ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO (1987)

(RoboCop)

4 Estrelas

 

 

Videoteca do Beto #214

Dirigido por Paul Verhoeven.

Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Dan O’Herlihy, Ronny Cox, Kurtwood Smith, Miguel Ferrer, Robert DoQui, Ray Wise, Felton Perry, Paul McCrane, Jesse D. Goins, Del Zamora, Lee de Broux, Calvin Jung, Rick Lieberman, Mark Carlton, Edward Edwards, Michael Gregory, Gene Wolande e Angie Bolling.

Roteiro: Edward Neumeier e Michael Miner.

Produção: Arne Schmidt.

RoboCop – O Policial do Futuro[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Num cenário dominado pela criminalidade, o surgimento de alguém capaz de oferecer real proteção aos cidadãos deveria ser algo a se comemorar. No entanto, oferecer proteção e permanecer dentro da lei não é algo tão simples quanto parece, ainda mais quando, dominadas pelo medo, as pessoas tendam a apoiar a justiça feita pelas próprias mãos, mesmo que, para isso, seja preciso deixar a lei de lado, num paradoxo complexo que oferece elementos para uma discussão quase infinita. Qual é a solução? O ideal seria uma sociedade que não gere criminosos, mas este é outro tema ainda mais complexo que não pretendo desenvolver aqui. E o que isto tem a ver com “RoboCop – O Policial do Futuro”? Simples. Apesar de uma leitura superficial apontar o longa de Verhoeven como um ótimo filme de ação, é perfeitamente possível extrair reflexões muito interessantes sobre a natureza da violência urbana e, principalmente, sobre o nosso comportamento diante dela.

Roteirizado por Edward Neumeier e Michael Miner, “RoboCop – O Policial do Futuro” nos leva a um violento futuro distópico no qual a cidade de Detroit é totalmente tomada pelo crime. É neste ambiente que o policial Alex J. Murphy (Peter Weller) é brutalmente assassinado por traficantes e se transforma na cobaia de um projeto ambicioso que cria um ciborgue de titânio, capaz de enfrentar praticamente sozinho os criminosos locais. No entanto, resquícios de memórias começam a surgir na mente dele e colocam em risco o projeto justamente pela presença de elementos humanos como a saudade e o desejo de vingança.

Auxiliado pelo design de produção de William Sandell e pela fotografia acinzentada de Jost Vacano, Paul Verhoeven concebe uma Detroit extremamente suja e deteriorada que, reforçada pelas notícias de crimes no telejornal e até mesmo pelos violentos comerciais de brinquedos, gera a atmosfera de apreensão e medo pretendida pelo diretor. Neste contexto de extrema violência urbana, fica mais fácil trazer o espectador para o lado da polícia, sem que este se importe muito com as razões pelas quais aquela sociedade caminhou naquela direção extrema, onde um casal de idosos é assaltado por um homem armado até os dentes e moças são atacadas brutalmente pelas ruas.

Desde a abertura, aliás, Verhoeven já estabelece o tom sombrio através da trilha sonora de Basil Poledouris, que sublinha perfeitamente a narrativa e ainda ilustra a adrenalina do espectador quando RoboCop começa a agir nas raras inserções da empolgante música tema. Sempre relevantes num filme futurista como este, os efeitos visuais também funcionam muito bem, ainda que algumas cenas já estejam datadas, especialmente quando envolvem o robô ED209, mas este é um pecadilho quase inofensivo diante do impacto visual proporcionado em “RoboCop – O Policial do Futuro”.

Notícias no telejornalSequência de apresentação de ED209Brutal assassinato de Murphy

É verdade que grande parte deste impacto vem através da violência gráfica que se tornou uma das marcas de Verhoeven, como atestam a sequência de apresentação de ED209 e o brutal assassinato de Murphy, conduzidos sem concessões pelo diretor, que faz questão de realçar o violento resultado de cada tiro contra as vítimas. Além disso, Verhoeven e seu montador Frank J. Urioste imprimem um ritmo seco e direto à narrativa, que torna tudo ainda mais realista por não recorrer a invencionices. Também marcante em sua filmografia, o senso de humor peculiar dá as caras em alguns momentos, como na reação de muitos dos funcionários presentes no massacre promovido por ED209 contra um deles na citada apresentação, na qual parecem nem se importar com o que acabaram de testemunhar. É um tipo de humor sarcástico, quase trágico, que nos faz rir mais pelo absurdo da situação do que por ter alguma graça ali. E é neste tipo de reação provocada no espectador que reside um dos maiores méritos de Verhoeven.

Ganhando destaque como a fiel parceira do protagonista, Nancy Allen compõe Lewis como uma policial determinada, demonstrando real preocupação com o parceiro e destoando das atuações unidimensionais de grande parte do elenco. Isto por que Ronny Cox encarna Dick Jones como um homem detestável, não deixando nenhum espaço para que o espectador compreenda suas motivações, assim como fazem Kurtwood Smith, Ray Wise, Paul McCrane e Jesse D. Goins na pele dos integrantes da gangue que assassina Murphy e comanda o tráfico local. Miguel Ferrer também não colabora ao compor Morton simplesmente como um ambicioso sem escrúpulos, ainda que diante de Dick Jones ele empalideça. Talvez a rara exceção fique por conta de Dan O’Herlihy, que vive o líder da PCO como alguém igualmente ambicioso e obviamente interessado apenas nos lucros que os projetos podem trazer, mas que ao menos tem sabedoria para ouvir todos os envolvidos nos projetos da empresa e demonstra alguma sensibilidade em momentos específicos.

Policial determinadaHomem detestávelLíder da PCO

É curioso notar, aliás, como o roteiro tem o cuidado de abordar aspectos interessantes envolvendo os personagens secundários, como a preocupação dos policiais com o surgimento do RoboCop (“Vão nos substituir?”) e a ligação de um empresário com o tráfico de drogas, ainda que estas questões sejam ofuscadas diante da quantidade de questionamentos que envolvem a criação do personagem título, seja pelo aspecto moral e ético, seja pela reação da plateia diante de suas ações.

Indicando o futuro trágico do policial vivido por Peter Weller através de um close na plaqueta com seu nome no armário que ecoa outra cena ocorrida minutos antes, Verhoeven e sua equipe criam um herói icônico com seu visual metalizado e extremamente funcional após ser transformado num ciborgue, reforçado pelo excepcional design de som que realça a imagem de policial indestrutível através do impacto de seus passos e dos pequenos sons que acompanham cada movimento dele. Além disso, os planos subjetivos durante a cirurgia e nos primeiros momentos da nova vida como RoboCop nos colocam na pele de Murphy e criam a identificação necessária para que o espectador se importe ainda mais com o protagonista, que se torna mais humano através das lembranças de sua família que tanto o atormentam, nos colocando em dúvida sobre a sua natureza. Seria ele somente um programa de computador ou ainda existia algum traço de humanidade ali? O que define a nossa condição humana, afinal? O corpo em que vivemos ou o que se passa em nossas mentes?

Futuro trágicoPlanos subjetivos durante a cirurgiaApresentado com toda a pompa e circunstância

Esta identificação torna mais intensas sequências como o chocante ataque dos policiais contra RoboCop, que se torna ainda mais marcante pela concepção visual de Verhoeven, com seus planos nos colocando sob a mira dos tiros e, posteriormente, envoltos na cortina de poeira que emana do chão. O diretor, aliás, trabalha seu protagonista com esmero desde sua impactante apresentação, quando o vemos rapidamente numa pequena televisão, depois andando atrás de um vidro que deturpa a visão, até que finalmente ele é apresentado com toda a pompa e circunstância. Não são raras as cenas que reforçam a aura icônica do personagem, como quando ele surge em frente às chamas que tomaram conta de um posto ou nos momentos em que a sombra indica sua chegada.

Com o espectador completamente conectado ao protagonista, fica fácil justificar toda e qualquer ação dele. Afinal de contas, numa sociedade tomada pela violência, quem não gostaria de ter um super policial para protegê-lo? E aí reside a grande reflexão provocada pela subversiva obra de Verhoeven. Quais são as nossas reações diante das ações de RoboCop? Obedecendo às suas diretrizes, em teoria ele não pode ser considerado culpado mesmo quando pune um criminoso cometendo outro crime, certo? Então assassinar um criminoso inescrupuloso como Dick Jones a sangue frio somente por que ele acabara de ser demitido e, portanto, não se enquadrava mais em sua quarta diretriz não tem problema algum? Quando RoboCop comete um assassinato, isto não o torna um criminoso também? O final eletrizante na siderúrgica repleto de momentos graficamente violentos (como um dos bandidos sendo corroído pelo lixo tóxico) e a tensa sequência seguinte na PCO nos faz vibrar com a vingança de RoboCop. Justificável? Estamos certos? Que cada espectador reflita a respeito, pois as questões abordadas por “RoboCop – O Policial do Futuro” levam o filme muito além de sua superfície.

Não que esta superfície deva ser menosprezada. Afinal, trata-se de um ótimo filme de ação, com o diferencial que, além das boas sequências regadas a tiros e muito sangue, consegue também levantar uma série de reflexões interessantes.

RoboCop – O Policial do Futuro foto 2Texto publicado em 25 de Novembro de 2015 por Roberto Siqueira

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SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (1989)

(Dead Poets Society)

 

Videoteca do Beto #65

Dirigido por Peter Weir.

Elenco: Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke, Josh Charles, Gale Hansen, Dylan Kussman, Allelon Ruggiero, Kurtwood Smith, James Waterston, Norman Lloyd, Carla Belver, Leon Pownall, George Martin, Joe Aufiery e Lara Flynn Boyle.

Roteiro: Tom Schulman.

Produção: Steven Haft, Paul Junger Witt e Tony Thomas.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Utilizando uma rígida escola preparatória como pano de fundo, “Sociedade dos Poetas Mortos” ensina valores importantes aos jovens, contestando as burocráticas formas de ensino e incentivando o pensamento e o raciocínio livre, sem se prender aos métodos e fórmulas das instituições educacionais. Além disso, critica claramente o autoritarismo e utiliza belos poemas de gênios como Shakespeare para embasar sua mensagem principal de liberdade de expressão. Se há algum problema no belo filme dirigido por Peter Weir, certamente é o seu final melodramático e previsível, que, por outro lado, funciona perfeitamente como agente motivador daqueles que assistem ao filme antes de assistir a tantos outros com estrutura narrativa semelhante.

Ex-aluno da tradicional escola preparatória Welton Academy, o professor John Keating (Robin Williams) retorna ao local como o novo professor de literatura. Seus métodos nada tradicionais, que buscam incentivar os alunos a pensarem por si mesmos, colidem com a rígida direção do colégio, mas inspiram os jovens alunos a ressuscitarem a velha “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Logo em sua primeira aula, o professor Keating causa grande impacto nos alunos, com seu método alternativo de lecionar. Através de belas mensagens, como o lema “Carpe Diem” (aproveitem o dia) sussurrado nos ouvidos dos jovens enquanto estes aprendem sobre os alunos do passado, o professor consegue despertar a paixão pela poesia e pela vida naquele grupo de alunos, ao mesmo tempo em que desperta a fúria de seus pais e dos diretores do colégio, que não aceitam seus métodos diferenciados. Com sua costumeira competência, Robin Williams transmite toda a segurança do professor naquilo que fala através do olhar sereno, sempre convicto. Alternando entre momentos de calmaria e viscerais explicações sobre seu método de olhar a vida, como quando sobe na mesa para ensinar os alunos a olhar o mundo sob outro prisma, o inteligente professor Keating é responsável por despertar o prazer pela leitura e, principalmente, a sede por realizar os sonhos naqueles jovens estudantes. E além de transmitir muito bem esta paixão do professor pela arte e pela vida, Williams ainda brinda o espectador com uma pequena (e engraçada) imitação de grandes atores do cinema, como a lenda Marlon Brando. Vale notar também como na excelente cena em que Keating pede para os alunos rasgarem a página de um importante autor, a personalidade de alguns deles fica evidente através da forma como eles agem. Enquanto alguns se empolgam e rasgam os papéis eufóricos, outros hesitam e até mesmo contestam o professor – o que refletirá num momento chave da trama, quando um aluno se volta contra a “sociedade” e contra Keating. Entre os destaques do jovem elenco, podemos citar a boa atuação de Robert Sean Leonard como o impetuoso e determinado Neil Perry. Extremamente carismático, o ator consegue transmitir o espírito jovial e aventureiro do personagem, que será determinante também para o seu trágico destino. Além de Leonard, também merece destaque o belo trabalho de Ethan Hawke, que interpreta muito bem o tímido Todd Anderson. De poucas palavras e evitando o contato direto através do olhar sempre baixo, o jovem Todd enfrenta enorme dificuldade para se adaptar à nova escola e o ator transmite este sentimento com enorme precisão. Repare, por exemplo, como Todd desvia o olhar quando confrontado por Keating na sala de aula, evidenciando sua enorme dificuldade de se expor e se relacionar com as pessoas. Carente, como fica evidente quando recebe um “presente” de seus pais, o jovem não tem forças para encarar a vida de frente, fechando-se completamente para tudo que está em sua volta. E será justamente a convivência com o excêntrico professor que fará com que ele consiga, à sua maneira, lidar melhor com o mundo ao seu redor. Finalmente, devo citar o unidimensional Sr. Perry, interpretado por Kurtwood Smith, que não consegue apoiar o filho nem mesmo quando testemunha o seu talento no palco, o que levará sua família a uma tragédia irreversível.

Além das boas atuações, “Sociedade dos Poetas Mortos” conta ainda com a eficiente direção de Peter Weir. Alternando entre os lindos planos no exterior da escola, que aproveitam a beleza do local, com o uso freqüente do close, que realça as reações dos alunos às palavras do professor, destacando as boas atuações do elenco, o diretor conduz a narrativa num ritmo lento, porém jamais cansativo. Além disso, ele utiliza a câmera para transmitir sensações ao espectador, como quando o professor Keating se empolga na tentativa de extrair o melhor de Todd. A câmera de Weir circula os personagens, fazendo com que o espectador sinta a mesma sensação de desorientação de Todd, que, atordoado, consegue esquecer onde está e mostrar seu talento. Finalmente, o diretor conduz muito bem a cena de maior impacto do longa, revelando lentamente um revólver no chão, seguido pelo plano da mão de Neil. Momentos depois, Weir diminui Todd na neve após a notícia da morte de Neil, refletindo o vazio no coração do jovem e a sensação de impotência diante da morte, numa cena melancólica, reforçada pela fotografia cinza de John Seale.

A fotografia de John Seale, aliás, é o grande destaque na parte técnica do longa. Repare, por exemplo, como no primeiro encontro na caverna, a fotografia escura cria um clima aconchegante e aproxima o espectador do grupo, como se ele fizesse parte daquela turma. A sensação de liberdade se mistura ao medo de ser encontrado pelos superiores da escola, justamente por causa da falta de visibilidade da cena. No segundo encontro na mesma caverna, a fotografia mais limpa e o local melhor iluminado refletem a segurança que eles já sentiam naquele local. Também merece destaque a direção de arte de Sandy Veneziano que, auxiliada pelos figurinos de Marilyn Matthews (o uniforme padrão dá um sentido de unidade ao grupo de alunos), ambienta com eficiência o espectador àquela rígida instituição, graças também a bela e melancólica trilha sonora de Maurice Jarre.

Mas apesar do trabalho eficiente de toda equipe, a força principal de “Sociedade dos Poetas Mortos” reside mesmo no bom roteiro de Tom Schulman que, através de pequenas mensagens motivacionais (como a citada cena em que Keating sobe na mesa), faz com que o espectador sinta uma enorme vontade de viver e buscar a realização de seus sonhos. O roteiro, auxiliado pela montagem de William M. Anderson e Lee Smith, também alterna muito bem entre estas mensagens motivacionais e os poemas, que funcionam como uma pequena homenagem à literatura e ao prazer pela leitura. Além disso, evidencia como o autoritarismo, tanto dos professores como dos pais, pode ser prejudicial ao desenvolvimento dos jovens. A rigidez no método de ensino e nos métodos de criação dos filhos servia apenas para causar temor naqueles jovens, inibindo qualquer manifestação de talento que pudesse surgir. Pais e professores confundiam, portanto, temor com respeito, fazendo com que eles fossem temidos, o que é bem diferente de ser respeitado e claramente prejudicial.

Dirigido e interpretado com eficiência e trazendo ainda uma bela mensagem, “Sociedade dos Poetas Mortos” funciona muito bem, elevando a auto-estima do espectador. O final, apesar de previsível, emociona e faz com que este se sinta recompensado ao ver os alunos se rebelarem contra a opressão, graças também a boa atuação do elenco, em especial de Hawke e Williams, que criam uma bela conexão na cena – afinal de contas, Keating foi o responsável pelos raros momentos de alegria na vida do jovem Todd. Por outro lado, passada a euforia da seqüência final, o espectador pensará racionalmente e perceberá que esta emoção, apesar de edificante, soa um pouco manipulada e previsível. Mas, assim como a assinatura de Todd na investigação de Keating, este é um escorregão menor diante de tantas qualidades.

Texto publicado em 11 de Setembro de 2010 por Roberto Siqueira