PATTON – REBELDE OU HERÓI? (1970)

(Patton)

 

Videoteca do Beto #67

Vencedores do Oscar #1970

Dirigido por Franklin J. Schaffner.

Elenco: George C. Scott, Karl Malden, Michael Bates, Ed Binns, Stephen Young, Lawrence Dobkin, John Doucette, James Edwards, Frank Latimore, Richard Münch, Morgan Paull, Siegfried Rauch, Paul Stevens, Michael Strong, Karl Michael Vogler e Peter Barkworth.

Roteiro: Francis Ford Coppola e Edmund H. North, baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley.

Produção: Frank McCarthy.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A personalidade conturbada e a obstinação pela glória eram dois traços marcantes do famoso general norte-americano George Patton, que inspirou este “Patton, rebelde ou herói?”, dirigido por Franklin Schaffner e que faz um fascinante estudo deste ser humano complexo (e quem não é?). Talvez o único general dos aliados realmente temido pelos nazistas, era capaz de campanhas heróicas e históricas nos campos de batalha, mas falhava terrivelmente quando se relacionava com as pessoas, onde a “luta” não exigia tanques e estratégias, mas sim sensibilidade e humanismo.

O general George Patton (George C. Scott) assume o comando do exército norte-americano durante a segunda guerra mundial e, depois de seguidos triunfos, coloca sua reputação em risco ao agredir em público um soldado que passava por uma crise. Seus métodos inspiravam medo nos alemães, mas também provocavam ressentimentos nos aliados e, por isso, quase impediram que seu grande sonho se realizasse. Rebaixado, sem o comando do exército e impedido de participar do “dia D”, Patton é obrigado a rever seus conceitos, mas consegue retornar para comandar a caminhada do 3º exército americano pela Europa, que terminaria somente em território russo.

Logo no primeiro plano, em que o general aparece diante da imensa bandeira norte-americana, “Patton” mostra uma de suas principais forças: os enquadramentos perfeitos que exploram ao máximo a tela widescreen (cinemascope) e que serão responsáveis pelo visual deslumbrante do longa. Em seguida, os planos de cada detalhe do condecorado uniforme do general George Patton nos apresentam à outra característica marcante do filme: a obsessão de seu protagonista pela guerra e seu amor pelos campos de batalha. O discurso que segue apenas resume o pensamento típico norte-americano sobre a guerra e demonstra também o “ódio à derrota”, a cultura dos “vencedores”, que se por um lado motiva as pessoas a seguirem em busca de seus ideais, por outro é responsável por uma legião de frustrados espalhados pelo mundo por não terem conseguido alcançar o “sucesso” imaginado.

Escrito por Francis Ford Coppola e Edmund H. North (baseado em livros de Ladislas Farago e Omar N. Bradley), “Patton” cobre praticamente toda a trajetória do general homônimo durante a segunda guerra mundial e, apesar de glorificar o pensamento belicista na maior parte do tempo, se redime na última frase do filme (“Toda glória é efêmera”), ao questionar a validade de tudo aquilo. Além disso, o roteiro faz uma crítica sutil à imprensa sensacionalista quando Patton se esquece de mencionar os russos, provocando uma verdadeira tormenta nos jornais do dia seguinte. Coppola e North ainda inserem pequenos alívios cômicos que balanceiam bem a narrativa, como quando alguém diz para Patton que ele “não verá mais aviões alemães” e, no minuto seguinte, um bombardeio se inicia. Após este bombardeio, aliás, Patton se sente derrotado e o plano de Schaffner demonstra bem este sentimento, diminuindo o general na tela enquanto este imagina um duelo no estilo western com tanques de guerra. Patton é diminuído em cena ainda em outros momentos, como quando recebe as instruções num hotel de Londres e no último e solitário plano do longa. Schaffner cria ainda lindos planos nas exóticas locações situadas na Tunísia, Marrocos e Argélia, além de utilizar planos gerais que nos situam com precisão nas batalhas. O diretor também emprega repetidas vezes o zoom out, como quando os animais pressentem o ataque dos alemães no deserto ou quando Patton e Montgomery (Michael Bates) se cumprimentam em Messina, nos afastando lentamente da cena. Finalmente, o diretor acerta ao filmar por diversas vezes o general em ângulo baixo, especialmente em seus discursos inflamados, representando o poder que aquele homem tinha (ou pensava ter), mas peca ao apresentar um plano óbvio demais, quando mostra dois soldados mortos de mãos dadas após o general ouvir que a batalha foi hand to hand.

Como filme de guerra “Patton” é eficiente, graças também ao bom trabalho técnico coletivo. A montagem de Hugh S. Fowler trabalha muito bem nas batalhas, alternando entre os belos planos gerais e os planos que nos colocam muito próximos dos soldados, mas desliza ao estender demais algumas cenas desnecessárias, como os inúmeros discursos do general. Acerta ainda ao inserir uma espécie de telejornal, que atualiza as notícias e dá seguimento à narrativa sem parecer falso ou deslocado. Os figurinos recriam perfeitamente os uniformes dos soldados, tanto de americanos como de marroquinos e alemães, e a direção de arte de Urie McCleary e Gil Parrondo é responsável pelo contraste entre as luxuosas instalações alemãs e do alto comando norte-americano e, por exemplo, a desgastada base no Marrocos, com paredes descascadas e claramente deterioradas. Além disso, capricha nos detalhes que compõem o exército, como os equipados tanques de guerra, e em pequenos objetos que exemplificam a personalidade do general Patton, como o revólver pouco comum que ele carregava. O som é excepcional, se destacando nas batalhas, mas trabalhando de maneira eficiente, por exemplo, quando a oscilação do som da sirene dá a noção da posição do carro que traz o general em sua chegada ao Marrocos. A chegada dos tanques no primeiro combate também merece destaque, fazendo literalmente o chão tremer. Já a fotografia de Fred J. Koenekamp evolui do visual empoeirado do deserto, onde destaca cores como o verde musgo e o marrom, para o gélido terceiro ato em território russo, onde as cores frias e a própria neve criam um contraste interessante, que reflete também os sentimentos do general. Nas palavras de um alemão, a aproximação do fim da guerra significava também o seu próprio fim. Koenekamp acerta ainda quando envolve o general em sombras no momento em que ele é notificado que Bradley assumiu o comando, representando visualmente sua angústia. Finalmente, a trilha sonora do bom Jerry Goldsmith oscila entre momentos melancólicos, como quando um soldado americano morre num bombardeio, e momentos triunfais, como quando Patton volta a comandar uma divisão do exército.

Mas se é eficiente como filme de guerra, “Patton” se destaca mesmo como um minucioso estudo de personagem. Extremamente temido, o general George Patton era capaz de gerar pânico nos soldados, como quando um deles diz “Que Deus nos ajude” ao saber de sua chegada. O temor se justifica logo em sua primeira “vistoria” no local, quando arranca um pôster de mulher e ordena que todos vistam o uniforme do exército, incluindo os médicos. Quando questionado por um médico sobre a impossibilidade de utilizar o material de trabalho por causa do capacete, ele responde: “Faça dois furos”, mostrando seu lado pratico e nada humanista. E até mesmo seu lado espiritual era apenas mais uma arma em suas mãos, como fica evidente quando ele ordena que o capelão peça para Deus melhorar o clima. George Scott encarna o general com extrema competência, demonstrando sua obstinação pela vitória com fervor. A expressão séria, como quando se olha no espelho antes da primeira batalha contra os alemães, poucas vezes saía de seu rosto, mas Scott sabe bem os momentos em que a cena pede uma oscilação em sua feição, como quando Bradley questiona seus métodos pouco éticos e ele coça os olhos olhando para os céus. Sua capacidade de mover exércitos era proporcional à sua falta de tato, exemplificada em suas declarações, como quando compara o Marrocos a uma “mistura da Bíblia com Hollywood”. O único local capaz de aflorar emoções em Patton era mesmo o campo de batalha. Profundo conhecedor da história das guerras, sabia da importância de conhecer o inimigo e, por isso, lia o livro de seu adversário apenas para antecipar suas táticas. Na busca incessante pela vitória e pela glória, Patton utilizava todas as armas possíveis, ainda que pra isso tivesse que atropelar a ética e a moral, como quando pede para que seus lideres enviem novamente uma mensagem, somente para ganhar tempo e desobedecer à ordem que estava por vir, invadindo a cidade de Palermo. Era capaz de prejudicar seu aliado inglês e provocar a morte de soldados do próprio exército somente para chegar a Messina antes de seu aliado e ter toda a glória para si. E se o ser humano pouco importava pra ele, o que dizer então de pobres animais que atrapalhavam sua marcha em cima de uma ponte? A solução foi rápida. O horror da guerra não lhe comovia nem um pouco, como podemos notar no plano em que Patton sequer olha para os lados enquanto diversos soldados feridos passam ao redor. Já a “covardia” era capaz de lhe tirar do sério, fazendo com que ele humilhasse um soldado em crise no hospital, o que lhe custou muito caro depois. Nesta cena, aliás, Scott está estupendo, demonstrando com exatidão a raiva que Patton sentia diante daqueles que considerava covardes. É interessante notar também que nem mesmo os alemães acreditavam que uma agressão a um soldado fosse motivo para afastar o general. Após a queda, Patton se esforça muito para conter os nervos, como quando é provocado por um repórter e, após hesitar, resolve seguir em frente sem reagir. Mas o tato não era seu forte, como fica claro em sua fria despedida dos companheiros de batalha após o fim do conflito.

“Patton” pode parecer um filme de guerra e até cumpre bem esta função quando necessário, mas na realidade, o longa dirigido por Franklin J. Schaffner é um belo estudo de personagem (como sugere o próprio nome do filme), que esmiúça a mente de um dos grandes generais norte-americanos, sem jamais temer mostrar seus piores defeitos. George Patton não era um político, o ser humano pouco lhe importava e é apropriado que no último plano ele apareça pequeno e solitário, acompanhado somente por um cachorro. Em sua busca obstinada pela glória, ele descobriu que estas coisas são passageiras. O que realmente importa na vida talvez ele jamais tenha tido.

Texto publicado em 03 de Outubro de 2010 por Roberto Siqueira