ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)

(Robin Hood: Prince of Thieves)

 

Videoteca do Beto #80

Dirigido por Kevin Reynolds.

Elenco: Kevin Costner, Morgan Freeman, Mary Elizabeth Mastrantonio, Christian Slater, Alan Rickman, Sean Connery, Geraldine McEwan, Brian Blessed, Nick Brimble, Soo Drouet, Daniel Newman, Daniel Peacock, Walter Sparrow, Michael Wincott e Michael McShane.

Roteiro: Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham.

Produção: Pen Densham, Richard Barton Lewis e John Watson.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Aproveitando o embalo do sucesso do belo “Dança com Lobos”, Kevin Costner embarcou nesta aventura inspirada no mais famoso dos ladrões, aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que o longa dirigido por Kevin Reynolds jamais apresenta um resultado próximo dos filmes que alçaram o ator/diretor à fama. Apesar de entreter, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” apresenta falhas que comprometem seu resultado, se escorando na força de seu personagem principal, no carisma de seu elenco e nas boas cenas de ação que sustentam esta despretensiosa aventura.

Após ser capturado nas cruzadas, Robin de Locksley (Kevin Costner) foge ao lado de Azeem (Morgan Freeman) e volta para a Inglaterra, onde encontra seu pai (Brian Blessed) morto e descobre os planos do xerife de Nottingham (Alan Rickman), que fará de tudo para que o rei Ricardo (Sean Connery) não volte ao trono. Após visitar sua amiga de infância Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio), ele foge dos soldados do xerife liderados por Guy de Gisborne (Michael Wincott) e vai parar na temida floresta de Sherwood, onde encontrará João Pequeno (Nick Brimble), Will Scarlett (Christian Slater) e todos os foras-da-lei que serão liderados por ele na luta contra o xerife.

Apesar de seu início promissor, com a fuga de Robin e Azeem após serem capturados nas cruzadas, “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” é um filme leve e despretensioso, que não deixa grandes reflexões e jamais faz um estudo mais profundo a respeito do homem que o inspirou, limitando-se a apresentar as aventuras de Robin e seu grupo nas florestas de Sherwood, balanceadas pelo tradicional romance com Lady Marian. Mas ainda que o tom leve domine a maior parte da narrativa, seu inicio é bastante sombrio e violento, com mãos de prisioneiros ingleses sendo arrancadas numa obscura prisão que reflete a dureza daquela vida. O forte contraste é notável já na chegada de Robin à Inglaterra, quando o visual agradável dá o tom leve e coerente com a lenda. Ainda assim, há espaço para o embate entre religiões que motivou a luta pela terra santa, um tema recorrente e interessante da narrativa, notável quando Robin diz que seu pai achava uma idiotice lutar nas cruzadas para impor sua crença à força ou quando Duncan (Walter Sparrow), após insultar os mouros, pergunta à Azeem a origem do nome dele. Escrito por Pen Densham e John Watson, baseado em história de Pen Densham, o roteiro de “Robin Hood” jamais se define como drama, comédia ou aventura, transitando entre os gêneros freqüentemente, mas, curiosamente, este “escorregão” acaba conferindo charme à narrativa (justamente por se tratar da encantadora lenda de Robin Hood), ao balancear os excelentes momentos de ação, como quando Robin e Azeem fogem para a floresta de Sherwood, com momentos bem humorados, como a chegada à casa de Lady Marian ou o próprio encontro entre Robin e aqueles que ele iria liderar num rio. Por outro lado, o maniqueísmo do longa é evidente, algo ilustrado até mesmo na direção de fotografia de Douglas Milsome, que busca apresentar a floresta de Sherwood constantemente iluminada, com os raios solares vazando as folhas das árvores, ao passo em que o castelo de Nottingham é freqüentemente filmado com pouca iluminação e predomínio das sombras, induzindo o espectador a simpatizar pelo “príncipe dos ladrões”. Mas nem tudo é perdido no roteiro de Densham e Watson, que apresenta, por exemplo, interessantes rimas narrativas, como a pergunta “ela vale a pena?” feita por Robin para Azeem, que refletirá no clímax da narrativa (e que inspirou parte da música tema do filme), ou quando Robin sai do banho e diz para Marian que “estava seguindo o conselho de uma donzela”. Finalmente, vale citar a referência a “O Feitiço de Áquila”, de Richard Donner, quando o frei entra no castelo e fala algo sobre as bebidas.

E se “Robin Hood” apresenta uma narrativa leve, Kevin Reynolds emprega uma direção enérgica, imprimindo um ritmo interessante à aventura, graças também à montagem ágil de Peter Boyle, que se destaca na seqüência final dentro do castelo de Nottingham e também na batalha de Sherwood, além da pequena seqüência de roubos na floresta, que mostra em poucos minutos o crescimento da lenda “Robin Hood”, e de um interessante raccord (corte), quando Mortianna fala para o xerife sobre uma aliança com sangue real e em seguida vemos Lady Marian. Mas este ritmo intenso da aventura não impede que o diretor indique com sutileza, por exemplo, que Will é irmão de Robin, ao focar rapidamente seu rosto após o irmão dizer pela primeira vez seu nome para os donos da floresta, assim como é sutil o momento em que as sombras na parede indicam que os soldados seguirão Duncan. Mas são nas curiosas câmeras que acompanham as flechas que o diretor consegue causar impacto, criando seqüências empolgantes nos treinamentos e um plano belíssimo em câmera lenta, quando Robin atira uma flecha de fogo e salva o irmão. Obviamente, o diretor não perde a oportunidade de explorar o potencial do então astro Kevin Costner para alavancar a bilheteria, abusando de closes e explorando os belos momentos vividos pelo herói e sua amada Marian, como quando o casal desce de uma árvore preso numa corda. Reynolds, no entanto, conduz com irregularidade a batalha na floresta, intercalando bons e maus momentos que culminam no suspense barato sobre a morte de Robin (todos sabem que ele não morreria daquela forma). Por outro lado, o longa apresenta um bom trabalho técnico, com destaque para a direção de arte de Fred Carter, que capricha nas armas dos soldados e nos castelos de Nottingham e Locksley, nos transportando para aquela época. Também colaboram os ótimos figurinos de John Bloomfield, a começar pela caracterização de Robin Hood (o visual foge ao tradicional, mas mantém o charme do “bom ladrão”) e Azeem, passando pelos camponeses e suas roupas rasgadas e chegando aos soldados de Nottingham, com suas impecáveis armaduras. E certamente o maior destaque da parte técnica é a sensacional trilha sonora de Michael Kamen, que alterna entre trechos empolgantes e melódicos, como a despedida de Robin e Marian à beira de um rio (num admirável plano de Reynolds) em que a trilha se funde à melodia da bela música tema “Everything I do (I do it for you)”, de Bryan Adams.

Infelizmente, o que deveria ser uma das grandes forças de “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” acaba se revelando uma decepção, pois o talentoso elenco liderado por Kevin Costner e Morgan Freeman entrega atuações discretas, inferiores à capacidade da maioria deles. A começar por Costner, que escorrega ao falar o inglês norte-americano, obviamente contrariando a origem britânica do herói. Além disso, o ator não demonstra com realismo o sofrimento pela perda do pai, parecendo estar conformado quando deveria estar indignado. Por outro lado, confere um carisma enorme ao ladrão romântico, especialmente nos momentos de humor, como quando pergunta ao pequeno Wulf (Daniel Newman) se João Pequeno era o pai dele, imitando o sorriso sem graça do garoto em seguida, ou quando arranca um anel e um sorriso de uma bela princesa. Estabelecendo boa química com Freeman e Mastrantonio, principalmente nas seqüências vividas na floresta, Costner salva sua atuação em pequenos momentos dramáticos, como o discurso na floresta, quando Robin se proclama o líder dos “foras-da-lei”, ou quando demonstra o quanto ele está arrasado após a batalha de Sherwood – numa das poucas cenas onde o grande talento de Freeman também aparece, com a marcante frase “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”. Mas apesar da atuação apenas discreta, Morgan Freeman demonstra sua qualidade ao compor com cuidado o personagem, por exemplo, falando um inglês sofrível e coerente com a origem moura de Azeem, alguém mais tolerante à diversidade que todos os ingleses, como notamos quando frei Tuck (Michael McShane) se revolta ao vê-lo fazer um parto, que curiosamente serviria para aproximar os dois. Já Mary Elizabeth Mastrantonio tem um começo discreto como Lady Marian, se soltando durante a narrativa e conseguindo empatia com Costner, o que é vital para o sucesso da seqüência final, quando Robin luta por ela. Enquanto isso, o Will de Slater parece sempre tenso, um verdadeiro rebelde sem causa (e o ator tem culpa nisso, por causa de sua atuação exagerada), mas o ator se redime parcialmente no momento em que revela seu parentesco com Robin, conferindo emoção à cena – ainda assim, esta revelação soa forçada e dispensável. E fechando o lado do “bem”, quem também se destaca é Michael McShane como frei Tuck, personificando o tom leve que Reynolds emprega a narrativa através de suas constantes piadas. No lado obscuro da trama, a Mortianna de Geraldine McEwan é a típica bruxa asquerosa – e seu visual horrível é reforçado por ratos, sapos, cobras e tudo que é repugnante, provocando a antipatia do espectador. Sempre que está em cena, Mortianna é envolvida por um visual obscuro, reforçando a tendência de apresentá-la como o “mau” a ser enfrentado, o que reflete também no personagem de Alan Rickman, o terrível xerife de Nottingham. Por outro lado, Rickman, com sua atuação exagerada, confere uma graça ao personagem que trabalha a favor do clima descontraído do longa, mas claramente enfraquece o vilão diante do espectador, apesar do chocante momento em que mata o próprio primo Guy no castelo. Aliás, com sua voz rouca e olhar firme, Michael Wincott faz de seu Guy de Gisborne um vilão até mesmo mais aterrorizante que o xerife de Nottingham.

Após a humilhante derrota sofrida em seu próprio território, Robin e seus amigos decidem evitar a tragédia completa e impedir o enforcamento de seus companheiros no castelo de Nottingham. Tem início então a melhor seqüência do filme, a sensacional cena do enforcamento, conduzida num ritmo intenso por Reynolds. Quando rufam os tambores e o carrasco escolhe Wulf para iniciar a cerimônia, o espectador, agoniado, conta com a mira de Robin, que tenta cortar a corda e acerta na segunda tentativa – e após ver as diversas proezas do herói com o arco e flecha, é normal que o espectador conte com seu sucesso na cena. Vale notar ainda como momentos antes a câmera focaliza duas vezes o barril, indicando sua importância na estratégia de Robin e sua equipe. Mas nem mesmo esta cena é perfeita, pois é totalmente incompreensível a provocação de Will quando Wulf é levado à forca – seria mais coerente ele ficar na dele, sem chamar a atenção. Após esta empolgante seqüência, o esperado duelo final entre o vilão e o mocinho resulta na morte do xerife, atingido pela faca que ele deu de presente para Marian (olha a rima narrativa aí), só que Rickman novamente exagera, se contorcendo e fazendo caretas até finalmente agonizar. O final feliz, com a chegada do rei Ricardo (Connery, em participação descartável), agrada ao espectador, mas deixa a sensação de que “Robin Hood, o príncipe dos ladrões” tinha potencial para oferecer mais.

Em resumo, “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões” diverte, mas não vai além. Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, Kevin Costner confere charme ao herói, Freeman e Mastrantonio estabelecem boa química com o astro, mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, “não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas”.

Texto publicado em 23 de Dezembro de 2010 por Roberto Siqueira

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4 Respostas to “ROBIN HOOD – O PRÍNCIPE DOS LADRÕES (1991)”

  1. Anônimo Says:

    qual e a origem de roben hood , que eu quero fazer o dever de historia e eu que saber aki , que eu estou com duvida

  2. jose gutemberg Says:

    foi umelho fiume que eu ja vier

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Jose,
      Acho que consegui compreender seu comentário apesar do probleminha no teclado.
      Muito obrigado pela visita.
      Abraço.

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