Imagens: Doze Homens e uma Sentença (1957)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica do excepcional Doze Homens e uma Sentença (1957) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 31 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Qual é a sua trilogia favorita?

Recentemente, em virtude das críticas da Videoteca do Beto, assisti novamente aos capítulos finais das excepcionais trilogias “De Volta para o Futuro” e “O Poderoso Chefão”, o que me levou a pensar nesta pesquisa. Nos dias de hoje é mais do que comum pensar em trilogias e, em alguns casos, o público já sabe que determinado filme terá duas ou mais continuações antes mesmo de assistir ao primeiro filme no cinema, como aconteceu na época do lançamento de “O Senhor dos Anéis”. Mas nem sempre foi assim. Até o final dos anos 70, são raros os exemplos de filmes que tiveram continuação, como “O Poderoso Chefão”, por exemplo, que acabaria virando uma trilogia de fato somente em 1990. Na realidade, esta onda só se consolidaria a partir dos anos 80, após o sucesso de trilogias como “Star Wars” e “Indiana Jones”.

A trilogia mais antiga que me recordo é do italiano Antonioni, formada pelos filmes “A Aventura”, de 1960, “A Noite”, de 1961, e “O Eclipse”, de 1962 – e caso você leitor conheça alguma trilogia mais antiga, seu comentário é extremamente bem vindo. No final dos anos 70, George Lucas lançou a sua ópera espacial “Star Wars” e as “trilogias” finalmente explodiram nos anos 80, com diversas franquias invadindo os cinemas pelo mundo e, o mais interessante de tudo, salvo um ou outro filme, com excelente qualidade. Somente nos anos 80 podemos citar “Indiana Jones”, “Karate Kid”, “Mad Max”, “Duro de Matar”, “Máquina Mortífera”, “Rambo”, “Alien” e “De Volta para o Futuro”, exemplos de trilogias de sucesso e com qualidade. Nos anos 90 a tradição das trilogias continuou com “Missão Impossível”, a “trilogia das Cores” e “Jurassic Park”, e na década passada tivemos a invasão dos HQ’s como “X-Men” e “Homem-Aranha”, das adaptações de livros infanto-juvenis como “Harry Potter” e “Crepúsculo” (que acabaram ultrapassando o tradicional formato das trilogias e tendo mais que três filmes), além de mega-produções como “Matrix”, “O Senhor dos Anéis”, a “trilogia Bourne”, “Velozes e Furiosos”, “Resident Evil” e “Piratas do Caribe”. Recentemente até mesmo as animações entraram na onda, com “Shrek”, “A Era do Gelo” e “Toy Story”.

Evidentemente, nem toda trilogia se manteve como tal, como é o caso de “Rambo”, “Máquina Mortífera”, “Duro de Matar” e “Indiana Jones”, que ganharam novos filmes nos últimos anos.  Além disso, algumas trilogias não pertencem exclusivamente a determinados períodos ou décadas, como é o caso de “O Exterminador do Futuro”, que iniciou nos anos 80 e só teve o seu terceiro filme lançado em 2003 – e agora, também tem um quarto filme na série.

Com toda esta gama de trilogias, incluindo algumas séries que ultrapassaram o clássico formado de três filmes, é evidente que existem aquelas de qualidade inquestionável, como “O Poderoso Chefão”, e outras que não me agradam nem um pouco, como “Velozes e Furiosos”. Entre todas as trilogias que já assisti, posso afirmar que minha preferida é mesmo “O Poderoso Chefão”, mas caso a obra-prima de Coppola não tivesse existido (toc, toc, toc!), meu voto certamente iria para “De Volta para o Futuro”, apesar de adorar “O Senhor dos Anéis” e tantas outras trilogias citadas acima. Como citado, recentemente eu assisti novamente aos filmes dirigidos por Robert Zemeckis para escrever as críticas da Videoteca do Beto e novamente me impressionei com a qualidade do roteiro e do elenco, a inteligência de Zemeckis e a energia dos três filmes.

E pra você? Qual é a sua trilogia favorita? Opine votando no quadro abaixo e comentando também!

 

*Caso sua trilogia favorita não apareça no quadro, vote na opção outros e, se preferir, cite o nome nos comentários abaixo.

Três grandes abraços.

 Compre sua trilogia favorita no Submarino

Texto publicado em 27 de Outubro de 2009 por Roberto Siqueira

II Festival IESB de Cinema

Olá pessoal.

Esta semana a Ida Feldman entrou em contato comigo para falar a respeito do II Festival IESB de Cinema, que visa valorizar e difundir a produção audiovisual realizada por estudantes universitários do Brasil, além propiciar um espaço de interação, troca e estímulo a trabalhos semi-profissionais do audiovisual.

Segundo ela, poderão participar estudantes de todos os cursos das universidades brasileiras e cursos livres de audiovisual, desde que o autor da obra seja o estudante.

Mais informações podem ser encontradas no blog oficial do festival, que você pode acessar clicando aqui.

Um grande abraço.

Texto publicado em 26 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Imagens: Cantando na Chuva (1952)

Seguindo o projeto de atualização das críticas com imagens, chegou à vez da crítica do musical Cantando na Chuva (1952) ser devidamente ilustrada. Vale lembrar que o texto permanece o mesmo do dia de divulgação.

Um abraço.

Texto publicado em 25 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O Grande Ditador

Encerrando a semana Chaplin, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre o corajoso “O Grande Ditador”. Para ler, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 23 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Tempos Modernos

Dando seqüência à semana Chaplin, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre a obra-prima “Tempos Modernos”. Para ler, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 22 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

Luzes da Cidade

Dando seqüência à semana Chaplin, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre o lindo “Luzes da Cidade”. Para ler, basta clicar aqui.

Um abraço.

Texto publicado em 21 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O CIRCO (1928)

(The Circus)

 

Filmes em Geral #18

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Henry Bergman, Tiny Sandford, Al Ernest Garcia, George Davis, Merna Kennedy, Harry Crocker, John Rand e Steve Murphy.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Certamente um dos longas mais engraçados da carreira de Charles Chaplin, “O Circo” destaca-se pelas divertidas gags visuais, mas abre espaço também para pequenas reflexões, ainda que de maneira leve e descontraída. A inspiração e o talento deste genial ator e diretor para provocar o riso podem ser comprovados neste divertido filme, que antecedeu aquelas que talvez sejam as maiores obras da carreira deste inglês que marcou a história da sétima arte e da própria humanidade.

Enquanto fugia da policia ao ser confundido com um ladrão de carteiras, o vagabundo (Chaplin) invade acidentalmente um circo e, com seu jeito desajeitado, acaba arrancando gargalhadas do público presente. Logo em seguida, acaba sendo contratado pelo dono do espetáculo (Al Ernest Garcia), que irá se aproveitar do talento dele para salvar o circo da falência. Mas o destino fez com que o vagabundo cruzasse o caminho da filha do proprietário (Merna Kennedy) e se apaixonasse por ela.

“O Circo” é, acima de tudo, uma comédia bastante eficiente. Por isso, as gags visuais estão presentes com força total e, reforçadas pelo talento de Chaplin na expressão corporal, tornam o filme um dos mais engraçados de sua carreira, com destaque para as cenas anteriores à contratação do vagabundo pelo circo. O filme tem todas as características dos tempos de cinema mudo, com trilha sonora presente em todo tempo e letreiros mostrando os principais diálogos na tela, algo que Chaplin lentamente abandonaria em seus filmes posteriores. E apesar de destacar-se como um filme de humor, o longa apresenta muitas das principais características do cinema de Chaplin, como seu costumeiro problema com os guardas e sua eterna luta para conseguir comida, que aparecem principalmente nas cenas do lado externo do circo.

Entre as cenas mais divertidas, destaca-se a primeira entrada de Carlitos no circo. A seqüência de gags é tão bem elaborada e coordenada que é praticamente impossível não gargalhar, por mais mal humorada que a pessoa seja. Mas as cenas engraçadas não se resumem a esta entrada, como podemos notar na divertidíssima cena em que o vagabundo tenta dar uma pílula para um cavalo doente. Já a cena da jaula do leão consegue ser ao mesmo tempo engraçada e tensa, dado o perigo potencial da situação. É interessante notar também como através da comédia, Carlitos revela ao público alguns truques do circo, como o botão que liberta os animais na mesa. Mas o talento de Chaplin não se resumia somente ao humor, e o seu lado humano aparece em duas cenas especiais. A primeira delas acontece quando o vagabundo se comove com a fome da jovem moça e dá sua comida pra ela, enquanto a segunda ocorre no final altruísta, quando Carlitos leva o equilibrista até a jovem moça, abrindo mão de sua paixão para vê-la feliz. E apesar do tom mais leve e descontraído, o roteiro de “O Circo” não deixa de criticar o capitalismo (algo sempre presente nos filmes de Chaplin) ao mostrar a dificuldade do vagabundo passando fome e, posteriormente, os trabalhadores abandonando o emprego por não receber salário.

Como podemos notar, Chaplin tinha o incrível talento de transformar narrativas simples em filmes fascinantes, mas também mostrava competência na parte técnica, como na cena dos espelhos, filmada de um ponto fixo, mas jamais mostrando onde está localizada câmera, o que sempre impressiona em planos feitos diante do espelho. Chaplin também utilizava bem o truque de câmera, uma espécie de efeito visual, como por exemplo, na cena em que ele “sai do corpo” e mostra sua intenção de bater no equilibrista. Ele não faz questão de esconder seu ciúme, num comportamento inocente como o de uma criança, algo que se repete quando ele ri ao ver Rex (Harry Crocker) balançando na corda. Seu Carlitos era puro e simples como uma criança, o que explica a facilidade com que ele conquista o publico infantil. E até mesmo nos movimentos de câmera Chaplin mostra habilidade, criando cenas lindas como o plano geral onde podemos ver o vagabundo se equilibrando na corda e todo o público embaixo dele torcendo por seu sucesso. A montagem dinâmica (sempre dele, Chaplin) também colabora com o ritmo ágil da narrativa, além de trabalhar no melhor estilo Chaplin, com a imagem seguinte muitas vezes complementando o sentido da cena anterior, como quando o público pede pelo “homem engraçado” e, no plano seguinte, vemos Carlitos deitado dormindo. Fechando a parte técnica, a trilha sonora composta por Chaplin é divertida e coerente com a leveza da narrativa.

É desnecessário dizer que Chaplin dá outro show de atuação em “O Circo”. Poucos atores da história tinham tanto talento para demonstrar através de expressões corporais os sentimentos do personagem e, além disso, provocar o riso genuíno no espectador, como podemos notar na cena do ensaio do número da barbearia, entre tantas outras. O dono do circo, interpretado de maneira ríspida por Al Ernest Garcia, explora o talento de Carlitos sem que ele saiba que é a estrela do espetáculo e, conseqüentemente, cobre por isso. Ironicamente, quando desperta para isto (graças à filha do proprietário do circo, interpretada por Merna Kennedy), recebe pelo que vale e salva o circo da falência, lotando as arquibancadas. Note como até mesmo o dono do circo fica menos estressado quando o circo começa a render o esperado, tratando melhor os funcionários. Mas a chegada do equilibrista representa a desilusão amorosa do vagabundo e o fim da felicidade dele, algo que se reflete imediatamente em seu rendimento no palco. Como conseqüência, o dono do circo ameaça demiti-lo, esquecendo-se que ele era o responsável por salvar o circo. Gratidão não é algo comum no mundo dos negócios, e Chaplin, feroz crítico do capitalismo, sabia disto. Basicamente, o lema é “deixou de render, não serve mais”. O belo final, com o vagabundo abrindo mão de seguir com o circo, tem também uma rima narrativa com o primeiro plano do filme, com Carlitos segurando a estrela que inicia “O Circo”.

Ainda que não tenha o poder de emocionar de “Luzes da Cidade” e o mesmo subtexto crítico de “Tempos Modernos” ou “O Grande Ditador”, “O Circo” é uma comédia eficiente, que conta com muitas das principais qualidades do cinema de Chaplin. Se não deixa uma mensagem profunda ou provoca grande reflexão, ao menos diverte com competência o espectador, graças ao enorme talento de seu realizador.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

EM BUSCA DO OURO (1925/1942)

(The Gold Rush)

 

Filmes em Geral #17

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Mack Swaim, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite e Georgia Hale.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Entre todas as suas memoráveis obras, Chaplin afirmava ter um carinho extremamente especial por este “Em Busca do Ouro”, uma fábula maravilhosa que relata, de maneira bem humorada, os perigos da chamada corrida do ouro, que motivou multidões a arriscar a vida em busca do sonho de conseguir riqueza através deste precioso metal. Leve e descontraído, o longa consegue balancear muito bem o humor e o drama, algo recorrente na marcante carreira deste memorável cineasta.

Em 1898, milhares de pessoas partem para a serra nevada na tentativa de encontrar ouro, buscando garantir riqueza e conforto pelo resto de suas vidas. Entre estes garimpeiros e aventureiros, encontra-se o vagabundo (Chaplin), que acidentalmente vai parar na cabana do garimpeiro Larsen (Tom Murray) ao lado do gordo Jim McKay (Mack Swaim), conhecido como “Big Jim”. Juntos, eles criam muita confusão e, após uma forte tempestade de neve, o vagabundo conhece a dançarina Georgia (Georgia Hale), por quem se apaixona perdidamente.

A idéia de realizar “Em busca do ouro” surgiu quando Chaplin leu uma reportagem sobre a chamada “corrida do ouro”, em que legiões de pessoas partiam em busca de riqueza, dispostas a enfrentar o frio, a fome e a natureza agressiva da serra nevada. Esta reportagem se transformou num dos primeiros e mais belos planos do longa, onde podemos ver milhares de pessoas subindo o monte coberto de neve, com a esperança de que este sacrifício seja recompensado por uma vida confortável após encontrar o desejado ouro. Chaplin gostou tanto do resultado final que o filme foi relançado 17 anos depois, com a rápida voz de Chaplin substituindo os diálogos na tela. A versão de 1942, no entanto, teve algumas cenas retiradas na montagem, como o beijo final entre Carlitos e Georgia, resultando numa versão um pouco menor que a original.

Charles Chaplin novamente assumiu a responsabilidade pela direção, roteiro, montagem e trilha sonora, além é claro de atuar no longa. O roteiro, que como citado ganhou a narração de Chaplin na versão de 1942, aborda temas interessantes como o poder do dinheiro e o valor que a sociedade dá pra ele, além de mostrar como as aparências enganam, na cena em que o guarda assume que Carlitos é o intruso do navio baseado nas roupas dele. O roteiro mostra ainda como o amor verdadeiro pode surgir de diversas maneiras, além de ilustrar como a solidão atormenta o homem. Como sempre, Chaplin deixa sua marca pessoal, apresentando tudo isto de maneira simples, engraçada e inteligente. O diretor tem domínio absoluto da narrativa, fazendo com que o longa flua muito bem, graças também a montagem, que adota um ritmo alucinante no inicio da narrativa, alternando para um ritmo mais lento no segundo ato, que reflete a tristeza do solitário protagonista. Ainda na parte técnica, vale destacar a fotografia de Roland Totheroth, que prioriza a cor branca, refletindo o vazio e a solidão das pessoas que enfrentam a serra nevada em busca de riqueza. Repare como a fotografia se torna sombria, priorizando a cor preta, quando Carlitos passa a freqüentar o saloon e, principalmente, quando sofre por Georgia sozinho na cabana e vagando pelo exterior do saloon. Finalmente, a trilha sonora, creditada para Chaplin, Gerard Carbonara e Max Terr, é mais lenta e cadenciada na versão de 1921, ao passo em que na versão de 1942 é bastante agitada e pontua muito bem as cenas.

Como de costume nos filmes de Chaplin, as gags visuais são excelentes, com destaque para a seqüência em que Carlitos, Big Jim e Larsen são expulsos da barraca pelo vento, seguida pela briga entre os grandões, apontando a arma para Carlitos. Também merece ser citada a disputa nas cartas para ver quem procuraria comida (repare a divertida reação do vagabundo ao tirar sua carta). O talento de Chaplin para fazer comédia fica ainda mais evidente na seqüência em que Carlitos cozinha um sapato e serve para o amigo Big Jim. Esta cena, aliás, foi inspirada numa trágica notícia que ele havia lido sobre um grupo de exploradores que se viu obrigado a comer os sapatos, roupas e cadáveres de amigos durante sua passagem pela serra nevada. A notícia inspirou ainda os engraçados delírios de Big Jim, que revelam também o ótimo trabalho de efeitos visuais (na realidade, um truque de câmera) ao transformar Carlitos num frango gigante, ilustrando o tamanho da fome do grandalhão. Repare na sincronia dos movimentos do frango e de Carlitos quando este volta a aparecer na forma humana (ele mesmo se vestiu de frango depois que um técnico tentou sem sucesso fazer o papel). Esta seqüência, aliás, é toda sensacional, desde os delírios de Big Jim até a perseguição dentro e fora da barraca, que termina com a chegada do urso. Outra seqüência interessante visualmente é a engraçada cena da casa pendurada no penhasco, que alterna entre o cenário em tamanho real e a maquete, sem que o espectador perceba a diferença claramente. Interessante também como a posição da câmera dá a sensação de que a casa está mesmo pendurada, o que revela a habilidade de Chaplin na direção e remete a um tempo em que o cinema, sem tantos recursos técnicos, era mais puro e criativo.

Chaplin também sabia ser sutil, como na triste cena em que Carlitos espera por Georgia na cabana, onde a vela indica quanto tempo ele esperou pela garota. A desilusão amorosa e a solidão dele na virada do ano estão refletidas em seu semblante, enquanto olha pela porta à espera de sua visita. Quando ele decide ir até a festa, seu rosto mergulhado nas sombras demonstra visualmente os sentimentos de seu coração, partido diante da atitude de Georgia. Georgia, aliás, que é muito bem interpretada pela bela Georgia Hale, demonstrando, ao lado de suas amigas, o cinismo das mulheres do saloon e a lenta transformação da garota. A pureza de Carlitos conquista Georgia e conquista o espectador também. Mas talvez a cena mais marcante de “Em Busca do Ouro” seja o belíssimo momento em que Carlitos faz a dança com os pães, com extrema sensibilidade e carisma. Certamente, esta é uma das muitas imagens que marcaram a carreira deste gênio. Vale citar ainda a linda cena em que Carlitos e Georgia se reencontram no navio. Na versão de 1942 o final é menos romantizado, refletindo o estado de espírito de Chaplin naquele período, após ter enfrentado seu segundo divórcio. Já a versão original tem um longo beijo entre o casal, que revela até mesmo a paixão do diretor por sua mulher, Lita Grey, que inspirou a personagem Georgia.

Extremamente engraçado, com cenas marcantes e uma mensagem humana, podemos afirmar que o belo “Em Busca do Ouro” é um legítimo representante de cinema de Charles Chaplin. E é impressionante notar como seus filmes conseguem transmitir sua visão do mundo, balanceando com grande talento cenas engraçadas e belas. É aí que reside a magia de Chaplin, um cineasta capaz de tocar como poucos o coração do espectador. Ao contrario das dificuldades enfrentadas pelos garimpeiros para conseguir ouro, Chaplin demonstrava enorme facilidade para transformar seus filmes em verdadeiras jóias da sétima arte.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira

O GAROTO (1921)

(The Kid)

 

Filmes em Geral #16

Dirigido por Charles Chaplin.

Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance, Jackie Coogan, Baby Hathaway, Carl Miller, Granville Redmond, Tom Wilson e May White.

Roteiro: Charles Chaplin.

Produção: Charles Chaplin.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

O genial Charles Chaplin demonstra toda sua sensibilidade e talento neste belo “O Garoto”, misturando com perfeição o humor e o drama, demonstrando controle absoluto sobre a narrativa e, como anunciado ainda nos primeiros segundos do longa, provocando no espectador o riso e a lágrima.

Após deixar um hospital de caridade com seu filho recém-nascido, uma jovem mãe solteira (Edna Purviance), temendo não poder cuidar do filho, abandona o garoto no banco de trás de um luxuoso carro, junto com um bilhete. Em seguida, o carro é roubado e os bandidos, desesperados, largam o garoto numa esquina, onde o bebê ficará até ser encontrado pelo vagabundo (Chaplin), que fazia o seu passeio matinal tranquilamente. Após tentar, sem sucesso, se livrar do bebê, o vagabundo decide criá-lo, enquanto a mãe, com o passar dos anos, se arrepende e decide partir em busca do filho abandonado, ainda que com pouca esperança de realmente encontrá-lo.

Como de costume, Chaplin conduz a narrativa com segurança e confirma seu talento ao apresentar uma narrativa extremamente bem estruturada, coesa e com um ritmo excelente. É sempre impressionante notar o talento de Chaplin para envolver o espectador com brilhantismo, misturando humor e drama de maneira extremamente humana. O diretor é competente também nos diversos momentos engraçados do longa, com destaque para o hilário “serviço 13”, em que Carlitos se encanta com a mulher do guarda e foge em disparada pela cidade ao se deparar com o marido dela. Mas o diretor também é sutil na criação de planos simbólicos, como no emocionante encontro casual entre mãe e filho, onde a agora famosa atriz não sabe que está diante de seu filho abandonado há cinco anos. A tristeza estampada em seu rosto some temporariamente quando ela presenteia o garoto, sem saber que estava diante de seu próprio filho. Alguns temas recorrentes da filmografia de Chaplin aparecem também em “O Garoto”, como os constantes problemas com guardas e a fome (Chaplin passou fome na infância e costumeiramente mostrava isso em seus filmes).

Curiosamente, o pai do garoto também se tornara alguém famoso, mostrando claramente que se eles tivessem tentando ficar juntos, poderiam ter sucesso na criação do menino. Por outro lado, pode-se argumentar que ambos não teriam tanto tempo para se dedicar à carreira, pois obviamente cuidar de uma criança é uma tarefa que demanda tempo e dedicação. No acidental encontro entre pai e mãe numa festa, a tristeza toma conta de ambos e a montagem (também mérito de Chaplin) durante a conversa do casal mostra que o livro do passado e das lembranças foi aberto na vida de ambos. Este estilo de montagem (a chamada montagem semântica, onde uma cena complementa o sentido da outra, mas sozinhas não tem o mesmo significado) é usual no cinema de Chaplin, que costumava jogar imagens não diegéticas (ou seja, não pertencentes ao universo daquela narrativa) para complementar o sentido da cena anterior ou seguinte, como quando ele intercala os trabalhadores e as ovelhas em “Tempos Modernos”. Em outro momento, após a frase “uma mulher cujo pecado foi a maternidade”, Chaplin corta inteligentemente para a imagem de Cristo na cruz, simbolizando o peso que aquela criança representava na vida daquela moça sem condições de criá-la e abandonada pelo marido. Chaplin também cria um plano que reforça este peso no momento em que a mãe para com a criança no colo na frente de uma igreja e, ao fundo, podemos ver outra cruz. Segundos depois a mãe se retira e a câmera foca na cruz enquanto a tela escurece.

O roteiro escrito por Chaplin exibe coragem ao abordar as dificuldades de uma mãe solteira para criar uma criança e confirma isto ao mostrar tanto a mãe quanto os bandidos abandonando o bebê à própria sorte, o que revela também uma crítica às desigualdades sociais já existentes naquele período. Outro tema interessante abordado pelo longa que merece reflexão refere-se à verdadeira natureza da paternidade/maternidade. Afinal de contas, quem é o verdadeiro pai/mãe de uma criança? Como o filme demonstra através da relação de afeto e carinho entre Carlitos e o garoto, o verdadeiro pai é aquele que cria (e eu, particularmente, compartilho desta opinião). O excepcional roteiro mostra ainda como era o “tratamento apropriado” dado às crianças abandonadas pela instituição responsável (Asilo para crianças órfãs), reforçando o aspecto crítico de “O Garoto”.

Tecnicamente, vale destacar ainda a direção de fotografia de Roland Totheroh e Jack Wilson, que utiliza o foco da câmera para destacar o que interessa à narrativa e até mesmo brinca com o formato dele, como na cena do casamento em que a sombra em volta da tela forma um coração no centro. Vale notar também como no momento em que Carlitos sai pela noite à procura do garoto, a fotografia obscura reflete sua enorme angústia. Por outro lado, durante o seu sonho (um momento mágico, que utilizou truques para fazer Chaplin voar muito tempo antes da invasão dos efeitos visuais no cinema) a fotografia e os figurinos destacam a cor branca, simbolizando aquele que seria o mundo ideal do vagabundo Carlitos. Os figurinos, aliás, também simbolizam a clara desigualdade social, notável através do contraste entre as roupas rasgadas da dupla e as roupas dos ricos da cidade. E até mesmo a fotografia reflete esta diferença, adotando cores menos escuras quando a ação se passa na casa da família da famosa atriz. Finalmente, vale dizer que a passagem do tempo através de letreiros na tela e nuvens no fundo (“5 anos depois”) hoje é deselegante, mas na época funcionava perfeitamente e Chaplin, excepcional diretor que era, sabia disto.

E se o talento de Chaplin como diretor era enorme, sua qualidade como ator era simplesmente insuperável. Sua facilidade em expressar sentimentos através da expressão facial e corporal é incrível, provocando o riso mais genuíno no espectador. Além das inúmeras gags engraçadas, vale observar também sua reação quando encontra o garoto abandonado e o seu olhar desconfiado para o bueiro e para a câmera quando senta na calçada com o bebê. Destaque também para sua engraçada reação às palavras do pai de um garoto que apanhou na rua (“Se ele apanhar, eu vou bater em você”), além é claro das inúmeras cenas potencialmente cômicas, como a do citado “serviço 13”. Edna Purviance transmite muito bem o sofrimento da mãe através de sua expressão triste e melancólica, como podemos notar quando ela aparece pensativa na ponte e no tocante reencontro com seu filho na delegacia. Colabora também com o sentimento de tristeza que acompanha a moça a trilha sonora melancólica, composta pelo próprio Chaplin. Fechando os destaques do elenco, temos a fantástica atuação de Jackie Coogan como o garoto, conquistando o espectador com sua simpatia. Seu entrosamento com Chaplin é perfeito. Repare como Coogan olha discretamente para o prato de Carlitos antes de fazer a oração e comer, somente para checar se as quantidades de comida se equivalem. A dupla demonstra uma química tão forte que se torna impossível não torcer pelo sucesso de ambos, ainda que eles não ganhem seu dinheiro da forma mais “honesta” possível. Afinal de contas, não podemos dizer que quebrar vidraças e oferecer conserto em seguida seja a mais correta das atividades, mas até mesmo isto funciona como crítica à falta de oportunidades do capitalismo (algo que Chaplin voltaria a criticar em sua filmografia, especialmente na obra-prima “Tempos Modernos”).

Quando a mãe finalmente reencontra o bilhete há tempos deixado junto com o garoto, numa cena de arrepiar, sabemos que o emocionante momento do reencontro está prestes a acontecer. E neste instante, a mistura de sentimentos é inevitável no espectador. Ao mesmo tempo em que gostaríamos de ver aquela mãe sofrida finalmente reencontrar seu filho, sabemos que este reencontro também pode significar o fim da relação entre o garoto e Carlitos. E o reencontro é mesmo emocionante, ainda mais porque também podemos testemunhar a solidão do vagabundo, abandonado depois de perder seu garoto (e a câmera faz questão de diminuí-lo na tela neste instante). Felizmente, Chaplin arranca o sorriso do espectador novamente no final, quando podemos ver o reencontro do vagabundo com o garoto, já na casa da famosa atriz. Mas o que aconteceu depois? Fica a cargo de cada espectador imaginar à sua maneira. O mais importante é a mensagem deixada por Chaplin, sobre a importância da proximidade do adulto na vida de qualquer criança. Como diz o batido ditado popular: “Não basta ser pai, tem que participar”.

Chaplin emociona novamente ao narrar a história do vagabundo que, acidentalmente, se torna pai de um lindo garoto após encontrá-lo abandonado na rua. Com seu costumeiro talento para divertir e emocionar, ele brinda os cinéfilos com outra jóia preciosa. Mas ao contrário do vagabundo de “O Garoto”, que encontrou a felicidade por acidente numa esquina, nós sabemos que este belo presente não é um mero fruto do acaso, mas sim resultado do trabalho de um talentoso diretor, ator, roteirista e compositor, o genial Charles Chaplin.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira