JOANA D’ARC (2019)

(Jeanne)

 

Dirigido por Bruno Dumont.

Elenco: Lise Leplat Prudhomme, Jean-François Causeret, Daniel Dienne, Fabien Fenet, Robert Hanicotte e Yves Habert.

Roteiro: Bruno Dumont.

Produção: Rachid Bouchareb, Jean Bréhat e Muriel Merlin.

Sequência da peça de mesmo nome, acompanhamos Joana da sua primeira derrota até o julgamento pelos ingleses. Se apresentando como musical e com um ritmo muito lento, é um filme lindíssimo e de muitas sutilezas em seus diálogos. O filme tem poucas e longuíssimas cenas, todas focam em diálogos. Um dos cernes é a crítica a religião com muitos momentos que mostram o quão é patética, como na cena em que os sacerdotes pedem a Deus que os ajudem a torturar bem a menina Joana. Aliás, em diversos momentos somos Deus, e Joana olha direto para a câmera, esperando nossa manifestação. É onde entram as músicas, na forma de apelos da menina à divindade. Bastante atual, demonstra também que entre tantos homens, de diversos lados e objetivos, o único ser sábio é uma menina, que se recusa a matar e trair seus ideais.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

OS OLHOS DE CABUL (2019)

(Les Hirondelles de Kaboul)

Dirigido por Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec.

Elenco: Vozes de Simon Abkarian, Hiam Abbass, Zita Hanrot e Swann Arlaud.

Roteiro: Zabou Breitman, Patricia Mortagne e Sébastien Tavel.

Produção: Reginald de Guillebon e Michel Merkt.

Duas famílias vivem em Cabul, Afeganistão, sob o domínio do talibã. Nesta animação acompanhamos a opressão e o medo que cidadãos não doutrinados pela religião sofrem num regime opressor. As mais atingidas são as mulheres, claro, que são obrigadas a saírem de casa de burca e não podem usar calçados brancos.

O roteiro é muito inteligente e consegue sempre nos surpreender. Os traços simples e a escolha das cores reforçam um ambiente oprimido, onde a vida resiste. Uma das cenas finais é maravilhosa: começa num plano geral com vista de cima, e conforme a câmera se afasta, mulheres de burca vão se transformando em pássaros que voam para longe, contrastando com uma cena muito pesada e bem executada que testemunhamos anteriormente.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

DINAMARCA (2019)

(Denmark)

Dirigido por Adrian Shergold.

Elenco: Rafe Spall, Simone Lykke, Thomas Gabrielsson, Benedikte Hansen e Joel Fry.

Roteiro: Jeffy Murphy.

Produção: Ed Talfan e David Aukin.

Um homem desempregado e sem esperança assiste um programa que mostra o sistema prisional da Dinamarca ser um paraíso, no qual detentos trabalham, ganham dinheiro e tem acomodações luxuosas. Sem nada a perder, ele resolve ir para o país escandinavo cometer algum crime e poder viver nessa prisão.

Os primeiros 15 minutos do longa são cativantes e geram grande expectativa. Somos apresentados ao protagonista num plano-sequência, com a câmera sempre baixa, reforçando o quanto aquele indivíduo se sente diminuto perante seu mundo. Toda a trama até ele chegar à Dinamarca é muito bem construída, com momentos engraçados e criativos. Pena que logo após o primeiro ato o filme vá ladeira abaixo, e se transforme quase numa comédia romântica boba. Mesmo alguns bons momentos, como um longo plano-sequência durante um monólogo do protagonista, onde partindo de um plano aberto a câmera vagarosamente se aproxima do personagem, terminando num close, não conseguem recuperar o rumo do filme.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ADAM (2019)

(Adam)

Dirigido por Rhys Ernst.

Elenco: Nicholas Alexander, Bobbi Salvör Menuez, Leo Sheng e Chloë Levine.

Roteiro: Ariel Schrag.

Produção: Howard Gertler e James Schamus.

Garoto que dá nome ao filme vai passar férias em Nova York com sua irmã lésbica e conhece uma garota que, ao conhecê-lo, acha que ele é um homem trans. Gera um misto de frustração, pena e raiva, quando vemos um tema como este, transexualidade, ser retratado de forma tão leviana como ocorre aqui. O roteiro além de previsível, é recheado de clichês, e ainda assim, força o espectador a acreditar em algo que não acontece. A cena em que Adam conhece a garota que “muda” a vida dele, e o fato dela se sentir atraída, não fazem qualquer sentido.

As atuações são ruins, e o diretor nos força a rir de situações que não tem a mínima graça, como as inúmeras cenas que incluem o protagonista se passando por uma garota trans, para conquistar uma menina lésbica. Outra cena tenta tornar exagerados discursos de alguns personagens que defendem seus interesses específicos, como uma dupla queer distribuindo panfletos contra o casamento. Tendo no ápice de sua imbecilidade uma conversa entre o casal (que finge não serem héteros), na qual obrigam o espectador a ignorar tudo que foi visto em tela, substituindo por outra coisa.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

ISTO NÃO É BERLIM (2019)

(Esto no es Berlín)

 

Dirigido por Hari Sama.

Elenco: Xabiani Ponce de León, José Antonio Toledano, Ximena Romo, Mauro Sánchez Navarro e Klaudia García.

Roteiro: Rodrigo Ordóñez, Hari Sama e Max Zunino.

Produção: Catatonia Cine.

Carlos, um garoto morador da Cidade do México, após ser apresentado a uma boate gay tem sua vida transformada, sendo apresentado às drogas, ao sexo e a arte. O filme faz um belíssimo trabalho ao retratar com detalhes a década de 80. A história se passa em 1986, durante a copa do mundo de futebol no México. A câmera solta e sempre tremida reforça o universo dos jovens personagens, agitados, curiosos, em busca de descobertas. O roteiro recorre a alguns clichês, mas desenvolve muito bem os personagens, e a trilha sonora é um atrativo à parte, com alguns clássicos do rock e punk.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

VOCÊ TEM A NOITE (2019)

(Ti imaš noc)

 

Dirigido por Ivan Salatić.

Elenco: Ivana Vuković, Momo Pićurić e Luka Petrone.

Roteiro: Ivan Salatić.

Produção: Jelena Angelovski e Dušan Kasalica.

O filme mostra o destino de diversos personagens após um estaleiro falir. As imagens de arquivo da inauguração do estaleiro na década de 60 mostram a importância do mesmo à comunidade, e como sua falência, e destino da estrutura à outra nação impacta os empregados.

O diretor opta por manter uma distância muito grande dos personagens, o que se mostra um erro, já que isso também afasta o espectador deles, diminuindo o impacto de diversos acontecimentos. O fato de sabermos pouco dos personagens também atrapalha, e o filme acaba servindo apenas como uma crítica ao modelo econômico neoliberal do livre mercado, que permitiu a um estaleiro antes estatizado, e que fornecia emprego a grande parte de uma cidade, falir, ruindo a vida de tantos trabalhadores, mas não de seus donos, cuja falência foi decretada, ou da estrutura….

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

A VERDADEIRA HISTÓRIA DA GANGUE DE NED KELLY (2019)

(True Hostory of the Kelly Gang)

 

Dirigido por Justin Kurzel.

Elenco: George MacKay, Essie Davis, Nicholas Hoult, Charlie Hunnam e Russell Crowe.

Roteiro: Shaun Grant.

Produção: Hal Vogel, Liz Watts, Paul Ranford e Justin Kurzel.

Baseado no livro de Peter Carey, o filme conta a história do fora da lei australiano Ned Kelly. O roteiro é episódico, dividido pelas três fases do protagonista. Interessante notar como o personagem é moldado por aquele universo inóspito, sofre as consequências pelos atos de sua mãe, e especialmente da sociedade. Contando com boas atuações, bela fotografia, cai um pouco em seu terceiro ato, mas consegue ser uma experiência satisfatória.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

SAINT FRANCES (2019)

(Saint Frances)

 

Dirigido por Alex Thompson.

Elenco: Kelly O’Sullivan, Ramona Edith-Williams, Jim True-Frost, Francis Guinan, Lily Mojekwu, Mary Beth Fisher e Charin Alvarez.

Roteiro: Kelly O’Sullivan.

Produção: Edwin Linker, James Choi, Haroula Rose Spyropoulos e Roger Welp.

Uma garota aceita pegar um trabalho de babá que era de sua amiga. Ela não tem experiência tão pouco gosta de crianças. O roteiro é previsível e cheio de clichês, então o espectador sempre está um passo à frente do filme, embora possua alguns elementos interessantes como o fato da criança ter um casal de mães, a discussão de temas como aborto e racismo, e a atriz que faz Frances, a criança, ser extremamente carismática.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

O MILAGRE NO MAR DOS SARGAÇOS (2019)

(To thávma tis thálassas ton Sargassón)

 

Dirigido por Syllas Tzoumerkas.

Elenco: Angeliki Papoulia, Youla Boudali, Christos Passalis, Argyris Xafis e Thanasis Dovris.

Roteiro: Youla Boudali e Syllas Tzoumerkas.

Produção: Maria Drandaki.

Policial é obrigada a se transferir de Atenas para uma cidade pequena da Grécia após não concordar em ajudar seu departamento a forjar provas contra supostos terroristas. Dois anos depois, como chefe de polícia da cidade pequena para onde se transferiu, e agora uma pessoa diferente que bebe o tempo todo, usa drogas e perde facilmente o controle, precisa investigar um assassinato.

O roteiro cria um universo interessante em seu terço inicial, com personagens complexos, e desperta curiosidade sobre os personagens apresentados. Infelizmente o desenvolvimento não é bom, embora melhore um pouquinho no final.

Texto publicado em 01 de Novembro de 2019 por Adriano Cardoso

A GAROTA COM A PULSEIRA (2019)

(La Fille au Bracelet)

 

Dirigido por Stéphane Demoustier.

Elenco: Mélissa Guers, Roschdy Zem, Chiara Mastroianni e Anaïs Demoustier.

Roteiro: Stéphane Demoustier.

Produção: Jean des Forêts.

Uma garota é acusada de assassinar a melhor amiga. Após algum tempo de prisão domiciliar chega a data do seu julgamento.

O roteiro é muito inteligente e brinca o tempo todo com a nossa expectativa. Durante o julgamento, a acusação traz uma evidência que seria crucial, então a defesa apresenta uma justificativa que pode ou não derrubar a acusação. Nunca sabemos se ela é culpada ou não, e em determinado momento o filme deixa claro que a questão não é essa, mas sim se teria o tribunal elementos para entender a dinâmica da vida dos jovens, e conseguir julgar adequadamente aquela garota, que na época do crime tinha 16 anos.

A cena final serve justamente para reforçar essa tese. Destaque também para a atuação da protagonista, que nunca nos permite saber o que se passa em sua cabeça, quem ela realmente é, a conhecemos tanto quanto os membros do júri que enxergam apenas o pequeno recorte de sua vida, convivendo com ela por algumas horas.

Texto publicado em 29 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso