JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (1964)

(Jules et Jim) 

 

Filmes em Geral #11

 

Dirigido por François Truffaut.

Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Boris Bassiak, Anny Nelsen, Sabine Haudepin, Marie Dubois, Christiane Wagner e Michel Subor (Narrador).

Roteiro: François Truffaut e Jean Gruault, baseado em livro de Henri-Pierre Roché.

Produção: Marcel Berbert.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A ousadia temática da narrativa, característica da nouvelle vague, aparece com força total neste delicioso “Jules e Jim”, dirigido com maestria por François Truffaut, que narra à história de um divertido triangulo amoroso envolvendo uma mulher e dois melhores amigos. Novamente mostrando seu enorme talento no desenvolvimento dos personagens, Truffaut nos mostra as diferentes formas de amar e o nosso constante medo de perder as pessoas que amamos.

O germânico Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), dois grandes amigos que vivem em Paris, conhecem a extrovertida Catherine (Jeanne Moreau) e passam a conviver diariamente com ela, vivendo momentos inesquecíveis que acabam resultando no interesse de ambos pela garota. Só que Jules pede ao amigo Jim que não interfira e acaba se casando com Catherine. Mas após lutarem na guerra, ambos retornam para viver um curioso triangulo amoroso.

François Truffaut confirma novamente seu talento nesta adaptação para o cinema da obra literária de Henri-Pierre Roche, que exemplifica perfeitamente o espírito libertário dos jovens nos anos 60. O roteiro do próprio Truffaut, auxiliado por Jean Gruault, alterna muito bem entre a linguagem despojada, quando os personagens estão felizes, e o diálogo mais ácido, quando acontecem os conflitos, além de manter uma narração em off que remete diretamente à obra literária que originou o longa. Em “Jules e Jim”, o diretor/roteirista analisa com carinho os diversos tipos de amor e amizade que todo ser humano pode ter ao longo da vida, mostrando que em algumas vezes o sentimento de amizade pode ser até mesmo mais forte que o próprio amor. Afinal de contas, Jules e Jim, por mais que sentissem ciúmes de Catherine, nunca entraram em conflito por respeitarem demais a amizade que tinham. Já Catherine, ainda que tivesse o amor de ambos, não sabia lidar com o ciúme quando Jim se relacionava com Gilberte (Vanna Urbino), por exemplo. E apesar de todos eles demonstrarem insegurança e medo em determinados momentos, Catherine claramente era a que tinha mais dificuldade para lidar com este sentimento.

Truffaut também ousa um pouco mais na direção do que em seu excepcional filme de estréia, criando planos ousados, como aquele em que a tela fica escura e podemos ver apenas um quadro focando um dos personagens, além de conduzir com fluidez a narrativa, graças ao auxílio da boa montagem de Claudine Bouché, que faz pequenos cortes durante algumas cenas, quebrando a sensação de continuidade e dando agilidade ao longa. Também merecem destaque a fotografia leve de Raoul Coutard e a deliciosa trilha sonora de Georges Delerue, que reforçam o clima descontraído do longa.

Mas se “Jules e Jim” é corajoso tecnicamente, utilizando inclusive imagens congeladas e telas dividas (algo pouco comum na época), sua ousadia temática é ainda superior, pois falar abertamente de um triângulo amoroso não é algo fácil nem mesmo nos dias de hoje. E para que esta diferente relação funcione junto ao espectador, Truffaut conta com a estupenda atuação do trio principal formado por Jeanne Moreau, Oskar Werner e Henri Serre. Catherine, interpretada com charme e competência por Moreau, é uma mulher decidida, ousada, provocativa e sensual – o que certamente provocou um choque nos conservadores da época. Extremamente instável emocionalmente, ela simboliza perfeitamente a mensagem principal de “Jules e Jim”, pois como dizia o próprio Truffaut, o longa queria celebrar a intensidade das paixões mais incendiárias, e Catherine representa perfeitamente esta montanha russa de sentimentos graças ao bom desempenho de Moreau. Como bem define Jules em certo momento, “ela é uma força da natureza”. Personagem marcante, pode até ter provocado diretamente os mais conservadores, mas seu comportamento foi de encontro aos anseios das jovens européias e norte-americanas da época, determinadas a mudar sua posição na sociedade com seu espírito libertário e a mensagem do amor livre, tão fortes nos anos sessenta. Pra fechar com chave de ouro sua grande atuação, a belíssima música cantada por Catherine em certo momento fica ainda mais encantadora graças ao carisma de Jeanne Moreau. Já a dupla formada pelo germânico Jules e o francês Jim consegue criar uma empatia singular graças à boa atuação de Oskar Werner e Henri Serre, fazendo com que o espectador acredite na amizade entre eles, o que é determinante para o sucesso da narrativa. Por mais que amassem Catherine, era a amizade que um nutria pelo outro que eles mais prezavam e nada poderia fazer este sentimento se abalar. Não é sempre, afinal, que vemos um homem pedir a outro que se case com sua mulher para vê-la feliz (o que revela também um amor altruísta da parte de Jules). E é tocante notar que nem mesmo o horror da guerra esfriou o sentimento de ambos, que mais se preocupavam em não matar um ao outro nos campos de batalha do que em tentar sobreviver àquele inferno.

Em “Jules e Jim”, Truffaut aborda um tema difícil e polêmico, conseguindo trazer o espectador pra dentro da trama com extrema habilidade e sensibilidade. Sem julgar os personagens, criamos empatia pelo trio e torcemos pelo improvável sucesso daquela relação. Somos levados pela narrativa e até mesmo tocados por ela em diversos momentos, como na reveladora conversa entre Catherine e Jim numa bela noite pelos jardins. Amar não é fácil, e compreender a pessoa que amamos é ainda mais difícil. Jules e Jim conseguiram entender perfeitamente este complicado sentimento, mas Catherine infelizmente não soube lidar com a perda e seu trágico fim era uma conseqüência até mesmo previsível. Pena que Jim não pensava desta maneira.

François Truffaut conduz com segurança este divertido “Jules e Jim”, abordando com sua costumeira sensibilidade um tema realmente complexo. O amor, a amizade e o medo que todo ser humano tem de perdê-los é o fio condutor de uma narrativa ágil, marcante e, graças também ao bom desempenho do elenco, inesquecível.

Texto publicado em 22 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “JULES E JIM – UMA MULHER PARA DOIS (1964)”

  1. Por trás de grandes filmes, existe uma grande mente. «   Says:

    […] Truffaut (“Os incompreendidos”, “Jules e Jim”, “Fahrenheit 451”, “A noite americana” e “O homem que amava as […]

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