente, uma direção ousada, que alterna entre closes e planos gerais, criando imagens belíssimas, como o impressionante plano com as pessoas marchando até o porto. Eisenstein, responsável também pela montagem, abusa dos cortes, como na revolta dos marujos no navio, onde apresenta planos de objetos (por exemplo, uma cruz aparece logo após a imagem do padre), colocando em prática sua teoria ao buscar complementar o sentido da imagem anterior com a imagem seguinte. A revolta, aliás, é uma cena muito poderosa, quando momentos antes do fuzilamento, os marinheiros e aqueles que atirariam neles se unem e tomam conta do navio, expulsando os oficiais autoritários. Fica evidente a defesa da causa socialista (não é a toa que Lenin é citado logo no inicio), a revolta contra as classes dominantes e o forte subtexto político da narrativa.

Mas é na famosa cena da escadaria, homenageada por Brian de Palma em “Os Intocáveis”, que Eisenstein mostra todo seu talento. Toda a seqüência da escadaria de Odessa é marcante, começando pela câmera lenta do diretor que em certo momento acompanha as pessoas, realçando o desespero de homens, mulheres e crianças caídos no chão, sendo pisoteados e buscando fugir dos tiros dos oficiais. Quando as autoridades começam a atirar, num massacre repugnante que não poupa mulheres e crianças, é difícil conter a revolta, o que motiva a reação dos marinheiros do Potemkin contra as autoridades logo em seguida. Eisenstein constrói a cena com cuidado, alternando entre os planos numa dinâmica incrível e, com muita sensibilidade, nos emocionando com as imagens de uma mãe morrendo com seu filho no colo e de um carrinho de bebê descendo as escadarias debaixo de tiros. E a própria composição dos planos, com os soldados posicionados acima e as pessoas abaixo na escada, simboliza as posições de cada um na pirâmide social que imperava na época. Finalmente, vale ressaltar que apesar das atuações exageradas (algo normal no cinema mudo, devido à falta de diálogos), o longa é bastante realista, tocando o espectador através daquelas fortes expressões de sofrimento.

Poucos são os cineastas que podem se orgulhar de terem influenciado a história da sétima arte. Poucos são os filmes que fazem parte desta seleta lista de obras importantes. E por tudo que representou e ainda representa até os dias de hoje, “O Encouraçado Potemkin” merece fazer parte desta lista, assim como o seu grande idealizador.

Texto publicado em 15 de Fevereiro de 2011 por Roberto Siqueira

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6 Respostas to “O ENCOURAÇADO POTEMKIN (1925)”

  1. cross98 Says:

    Longe de ser o melhor filme da era muda , mas não duvido queé o mais interessante

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