O MUNDO PERDIDO: JURASSIC PARK (1997)

(The Lost World: Jurassic Park)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #178

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Arliss Howard, Vanessa Lee Chester, Camilla Belle, Peter Stormare, Richard Schiff, Joseph Mazzello e Mark Pellegrino.

Roteiro: David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Gerald R. Molen e Colin Wilson.

O Mundo Perdido - Jurassic Park[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Preocupado com a possibilidade da franquia “Jurassic Park” seguir o mesmo caminho de “Tubarão” (ou seja, ser deturpada nas mãos de pessoas menos talentosas), Steven Spielberg decidiu dirigir a continuação “O Mundo Perdido: Jurassic Park” quatro anos após o primeiro filme assombrar o mundo com seus efeitos visuais espetaculares e sua história envolvente. No entanto, as semelhanças entre o primeiro e o segundo filme se restringem apenas aos efeitos visuais assombrosos, já que apesar de contar com algumas cenas marcantes, esta sequência é bastante inferior tanto nos aspectos narrativos quanto no carisma de seus personagens.

Escrito novamente por David Koepp baseado em livro que o próprio Spielberg pediu para Michael Crichton escrever, “O Mundo Perdido: Jurassic Park” tem início quando o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) é chamado para conversar com John Hammond (Richard Attenborough) e descobre que sua namorada, a Dra. Sarah (Julianne Moore), havia sido enviada para uma ilha conhecida como “Sítio B”, vizinha daquela onde o antigo Parque dos Dinossauros se localizava e que era utilizada na criação dos animais. Acompanhado de uma equipe, ele chega ao local com a missão de estudar os dinossauros, mas outra equipe comandada por Roland Tembo (Pete Postlethwaite) invade a ilha com a intenção de capturá-los e levá-los para San Diego, onde um novo Parque seria inaugurado.

Expondo o que aconteceu entre o final do primeiro filme e o ponto de partida deste segundo através de um diálogo expositivo nada orgânico, David Koepp constrói um arremedo de narrativa que se transforma numa boa aventura graças ao talento de Spielberg atrás das câmeras. Ainda assim, o roteirista resgata alguns pontos interessantes do longa original, como as tiradas engraçadas de Ian que, por outro lado, acabam tirando um pouco da humanidade do personagem em alguns instantes, como por exemplo quando ele pede ironicamente três cheeseburgers pendurado num penhasco – e, pra piorar, é acompanhado na piada pelos outros dois personagens que se encontram à beira da morte. Em parte, a culpa é também de Jeff Goldblum, que desta vez ganha mais espaço na narrativa, mas não consegue reverter os problemas do roteiro e convencer como um pai ou namorado realmente preocupado.

Pra piorar, Koepp tenta conferir profundidade dramática ao protagonista através de conflitos que jamais convencem com sua filha Kelly (Vanessa Lee Chester) e a namorada Sarah, o que, somado ao comportamento deles em situações de alto risco, cria personagens rasos e inverossímeis, dificultando nossa identificação com aquele grupo. Ao menos, Spielberg corrige parcialmente esta falha ao criar cenas tensas o bastante para nos envolver, independente do grau de envolvimento que temos com os personagens. Quem também ajuda é Julianne Moore, que compõe a Dra. Sarah com mais competência, convencendo como alguém realmente apaixonada pelo que faz – repare sua expressão de alegria ao constatar que a mamãe T-Rex estava mesmo à procura do filhote. Sua personagem serve também para apresentar ao espectador conceitos e características importantes dos dinossauros, o que aumenta a tensão quando eles surgem por já sabermos os atributos mortais do Velociraptor e do T-Rex, por exemplo.

Três cheeseburgersFilha KellyExpressão de alegriaQuem também tem a função de deixar a plateia mais tensa são os caçadores cruéis e unidimensionais liderados pelo odiável Roland Tembo (Pete Postlethwaite), que ao menos tem raros momentos de humanidade, como quando pede pra ninguém contar pra Kelly que um homem tinha morrido ou quando lamenta a perda de um parceiro de equipe e diz que está cansado de andar ao lado da morte.

Mas, com o perdão do trocadilho infame, nem tudo está perdido. É fácil notar, por exemplo, que esta continuação é mesmo dirigida por Spielberg, já que o diretor demonstra sua habilidade na construção de narrativas capazes de prender nossa atenção desde os primeiros instantes, criando expectativa através do ataque à menina na Ilha no qual vemos os pequenos dinossauros cercando a garota, ouvimos seus gritos e acompanhamos a reação apavorada de seus pais, mas não vemos as consequências violentas daquele ato – infelizmente, o diretor já dava sinais da falta de coragem que marcaria sua fase seguinte ao fazer questão de ressaltar que a garota estava viva. Assim, o espectador mal pode esperar o reencontro com os gigantes animais jurássicos. Quando finalmente nos deparamos com eles, Spielberg novamente faz questão de primeiro ressaltar o olhar maravilhado dos personagens, para somente depois nos permitir admirar os imponentes dinossauros concebidos pelos impecáveis efeitos visuais da Stan Winston Studio – que, por sua vez, não apresentam grande evolução quando comparados ao primeiro filme (este sim um fenômeno na área). Finalmente, o diretor também constrói alguns planos interessantes e muito funcionais, como aquele em que vemos os Velociraptors se aproximando do grupo que caminha pela selva segundos antes do ataque arrasador.

Ataque à meninaOlhar maravilhado dos personagensVelociraptors se aproximandoAlém dos efeitos visuais, Spielberg conta também com o auxilio de sua equipe premiada por “A Lista de Schindler”, começando pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, que cria um visual sombrio e sufocante ao explorar muito bem o predomínio de cenas noturnas e as muitas chuvas que permeiam a narrativa. Da mesma forma, a montagem ágil de seu parceiro Michael Kahn confere um dinamismo interessante ao longa, o que é essencial numa aventura. E finalmente, se a trilha sonora de John Williams também aumenta a tensão em diversos instantes, acertando ainda ao utilizar a ótima música tema somente em momentos pontuais para evitar o desgaste da mesma, o ótimo design de som é parte fundamental no processo de dar vida aos dinossauros, tornando tudo ainda mais real aos olhos da plateia.

No entanto, a salvação de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” está mesmo nas mãos de Steven Spielberg. Criando cenas de impacto que vão desde pequenos sustos – como no ataque repentino à base de operações durante a apresentação do projeto do Parque em San Diego – a momentos de alta tensão, o diretor confirma seu talento em sequências eletrizantes, como aquela em que acompanhamos Kelly e Sarah cavando simultaneamente aos Velociraptors que tentam invadir o esconderijo do qual elas tentam sair – numa cena, aliás, que reserva outro susto monumental ao espectador.

Cenas noturnas e as muitas chuvasAtaque repentino à base de operaçõesKelly e Sarah cavando simultaneamente aos VelociraptorsE se os “Raptors” garantem boas cenas, o que dizer então do T-Rex, que agora surge acompanhado e, portanto, duas vezes mais perigoso. Indicando novamente sua aproximação através da água (desta vez, uma poça faz a função do copo no primeiro filme), Spielberg conduz o ataque ao acampamento com maestria, gerando suspense ao trabalhar com elementos aparentemente inofensivos. Repare que, momentos antes, Sarah comenta sobre o sangue do filhote que não secou em sua blusa, o que nos faz grudar na cadeira enquanto o T-Rex cheira a blusa pendurada na cabana, gerando a correria histérica que resulta numa das raras mortes violentas do longa dentro de uma cachoeira.

Indicando aproximação através da águaSarah comenta sobre o sangue do filhoteT-Rex cheira a blusa pendurada na cabanaMas é mesmo a primeira aparição dos T-Rex que novamente se garante como o melhor momento do longa. Trabalhando mais uma vez com a noite, a chuva forte e agora agregando o telefone que toca sem parar e os gritos do filhote de T-Rex de dentro do trailer, Spielberg prepara o cenário ideal para a aparição do astro principal. Assim, o som indica a aproximação enquanto as árvores balançam e um carro arremessado confirma a fúria do predador, que surge com seu olhar penetrante na lateral do trailer, acompanhado por outro olhar que provoca a surpresa dos personagens e da plateia: eles vieram em casal. A sequência eletrizante continua com a entrega do filhote e o ataque que deixa o trailer pendurado no penhasco, chegando ao auge quando Sarah cai sobre o vidro, num momento de pura tensão que só termina quando o veículo finalmente despenca morro abaixo após deslizar pelo terreno. Após a cena de tirar o fôlego, a morte violenta de Eddie Carr (Richard Schiff) funciona como um sarcástico alívio cômico, assim como ocorria no primeiro filme com o homem sentado no vaso sanitário, só que desta vez com os animais brincando com o corpo dele.

Olhar penetranteTrailer pendurado no penhascoSarah cai sobre o vidroInfelizmente, o terceiro ato de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” soa totalmente desnecessário, com o T-Rex surgindo na cidade de San Diego apenas para garantir alguns gritos e sustos a mais. Ao menos, garante uma boa piada quando um garoto diz para os pais que “tem um dinossauro no quintal”, mostrando ainda a curiosidade mórbida das pessoas que correm olhando para o T-Rex, num comportamento estranho do ser humano captado com precisão por Spielberg que nós voltaríamos a ver em “Guerra dos Mundos”.

No fim das contas, a continuação de “O Parque dos Dinossauros” funciona exatamente como o “Sítio B”, ou seja, seria muito mais assustadora e interessante se permanecesse apenas na imaginação dos fãs. No entanto, assim como seu terceiro ato, “O Mundo Perdido” é uma continuação desnecessária, porém divertida.

O Mundo Perdido - Jurassic Park foto 2Texto publicado em 27 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

MELHOR É IMPOSSÍVEL (1997)

(As good as it gets)

5 Estrelas 

Videoteca do Beto #177

Dirigido por James L. Brooks.

Elenco: Jack Nicholson, Helen Hunt, Greg Kinnear, Cuba Gooding Jr., Skeet Ulrich, Shirley Knight, Yeardley Smith, Lupe Ontiveros, Missi Pyle, Maya Rudolph, Lawrence Kasdan, Julie Benz, Harold Ramis, Kathryn Morris, Todd Solondz e Jesse James.

Roteiro: Mark Andrus e James L. Brooks.

Produção: James L. Brooks, Bridget Johnson e Kristi Zea.

Melhor é Impossível[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Recordista de indicações ao Oscar, Jack Nicholson levou seu terceiro prêmio após sua brilhante atuação neste “Melhor é Impossível”, que, com seus personagens simultaneamente problemáticos e agradáveis, conquista o espectador quase que da mesma maneira como o protagonista conquista a personagem brilhantemente interpretada por Helen Hunt. Assim, não são raros os momentos graciosos que são quebrados por alguma grosseria e vice-versa, numa mistura eficiente de instantes dramaticamente densos e outros recheados de humor negro; e é ao balancear estes polos opostos com tanto cuidado que o longa dirigido por James L. Brooks alcança seu sucesso.

Escrito pelo próprio Brooks ao lado de Mark Andrus, “Melhor é Impossível” narra o cotidiano do obsessivo-compulsivo e preconceituoso escritor Melvin Udall (Jack Nicholson), um homem repleto de cinismo e sarcasmo que adora tirar uma onda com seu vizinho homossexual Simon (Greg Kinnear) e que faz questão de ser sempre atendido pela mesma garçonete no restaurante onde almoça todos os dias. A garçonete é Carol (Helen Hunt), uma mãe solteira que se desdobra para cuidar do filho, que sofre com uma grave doença respiratória.

Desenvolvendo muito bem seus personagens, o roteiro de “Melhor é Impossível” ajuda a humanizar cada um deles, demonstrando aos poucos as qualidades e defeitos de pessoas que facilmente poderiam tornar-se caricatas e odiáveis em mãos menos cuidadosas – e na pele de atores menos talentosos. Neste caso, o que ocorre é exatamente o contrário. Os personagens conquistam o espectador justamente por escancararem seus defeitos de maneira tão humana, o que naturalmente os aproximam da plateia.

Atrás das câmeras, Brooks faz um trabalho discreto e eficiente que busca valorizar as atuações através do uso de planos americanos e closes, empregando ainda o zoom para realçar momentos de impacto dramático e saindo-se muito bem na condução de cenas fortes como aquela em que um grupo de jovens de rua espanca Simon (numa rápida participação dos atores Skeet Ulrich e Jamie Kennedy, de “Pânico”, na qual se destaca o ótimo trabalho de maquiagem que torna realistas os machucados no rosto dele na cena seguinte no hospital). Igualmente discreta, a fotografia de John Bailey aposta em cenas diurnas e filtros que realçam cores leves, ao passo em que a gostosa trilha sonora de Hans Zimmer apresenta um tema principal inspirado, mas que também surge apenas em momentos pontuais. Desta forma, quem acaba chamando mais a atenção é o trabalho do montador Richard Marks, que transita muito bem entre o drama de Carol com a doença do filho, as rotinas de Melvin e o trabalho de Simon e Frank, integrando os personagens de maneira orgânica e mantendo a narrativa sempre atraente e fluída.

Planos americanosGrupo de jovens de rua espanca SimonCores levesNo entanto, é inegável que o grande atrativo de “Melhor é Impossível” é mesmo o seu elenco talentoso e inspirado, que oferece performances simultaneamente divertidas e tocantes. Vivendo um personagem preconceituoso e (desculpe o termo) escroto, Nicholson tem um desempenho excepcional, saindo-se muito bem na difícil tarefa de conquistar a empatia da plateia mesmo na pele de alguém tão desprezível. Destilando veneno em muitas de suas frases sarcásticas, Melvin poderia tornar-se ainda mais irritante por sofrer de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), o que faz com que ele sente sempre na mesma mesa do restaurante, evite pisar nas linhas do chão, deteste ser tocado por outras pessoas, organize milimetricamente os sabonetes da mesma marca em seu armário e feche a porta do apartamento cinco vezes. E se ainda assim nós gostamos dele, grande parte do mérito é mesmo do lendário ator.

Senta sempre na mesma mesaEvita pisar nas linhas do chãoOrganiza milimetricamente os sabonetesPersonagem complexo, Melvin consegue ser egoísta e egocêntrico e, ao mesmo tempo, é capaz de agir com surpreendente gentileza e encantar Carol com a bela frase “Você me faz querer ser um homem melhor”, somente para, minutos depois, estragar tudo com outra frase detestável. Este comportamento imprevisível fica ainda mais claro quando ele choca uma fã na editora, escancarando a intrigante diferença entre o autor sensível e o ser humano desprezível que conflitam dentro dele.

Mas se Nicholson surge solto e diverte-se no papel, Hunt não fica atrás, demonstrando excelente química com o consagrado ator numa atuação sensível e poderosa. Externando os traumas ocasionados por relacionamentos passados (“Não vou dormir com você!”, diz ela para Melvin), Carol emociona pela maneira como admite sua carência num belíssimo diálogo com a mãe, num dos grandes momentos da atuação de Hunt, que se destaca ainda na reação dramaticamente poderosa de Carol após Melvin mencionar seu filho no restaurante, que dá os primeiros sinais de sua vulnerabilidade e, especialmente, quando demonstra a alegria genuína da personagem diante do médico que oferece tratamento para seu filho, num momento tocante. Lentamente, Carol vai reencontrando a felicidade, algo simbolizado até mesmo por suas roupas (figurinos de Molly Maginnis), que evoluem lentamente das cores sem vida de seu uniforme para o vestido vermelho e chamativo que ela usa durante um jantar.

Belíssimo diálogo com a mãeReação dramaticamente poderosaAlegria genuínaCom seus trejeitos e a forte tendência para o overacting, Cuba Gooding Jr. diverte-se como Frank, o amigo engraçado e falastrão de Simon que se impõe fisicamente diante de Melvin, enquanto Kinnear demonstra muito bem a sensibilidade de Simon, emocionando em momentos especiais como quando vê seu rosto desfigurado pela primeira vez num espelho ou quando, com a ajuda de Carol, se empolga após conseguir romper o bloqueio criativo. Aliás, sua bagunçada casa reflete não apenas sua mente agitada (essencial em sua profissão), mas também sua instabilidade emocional, o que ressalta o bom design de produção de Bill Brzeski.

Amigo engraçado e falastrãoSensibilidade de SimonBagunçada casaQuem também tem participação importante na narrativa é o cachorro de Simon, explorado com competência pela câmera de Brooks, como no close que capta sua reação após Melvin receber a notícia que terá que devolvê-lo – numa das primeiras cenas que escancaram a fragilidade daquele homem solitário, que se esconde sob aquela capa de cinismo e sarcasmo. E fechando o elenco, temos a simpática mãe de Carol interpretada por Shirley Knight e a participação do diretor Lawrence Kasdan como o Dr. Green.

Quando o casal se desentende e se separa durante a viagem, sabemos que estamos perto do final conciliador, típico das comédias românticas. Mas até mesmo este clichê funciona muito bem em “Melhor é Impossível”, justamente pela maneira sincera e coerente que os personagens se comportam, buscando a reaproximação sem exigir que o outro mude completamente. E o que é mais interessante, o espectador sabe que eles continuarão exibindo os mesmos defeitos, e mesmo assim nós torcemos pelo sucesso daquela relação. Afinal, somos mesmo assim, repletos de defeitos e virtudes e eternamente buscando alguém que nos compreenda em toda nossa complexidade e vulnerabilidade.

Cachorro de SimonSimpática mãe de CarolCasal se desentendeFilme com alma e coração, “Melhor é Impossível” beneficia-se das atuações de alto nível para tocar o espectador sem jamais pender para o melodrama ou soar piegas, divertindo e emocionando com a mesma eficiência. Não é o caso de dizer que melhor que isso é impossível. Mas quase.

Melhor é Impossível foto 2Texto publicado em 20 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

LOS ANGELES – CIDADE PROIBIDA (1997)

(L.A. Confidential)

5 Estrelas 

Obra-Prima 

Videoteca do Beto #176

Dirigido por Curtis Hanson.

Elenco: Guy Pearce, Kevin Spacey, Russell Crowe, James Cromwell, Kim Basinger, David Strathairn, Danny DeVito, Graham Beckel, Ron Rifkin, Paul Guilfoyle, Matt McCoy, Simon Baker, Brenda Bakke, Jeremiah Birkett, Karreem Washington e Salim Grant.

Roteiro: Brian Helgeland e Curtis Hanson, baseado em romance de James Ellroy.

Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan e Michael Nathanson.

Los Angeles - Cidade Proibida[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Impecável em praticamente todos os aspectos, o neo-noir “Los Angeles – Cidade Proibida” não conseguiu superar o colossal sucesso de “Titanic” e nem mesmo ressuscitou este que é um dos gêneros mais interessantes do cinema norte-americano. Nada disso, porém, diminui o fato de que o longa dirigido por Curtis Hanson e estrelado por um elenco tão talentoso é, sem dúvida alguma, uma das obras mais marcantes de sua época, funcionando como um thriller moderno e intrigante ao mesmo tempo em que homenageia o noir de maneira brilhante.

Escrito pelo próprio Hanson ao lado de Brian Helgeland e baseado em livro de James Ellroy, “Los Angeles – Cidade Proibida” se passa nos anos 50 e acompanha o cotidiano da polícia após a prisão do chefe do crime organizado local. Numa noite conhecida como “Natal Sangrento”, diversos policiais agridem alguns prisioneiros mexicanos e acabam flagrados pela imprensa, gerando uma investigação que leva o policial Ed Exley (Guy Pearce) a ser promovido, justamente por delatar seus companheiros de profissão. Assim, o policial Bud White (Russell Crowe) e o detetive Jack Vincennes (Kevin Spacey) acabam afastados de suas funções, mas todos eles terão seus caminhos cruzados numa investigação que envolverá o alto escalão policial – entre eles, o capitão Dudley (James Cromwell) – e pessoas importantes ligadas a um esquema de prostituição no qual as mulheres se parecem com estrelas de cinema – entre elas, a bela Lynn (Kim Basinger).

Surgindo como um verdadeiro noir moderno logo em seus primeiros minutos, “Los Angeles – Cidade Proibida” traz praticamente todas as principais características do gênero. Assim, temos o crime movendo a narrativa, as cenas predominantemente noturnas, os personagens ambíguos e a loira fatal. E ainda que a fotografia de Dante Spinotti tenha cores quentes e cenas diurnas especialmente em seu segundo ato, esta paleta de cores surge sempre dessaturada, criando um visual que não apenas homenageia o gênero como também remete à época em que se passa a narrativa com precisão. Esta sensação é reforçada também pelo ótimo design de produção de Jeannine Oppewall, que reconstitui a Los Angeles dos anos 50 com precisão através dos carros que circulam pelas ruas, da decoração dos ambientes e das armas utilizadas pelos policiais, além é claro da ótima trilha sonora de Jerry Goldsmith, repleta de Jazz e músicas típicas da Califórnia, mas também com composições instrumentais sombrias que pontuam bem certas cenas, como quando Ed chega ao Nite Owl e anda pelo lugar após o massacre – e aqui vale observar como a câmera subjetiva de Hanson amplia o suspense consideravelmente.

Paleta de cores dessaturadaLos Angeles dos anos 50Ed chega ao Nite OwlMas o fato é que grande parte da narrativa se passa predominantemente à noite, o que permite ao diretor criar um visual sombrio que remete diretamente ao universo obscuro daqueles personagens. Vestidos normalmente com ternos sóbrios (figurinos de Ruth Myers), os policiais tentam manter a boa imagem perante a população, mas, como em todo bom noir, nem tudo em “Los Angeles – Cidade Proibida” é exatamente o que parece ser. O mérito, neste caso, é também do excelente roteiro que funciona perfeitamente tanto em sua estrutura como no desenvolvimento dos personagens, que se tornam ainda mais interessantes graças ao bom desempenho geral do elenco.

Fisgando a atenção do espectador desde sua eficiente introdução, “Los Angeles” escancara sua eficiência narrativa logo na cena seguinte, quando rapidamente somos apresentados aos personagens Bud, Jack e Ed e, de maneira clara, conhecemos algumas de suas principais características. Obviamente, a fluidez da narrativa se deve também a montagem ágil de Peter Honess, que confere um ritmo empolgante aquela investigação intrigante e imprevisível. No entanto, esta agilidade não impede que Hanson tenha o cuidado de criar um pequeno suspense na apresentação de Lynn, demorando alguns segundos para revelar a excelente maquiagem que transforma Kim Basinger numa sósia de Veronica Lake. As prostitutas que se parecem com atrizes famosas de Hollywood, aliás, garantem um dos raros momentos de alívio cômico através da excelente piada envolvendo Lara Turner (Brenda Bakke).

Universo obscuroTernos sóbriosApresentação de LynnDa mesma forma, Hanson trabalha muito bem alguns temas abordados pelo longa, apoiando-se na ambiguidade dos personagens e de suas atitudes para levantar interessantes questões. Observe, por exemplo, como a corrupção na polícia se torna um problema bem mais denso e complexo quando observamos que os policiais podem agir de maneiras semelhantes em situações diferentes e nos induzir a concordar ou não com seus atos. Se num instante um policial planta provas para justificar a prisão de alguém que é notoriamente culpado, este senso de justiça perde totalmente o sentido quando vemos outros policiais usando o mesmo artifício em benefício próprio. No entanto, a burocracia da justiça pode levar a sensação de impunidade e nos induzir ao erro de achar que algumas atitudes são justificáveis e outras não. No fim das contas, a pergunta é: É possível ser sempre correto?

A princípio, Ed Exley parece pensar que sim. Guiando-se por um senso de justiça que o leva até mesmo a passar por cima do sentimento de camaradagem tão valorizado entre os policiais, Guy Pearce compõe Ed como um personagem determinado a limpar a sujeira do departamento de polícia, o que o leva a subir na carreira na mesma proporção em que ganha inimigos dentro do ambiente de trabalho. As razões para este comportamento encontram base ainda em sua infância, mas Ed se vê obrigado a reavaliar conceitos na medida em que a narrativa avança – e um close em seu rosto após ele finalmente atirar em uns criminosos indica o momento em que ele começa a mudar de comportamento.

Já calejado e distante do sentimento que o levou a ser policial, o cínico Jack Vincennes se aproveita da situação para ganhar projeção, mas lentamente ele também apresenta seu outro lado, numa transição que o ótimo Kevin Spacey demonstra muito bem quando, arrependido, deixa os 50 dólares que recebeu num bar e tenta evitar que um jovem ator saia com um promotor local, mas chega tarde demais e encontra o garoto já assassinado – a expressão de decepção em seu rosto é marcante neste momento.

Momento em que Ed começa a mudarCínico Jack VincennesBud o policial durãoTraumatizado pela morte violenta da mãe, Bud é o policial durão que resolve tudo na base da pancada, mas assim como os outros personagens, ele também não se resume a esta avaliação superficial, demonstrando descontentamento diante desta situação e uma vontade enorme de provar que também é inteligente. Explorando seu porte físico sem se esquecer de seu talento dramático, Russel Crowe chama a atenção pela maneira como equilibra sua atuação entre as reações explosivas e momentos sensíveis como quando, envergonhado, evita o olhar de Ed após um policial informar que alguém tinha batido em Lynn. Curiosamente, é justamente ele quem vive a relação mais sensível de “Los Angeles”, demonstrando interesse pela bela Lynn desde o primeiro momento, o que não o impede de agir irracionalmente quando descobre que ela tinha dormido com Ed. Lynn e Bud tornam-se confidentes e a empatia entre Crowe e Basinger é essencial neste processo.

Fechando os destaques do elenco, James Cromwell vive o inteligente e experiente Capitão Dudley, um profundo conhecedor do ambiente em que está inserido que revela sua outra faceta na surpreendente e impactante morte de Jack, enquanto a voz de Danny DeVito cai muito bem no repórter Sid Hudgens, que funciona também como uma espécie de narrador que, por pertencer ao ambiente diegético, surge de maneira orgânica e evita a artificialidade comum neste tipo de artifício narrativo.

Inteligente e experiente Capitão DudleyRepórter Sid HudgensTensa sequência do interrogatórioOrgânicas também são as reviravoltas eletrizantes de “Los Angeles”, a começar pela tensa sequência do interrogatório dos suspeitos Sugar Ray (Jeremiah Birkett), Ty Jones (Karreem Washington) e Louis (Salim Grant), na qual acompanhamos Bud lentamente perdendo o controle através de suas mãos que pressionam uma cadeira até que ele finalmente exploda e arranque a informação à força dos interrogados. Na medida em que a narrativa avança, os mistérios do coeso roteiro vão se resolvendo e as camadas ocultas dos personagens são reveladas, levando a parcerias aparentemente improváveis entre Ed e Jack e, posteriormente, entre Ed e Bud.

Mas é mesmo a sacada genial envolvendo “Rollo Tomasi” que confirma o excelente trabalho de Hanson e Helgeland, informando muito de maneira econômica e de quebra explicando também a origem da obstinação de Ed pela justiça. Observe atentamente a condução da cena e repare que somente Ed e Jack estão na sala quando ele conta a história da morte do pai. Assim, quando Dudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”, tanto o personagem quanto o espectador sofrem o impacto da revelação (num artifício do roteiro conhecido como pista e recompensa que funciona muito bem aqui), já que estas foram exatamente as últimas palavras de Jack Vincennes. Genial.

Rollo TomasiHistória da morte do paiDudley pede para Ed investigar quem é “Rollo Tomasi”Mergulhado nas sombras, o clímax no Victory Motel é sensacional, não apenas por confrontar os personagens com seus demônios mais íntimos como também por entregar ao espectador um tiroteio de tirar o fôlego, no qual podemos notar também o excepcional design de som que nos permite ouvir cada passo, tiro e movimento brusco com clareza. Após ser considerado o herói da noite, Ed afirma ter ciência de sua situação (“Eles me usam e eu os uso”), numa conclusão perfeita e coerente com o personagem. Saber como se comportar naquele meio é essencial para sua sobrevivência. Sem a mesma sagacidade (ou o mesmo estômago), Bud prefere seguir outro caminho. Nas palavras de Lynn: “Alguns homens nasceram para ganhar o mundo, outros para fugirem para o Arizona com uma prostituta”.

E é nesta complexidade dos personagens que reside o maior trunfo de “Los Angeles – Cidade Proibida”, uma obra-prima excepcional que só comprova como nenhum gênero sairá de moda enquanto houver pessoas competentes e inteligentes o bastante para explorá-lo. Afinal, independente do gênero, o que o verdadeiro cinéfilo quer mesmo é assistir um bom filme.

Los Angeles - Cidade Proibida foto 2Texto publicado em 14 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

Feliz Dia das Crianças!

Aos meus lindos filhos e para todas as crianças deste mundo!

Vídeo publicado em 12 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

Trilhas #006 – “Man with the Harmonica”, do filme “Era uma vez no Oeste”

 

Vídeo publicado em 12 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

Teoria da Pixar

Vídeo sugerido por um grande amigo.

Texto publicado em 06 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira