CORTINA RASGADA (1966)

(Torn Curtain)

 

Filmes em Geral #64

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Paul Newman, Julie Andrews, Lila Kedrova, Hansjörg Felmy, Wolfgang Kieling, Ludwig Donath, Günter Strack, David Opatoshu, Gisela Fischer, Mort Mills, Carolyn Conwell, Arthur Gould-Porter, Tamara Toumanova e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Brian Moore.

Produção: Alfred Hitchcock.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Apesar de algumas boas cenas, “Cortina Rasgada” não consegue empolgar o espectador, especialmente em sua metade final, repleta de situações irreais que buscam justificar a fuga dos “mocinhos”. Ainda assim, Hitchcock consegue construir bons momentos, utilizando a guerra fria como pano de fundo deste thriller de espionagem, que conta também com o ótimo Paul Newman, desta vez numa atuação sem grande inspiração.

O cientista americano Armstrong (Paul Newman) viaja para Copenhagen para participar do congresso internacional de física acompanhado de sua noiva Sarah (Julie Andrews), que descobre, já em território dinamarquês, que o noivo está indo para a Alemanha Oriental, na tentativa de levantar fundos para seu projeto rejeitado nos EUA. Decepcionada com a traição do marido ao país, ela decide segui-lo.

Escrito por Brian Moore, “Cortina Rasgada” coloca seu protagonista numa situação complexa, utilizando a guerra fria como pano de fundo para o thriller de espionagem que guia a narrativa. Dividida claramente em duas partes, a trama inicia abordando a suposta traição de Armstrong ao seu país, mas toma outro rumo completamente diferente quando ele revela que é, na verdade, “quase” um agente secreto americano infiltrado. Apesar do roteiro de Moore ir de encontro ao ufanismo norte-americano tão comum durante a guerra fria, Hitchcock inteligentemente evita discutir política, focando seus esforços na criação de situações que deixem a platéia em frangalhos. Ainda assim, o mestre aproveita para expor alguns problemas da época, como a dificuldade de entrar e sair da Alemanha Oriental. Mas é na condução da narrativa e nos movimentos de câmera que o diretor se destaca, como quando realça o livro retirado por Armstrong e a letra “” através do zoom quando ele se tranca no banheiro, indicando a importância deste “codinome” na trama – algo reforçado também pela trilha sonora de John Addison, que substituía Bernard Herrmann após anos de parceria entre o compositor e Hitchcock. Além disso, Hitchcock explora bem os belos cenários da Berlin Oriental, como os parques, o museu e a casa de campo onde se encontra o misterioso “”.

Apesar da falta de química entre o ótimo Paul Newman (que se desentendeu nas filmagens com Hitchcock porque queria seguir o método e não as orientações do diretor) e Julie Andrews, a relação inicial do casal serve para criar empatia com a platéia e, desta forma, fazer com que o espectador se importe com o risco que o casal corre em território alemão. E mesmo estranhamente apático, Paul Newman parece sempre esconder algo, o que é essencial para que o personagem funcione e deixe o espectador em dúvida quanto as suas reais intenções. Por outro lado, a loira da vez Julie Andrews demonstra bem o incômodo de Sarah com a “traição” de Armstrong, algo destacado pelo diretor através de um close na reação dela ao vê-lo discursando na Alemanha Oriental. Em outro momento, um curioso plano distante nos mostra um diálogo entre o casal, onde não precisamos escutar o que Armstrong fala, pois já sabemos que ele está revelando a verdade pra ela – e a reação dela apenas confirma isto. E apesar do desempenho irregular da dupla principal, o elenco de “Cortina Rasgada” apresenta dois destaques especiais. Wolfgang Kieling está excelente na pele de Gromek, sempre convicto e convincente, e, com poucos minutos em cena, Lila Kedrova entrega uma boa atuação como a Condessa Luchinska.

Um verdadeiro mestre na arte de criar suspense, Hitchcock constrói um momento bastante tenso somente através do som dos passos de Armstrong e Gromek durante uma perseguição no museu de Berlin. O diretor acerta ainda ao utilizar o idioma alemão, que confere realismo à narrativa e ainda nos deixa na mesma situação do protagonista, sem entender o que as pessoas falam. E graças à montagem de Bud Hoffman, que imprime um ritmo interessante ao longa, o diretor consegue criar uma empolgante seqüência quando alterna entre a investigação sobre a morte de Gromek e a conversa de Lindt e Armstrong sobre a fórmula secreta, ampliando a tensão na platéia, que é reforçada também pela trilha dinâmica de John Addison. E apesar dos esforços de Hoffman e Hitchcock, a segunda parte da narrativa é claramente inferior a primeira. Após a revelação do segredo de Armstrong e a saída de Gromek, a narrativa enfraquece e se torna menos interessante, limitando-se a mostrar os malabarismos do casal na tentativa de furar a cortina de ferro e voltar ao seu país. Ainda assim, é interessante acompanhar a tensa fuga de Armstrong de um prédio, após o professor Lindt descobrir sua verdadeira intenção.

Verdadeira intenção? Pois é. Como esperado (até mesmo pela postura de Newman), Armstrong escondia algo, que é revelado em sua conversa com “Pí” num belo passeio pelo campo. Só que ao voltar para a casa de “”, ele encontra Gromek, o agente alemão designado para persegui-lo, que descobre a farsa e tenta entregá-lo para os alemães, mas é interrompido pelo ataque de Armstrong e da dona da casa, numa cena violenta e realista. Lenta e detalhista, a cena da morte de Gromek demonstra a dificuldade para matar um homem naquelas condições. Por outro lado, retira cedo demais da narrativa um dos personagens mais interessantes. Além desta cena, Hitchcock conduz muito bem a seqüência do ônibus, com cada parada funcionando como agente provocador de mais tensão, justamente porque podemos ver o outro ônibus se aproximando ao fundo. A cada nova parada, o coração do espectador parece acelerar, e o mestre sabe disto, prolongando ao máximo o momento. Finalmente, o clímax acontece no teatro, com a câmera de Hitchcock nos mostrando a chegada dos policiais enquanto Armstrong tenta se esconder no meio da platéia. A solução simples e inteligente para o caso, com o grito de “fogo!” e a fuga nas cestas, encerra bem a trama. Mas, como podemos notar, as boas cenas de “Cortina Rasgada” não são suficientes para torná-lo um grande filme. Se considerarmos que este é um filme dirigido por Hitchcock, terminamos a sessão com a sensação de que faltou algo.

“Cortina Rasgada” é um thriller de perseguição e espionagem interessante, mas longe da qualidade vista em muitas outras obras de Hitchcock, talvez pela atuação desinteressada de Newman, talvez pela propaganda política dos Estados Unidos. O fato é que o longa não figura entre os melhores do mestre do suspense. Ainda assim, não podemos dizer que é um filme ruim. Trata-se de um entretenimento menor, o que, em se tratando de Alfred Hitchcock, chega a ser decepcionante.

Texto publicado em 14 de Junho de 2011 por Roberto Siqueira