O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977)

(L’ Homme qui Aimait les Femmes)

 

Filmes em Geral #14

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Charles Denner, Brigitte Fossey, Nathalie Baye, Sabine Glaser, Valérie Bonnier, Jean Dasté, Leslie Caron, Geneviève Fontanel, Nelly Borgeaud e Henri Agel.

Roteiro: François Truffaut, Suzanne Schiffman e Michel Fermaud.

Produção: Marcel Berbert e François Truffaut.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

François Truffaut era um homem apaixonado pelas mulheres. Famoso por se apaixonar por muitas atrizes com quem trabalhava, o grande diretor francês tinha também uma mágoa pela forma como sua mãe o tratou na infância, algo que ele fez questão de ressaltar em alguns de seus filmes. Neste delicioso “O homem que amava as mulheres”, Truffaut junta as duas coisas para celebrar o seu amor pela figura da mulher e, através do olhar de seu personagem principal, estudar o amor de maneira filosófica. O resultado é uma bela e merecida homenagem à beleza feminina.

Após inúmeros casos e paixões, o conquistador de mulheres Bertrand (Charles Denner) decide escrever uma autobiografia sobre sua vida amorosa, cobrindo desde a sua primeira relação sexual num bordel, ainda quando era muito jovem, até a sua fase atual, já na casa dos 40 anos.

“O homem que amava as mulheres” tem início durante um enterro, onde diversas mulheres, de todos os tipos e idades, seguem um caixão. Não é preciso muito tempo para que o espectador identifique quem está lá dentro. Através da voz de uma de suas amantes, a bela Geneviève Bigey (Brigitte Fossey), somos levados a conhecer o passado deste misterioso homem. E é através de cada palavra e pensamento deste conquistador chamado Bertrand que o longa dirigido por Truffaut exala sensualidade. Esta sensualidade, misturada a um erotismo insinuado, era uma das marcas da nouvelle vague, que destacava como deusas absolutas as musas de sua época. E apesar de estar distante do período da nouvelle vague, “O homem que amava as mulheres” bebe direto desta fonte, servindo também como poderosa ferramenta para compreender o cinema de Truffaut, que refletia nas telas a sua própria personalidade. Seus personagens eram um reflexo do próprio diretor desde seu filme de estréia e aqui mais uma vez isto se repete.

Tecnicamente, “O homem que amava as mulheres” não chega perto dos revolucionários filmes da nouvelle vague. Apesar disso, destaca-se a direção de fotografia de Néstor Almendros, que cria um visual colorido, refletindo a empolgação de Bertrand ao ver todas aquelas mulheres andando pela rua. Repare como Almendros muda para o preto e branco durante os flashbacks, refletindo a tristeza do personagem naquele período de sua vida. Observe também como na cena do aeroporto, enquanto Bertrand olha para a sala de espera cheia de homens o visual é pouco colorido, ao passo em que quando ele olha para as pernas femininas a tela se enche de cores, graças também ao auxílio dos figurinos de Monique Dury. Ainda na parte técnica, a montagem dinâmica de Martine Barraqué também colabora para que o filme tenha um ritmo leve e delicioso, reforçado pela trilha sonora de Patrice Mestral.

Além da costumeira elegância na direção, sempre dando enorme importância ao desenvolvimento dos personagens, Truffaut também é o responsável, ao lado de Suzanne Schiffman e Michel Fermaud, pelo maravilhoso roteiro. Repleto de diálogos interessantes e reflexões a respeito da natureza masculina, o roteiro é praticamente um poema que exalta o fascínio dos homens pelas mulheres, como fica evidente no belíssimo momento em que Bertrand narra a sensação que sente ao ver as mulheres andando pelas ruas, “desde que com um vestido ou saia que mexa no ritmo de seus passos”. Truffaut escapa ainda do tom melancólico que a vida solitária de Bertrand poderia provocar através dos alívios cômicos, como as deliciosas conversas entre ele e a moça que telefona todas as manhãs para acordá-lo. Nem todo homem é como Bertrand, mas todos podem admirar sua devoção pela figura feminina. E apesar de muitos se identificarem com o jeito mulherengo do personagem, é possível também que homens “monogâmicos” apreciem as suas palavras, afinal de contas, Bertrand nada mais é do que um completo apaixonado pela mulher em sua essência, com a diferença de que, como disse Geneviève Bigey (interpretada com charme e sensualidade pela bela Brigitte Fossey) em sua reflexão final, ele não encontrou em uma única mulher tudo o que procurava. Talvez essa fosse sua maior tristeza.

Vale observar um truque do diretor que é vital para entender a personalidade de Bertrand. Em um dos flashbacks de sua infância, o homem lembra o jeito apressado de uma prostituta de caminhar – segundo ele buscando enganar os clientes – e em seguida lembra que sua mãe caminhava exatamente da mesma forma. Repare como as duas mulheres são interpretadas pela mesma atriz. Está aí a chave para entender o personagem. O complexo de Édipo nunca foi tão trágico como neste caso. Repetindo uma das características de seus filmes, Truffaut busca inspiração em sua própria história de vida, pois assim como Bertrand, ele também tinha problemas de relacionamento com sua mãe (algo que ficou evidente desde “Os Incompreendidos”) e é provável que esta relação conturbada com sua mãe tenha gerado o seu amor incondicional pelas mulheres (“Minha mãe costumava andar seminua na minha frente, não para me provocar, mas para ter a impressão de que eu não existia”, diz Bertrand).

Fica evidente, portanto, que Bertrand pode ser considerado mais uma versão cinematográfica de seu diretor. Ele vive para conquistar as mulheres e vê a beleza existente em cada uma delas. “Algumas são tão belas vistas por trás que hesito em ultrapassá-las, temendo ficar decepcionado. Porém, nunca me desaponto. Quando elas não me agradam de frente, me sinto aliviado de certa maneira; pois, infelizmente, não posso ter todas elas.”, reflete. E por mais cafajeste que possa parecer, o personagem conquista o espectador com sua maneira simples e sincera de ver a situação. “Mas o que têm todas essas mulheres? O que têm a mais do que todas as outras que conheço? Bem, justamente, o que têm a mais é isso: elas ainda me são desconhecidas”. Esta frase resume Bertrand perfeitamente. Ele não quer compromisso com uma mulher, ele quer todas elas. E se mesmo com sua “cafajestagem” Bertrand conquista a empatia do espectador é também graças à boa atuação de Charles Denner, que demonstra a inquietação e os desejos do conquistador com competência, além de emocionar o espectador no único momento em que parece sofrer de verdade por uma mulher, quando reencontra uma amante em Paris enquanto negociava a divulgação de seu livro. O dilema do personagem é tragicamente belo. Ao mesmo tempo em que parece amar toda mulher que aparece em sua frente, Bertrand, na realidade, se sente incompleto por não conseguir encontrar um amor de verdade.

“O homem que amava as mulheres” pode até ser acusado de ser um filme machista. Mas esta acusação seria, no mínimo, de uma injustiça sem tamanho. A história do “conquistador” Bertrand, na realidade, revela a profunda admiração e o amor infindável que Truffaut nutria pelas mulheres. Através das palavras e pensamentos do homem galanteador, o diretor revela parte de sua personalidade e entrega um filme impecável. Por tudo isto, podemos dizer que, além de amar profundamente as mulheres, Truffaut também amava perdidamente o cinema.

Texto publicado em 25 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

CINEMA PARADISO (1988)

(Nuovo Cinema Paradiso)

 

Videoteca do Beto #52

Vencedores do Oscar #1988 (FILME ESTRANGEIRO)

Dirigido por Giuseppe Tornatore.

Elenco: Philippe Noiret, Jacques Perrin, Salvatore Cascio, Marco Leonardi, Antonella Attili, Enzo Cannavale, Isa Danieli, Leo Gullotta, Pupella Maggio, Agnese Nano, Leopoldo Trieste, Roberta Lina, Nino Terzo, Brigitte Fossey, Tano Cimarosa e Nicola Di Pinto.

Roteiro: Giuseppe Tornatore.

Produção: Mino Barbera, Franco Cristaldi e Giovana Romagnoli.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A história da linda amizade entre um garoto órfão de pai e um projecionista de cinema sem filhos se mistura à própria história do cinema italiano, nesta linda homenagem do diretor Giuseppe Tornatore ao cinema de uma forma geral, que espalhou lágrimas de cinéfilos por todo o mundo em 1988. Auxiliado por uma das mais lindas trilhas sonoras de um gênio e por atuações sensíveis e tocantes, “Cinema Paradiso” é uma realização única e incrivelmente emocionante.

Alguns anos depois do final da Segunda Guerra Mundial e antes da chegada da televisão, uma pequena cidade da Sicília, na Itália, foi o palco de uma grande amizade entre Salvatore “Totó” (Jacques Perrin), um garoto apaixonado por cinema, e Alfredo (Philippe Noiret), o projecionista do cinema local conhecido como “Cinema Paradiso”. As lembranças desta amizade marcante, provocadas pela notícia da morte de Alfredo, tomam conta dos pensamentos do agora bem sucedido cineasta Salvatore, que se prepara para voltar à cidade natal após trinta anos.

O diretor Giuseppe Tornatore conduz “Cinema Paradiso” com extrema elegância, através de belos movimentos de câmera, como um travelling que se inicia no crochê abandonado pela mãe de Salvatore (Antonella Attili, jovem, e Pupella Maggio, idosa) quando este finalmente retorna pra casa, passa pela janela e pelo taxi, até finalmente encontrar o rapaz abraçando sua mãe. Tornatore, aliás, abusa dos travellings e panorâmicas, explorando com competência as lindas paisagens da bela Itália, auxiliado pela direção de fotografia de Blasco Giurato. O diretor também conduz muito bem a tensa seqüência do incêndio no Cinema Paradiso, iniciada exatamente quando um tiro seria disparado no filme que passava. Em seguida, a pergunta “quem irá reconstruir o Cinema Paradiso?” é respondida com outro movimento de câmera, que aponta o napolitano vencedor da loteria. E ele realmente ergue o “Novo Cinema Paradiso”, dando inicio a uma nova fase no cinema da cidade, agora comandado por Totó, já que Alfredo foi gravemente ferido no incêndio e perdeu a visão. Em outro momento, um movimento simples, porém muito simbólico, acontece quando Salvatore tem a confirmação da morte do pai. Observe como Tornatore leva a câmera até um pôster de “…E o Vento Levou”, numa clara alusão à semelhança física entre o pai dele e Clark Gable que Alfredo havia comentado antes. Finalmente, Tornatore também utiliza o zoom na bela cena em que Alfredo conta a história do soldado que prometeu aguardar por cem dias pela amada, e que refletirá em outra linda seqüência entre Salvatore e sua paixão Elena (Agnese Nano).

Giuseppe Tornatore também demonstra muita competência na condução dos atores, a começar pela dupla que conduz a narrativa formada por Totó e Alfredo, mas interpretada por quatro atores diferentes. A relação de amizade entre eles se inicia com as discussões sobre a presença do garoto na sala de projeção e caminha até o mais puro sentimento de respeito e carinho que acompanha ambos por toda a vida. Para transmitir esta sensação, é essencial que exista química entre os personagens, e felizmente Philippe Noiret consegue estabelecer esta química com todos os atores que interpretam Totó em suas três fases, com destaque especial para a infância, vivida por Salvatore Cascio. O início da amizade entre Alfredo e o menino Totó é o que determina a empatia do público com a dupla. Também interpretam Salvatore os atores Marco Leonardi, na adolescência, e Jacques Perrin, já na fase adulta e responsável por momentos emocionantes do longa. Ao ouvir a notícia da morte de Alfredo, o já adulto Salvatore finge não ser nada demais, mas quando vira para o lado na cama, seu semblante demonstra claramente a importância daquele nome e o impacto da notícia. A chuva e o rosto triste mergulhado nas sombras deixam claro para o espectador que se trata de alguém realmente marcante. Com a ausência do pai, claramente sentida pelo garoto, é em Alfredo que Totó enxerga a figura paterna, e por isso o menino se apega àquela figura aparentemente ranzinza, mas encantadora em sua essência e com enorme coração. Ao mesmo tempo, Alfredo adota Salvatore como o filho que não teve e mesmo que inconscientemente, eles se completam. É compreensível, portanto, que vivendo numa pequena cidade italiana no período do pós-guerra, ainda sem televisão e órfão de pai, o menino enxergue no escuro do cinema (e na companhia de Alfredo) a oportunidade de fugir da realidade e viver um mundo de sonhos. Sua vida começou a mudar definitivamente quando ajudou Alfredo numa prova e conseguiu o direito de freqüentar a cabine de projeção. A partir dali, viveu um período mágico em sua vida. Já a vida de Alfredo mudaria completamente após a tragédia do incêndio no antigo Cinema Paradiso. Impossibilitado de fazer aquilo que mais amava, ele passa a ter ainda mais sensibilidade para perceber o mundo à sua volta. E a atuação de Philippe Noiret cresce ainda mais quando Alfredo fica cego, transmitindo ainda mais emoção e expondo com competência os sentimentos do personagem, como num sorriso que ele solta ao pressentir que Totó vai ver Elena dentro da igreja. A importância de Antonio na vida de Salvatore fica ainda mais evidente quando vemos este pedir para que ele “fique longe” e “não volte mais!”. Antonio entendia que ele poderia conseguir muito mais na vida indo para a cidade grande (“O mundo é seu!”), o que demonstra um amor verdadeiro, que não é egoísta e prefere a felicidade de Totó ao invés de mantê-lo preso ao seu lado – e no fundo, ele sabia que se pedisse, Totó ficaria. O rapaz cumpriu a promessa, ficando trinta anos sem voltar à cidade, e em sua volta, é visto com muito respeito por todos, realizando o sonho de Alfredo – e até mesmo a composição visual de Tornatore demonstra isto, filmando Salvatore de baixo pra cima, demonstrando grandeza.

A linda estória narrada conta também com o ótimo roteiro do próprio Giuseppe Tornatore, que abusa da metalingüística, fazendo diversas referências ao próprio cinema. Além disso, utilizando um linguajar despojado e com muitos palavrões (típico dos italianos), constrói de forma bastante consistente a amizade entre Totó e Alfredo, apresentando também os bastidores do trabalho de projeção dos filmes e revelando a paixão de ambos pelo cinema. O fascínio das pessoas pelo cinema, aliás, é notável durante toda a narrativa. Elas deixam compromissos para trás, brigam, aguardam por horas na porta, tudo para ver um bom filme. Interessante notar também o sorriso no rosto das crianças ao ver os filmes do gênio Charles Chaplin. Além disso, o roteiro explora muito bem o bom humor, como no engraçado método de censura do padre Adelfio (Leopoldo Trieste) para os filmes exibidos no Cinema Paradiso, onde todas as cenas de beijo são cortadas, provocando verdadeiros saltos na projeção que causam a imediata reação da platéia. Por outro lado, quando finalmente assistem uma cena de beijo, a reação de espanto e alegria é enorme. Outro momento de bom humor acontece quando Alfredo projeta um filme numa casa e o morador sai para ver a razão daquele alvoroço. Repare também como alguém grita que “a praça é nossa” durante a tentativa de cobrar ingresso, provocando a imediata reação do louco da praça, que responde com sua frase característica “a praça é minha!”.

Tecnicamente “Cinema Paradiso” também tem qualidades, a começar pela boa montagem de Mario Morra. Observe, por exemplo, o salto de muitos anos na narrativa durante uma conversa entre Totó e Alfredo e a elegante seqüência em que uma bicicleta vai e volta com os filmes na garupa, demonstrando o sacrifício daquelas pessoas para não deixar o público esperando dentro do cinema. A trilha sonora do gênio Ennio Morricone é um capítulo à parte. Absolutamente linda, a nostálgica trilha se confunde com o clima de saudade de todo o longa. O deleite visual fica por conta da boa direção de fotografia de Blasco Giurato, que explora a beleza das locações italianas, se contrapondo muito bem ao excelente uso da luz e das sombras nas cenas dentro do Cinema Paradiso. Já a direção de arte de Andrea Crisanti capricha na tipicamente italiana cidade de Giancaldo, com a praça central e as ruas de pedras. Além disso, podemos observar o bom trabalho de Crisanti no interior abandonado do Cinema Paradiso. E finalmente, merece destaque a ótima maquiagem de Maurizio Trani, notável em diversos personagens quando Totó retorna para a cidade.

A sensibilidade de Tornatore também brinda o espectador com algumas seqüências incrivelmente belas, como o primeiro beijo de Totó e Elena, auxiliado pela maravilhosa trilha sonora e pelos clarões da chuva que cai. Outro momento tocante acontece quando Salvatore retorna ao Cinema Paradiso. Os pequenos detalhes encontrados no abandonado cinema, como a boca do Leão de onde eram projetadas as imagens, são extremamente importantes pra ele, afinal de contas, fazem parte das lembranças de uma fase importante de sua vida. A vida é feita destas pequenas memórias e o longa retrata muito bem isto. Em outra cena, o choro das pessoas ao ver uma parte da história da cidade e da vida delas ir embora junto com a implosão do Cinema Paradiso é de cortar o coração. Difícil segurar as lágrimas. Assim como é praticamente impossível segurar as lágrimas na belíssima seqüência final, quando Totó assiste ao “filme proibido” deixado de presente por Alfredo, com pedaços de cenas de beijo de grandes filmes da história do cinema italiano.

“Cinema Paradiso” é uma linda homenagem à magia do cinema e por isso, encanta aos cinéfilos de forma singular. Além disso, quando vemos a estrutura do cinema sendo demolida, seguida pela emocionante seqüência final em que Salvatore finalmente vê os pedaços de filmes cortados por Alfredo, sentimos uma mistura de emoções, pois sabemos que ali está se despedindo não apenas o Cinema Paradiso, mas também uma fase áurea do cinema italiano, marcante para muitos cinéfilos e que entrou para a história como um dos melhores períodos da sétima arte. Por isso tudo, “Cinema Paradiso” comove, abordando temas universais de forma singela e inesquecível.

Texto publicado em 30 de Março de 2010 por Roberto Siqueira