O Oscar e as reações do público e da crítica

Uma das minhas diversões favoritas nas premiações do Oscar é acompanhar a reação das pessoas nas redes sociais, já que a criatividade do público é capaz de oferecer comentários hilários, como a campanha criada no Twitter no último Oscar que pedia doações de 25 centavos para alimentar a magríssima Angelina Jolie – com tantos filhos para criar ela deve mesmo estar passando fome.

Também me diverti muito com os palavrões e gritos do meu crítico favorito Pablo Villaça no Videocast após a vitória de Octavia Spencer, mas encarei sua reação mais como um momento folclórico do que como um ataque pessoal – até porque, ele jamais atacou a moça pessoalmente, apenas profissionalmente, e tem toda razão ao reclamar da postura dos votantes da Academia. Mas tudo tem limite. E, infelizmente, as redes sociais parecem eliminar esta noção do que é ou não aceitável na maioria das pessoas. As reações agressivas e cheias de ódio nas redes sociais durante a premiação revelam o preocupante comportamento do espectador nestas mídias, que encontra respaldo no suposto anonimato destes ambientes virtuais. Não gostou da escolha da Academia? Tudo bem, você tem este direito, mas não precisa ofender quem foi agraciado pelo prêmio e nem as pessoas que gostaram da escolha.

Estas reações me remetem a outro tema que também me incomoda bastante no Oscar, que é o desprezo que muitos filmes passam a ter com o passar dos anos, como se ao vencerem um concorrente teoricamente melhor, eles imediatamente se transformassem em péssimos filmes. Não são raras às vezes em que um filme é tratado com respeito pela crítica e pelos cinéfilos até que, após vencer o Oscar, sua avaliação imediatamente mude para regular ou ruim. Exemplos? Apenas dos anos 70 para cá, tivemos “Rocky, um Lutador”, “Gente como a Gente”, “Entre dois amores”, “Conduzindo Miss Daisy”, “Dança com Lobos”, “Forrest Gump”, “Shakespeare Apaixonado”, “Crash”, “O Discurso do Rei”, entre outros. Todos bons filmes, mas que passaram a cultivar o ódio (especialmente dos cinéfilos) por terem vencido filmes teoricamente melhores (em alguns dos casos citados, eu concordei com a decisão da Academia, diga-se de passagem).

Quando falamos de atores e diretores, a situação se repete. Neste ano, por exemplo, muitas pessoas desmereceram a vitória de Jean Dujardin, dizendo que ele será um “ator de um papel só”. Nicolas Cage, por sua vez, realmente destruiu a carreira nos últimos anos, mas ninguém pode negar que sua atuação em “Despedida em Las Vegas” é excepcional. O fato da carreira dele ter degringolado não quer dizer que ele não merecia o prêmio e, ainda que eu prefira Sean Penn em “Os últimos passos de um homem”, entendo perfeitamente sua vitória na ocasião. Da mesma forma, Mickey Rourke poderia muito bem ter vencido o Oscar por “O Lutador”, independente do que ele fez com sua carreira no passado, pois o talentoso ator entregou uma atuação digna de aplausos. Mesmo discordando, eu até compreendo que a Academia leve em consideração estes aspectos externos na hora de votar (são pessoas, afinal de contas), mas não compreendo a mudança de avaliação do público e da crítica após a premiação.

Quer mais exemplos? “Rocky, um Lutador” derrotou “Taxi Driver” e virou motivo de chacota, mas é um grande filme. Kevin Costner fez um belíssimo trabalho em “Dança com Lobos”, mas muita gente afirma detestar o filme somente porque ele derrotou “Os Bons Companheiros”. Assim como Mel Gibson de fato se destacou na direção de “Coração Valente”, mas alguns críticos (como o próprio Rubens Ewald Filho, que admiro e respeito muito) mudaram sua avaliação após os problemas do diretor fora das telas. E o que dizer de “Shakespeare Apaixonado”, que simplesmente passou a ser detestado no Brasil porque Paltrow venceu Montenegro injustamente? O fato de a excepcional atriz brasileira ter sido derrotada não transforma o simpático filme numa obra detestável.

Com base em tudo isto, a discussão que proponho é a seguinte: O Oscar deve premiar a carreira e se basear no passado ou no futuro promissor dos concorrentes ou premiar o melhor do ano tendo como base apenas o trabalho NAQUELE filme, sem levar os outros fatores em consideração?

Eu fico com a segunda opção. E você?

Um abraço e bom debate.

Texto publicado em 28 de Fevereiro de 2012 por Roberto Siqueira

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17 Respostas to “O Oscar e as reações do público e da crítica”

  1. Semana Vencedores do Oscar « Cinema & Debate Says:

    […] o prêmio injustamente, passou a ser depreciado pelos cinéfilos, num fenômeno comum que eu já discuti aqui […]

  2. Saulo Says:

    Quer saber pq alguns implicam tanto com Rocky – Um Lutador?
    Apenas pelo fato do Sly seguir carreiras em filmes de ação! Queria saber em que isso desmerece o filme Rocky – Um Lutador? Alegar que Taxi Driver merecia ganhar é um argumento. Agora fazer chacota com Rocky, dizer que não merecia estar ali entre os indicados, acho equivocado, pois realmente trata-se de um grande filme. E quem alegar que a “Academia” estava numa fase ruim, saiba que o filme foi indicado e/ou premiado não apenas no Oscar, mas também por outras associações, inclusive BAFTA, Globo de Ouro e Associação de Críticos de Nova Iorque (Talia Shire – vencedora como melhor atriz coadjuvante), num total de 24 indicações. Quanto a Fernanda Montenegro, devemos lembrar aos fanáticos de plantão que a atriz Gwyneth Paltrow não é culpada pelo prêmio não ter ido para a brasileira, pois não foi ela que dicidiu que ia ganhar. E que a Fernanda era a menos cotada das 5, e que por mais que tenha talento, naquela época eles não iam entrar o prêmio a uma latina nem em um milhão de anos. A real? Se não tivesse a Paltrow, entregariam o prêmio a outra!

  3. Achilles de Leo Says:

    Um problema é que se forem sempre se basear friamente no desempenho da atriz, Meryl Streep virará o nome da categoria quando se aposentar. Neste sentido, entendo essas manipulações políticas da Academia, embora eventualmente ela provoque estranhezas.

    (Diga-se de passagem, eu também faço esse tipo de manipulação em minha seleção de melhore do ano. Ou alguém realmente acha que considero Madrinhas de Casamento melhor do que Melancolia. Deixei Melancolia de fora da minha lista apenas porque o filme foi lembrado e adorado por [quase] todos que conheço, enquanto Madrinhas foi ignorado e ridicularizado.)

    • Roberto Siqueira Says:

      Eu já acho que se a Meryl for a melhor todos os anos, que vença todos os prêmios. Mas entendo as razões políticas que envolvem cada votação.
      E entendo também a sua lista viu… rs…
      Abraço.

  4. cross98 Says:

    olha cara , esquece isso de oscar , é só um titulo , o que é bom fica na memoria para sempre . Pergunte para alguem se ja viu Shakespeare apaixonado e tbm pergunte se ja ouviu dizer do resgate do soldado Ryan.

    Abraços meu caro druguinho

    • Roberto Siqueira Says:

      Mateus,
      Debatemos o Oscar porque é legal, mas sabemos que não é atestado de qualidade.
      A propósito, gosto de Shakespeare Apaixonado e também de O Resgate do Soldado Ryan.
      Abraço.

    • cross98 Says:

      Legal mesmo discutir o Oscar. Shakespeare Apaixonado é um filme muito legal , mas pra mim o Resgate do Soldado Ryan é muito melhor. Mas se for pra escolher filme do estilo de Shakespeare Apaixonado , eu escolho Amadeus , e filme de guerra A Lista de Schindler, ou Coração Valente ( comprei hj , filnalmente eu achei 🙂 )

    • Roberto Siqueira Says:

      Também prefiro O Resgate do Soldado Ryan, mas gosto de Shakespeare Apaixonado.
      Que legal que comprou, parabéns!
      Abraço.

  5. diego barbagelata Says:

    acho que pobre se comparar com muitos outros antigos como rastros de odio, godfather, star wars, videodrome, a sociedade dos poetas mortos, cinzas no paraiso, no tempo das diligencias, osimperdoaveis, ate mesmo oexorcista que e um filme de terror, tem uma alma artistica atemporal.

    • Roberto Siqueira Says:

      Você citou grandes filmes, mas também tivemos recentemente Onde os fracos não tem vez, Na Natureza Selvagem, Filhos da Esperança, Cisne Negro, A Rede Social, A Origem, Sangue Negro, Wall.E, ou seja, o cinema continua rico, mas o público cada vez mais se afasta dos grandes filmes e dá preferência aos filmes medíocres – e as bilheterias provam isto.
      Um abraço.

  6. Diego Barbagelata Says:

    Cara concordo em grande parte em seu memorando pos oscar, no entanto como o nivel artistico dos filmes hollywoodiano esta ralo, o publico tende a avaliar os filmes por aspectos irresolutos e bobos, por isso existe esta reverberaçao, o espectador nao se interessa tanto com a obra em si, mas por seu idolo favorito que perdeu ou ganhou o um oscar.

    • Roberto Siqueira Says:

      Olá Diego,
      Valeu pelo comentário. Não sei se o nivel está ralo, gosto de muitos filmes atuais, mas realmente o público parece estar mudando, e pra pior.
      Abraço.

  7. Iuri Says:

    Muito bom o texto! Parabens!
    Eu também fico com a segunda opção!
    Lembro da edição de 2001 do prêmio, que Tom Hanks perdeu injustamente para Russell Crowe, e acredito que isso aconteceu porque ele já tinha 2 prêmios (Filadélfia e Forrest Gump). No ano seguinte, quando Crowe merecia com todo mérito por seu trabalho em Uma mente Brilhante, acabou perdendo para Denzel Washington.

  8. Ká! Says:

    Concordo com você!
    Com certeza a 2ª opção Bé! 😉
    Beijos!

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