HOOLIGANS (2005)

(Green Street Hooligans)

3 Estrelas 

Filmes em Geral #97

Filmes Comentados #6 (Comentários transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012)

Dirigido por Lexi Alexander.

Elenco: Elijah Wood, Claire Forlani, Charlie Hunnam, David Alexander, Leo Gregory, Marc Warren, Joel Beckett, Geoff Bell, Kieran Bew, David Carr, Brendan Charleson, Jacob Gaffney, Henry Goodman, Christopher Hehir, Terence Jay e Ross McCall.

Roteiro: Dougie Brimson, Lexi Alexander e Josh Shelov.

Produção: Deborah Del Prete, Gigi Pritzker e Donald Zuckerman.

Hooligans[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Um tema muito interessante é discutido de forma duvidosa neste “Hooligans”, filme em que o diretor Lexi Alexander perde uma boa oportunidade de explorar melhor o universo das torcidas organizadas. Apesar de tentar ilustrar a visão peculiar destes integrantes de torcidas, Alexander parece evitar tratar o tema com a seriedade que ele merece, buscando justificativas para cada ato e, desta forma, esvaziando bastante a discussão que o longa poderia suscitar. É uma pena, ainda mais se considerarmos a escassez de filmes a respeito.

Escrito pelo próprio Alexander ao lado de Dougie Brimson e Josh Shelov, “Hooligans” tem inicio quando Matt Buckner (Elijah Wood) decide visitar a irmã Shannon (Claire Forlani) em Londres após ser expulso injustamente da Universidade de Harvard. Assim que chega à capital inglesa, ele faz amizade com o cunhado Pete (Charlie Hunnam), que lhe apresenta aos integrantes de uma temida torcida local. Em pouco tempo, Matt passa a conhecer melhor e se envolver neste universo marcado pela violência.

Apesar da premissa interessante, o roteiro de “Hooligans” escorrega em tantos aspectos que fica até difícil citar todos eles. Indo desde diálogos fraquíssimos como aquele em que Pete e Matt debatem sobre as diferenças entre seus países, passando pela ridícula brincadeira com o Sr. Miyagi (como o jovem Matt poderia inspirar um filme de 1984 é algo que nunca compreenderei) e chegando ao diálogo expositivo entre Matt e Shannon que só serve para nos mostrar os conflitos da família e a razão da garota morar em Londres, o roteiro é um verdadeiro festival de problemas. Observe, por exemplo, como o diário de Matt é citado somente após uma hora de projeção e praticamente na cena seguinte já tem uma função importante na narrativa, revelando uma falta de cuidado preocupante dos roteiristas. Pra finalizar, é difícil entender como Shannon, mesmo casada e já com um filho, nunca contou para o marido que o irmão estudava jornalismo em Harvard. Por mais que estivessem distantes, ter um irmão estudando em Harvard é algo que qualquer pessoa se orgulharia de contar, portanto, fica evidente que esta “revelação” surge apenas para justificar o conflito antecipado entre as torcidas rivais num bar.

Bares (ou pubs) que surgem logo no início, quando Alexander tenta criar empatia entre o grupo e o espectador ao mostrá-los reunidos, tomando cerveja e cantando as músicas da torcida – só que a lembrança da primeira cena de “Hooligans” nos recorda que eles não são tão amáveis assim. Mas se acerta ao aproximar o grupo da plateia, Alexander erra justamente nas cenas que deveriam ser a força central da narrativa. Com sua câmera trêmula, cortes rápidos e a trilha sonora acelerada de Christopher Franke, o diretor deixa claro desde a primeira briga que não tem grande controle da misé-en-scene. Já o segundo confronto, apesar de também ser agitado, é melhor que o primeiro, com cenas mais realistas e menos picotadas. Entretanto, ao utilizar menos quadros por segundo para acelerar a imagem, Alexander torna a briga tão confusa que chega a provocar náuseas na plateia. Ao menos a briga em Manchester é bastante realista quanto às agressões e os ferimentos, apesar de ser implausível (como um pequeno grupo venceria 40 homens daquela forma?). Por outro lado, a sequência da invasão do bar no esperado confronto entre os torcedores do West Ham e do Millwall é bastante tensa e bem conduzida pelo diretor.

Reunidos tomando cerveja e cantando as músicas da torcidaBriga em ManchesterInvasão do barMas Alexander não erra sozinho. A montagem de Paul Trejo também falha bastante ao cortar muitas cenas de forma abrupta, não deixando o espectador curtir o momento, como ocorre, por exemplo, quando os garotos freiam um trem e, repentinamente, já estamos acompanhando o grupo descendo as escadas correndo. Por outro lado, a montagem se destaca no sorteio dos grupos da FA Cup, onde podemos acompanhar todos em seus respectivos postos de trabalho ansiosos e a explosão de alegria com o resultado, que dá a exata noção da importância do confronto. Vale destacar ainda a fotografia azulada de Alexander Buono, que ilustra a frieza daqueles personagens, assim como as ruas sujas evocam uma Londres coerente com o submundo dos hooligans, o que é mérito do design de produção de Rosanna Weswood – repare também a sigla da torcida GSE (Green Street Elite) pichada na parede do banheiro do bar, num capricho que confirma o bom trabalho dela.

Se não conseguem compensar as falhas do roteiro, as atuações também não comprometem em nada a narrativa. Inicialmente inexpressivo como o personagem deve ser, Elijah Wood se transforma ao longo de “Hooligans” e consegue transmitir o envolvimento de Matt com aquele mundo de maneira convincente. Assim, se no principio ele sequer tem forças para lutar contra o colega influente que o incrimina em Harvard, com o passar do tempo Matt passa a reagir diante das provocações de Bovver e até mesmo demonstra o ressentimento diante do pai ausente, numa conversa direta que termina com Carl Buckner (Henry Goodman) desistindo de falar algo para o filho, se limitando a abraçá-lo por saber que de nada adiantaria tentar mudar seu pensamento agora. Vale citar ainda dois bons momentos de Wood. O primeiro quando Shannon diz que ele está fazendo o correto ao decidir voltar para os EUA, mas seu olhar fixo para a janela demonstra que seu pensamento está em outro lugar; e o segundo no ótimo diálogo com o Major (Marc Warren) dentro do bar, que apresenta um pouco do valor moral e ético que tanto falta ao restante da narrativa.

Chorando praticamente o tempo inteiro, a Shannon de Claire Forlani tem raros momentos de destaque, como quando se revolta com o cunhado após o ataque ao seu marido ou quando cerra a sobrancelha sutilmente ao ouvir Matt explicar sua expulsão de Harvard, como se estivesse duvidando da versão do irmão. Por sua vez, Geoff Bell demonstra a agressividade de Tommy Hatcher desde sua excelente introdução num restaurante, na qual a mulher que acompanha o rapaz agredido comete o grave erro de incitá-lo a responder às provocações dele. Mas nem mesmo isto impediu que Bovver traísse seu grupo e, o que é pior, por motivos nada convincentes, já que seu ciúme diante da amizade entre Pete e Matt e sua desconfiança do americano não justificam esta atitude extrema. Leo Gregory, aliás, tem um bom desempenho como Bovver, com seus poucos sorrisos, olhar desconfiado e postura defensiva típica de quem carrega uma fúria interior, que tornam o personagem crível apesar do fraco roteiro.

No entanto, quem rouba a cena mesmo é Charlie Hunnam na pele do despojado Pete Dunham. Falastrão e destemido, ele intimida ao mesmo tempo em que chama a atenção desde sua primeira aparição na casa de seu irmão, quando chega com as mãos no bolso e já abrindo a geladeira, evidenciando seu estilo de vida despreocupado. Violento ao extremo, ele também encontra espaço para a gentileza ao ceder o lugar para uma mulher no metrô, demonstrando um curioso código de ética que remete aos mafiosos, reforçado pelo diálogo em que afirma gostar de brigar, mas não de sair atirando na rua e matando meninas de oito anos como fazem as gangues norte-americanas. Mas nem mesmo frases como “não se chuta alguém que está caído, independente do que ele tenha feito” servem para amenizar as péssimas ações de sua torcida, é bom deixar claro.

Sorteio dos grupos da FA CupPensamento está em outro lugarArrependido Bovver desabaUm dos grandes momentos da atuação da dupla Hunnam e Gregory acontece dentro do hospital, na realista discussão em que Pete demonstra sua ira, enquanto um arrependido Bovver desaba, seguida pela reação descontrolada de Shannon, que agride o cunhado enquanto este sequer esboça reação, por saber que ela tinha todos os motivos do mundo para ter raiva dele. Motivos que faltam para justificar a ida de Shannon ao local do confronto final. Apesar de amar o irmão, dificilmente alguém arriscaria a vida de seu filho daquela forma entrando numa briga de torcidas organizadas.

Escorregando principalmente na questão ética ao justificar atos de vandalismo através de questões pessoais, “Hooligans” parece tentar maquiar a triste realidade: essas torcidas não precisam de motivos para fazer o que fazem. Se terminasse na ida dos irmãos para o Aeroporto após a morte de Pete, o filme até poderia provocar uma interessante reflexão sobre este universo violento, mas infelizmente a desnecessária vingança de Matt contra Van Holden (Terence Jay) e o plano final com ele cantando pelas ruas parecem exaltar a experiência que ele viveu no hooliganismo, o que é muito ruim. Seria mais interessante e daria uma densidade maior ao que vimos se ele refletisse sobre tudo que perdeu somente por que um grupo de pessoas quer brigar com outro grupo. E o que é pior, por causa de um time de futebol.

PS: Comentários divulgados em 05 de Outubro de 2009 e transformados em crítica em 21 de Dezembro de 2012.

Hooligans foto 2Texto atualizado em 21 de Dezembro de 2012 por Roberto Siqueira

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14 Respostas to “HOOLIGANS (2005)”

  1. Rocky Balboa « Cinema & Debate Says:

    […] Finalizando a semana do esporte, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Rocky Balboa”. Para ler a crítica, basta clicar aqui. […]

  2. Hooligans « Cinema & Debate Says:

    […] Continuando a semana do esporte, informo que transformei em crítica os comentários divulgados anteriormente sobre “Hooligans”. Para ler a crítica, basta clicar aqui. […]

  3. Filipe Assis Says:

    acho q a idéia dos produtores foi fazer um filme sim sobre torcidas organizadas e os violentos conflitos entre elas, mas acima disso, um filme que trata da amizade que se desenvolveu entre dois caras completamente diferentes. tambem nao concordo com essa violencia gratuita, mas reconheço que ela existe e é constante no mundo das torcidas organizadas – o que é uma pena. em minha opinião, o filme também prega a lealdade a seus amigos – o que inclui não cair fora quando a situação fica tensa e voce pode até se machucar. tirei boas liçoes do filme e o considero um filme medianamente bom.

    parabens pelo site. já é leitura obrigatória para mim.
    qdo possível comentarei outros.
    abraço

    • Roberto Siqueira Says:

      Muito obrigado pelo elogio Filipe.
      Fique à vontade para comentar sempre que quiser.
      Abraço.

  4. felipe17 Says:

    sim.Porque é uma questão de paixão e ele aprendeu a defender o que ele ama com a vida

  5. felipe03 Says:

    sim.Porque é uma questão de paixão e ele aprendeu a defender o que ele ama com a vida

  6. felipe03 Says:

    eu concordo com varias coisas do texto mas a Shannon tinha contado para o steve que o irmão estudava em Harvard,só naum contou que ele estudava jornalismo pq ela fala:”era isso que ele estudava la”.
    e para ele foi bom ser um hooligan pq ele deixou de ser um nerd troxa

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Felipe, seja bem vindo ao Cinema & Debate.
      Respeito sua opinião, mas neste caso acho que ser “trouxa” é bater nas pessoas por causa de algum clube.
      Grande abraço.

  7. Bruno Verme Says:

    Acho que vc n’ao entendeu nada do valor
    das coisas apresentadas no filme..
    pra vc pode nao ser importante,
    mas nao lhe da o direito de dizer que

    “se ele refletisse sobre tudo que perdeu somente por que um grupo de pessoas quer brigar com outro grupo. E o que é pior, por causa de um time de futebol.”

    Foi bom pra ele ser hooligan, como
    foi bom pros nossos pais (e pras geracoes subsequentes: NOS!)
    que eles tenham sido hippyes nos anos 60,
    foi bom pra gente e vai ser bom pros nossos filhos
    que nos tenhamos sido punks, streight edges ou libertarios…
    Evolucao cultural, cara…
    nao tem preco…

    (Desculpe a falta de acentuacao, mas o teclado tah bichado…)

    • Roberto Siqueira Says:

      Bruno, obrigado pela visita ao Cinema & Debate.
      Me desculpe cara, mas jamais podemos comparar o movimento Hippie, que pregava a paz e o amor, aos vândalos que saem brigando por causa de times de futebol.
      Grande abraço.

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