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AMORES BRUTOS (2000)

17 outubro, 2017

(Amores perros)

 

 

Videoteca do Beto #236

Dirigido por Alejandro González Iñárritu.

Elenco: Gael García Bernal, Emilio Echevarría, Goya Toledo, Álvaro Guerrero, Vanessa Bauche, Jorge Salinas, Adriana Barraza, Marco Pérez, Rodrigo Murray, Humberto Busto, Gerardo Campbell, Rosa María Bianchi, Dunia Saldívar, José Sefami, Lourdes Echevarría, Laura Almela, Ricardo Dalmacci, Gustavo Sánchez Parra e Patricio Castillo.

Roteiro: Guillermo Arriaga.

Produção: Alejandro González Iñárritu.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Estreia do mexicano Alejandro González Iñárritu na direção, “Amores Brutos” ganhou status de cult com o passar dos anos, ainda que não seja tão conhecido quanto sucessos do diretor como “Babel” ou “O Regresso”. No entanto, todo seu talento e de seu parceiro roteirista Guillermo Arriaga são escancarados ao longo das mais de duas horas de projeção, sugando o espectador pra dentro de uma narrativa pesada, é verdade, mas sempre muito interessante.

Apostando numa estrutura dividida em capítulos, “Amores Brutos” narra um trecho da vida de diversos personagens interligados por um evento trágico central, um acidente de carro que modifica a vida de todos os envolvidos. Quem provoca o acidente é Octavio (Gael García Bernal), que foge com seu parceiro Jorge (Humberto Busto) após esfaquear um rival numa rinha de cachorros como vingança ao tiro disparado contra o seu rottweiler Cofi – e que pretendia fugir com Susana (Vanessa Bauche), a esposa de seu irmão Ramiro (Marco Pérez) com quem tinha sérios problemas de relacionamento. No carro atingido por ele encontra-se Valeria (Goya Toledo), uma modelo em ascensão na carreira que acabara de ganhar um apartamento do namorado Daniel (Álvaro Guerrero), um homem casado que havia largado a esposa para viver com ela. Observando o acidente de perto, o mendigo Chivu (Emilio Echevarría), um ex-comunista que abandonou esposa e filha no passado para aderir a luta armada e que agora vive solitário como um matador de aluguel, na companhia apenas de seus cachorros.

Intercalar diversas linhas narrativas de forma não linear não é uma tarefa fácil, mas também não chega a ser uma grande novidade. Diversos diretores importantes já utilizaram muito bem este recurso ao longo da história. Entretanto, o que chama a atenção em “Amores Brutos” é como a escolha de Iñárritu enriquece a narrativa, criando um painel nem tão complexo, mas que explora com destreza o tema central da narrativa, que são os tortuosos conflitos familiares entre os personagens e a ambígua dualidade entre amor e violência. Voltaremos aos aspectos temáticos em instantes, mas antes vale destacar que esta destreza na condução da narrativa conta também com uma parte técnica impactante, através da escolha de câmeras de mão e de uma paleta crua que cria uma atmosfera realista coerente com o ambiente onde se passa a narrativa.

Observe, por exemplo, a sequência que abre o longa, uma perseguição alucinante nas ruas da caótica Cidade do México em que a câmera ágil de Iñárritu nos coloca dentro do carro sem jamais soar confusa, encerrada pelo surpreendente acidente que cria o ponto de conexão entre os personagens centrais da narrativa. A partir de então ganha destaque a montagem inteligente de Luis Carballar, Fernando Pérez Unda e o próprio Iñárritu, que transita entre os núcleos da narrativa de maneira bem definida, vez por outra cruzando os personagens de núcleos distintos. Ainda assim, é uma montagem mais convencional do que veríamos posteriormente em “Babel” e principalmente em “21 gramas”, os dois longas que fecham a trilogia da morte, como ficou conhecida.

Por sua vez, a trilha sonora de Gustavo Santaolalla surge em momentos pontuais, apostando tanto em músicas latinas quanto numa bela trilha instrumental que depois se tornaria marca de Iñárritu em seus filmes, ao passo que o design de som se destaca em momentos especiais, como quando capta a angústia dos envolvidos no acidente e, especialmente, ao transmitir a aflição de Valeria enquanto ouve os grunhidos de sofrimento de seu cachorro preso no assoalho.

Apostando em planos fechados que ampliam a sensação de angústia no espectador, especialmente quando realça o sangue jorrado por personagens e cachorros em vários momentos, Iñárritu sabe criar tensão também com técnicas mais elaboradas, como o plano-sequência que acompanha Octavio deixando seu cão baleado no chão e voltando para esfaquear o agressor, retornando ao carro para fugir largando a faca ensanguentada para trás. A própria cena do acidente é reconstituída em cada capítulo sob ângulos diferentes, destacando-se no último onde fica evidente o estrago feito pela colisão, numa sequência angustiante captada em detalhes pela câmera do diretor.

Aliás, neste terceiro ato a fotografia de Rodrigo Prieto torna-se ainda mais sombria, ilustrando o desfecho nada agradável dos personagens que permeiam a narrativa. Colabora também o design de produção de Brigitte Broch, que torna o capítulo final mais sufocante através do caótico local onde vive Chivu. Não que a casa de Octavio fosse muito melhor ou que o belo apartamento de Valeria não tenha se tornado claustrofóbico devido a condição dela, mas certamente os aposentos de Chivu ilustram muito bem a personalidade conturbada de seu dono. Na verdade, é curioso notar como Iñárritu consegue extrair humanidade de personagens tão egoístas, mas o fato é que praticamente todos eles conseguem fugir da unidimensionalidade, muito também pelo talento dos atores.

Claramente o tema central de “Amores Brutos”, os conflitos familiares norteiam todos os personagens. Enquanto o embate entre irmãos permeia o primeiro e o último capítulo, o desgaste do relacionamento de um casal domina o segundo e o próprio Chivu, personagem principal do longa, vive um drama familiar provocado por uma decisão idealista tomada no passado. E é justamente por humanizar personagens que tomam decisões pouco palatáveis ao público como tentar seduzir a cunhada ou abandonar esposa e filha que o filme merece aplausos. Nas mãos de um diretor menos competente, poderíamos ter um resultado desastroso e maniqueísta. Da mesma forma, o nada sutil paralelo entre os personagens e seus cachorros merece destaque por realçar que, assim como seus animais de estimação, o ser humano nada mais é do que uma combinação entre personalidade e o ambiente que o cerca, podendo se transformar num animal dócil criado sob uma vida luxuosa ou num mero lutador de rinhas treinado para sobreviver mais um dia.

Tomemos como exemplo o delicado cachorro de Valeria, a famosa modelo vivida por Goya Toledo. Surgindo inicialmente bela e adorável enquanto carrega o status de jovem estrela, ela lentamente vai se transformando numa pessoa amargurada e derrotada pelo grave acidente que destruiu sua carreira, chegando a perder o controle emocional e a atacar Daniel, que havia deixado a esposa para viver com ela. Da mesma forma, seu cachorro inicialmente dócil vai definhando ao ver-se preso naquele assoalho escuro e repleto de ratos, completamente a mercê do destino. De certa forma, Daniel também está preso a ela, pois não consegue encontrar uma forma de reconstruir o relacionamento. Mesmo assim, os três conseguem superar o sofrimento físico e psicológico daquela situação e sobrevivem. A boa química entre Goya Toledo e Álvaro Guerrero é importante para o sucesso deste capítulo, tão pesado dramaticamente. Por isso, mesmo tensos pelo absurdo da situação, conseguimos torcer pelo sucesso do casal. Observe, por exemplo, como momentos antes dele arrombar a porta e encontrá-la desacordada, o plano baixo nos coloca quase que na posição do cachorro caso ele ali estivesse, como que torcendo para que o pior não tivesse acontecido. O plano final com o outdoor vazio em frente ao apartamento dela escancara a crueldade do mundo da moda e encerra o segmento sem fazer concessões.

Antes disso, somos apresentados a Octavio, personagem que abre a narrativa na citada perseguição. Interessado na cunhada e irritado pelas agressões físicas sofridas por ela, ele passa a bater de frente com o irmão Ramiro, que além de péssimo marido é também um péssimo pai. Engana-se, porém, quem acha que não existe algum traço de humanidade naquela família, pois ainda que o faça de forma questionável, é Octavio quem se preocupa em oferecer o básico para a criança, sob o julgamento de sua mãe (Adriana Barraza), que claramente privilegia Ramiro. O relacionamento conturbado com a mãe é inclusive um ponto em comum entre Octavio e Susana, já que a esposa de Ramiro não tem apoio algum da mãe alcoólatra (Dunia Saldívar). Despojado e nada contido, Bernal dá vida a Octavio e consegue evitar que o espectador tenha raiva dele, mesmo quando segue tentando conquistar a cunhada no velório do irmão, sem sucesso. Na realidade ela raramente corresponde aos flertes dele, ainda que tenha se relacionado sexualmente, como na sequência que realça as fotografias da família feliz em primeiro plano enquanto eles estão ao fundo deitados no chão. Este plano é importante por mostrar que até mesmo Octavio e Ramiro tiveram seus momentos felizes, assim como Susana e seu marido, o que explica a escolha do nome do filho após a morte do pai.

Octavio e seu cachorro sobrevivem ao acidente, mas se separam. E é então que entra o capítulo derradeiro e mais importante para compreender o misterioso e ambíguo personagem central de “Amores Brutos”, que alterna entre momentos de crueldade e frieza e outros de emoção e humanidade. Quando finalmente somos apresentados a história de Chivu, logo na abertura do terceiro capítulo, começamos a entender como aquele homem era capaz de assassinar alguém a sangue frio e, instantes depois, derramar lágrimas ao ler a notícia da morte da esposa abandonada num jornal. Ou então, como ele conseguia abrir a porta de um carro acidentado e se preocupar apenas com o dinheiro da vítima e em salvar seu cachorro, somente para em outro momento não conseguir conter o choro ao rever o álbum da família, realçando a face humana daquele homem julgado por seu passado guerrilheiro e pelo presente nas ruas. Certamente, o mérito desta composição tão complexa e tocante é de Emilio Echevarría, que exala sensibilidade em todos os momentos citados.

E se o ambiente e a forma como somos criados se refletem na construção de nossa personalidade, como esperar que o cachorro de Octavio fizesse algo diferente do que fez? Como julgar um animal criado pura e simplesmente para brigar até exterminar seu oponente? Quando ele naturalmente assassina todos os outros cachorros de Chivu, o mendigo se recusa a matá-lo, talvez por se identificar com Cofi e saber que ele é apenas o resultado da criação que teve, do ambiente que o cercava e dos treinamentos que recebeu. Sob este ponto de vista, reforça-se o belo paralelo entre os cachorros e os seres humanos, já que, como citado, os animais que cruzam a narrativa vivem vidas espelhadas com as de seus donos – e assim como Chivu, Cofi também tem seus momentos de carinho quando está ao lado deles. Como fez com o cachorro, Chivu também deixa de matar Luis (Jorge Salinas) e resolve dar uma lição nos irmãos antes de abandonar aquela vida e rumar para outros horizontes. Sua mudança de visual obviamente reflete esta intenção, deixando barba e cabelo para trás junto com o passado criminoso. O show de Chivu termina no tocante recado que deixa para a filha por telefone, onde escancara seu humanismo, suas falhas, qualidades e sentimentos. Ele e o cachorro encerram a narrativa solitários, num plano obscuro que realça como ambos destruíram todos ao seu redor.

Traçando um paralelo com os cachorros do título original para abordar conflitos familiares e a natureza ambígua do ser humano, Iñárritu cria um interessante painel que oscila entre a amargura e a esperança, demonstrando que podemos encontrar traços de humanidade mesmo onde só enxergamos raiva e rancor. Aquela esquina mudou a vida de todos os personagens e também o destino da carreira de Iñárritu. A diferença é que, no caso do talentoso diretor mexicano, a mudança não foi acidental.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2017 por Roberto Siqueira

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