A VIAGEM DE CHIHIRO (2001)

(Sen to Chihiro no Kamikakushi)

 

 

Videoteca do Beto #243

Dirigido por Hayao Miyazaki.

Elenco: Vozes de Rumi Hiiragi, Miyu Irino, Yumi Tamai, Mari Natsuki, Bunta Sugawara, Ryunosuke Kamiki, Takashi Naitô, Yasuko Sawaguchi, Akio Nakamura, Koba Hayashi, Tatsuya Gashuin, Yo Oizumi, Tsunehiko Kamijô, Takehiko Ono, Ken Yasuda, Michiko Yamamoto, Kaori Yamagata, Shirô Saitô, Shigeyuki Totsugi e Yayoi Kazuki.

Roteiro: Hayao Miyazaki.

Produção: Toshio Suzuki.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Após o sucesso de “Princesa Mononoke”, o talentoso diretor japonês Hayao Miyazaki chegou a anunciar sua aposentadoria, tamanho era seu esgotamento físico e mental, mas felizmente ele desistiu da ideia. Ironicamente, seu filme seguinte se tornaria seu maior sucesso comercial, angariando grande bilheteria ao redor do mundo e conquistando prêmios de prestígio internacional como o Oscar de Melhor Animação e o Urso de Ouro em Berlim. Mas tamanho hype em torno do filme se justifica? A resposta é sim. Nos transportando para um universo fantástico repleto de figuras estranhas e imagens belíssimas, “A Viagem de Chihiro” aborda em suas diversas camadas temas muito interessantes como a família, o relacionamento entre os seres humanos e o sempre doloroso processo de amadurecimento de uma criança.

Como de costume em sua carreira, Miyazaki acumula as funções de diretor e roteirista para narrar a história de Chihiro (voz de Rumi Hiiragi), uma garota de 10 anos que muda de cidade com seus pais. Ao se aproximarem da nova casa, eles descobrem um parque aparentemente abandonado, mas a existência de um enorme banquete indica que ainda existia atividade ali. Seus pais então resolvem comer e, ao cair da noite, são transformados em porcos, levando a garota a se aventurar por um mundo desconhecido e, com a ajuda de Haku (voz de Miyu Irino), encontrar uma forma de reverter o ocorrido, mas para isso ela terá de trabalhar na casa de banho de Yubaba (voz de Mari Natsuki) onde deuses vão para relaxar.

Com suas linhas simples e belas no tradicional formado em 2D, “A Viagem de Chihiro” traz todas as características clássicas do Anime, como os olhos grandes que conferem mais expressão aos personagens, misturadas aos elementos fantasiosos que permeiam praticamente toda a carreira de Miyazaki. Hábil em nos provocar simultaneamente desconforto e fascínio, o diretor sabe exatamente onde quer nos levar desde os primeiros planos em que acompanhamos a garota entediada discutindo com os pais a caminho da nova casa. A hesitação da tímida garota antes de acompanha-los quando param o carro e a forma como ela é sempre deixada para trás indicam que aparentemente eles não dão muita atenção à ela, que parece assustada com tamanha mudança. Indícios de solidão? Talvez, mas o fato é que aquele comportamento nos deixa desconfortáveis e isso é crucial para a sequência que virá a seguir.

Assim, quando os pais dela passeiam pelo parque e sentam-se para desfrutar do banquete deixado no balcão do restaurante, as reações de Chihiro rapidamente nos levam a desconfiar que algo estava errado ali e, neste momento, a trilha sonora de Joe Hisaishi indica que algo ruim iria acontecer – e de fato acontece, para desespero da garota, agora largada a própria sorte após a transformação dos pais. O belo visual do parque dá lugar então às imagens assustadoramente fantasmagóricas e aos tons sombrios que chegam com a noite, indicando o caminho que a narrativa seguiria dali em diante e dando início ao festival de personagens sobrenaturais, como fantasmas, bruxas, espíritos divinos e animais que caminham como humanoides, entre outros.

Passamos então a viajar pelos ambientes extremamente bem detalhados e criativos da mente de Miyazaki – e do seu designer de produção Norobu Yoshida – sob a ótica assustada da garota e, assim como ela, sentimos segurança apenas quando Haku surge para ajudá-la a sobreviver naquele mundo bizarro. Misturando ambientes caóticos com outros formados por linhas retas características da arquitetura japonesa, como o quarto onde Chihiro dorme, o diretor nos leva por cenários ameaçadores como a longa escada que Chihiro desce cuidadosamente até cair e provocar um susto no espectador, amplificado pela trilha sonora que sobe o tom neste instante. A fotografia sombria de Atsushi Okui realça a tensão do momento enquanto ela se dirige as caldeiras onde encontrará o enigmático Kamaji (Bunta Sugawara) e o visual seguirá assim até que ela se adapte ao lugar e finalmente tenha a oportunidade de visitar os pais num chiqueiro, quando finalmente temos cores vibrantes através das flores do campo que ela cruza e das luzes do sol que preenchem a tela, ilustrando o sentimento de empolgação da garota por finalmente poder ver onde eles estavam.

Conduzindo a narrativa com tranquilidade e diversos momentos contemplativos, Miyazaki e seu montador Takeshi Seyama também sabem a hora de acelerar e de provocar medo, criando uma verdadeira obra-prima do terror infantil que funciona também para adultos, ainda que fugindo das convenções do cinema ocidental. Assim, não são poucos os momentos que causam desconforto. Seja pelos cenários assustadores, pelas pessoas transformadas em animais, pelas cabeças que andam sozinhas ou pelo bebê gigante, a sensação que temos é de estar viajando por um universo completamente desconhecido. Seria tudo fruto da imaginação de Chihiro ou de fato ela foi transportada para um exótico plano espiritual como indica o título em inglês e o laço em seu cabelo no final? Não sabemos e nem precisamos saber, pois neste caso o mais importante é a jornada que esta fábula nos proporciona.

Existem diversas camadas de apreciação em “A Viagem de Chihiro”, que funciona tanto como uma aventura sombria quanto como uma narrativa repleta de reflexões interessantes. Não são poucos os momentos em que Miyazaki questiona, por exemplo, a nossa cultura consumista, como quando os pais de Chihiro se entregam ao banquete disponível na cidade abandonada e são punidos por isso ou quando os funcionários da casa de banho se aglomeram e oferecem comida em troca do ouro de Sem Rosto (voz de Akio Nakamura). A busca por aceitação é outro tema muito presente no longa, evidenciado pelo próprio Sem Rosto que busca desesperadamente chamar a atenção de Chihiro enquanto ela, ao contrário de tantos outros, não se vende ao seu ouro. Da mesma forma, o bebê gigante de Yubaba queria apenas a atenção da mãe, que parece entender que amor e carinho podem ser substituídos por presentes e luxo, assim como a jornada de Chihiro em busca dos pais não se restringe ao plano fantasioso, já que no mundo real nós sabemos que a relação entre eles era distante.

E já que mencionei Yubaba, é importante ressaltar como apesar do visual assustador dela e de sua irmã Zeniba (voz de Mari Natsuki), Miyazaki evita vilanizar as personagens e acaba fazendo com que o espectador compreenda o universo delas e suas motivações, assim como Kamaji e seus vários braços que remetem a uma aranha provocam mais estranheza do que medo, servindo também para ilustrar como ele era explorado por ser o mais dedicado funcionário do local. Existem ainda muitos momentos escatológicos, como quando Sem Rosto vomita os seres que havia engolido ou quando o nojento espírito do mau cheiro entra na casa de banho – repare como a fotografia amplia nossa sensação de angústia com seus tons marrons para então dar lugar ao verde das ervas, que não apenas simboliza a esperança agora que o rio estava limpo, como confere uma sensação de alívio ao espectador ao ver toda aquela sujeira ir embora. A mensagem contra a destruição causada pela poluição dos rios é assimilada com facilidade por crianças e adultos nesta passagem que liberta o espírito do rio (voz de Koba Hayashi), reforçando a visão ambientalista tão presente nos filmes de Miyazaki.

As belas imagens durante a viagem de trem até a casa de Zeniba são marcadas pelo silêncio dos personagens que nos permite contemplar o visual e assimilar o que assistimos até então. Estas pequenas pausas eram muito valorizadas pelo diretor, que entendia que o espectador, assim como os personagens, precisava de tempo para respirar (se quiser saber mais sobre o tema, sugiro o excepcional vídeo de Max Valarezo no canal “Entre Planos”). Instantes depois, Haku, que havia adotado a forma de um dragão com rosto de cachorro que surge do mar, volta para ajudar Chihiro e protagonizar a linda cena do voo – outra marca da carreira de Miyazaki –, que traz uma importante revelação sobre a conexão entre eles no passado. A aceitação procurada por ambos finalmente se concretizava e Chihiro estava pronta para deixar aquele mundo e voltar ao seu lar.

Existe ainda uma teoria que defende um subtexto muito mais pesado em “A Viagem de Chihiro”, que seria facilmente identificado pelos japoneses e não tanto por pessoas da cultura ocidental. Segundo esta leitura, o letreiro da casa de banho (que significa “água quente”) remete aos locais onde jovens japonesas ajudavam nos banhos dos homens e também se prostituíam durante o período Edo da história do Japão. Da mesma forma, as mulheres que dirigiam estes locais eram chamadas de Yubaba (algo como “velha da água quente”), exatamente como a personagem que comanda a casa de banho no filme. Some a isso o fato de Chihiro mudar de nome quando chega lá, a forma como Yubaba pede para que ela atenda bem seu cliente e a insistência de Sem Rosto em oferecer dinheiro à ela e temos uma interpretação incrivelmente mais densa da fábula de Miyazaki, que inclusive teria confirmado em entrevistas que de fato era uma crítica à indústria do sexo e a prostituição infantil tão forte na cultura japonesa (procurei estas entrevistas e não encontrei, mas fica o registro do que li e ouvi em fontes confiáveis como o Podcast do Cinema em Cena alguns anos atrás).

Através de imagens poderosas e seres fascinantes, “A Viagem de Chihiro” nos transporta pela jornada de amadurecimento de uma garota tímida e assustada diante de uma fase de transição em sua vida de maneira mágica, nos permitindo desfrutar de um mundo fantástico e de quebra provocando reflexões. Passando ainda por críticas ao consumismo exagerado e a tradicional defesa do meio ambiente que caracteriza sua obra, Miyazaki justificava brilhantemente o retorno da aposentadoria e construía uma ponte com o ocidente que permitiria a muitos cinéfilos terem acesso à sua maravilhosa obra – o que não deixa de ser mais uma jornada bem sucedida de aceitação.

Texto publicado em 12 de Maio de 2019 por Roberto Siqueira

 

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