LADRÕES DE BICICLETA (1948)

(Ladri di Biciclette)

 

Filmes Comentados #16

Dirigido por Vittorio De Sica.

Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Michele Sakara, Fausto Guerzoni, Sergio Leone, Giulio Chiari, Elena Altieri e Carlo Jachino.

Roteiro: Cesare Zavattini, baseado em estória de Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Vittorio De Sica, Adolfo Franci, Gerardo Guerrieri e Cesare Zavattini e em romance de Luigi Bartolini.

Produção: Giuseppe Amato e Vittorio De Sica.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de esclarecer que os filmes comentados não são críticas. Tratam-se apenas de impressões que tive sobre o filme, que divulgo por falta de tempo para escrever uma crítica completa e estruturada de todos os filmes que assisto. Gostaria de pedir que só leia estes comentários se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

– A estória de Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um humilde trabalhador italiano que tem sua bicicleta (utilizada para trabalhar) roubada durante os difíceis anos pós-guerra, é contada com extrema sensibilidade neste tocante “Ladrões de Bicicleta”, dirigido por Vittorio De Sica.

– O filme retrata com fidelidade o período negro do pós-guerra na Itália (e em toda Europa) – o que é uma característica do neo-realismo italiano – através da dificuldade para conseguir emprego, da degradação das casas e da dificuldade para conseguir andar no transporte público, por exemplo. A enorme dificuldade financeira e a escassez de produtos fizeram da vida daquelas pessoas a mais difícil que se possa imaginar.

– A terrível sensação de ser assaltado é retratada com muita fidelidade quando a bicicleta de Antonio Ricci é roubada. O olhar incrédulo e a falta de saber o que fazer e pra onde ir demonstram a boa atuação de Lamberto Maggiorani.

– A policia não dá muita atenção ao caso, já que é “apenas uma bicicleta” e a enorme dificuldade em encontrá-la é de dar dó. O que fazer naquela situação? Esta dúvida será utilizada como justificativa para a atitude final de Ricci.

– A alegria de Ricci e seu filho Bruno (Enzo Staiola) na trattoria e a reflexão do pai sobre o que poderia ter se tivesse o emprego de volta são comoventes.

– O diretor Vittorio De Sica utiliza muitos planos gerais, evitando o close, normalmente utilizado para gerar emoção na platéia ao potencializar as reações dos atores. Desta forma, o longa soa distante, frio e cru, o que era exatamente a intenção de De Sica ao retratar aquele momento triste da humanidade. O plano final, misturando Ricci na multidão, simboliza que ele é apenas um exemplo entre tantos outros que enfrentavam enormes dificuldades para conseguir sobreviver.

– A direção de fotografia de Carlo Montuori também merece destaque, por utilizar o foco em toda a cena e explorar bem o “novo conceito” (na época) de profundidade de campo, que ficou realmente famoso com “Cidadão Kane” em 1941. Desta forma, podemos acompanhar com nitidez diversas ações paralelas que ocorrem em segundo plano que, acompanhadas dos elegantes movimentos de câmera de De Sica, criam um belo visual.

– Apesar do tom realista do longa, podemos notar algumas características que normalmente não são associadas aos filmes que prezam pelo realismo, como a trilha sonora (presente em momentos importantes do filme) e a câmera elegante de Vittorio De Sica, com movimentos perfeitos e em nada parecidos com a câmera agitada, normalmente utilizada para conferir realismo às cenas.

– Não podemos julgar a atitude final do pai desesperado que não vê alternativa para sobreviver. Ele evita que o filho veja e pede que vá embora por pura vergonha, para em seguida tentar roubar uma bicicleta e “consertar” sua vida. A ironia é que ele é pego, mas por sorte (e piedade do proprietário da bicicleta), se salva de ser preso. A vida, ou o destino, o levou a tomar aquela atitude. Ele não era uma pessoa ruim, mas a situação o tornou um desesperado em busca de alguma solução. Um final arrebatador, emocionante e que nos faz pensar muito sobre a questão.

– Maior representante do neo-realismo italiano, “Ladrões de Bicicleta” destaca-se pela sensibilidade com que conta a história tocante do pai que tem sua bicicleta (e meio de trabalho) roubada e pela forma realista que retrata um período tão amargo da humanidade. E mesmo utilizando propositalmente uma abordagem mais fria e distante, quase que como um registro fiel da época, não deixa de ser emocionante o irônico final deste belo filme.

Texto publicado em 16 de Janeiro de 2010 por Roberto Siqueira

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8 Respostas to “LADRÕES DE BICICLETA (1948)”

  1. eliasclira Says:

    Ah! Ladri di biciclette… Sono sospetto, perchè sono apassionatto per tutto cinema italiano. Maravilhoso! Tal qual Amacord, do Fellini, é pra ver, rever e ter… Retrata um momento crítico da Itália pós guerra. Junto com Monicelli, Fellini e Etore Scolla, De Sica é mágico!

  2. bruno knott Says:

    excelentes apontamentos. um grande filme. gostei do comentário a respeito dos movimentos de câmera e da trilha sonora, distanciando um pouco o filme da característica do neorralismo italiano que vemos em Roma, Cidade Aberta, por exemplo.

  3. cross98 Says:

    Puxa cara . O cinema é uma coisa boa , ninguem discorda, varios filmes não reconhecidos e outros reconhecidos por pouca coisa . Esse parece um filme prepraganda , os atores bem fracos, idem para as atuações, é chato , nem tocante eu achei

    • Roberto Siqueira Says:

      O neo-realismo é um cinema difícil Mateus, mas de uma beleza e sensibilidade ímpar. Pretendo criar um especial sobre este movimento ainda em 2012.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      Meu preferido do cinema Italino é sem duvidas nenhuma Cinema Paradiso ( faleimal dele só zoando , é um puta filme). Mas tambem gosto de A Vida é Bela

    • Roberto Siqueira Says:

      São tantos bons filmes italianos que não dá nem pra citar.
      Abraço.

  4. Mandy Intelecto Says:

    Eae? Quando terá outro filme que eu já assisti?!?!?!?

    Bjoo

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