REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)

(Rebecca)

 

Filmes em Geral #53

Vencedores do Oscar #1940

Dirigido por Alfred Hitchcock.

Elenco: Laurence Olivier, Joan Fontaine, George Sanders, Judith Anderson, Gladys Cooper, Nigel Bruce, Reginald Denny, C. Aubrey Smith, Florence Bates, Leonard Carey, Leo G. Carroll, Edward Fielding, Lumsden Hare, Forrester Harvey, Philip Winter e Alfred Hitchcock.

Roteiro: Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier.

Produção: David O. Selznick.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Hitchcock era um prestigiado jovem diretor inglês quando aceitou o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar nos Estados Unidos, dando início a uma fase marcante em sua carreira, que renderia muitas obras-primas e filmes de excelente qualidade como este “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou sua estréia na fase “hollywoodiana”. E logo em sua estréia, Hitchcock deixou sua marca, entregando um filme instigante, dirigido com maestria e com uma narrativa surpreendente, que nos balança não apenas com uma, mas com duas reviravoltas desconcertantes.

Uma jovem de origem simples (Joan Fontaine) viaja como “acompanhante” da importante Sra. Edythe Van Hopper (Florence Bates) e acaba conhecendo o rico e nobre inglês George De Winter (Laurence Olivier), que a pede em casamento, mas ainda vive atormentado pelas lembranças do falecimento de sua esposa Rebecca, que morreu afogada no mar. Após chegar à imponente mansão dele em Manderlay, ela passa a viver ameaçada pelo fantasma da ex “Sra. De Winter”, sob os olhares atentos dos empregados, que simplesmente amavam a falecida esposa de George.

Escrito por Robert E. Sherwood e Joan Harrison, baseado em livro de Daphne Du Maurier, “Rebecca, a mulher inesquecível” conta a história de amor entre uma jovem humilde e um nobre inglês, mas jamais passa perto de um romance no sentido clássico da palavra. Criativo e com boas reviravoltas, o roteiro de Sherwood e Harrison usa o fantasma da morte da personagem título como agente criador de um suspense crescente, usando a falta de confiança da nova Sra. De Winter para plantar a dúvida na platéia sobre as reais intenções do rico George. Ciente do material que tinha em mãos, Alfred Hitchcock usa toda sua capacidade como diretor para criar uma atmosfera tensa desde a promissora introdução da narrativa, através da câmera subjetiva que nos leva pelos sonhos da protagonista enquanto ela recorda Manderlay. Esta sensação é reforçada pelos estranhos personagens que habitam a mansão, como a assustadora governanta Danvers (Judith Anderson), e pela própria mansão, fotografada brilhantemente por George Barnes, que mistura a luz que entra pelas janelas e as fortes sombras que se espalham pelo ambiente, permitindo ao diretor criar planos marcantes. Desta forma, a mansão parece ganhar vida e tornar-se ainda mais ameaçadora, especialmente na ala proibida, onde Rebecca vivia (observe como a trilha sombria embala o momento em que vemos a porta do quarto dela pela primeira vez). Aliás, Hitchcock faz questão de ressaltar o espanto da moça ao ver a imponente mansão pela primeira vez, já ilustrando o quanto ela se sentiria intimidada naquele ambiente (o espectador já tinha visto a mansão nos primeiros planos do filme e, por isso, não sente o mesmo impacto dela). Vale destacar ainda a capacidade de Hitchcock de criar suspense a partir de coisas simples, como quando usa o telefone tocando num quarto de hotel de maneira brilhante para provocar tensão quando a jovem tenta encontrar De Winter e evitar seguir viagem para Nova York.

Após um início desastroso, a jovem e o nobre inglês tem um diálogo interessante no café da manha no hotel, que dá início ao relacionamento entre a futura Sra. De Winter e seu pretendente. E graças à boa atuação da dupla, a forma como a relação se consolida é muito natural, crescendo dia após dia através dos encontros do casal. E são nestes encontros que surgirão as primeiras dicas da reviravolta na trama, como quando De Winter sai aborrecido após ela falar sobre o mar – só que, neste instante, pensamos que ele sofre pelo trauma da perda da esposa. Após esta fase de aproximação, com direito a flores antes da partida para Manderlay, o casal finalmente desembarca na famosa mansão onde a atuação de Joan Fontaine crescerá bastante. Esbanjando simplicidade, Fontaine vive a Sra. De Winter com seu jeito meigo e humilde, mas também ilustra bem o desconforto da garota diante de tanto luxo e das novas responsabilidades, demonstrando claramente o quanto ela está intimidada naquele ambiente. Este deslocamento fica evidente, por exemplo, quando por diversas vezes os empregados da mansão tentam fazer algo para ela (como servir o café ou abrir uma porta) e ela sempre se antecipa, justamente por não estar acostumada com este tratamento. Sentindo-se verdadeiramente um peixe fora d’água, ela não consegue assumir sua posição de “Sra. De Winter”, como fica claro quando ela atende uma ligação do jardineiro e responde que a Sra. De Winter morreu há um ano – e até mesmo suas roupas simples ilustram sua personalidade e sua origem humilde. Atormentada, quebra ainda um objeto precioso da casa e o esconde, num ato infantil que traria problemas para os empregados no futuro. Estes problemas só não se tornaram ainda maiores porque George é um homem direto, que resolve os problemas imediatamente e sem provocar grandes polêmicas. Interpretado por Laurence Olivier, George De Winter é, no entanto, um personagem atormentado pelo passado, que vive tentando esquecer a tragédia que assolou sua vida e, talvez por isso, apresenta uma oscilação radical de humor – algo que Olivier demonstra muito bem, mudando da serenidade para repentinas explosões com precisão. Ainda assim, ele parece de fato amar a nova Sra. De Winter, sempre se arrependendo de suas explosões logoem seguida. Oator é competente até mesmo ao manter o segredo de seu personagem, fazendo seu medo do mar parecer um trauma pela morte da esposa na maior parte do tempo, o que aumenta o impacto de sua revelação.

Entre o elenco, merece destaque também a atuação de Florence Bates como a falastrona Sra. Edythe Van Hopper, que consegue nos irritar de maneira encantadora com sua petulância, por exemplo, quando avisa sobre as intenções de De Winter, dizendo que ele quer apenas uma substituta para Rebecca e que a jovem não se enquadraria nesta função, plantando a dúvida que atormentaria a garota em grande parte do tempo. Já Judith Anderson tem uma atuação marcante como a fria governanta Danvers, com seu rosto gélido e sua expressão quase imutável sempre que entra em cena, se destacando na tensa seqüência em que tenta convencer a Sra. De Winter a se suicidar, sussurrando palavras em seu ouvido durante a festa à fantasia. Finalmente, Gladys Cooper vive a simpática e elegante irmã de Winter, Beatrice Lady, que parece de fato querer ajudar a nova Sra. De Winter e há também o curioso cachorro Jasper, que aparece muitas vezes, reforçando a predileção de Hitchcock pela aparição de animais em seus filmes.

Na parte técnica, destaque para a direção de arte de Lyle R. Wheeler, que cria cenários fabulosos, como a própria mansão Manderlay, decorando muito bem seus enormes cômodos e quartos com lustres marcantes, além da imponente mesa que se destaca na bela sala de jantar, apresentada através de um belo zoom out. Aliás, o bom trabalho de Wheeler fica evidente desde a decoração do hotel onde o casal se encontra pela primeira vez, como podemos notar nas habitações e no restaurante onde eles tomam café da manhã. E vale destacar também a estranha casa a beira-mar, que abriga as lembranças amargas de Winter e serve para reforçar a atmosfera sombria da narrativa. Destaque também para a trilha sonora de Franz Waxman, que aparece em grande parte do tempo, normalmente com melodias lentas, mas acentuando os momentos de suspense, como quando a Sra. De Winter caminha perto do mar, e para os bons efeitos visuais, que tornam o incêndio que destrói a mansão em algo realista para a época.

O grande truque da narrativa de “Rebecca, a mulher inesquecível” é que Hitchcock cria o “mito” Rebecca sem jamais mostrá-la de fato, a não ser através de um quadro na parede. O mestre sabe que desta maneira o espectador imagina a mulher ideal, num pensamento reforçado através de pequenos objetos com a letra “R”, que nos lembram constantemente da antiga esposa de Winter. E esta idealização da mulher perfeita é reforçada ainda pela forma como as pessoas se referem a ela, como quando Frith (Edward Fielding) afirma que “Rebecca era a criatura mais linda que ele já viu” (observe como o zoom out diminui os personagens neste momento, refletindo o sentimento da protagonista, que se sente inferiorizada). Desta forma, quando De Winter diz que ela era o demônio em pessoa, o choque no espectador é ainda maior, pois, até este instante, imaginávamos que Rebecca era uma mulher magnífica e amada pelo viúvo. Mas, numa discussão calorosa com sua nova esposa, Winter revela que não amava Rebecca, destruindo a imagem criada na mente do espectador e criando uma interessante reviravolta na narrativa (repare como a câmera de Hitchcock simula a movimentação de Rebecca no momento de sua morte, nos fazendo imaginar a cena). Agora que o barco dela havia sido descoberto, ele seria acusado de assassinato. Passamos então a temer por seu destino e, mesmo ao vê-lo afirmar que não a matou, ainda temos dúvida a respeito.

Chegamos então à longa (porém necessária) investigação do caso. E apesar de não termos certeza de que ele é inocente, torcemos por Winter, até porque neste momento já criamos empatia pelo casal principal (o que é mérito da narrativa bem conduzida por Hitchcock e das boas atuações de Olivier e Fontaine). Sabendo disto, Hitchcock, auxiliado pelo montador Hal C. Kern, prolonga ao máximo a resolução do caso, inserindo novos elementos que nos levam a pensar que Winter pode ser culpado, através do detestável Jack Favell (George Sanders), que afirma ser a gravidez de Rebecca a razão do assassinato. Esta angústia só terminará em outra reviravolta da narrativa, quando o médico afirma que Rebecca tinha câncer – o que, por outro lado, faz Winter pensar que ela premeditou tudo para incriminá-lo, destruindo de vez a imagem de Rebecca. Livre, ele volta para Manderlay, mas um incêndio provocado pela Sra. Danvers destrói o lugar que tanto o fez sofrer.

O controle absoluto da narrativa e a habilidade de criar suspense a partir de situações do cotidiano já apareciam neste ótimo “Rebecca, a mulher inesquecível”, que marcou a estréia de Hitchcock nos Estados Unidos e levou o Oscar de Melhor Filme. Usando o deslocamento normal de uma pessoa que passa a integrar um lar destruído por uma tragédia, Hitchcock consegue criar uma narrativa envolvente, prendendo a atenção da platéia do primeiro ao último plano e fazendo do filme uma obra tão inesquecível quanto sua personagem-título.

Texto publicado em 30 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

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Uma resposta to “REBECCA – A MULHER INESQUECÍVEL (1940)”

  1. FESTIM DIABÓLICO (1948) « Cinema & Debate Says:

    […] do tenso diálogo em que ele diz como mataria o rapaz, da mesma maneira que Hitchcock fizera em “Rebecca”. Repare como a luz que pisca fora do apartamento e a noite que recai aumentam a tensão do […]

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