O MUNDO PERDIDO: JURASSIC PARK (1997)

(The Lost World: Jurassic Park)

3 Estrelas 

Videoteca do Beto #178

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Jeff Goldblum, Julianne Moore, Pete Postlethwaite, Richard Attenborough, Vince Vaughn, Arliss Howard, Vanessa Lee Chester, Camilla Belle, Peter Stormare, Richard Schiff, Joseph Mazzello e Mark Pellegrino.

Roteiro: David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Gerald R. Molen e Colin Wilson.

O Mundo Perdido - Jurassic Park[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Preocupado com a possibilidade da franquia “Jurassic Park” seguir o mesmo caminho de “Tubarão” (ou seja, ser deturpada nas mãos de pessoas menos talentosas), Steven Spielberg decidiu dirigir a continuação “O Mundo Perdido: Jurassic Park” quatro anos após o primeiro filme assombrar o mundo com seus efeitos visuais espetaculares e sua história envolvente. No entanto, as semelhanças entre o primeiro e o segundo filme se restringem apenas aos efeitos visuais assombrosos, já que apesar de contar com algumas cenas marcantes, esta sequência é bastante inferior tanto nos aspectos narrativos quanto no carisma de seus personagens.

Escrito novamente por David Koepp baseado em livro que o próprio Spielberg pediu para Michael Crichton escrever, “O Mundo Perdido: Jurassic Park” tem início quando o Dr. Ian Malcolm (Jeff Goldblum) é chamado para conversar com John Hammond (Richard Attenborough) e descobre que sua namorada, a Dra. Sarah (Julianne Moore), havia sido enviada para uma ilha conhecida como “Sítio B”, vizinha daquela onde o antigo Parque dos Dinossauros se localizava e que era utilizada na criação dos animais. Acompanhado de uma equipe, ele chega ao local com a missão de estudar os dinossauros, mas outra equipe comandada por Roland Tembo (Pete Postlethwaite) invade a ilha com a intenção de capturá-los e levá-los para San Diego, onde um novo Parque seria inaugurado.

Expondo o que aconteceu entre o final do primeiro filme e o ponto de partida deste segundo através de um diálogo expositivo nada orgânico, David Koepp constrói um arremedo de narrativa que se transforma numa boa aventura graças ao talento de Spielberg atrás das câmeras. Ainda assim, o roteirista resgata alguns pontos interessantes do longa original, como as tiradas engraçadas de Ian que, por outro lado, acabam tirando um pouco da humanidade do personagem em alguns instantes, como por exemplo quando ele pede ironicamente três cheeseburgers pendurado num penhasco – e, pra piorar, é acompanhado na piada pelos outros dois personagens que se encontram à beira da morte. Em parte, a culpa é também de Jeff Goldblum, que desta vez ganha mais espaço na narrativa, mas não consegue reverter os problemas do roteiro e convencer como um pai ou namorado realmente preocupado.

Pra piorar, Koepp tenta conferir profundidade dramática ao protagonista através de conflitos que jamais convencem com sua filha Kelly (Vanessa Lee Chester) e a namorada Sarah, o que, somado ao comportamento deles em situações de alto risco, cria personagens rasos e inverossímeis, dificultando nossa identificação com aquele grupo. Ao menos, Spielberg corrige parcialmente esta falha ao criar cenas tensas o bastante para nos envolver, independente do grau de envolvimento que temos com os personagens. Quem também ajuda é Julianne Moore, que compõe a Dra. Sarah com mais competência, convencendo como alguém realmente apaixonada pelo que faz – repare sua expressão de alegria ao constatar que a mamãe T-Rex estava mesmo à procura do filhote. Sua personagem serve também para apresentar ao espectador conceitos e características importantes dos dinossauros, o que aumenta a tensão quando eles surgem por já sabermos os atributos mortais do Velociraptor e do T-Rex, por exemplo.

Três cheeseburgersFilha KellyExpressão de alegriaQuem também tem a função de deixar a plateia mais tensa são os caçadores cruéis e unidimensionais liderados pelo odiável Roland Tembo (Pete Postlethwaite), que ao menos tem raros momentos de humanidade, como quando pede pra ninguém contar pra Kelly que um homem tinha morrido ou quando lamenta a perda de um parceiro de equipe e diz que está cansado de andar ao lado da morte.

Mas, com o perdão do trocadilho infame, nem tudo está perdido. É fácil notar, por exemplo, que esta continuação é mesmo dirigida por Spielberg, já que o diretor demonstra sua habilidade na construção de narrativas capazes de prender nossa atenção desde os primeiros instantes, criando expectativa através do ataque à menina na Ilha no qual vemos os pequenos dinossauros cercando a garota, ouvimos seus gritos e acompanhamos a reação apavorada de seus pais, mas não vemos as consequências violentas daquele ato – infelizmente, o diretor já dava sinais da falta de coragem que marcaria sua fase seguinte ao fazer questão de ressaltar que a garota estava viva. Assim, o espectador mal pode esperar o reencontro com os gigantes animais jurássicos. Quando finalmente nos deparamos com eles, Spielberg novamente faz questão de primeiro ressaltar o olhar maravilhado dos personagens, para somente depois nos permitir admirar os imponentes dinossauros concebidos pelos impecáveis efeitos visuais da Stan Winston Studio – que, por sua vez, não apresentam grande evolução quando comparados ao primeiro filme (este sim um fenômeno na área). Finalmente, o diretor também constrói alguns planos interessantes e muito funcionais, como aquele em que vemos os Velociraptors se aproximando do grupo que caminha pela selva segundos antes do ataque arrasador.

Ataque à meninaOlhar maravilhado dos personagensVelociraptors se aproximandoAlém dos efeitos visuais, Spielberg conta também com o auxilio de sua equipe premiada por “A Lista de Schindler”, começando pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, que cria um visual sombrio e sufocante ao explorar muito bem o predomínio de cenas noturnas e as muitas chuvas que permeiam a narrativa. Da mesma forma, a montagem ágil de seu parceiro Michael Kahn confere um dinamismo interessante ao longa, o que é essencial numa aventura. E finalmente, se a trilha sonora de John Williams também aumenta a tensão em diversos instantes, acertando ainda ao utilizar a ótima música tema somente em momentos pontuais para evitar o desgaste da mesma, o ótimo design de som é parte fundamental no processo de dar vida aos dinossauros, tornando tudo ainda mais real aos olhos da plateia.

No entanto, a salvação de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” está mesmo nas mãos de Steven Spielberg. Criando cenas de impacto que vão desde pequenos sustos – como no ataque repentino à base de operações durante a apresentação do projeto do Parque em San Diego – a momentos de alta tensão, o diretor confirma seu talento em sequências eletrizantes, como aquela em que acompanhamos Kelly e Sarah cavando simultaneamente aos Velociraptors que tentam invadir o esconderijo do qual elas tentam sair – numa cena, aliás, que reserva outro susto monumental ao espectador.

Cenas noturnas e as muitas chuvasAtaque repentino à base de operaçõesKelly e Sarah cavando simultaneamente aos VelociraptorsE se os “Raptors” garantem boas cenas, o que dizer então do T-Rex, que agora surge acompanhado e, portanto, duas vezes mais perigoso. Indicando novamente sua aproximação através da água (desta vez, uma poça faz a função do copo no primeiro filme), Spielberg conduz o ataque ao acampamento com maestria, gerando suspense ao trabalhar com elementos aparentemente inofensivos. Repare que, momentos antes, Sarah comenta sobre o sangue do filhote que não secou em sua blusa, o que nos faz grudar na cadeira enquanto o T-Rex cheira a blusa pendurada na cabana, gerando a correria histérica que resulta numa das raras mortes violentas do longa dentro de uma cachoeira.

Indicando aproximação através da águaSarah comenta sobre o sangue do filhoteT-Rex cheira a blusa pendurada na cabanaMas é mesmo a primeira aparição dos T-Rex que novamente se garante como o melhor momento do longa. Trabalhando mais uma vez com a noite, a chuva forte e agora agregando o telefone que toca sem parar e os gritos do filhote de T-Rex de dentro do trailer, Spielberg prepara o cenário ideal para a aparição do astro principal. Assim, o som indica a aproximação enquanto as árvores balançam e um carro arremessado confirma a fúria do predador, que surge com seu olhar penetrante na lateral do trailer, acompanhado por outro olhar que provoca a surpresa dos personagens e da plateia: eles vieram em casal. A sequência eletrizante continua com a entrega do filhote e o ataque que deixa o trailer pendurado no penhasco, chegando ao auge quando Sarah cai sobre o vidro, num momento de pura tensão que só termina quando o veículo finalmente despenca morro abaixo após deslizar pelo terreno. Após a cena de tirar o fôlego, a morte violenta de Eddie Carr (Richard Schiff) funciona como um sarcástico alívio cômico, assim como ocorria no primeiro filme com o homem sentado no vaso sanitário, só que desta vez com os animais brincando com o corpo dele.

Olhar penetranteTrailer pendurado no penhascoSarah cai sobre o vidroInfelizmente, o terceiro ato de “O Mundo Perdido: Jurassic Park” soa totalmente desnecessário, com o T-Rex surgindo na cidade de San Diego apenas para garantir alguns gritos e sustos a mais. Ao menos, garante uma boa piada quando um garoto diz para os pais que “tem um dinossauro no quintal”, mostrando ainda a curiosidade mórbida das pessoas que correm olhando para o T-Rex, num comportamento estranho do ser humano captado com precisão por Spielberg que nós voltaríamos a ver em “Guerra dos Mundos”.

No fim das contas, a continuação de “O Parque dos Dinossauros” funciona exatamente como o “Sítio B”, ou seja, seria muito mais assustadora e interessante se permanecesse apenas na imaginação dos fãs. No entanto, assim como seu terceiro ato, “O Mundo Perdido” é uma continuação desnecessária, porém divertida.

O Mundo Perdido - Jurassic Park foto 2Texto publicado em 27 de Outubro de 2013 por Roberto Siqueira

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JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993)

(Jurassic Park)

 

Videoteca do Beto #94

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, Samuel L. Jackson, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, B.D. Wong, Joseph Mazzello, Ariana Richards, Wayne Knight, Gerald R. Molen e Miguel Sandoval.

Roteiro: Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Kathleen Kennedy e Gerald R. Molen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em diversas críticas, escrevi comentários que revelam minha insatisfação com o cinema de entretenimento que passou a predominar as produções de Hollywood nos últimos anos, o que pode ser interpretado, de maneira errônea, como uma aversão aos filmes de ação e aventura que utilizam o recurso dos efeitos visuais, como se a utilização destes já fosse suficiente para desqualificar um filme. A verdade é que sou fã de efeitos visuais, desde que sejam utilizados de maneira orgânica e em casos onde realmente agreguem à produção. E a maior prova de que admiro um trabalho bem feito neste quesito é “Jurassic Park”, um dos filmes que marcaram minha juventude e que alia com precisão efeitos visuais extraordinários e uma narrativa coesa e eletrizante, que intercala momentos de muito suspense com cenas de tirar o fôlego do espectador.

O milionário Hammond (Richard Attenborough) constrói um parque numa ilha da Costa Rica e, através da clonagem feita em laboratórios, consegue recriar os extintos dinossauros. Empolgado, ele decide convidar o paleontólogo Dr. Grant (Sam Neill) e a paleobotânica Dra. Ellie (Laura Dern) para conhecer o local, acompanhados de seus netos Tim (Joseph Mazzello) e Lex (Ariana Richards) e do Dr. Malcolm (Jeff Goldblum). Mas o divertido passeio se transforma num pesadelo quando o funcionário Nedry (Wayne Knight), insatisfeito com seu salário, decide sabotar o sistema de segurança do local, na tentativa de vender os DNA’s para um terceiro interessado.

Escrito por Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro do próprio Crichton, “Jurassic Park” parte de uma premissa muito interessante e criativa, que torna crível a existência dos dinossauros através da clonagem, utilizando como base o sangue de mosquitos presos na seiva das árvores por milhões de anos. A partir daí, o coeso roteiro, sempre sob a direção precisa de Spielberg, constrói uma narrativa perfeita, sem pontas soltas nem excessos, o que é vital numa aventura, assim como é essencial o ritmo dinâmico empregado pelo montador Michael Kahn. Na realidade, o longa até abre um pequeno espaço para discutir até que ponto o homem tem o direito de trazer de volta à vida uma espécie extinta e contrariar a seleção natural, mas o foco da narrativa está mesmo na aventura e “Jurassic Park” cumpre muito bem sua proposta. Além disso, a narrativa tem o cuidado de estabelecer os conflitos entre os personagens muito cedo e de maneira bem clara, por exemplo, quando Nedry demonstra insatisfação com seu salário e arquiteta a traição logo em sua primeira aparição. E até mesmo a presença dos netos de Hammond revela-se um elemento importante para aumentar a aflição no espectador devido a sua fragilidade e inocência.

De maneira geral, as atuações do elenco parecem exageradas, especialmente nos momentos que envolvem os dinossauros, como podemos notar quando mencionam a existência do T-Rex e dos Velociraptors, gerando o espanto das pessoas presentes. Ainda assim, Ariana Richards e Joseph Mazzello conferem realismo ao desespero dos netos de Hammond diante dos dinossauros e ainda estabelecem uma boa química com Sam Neill. Neill, por sua vez, cai bem no papel do Dr. Grant justamente por sua inexpressividade, que evita caracterizar o protagonista como um herói, assim como Laura Dern também é uma atriz que não transmite a energia que uma heroína necessita, fragilizando sua Dra. Ellie e fazendo com que o espectador tema por seu futuro. Exatamente por isso, ela não consegue convencer nas seqüências que exigem grande esforço físico, mas ainda assim não prejudica sua atuação, que é balanceada pelos bons momentos dramáticos, como quando confronta Hammond e suas idéias mirabolantes. Jeff Goldblum faz o papel do cético na pele do Dr. Malcolm, que mantém os pés no chão e prevê os problemas que poderão surgir ao misturar uma espécie tão poderosa e extinta com a raça humana. Além disso, suas piadas de humor negro funcionam como alivio cômico, algo necessário numa narrativa onde a tensão cresce constantemente, como quando pergunta “Vai ter isto no passeio?” após fugir de carro do T-Rex. Já Richard Attenborough vive o obcecado Hammond, que sequer consegue pensar nos netos por causa de seu projeto, como fica claro na conversa que tem com a Dra. Ellie após as crianças sumirem no parque (e Attenborough demonstra esta fixação do personagem muito bem eu seu olhar arregalado e na firmeza de sua voz). Fechando o elenco, vale notar ainda que Samuel L. Jackson interpreta Ray Arnold, um dos integrantes da equipe de informática e de segurança do parque.

A construção da narrativa é meticulosa e busca criar expectativa no espectador através dos diálogos antes de inserir momentos de alta tensão e aventura eletrizante, como a história que o Dr. Grant conta para um garoto nas escavações a respeito dos velociraptors, reforçada pelas citações de Hammond ao parque momentos depois. Para aumentar ainda mais esta expectativa, Spielberg seque a cartilha de “Tubarão” e prolonga ao máximo a aparição dos dinossauros (especialmente do T-Rex e dos Velociraptors), deixando a imaginação do espectador fluir – observe, por exemplo, como não vemos o velociraptor por completo (somente parte do rosto e um close no olho) na primeira cena do filme. E quando o faz, sempre procura mostrar primeiro a reação das pessoas presentes, para somente depois mostrar os dinossauros. Observe, por exemplo, como antes de vermos pela primeira vez um dinossauro na tela, o diretor emprega um zoom no rosto do Dr. Grant e da Dra. Ellie, realçando o tamanho da surpresa de ambos diante do que estão vendo. Em seguida, Spielberg revela sua proeza e aquelas enormes criaturas aparecem se movimentando com graça e leveza diante dos nossos olhos. E de fato impressiona o trabalho magnífico dos efeitos visuais (Industrial Light & Magic e Stan Winston Studio), que assombraram o mundo com a perfeita recriação digital dos dinossauros (uma combinação de bonecos eletrônicos com CGI). E além dos efeitos visuais, o som espetacular também torna os dinossauros mais realistas, o que é vital para o sucesso da narrativa, pois nós realmente acreditamos no que vemos e embarcamos na aventura. Quando Hammond diz “bem-vindos ao Jurassic Park!”, também estamos, assim como os personagens, encantados com tudo aquilo. Isto ocorre também porque Spielberg tem o cuidado de ambientar completamente o espectador à ilha, fazendo com que ele, assim como os personagens, se sinta fascinado desde a chegada ao local, onde os belos planos da paisagem e a empolgante trilha sonora embalam a euforia do espectador. O fascínio só aumenta quando somos apresentados ao laboratório através de um travelling que nos deixa hipnotizados diante de tanta criatividade. Spielberg conta ainda com a direção de arte de John Bell e William James Teegarden, que cria um parque verossímil através das enormes cercas elétricas, da bela fachada da porta de entrada do parque e até mesmo dos veículos de passeio, que lembram carros de safáris. Já os figurinos são compatíveis com o ambiente em que se passa a narrativa, com roupas leves e esportivas e acessórios típicos dos parques, como o chapéu do Dr. Grant e o uniforme de Muldoon (Bob Peck). Mas nem tudo são flores e a conversa sobre os riscos que o parque representa também funciona como maneira de preparar o espectador para o que virá a seguir, além é claro de provocar a irritação de Hammond, inconformado com os questionamentos do grupo de pesquisadores.

Como podemos notar, Steven Spielberg trabalha toda a primeira hora da narrativa na preparação do espectador para os dois principais momentos do longa: a primeira aparição do T-Rex e a caçada dos velociraptors numa cozinha. E quando estes dois momentos chegam, o espectador não está apenas vendo os temíveis predadores na tela, está também recordando tudo que ouviu até então sobre eles, como quando Hammond comenta que tem um T-Rex (“T-Rex corre a 50 kmpor hora”) e provoca o espanto do Dr. Grant e da Dra. Ellie (esta é a primeira menção ao mais temido dos dinossauros) ou quando presenciamos o nascimento de um velociraptor que, seguido pelo momento em que vemos uma vaca sendo oferecida como alimento e pela conversa sobre sua inteligência, velocidade e agressividade, preparam o espectador para o momento em que eles entrarem em cena. Outroexemplo da inteligência de Spielberg é a cabra deixada para alimentar o T-Rex no passeio do grupo, que servirá, junto com um copo d’água, como indicador de sua presença no momento mais eletrizante do longa. Momento este que terá início logo após uma intensa discussão entre Nedry e Hammond, que levará o programador a iniciar o seu plano de roubo dos DNA’s, ao mesmo tempo em que vemos os funcionários de Hammond prevendo uma tempestade. Um close numa lata de spray indica o momento da traição, ao mesmo tempo em que raios e trovões anunciam a chegada da chuva enquanto os pesquisadores tentam curar um dinossauro doente no parque. Quando a tempestade finalmente se aproxima, Nedry já programou uma pane no sistema de segurança, provocando a irritação de Hammond ao constatar que o passeio acabou – e a fotografia de Dean Cundey, que até então priorizava cores vivas, agora passa a estabelecer uma atmosfera sombria, reforçada pela chuva, pela falta de energia e pela noite que recai sobre todos. Preocupado, Ray pergunta para Hammond onde os carros pararam e a resposta vem no plano seguinte, com a cabra presa. Eles estavam parados em frente ao local do T-Rex, sem a proteção da cerca elétrica e em carros que não se movimentam devido à falta de energia. O cenário estava pronto. Assim como em “Tubarão”, Spielberg guardou sua principal atração por mais da metade da projeção.

Tem inicio então a melhor cena de “Jurassic Park” (pessoalmente, considero esta uma das melhores cenas dos anos 90). Enquanto o garoto Tim brinca no carro, sua irmã Lex, assim como o Dr. Malcolm, começa a sentir o perigo, ao contrário de Grant e do advogado Donald Gennaro (Martin Ferrero), que parecem tranqüilos. A ausência de trilha sonora colabora com o clima tenso, reforçado pela chuva, que naturalmente provoca aflição. De repente, um tremor rompe o silêncio. Spielberg dá um close num copo d’água, observado atentamente pelo pequeno Tim, que vê a água tremendo e, com seus óculos de visão noturna, percebe que a cabra sumiu. Lex pergunta: “Onde está a cabra?”, e uma perna ensangüentada cai sobre o carro, provocando o desespero de todos. E então surge o T-Rex, primeiro com seu rosto gigantesco, depois, após estourar as cercas, em toda sua imponência, para a perplexidade de todos – e novamente vale à pena destacar os espetaculares efeitos visuais e sonoros, notáveis na perfeição dos movimentos, no impacto dos passos e no som dos gritos, conferindo imenso realismo ao gigante predador. A partir daí, uma seqüência eletrizante de imagens assustadoras toma conta da tela, terminando somente na fuga de Grant com as crianças, enquanto Malcolm fica desacordado debaixo das folhas e Gennaro, num momento de puro humor negro, é devorado pelo T-Rex (repare a inclinação da cabeça do predador antes de comê-lo, como quem observa com carinho sua refeição). Em resumo, uma cena fantástica, construída nos mínimos detalhes e conduzida com perfeição por Spielberg.

Após a eletrizante aparição do T-Rex, o cenário perfeito para a aventura está construído. Agora, só resta ao espectador se deixar levar pelo que vê e torcer pelo sucesso dos personagens. Por isso, é importante não ter nenhum grande herói no grupo, o que faz com que o espectador tema pela vida de todos eles. Num ritmo alucinante, a segunda metade da projeção apresenta um festival de seqüências marcantes, balanceando muito bem o suspense e a aventura. Primeiro um carro “persegue” Grant e Tim numa árvore, num momento onde a trilha sonora aumenta a tensão, ao contrário da cena do T-Rex, onde o som diegético era suficiente para assustar. Aliás, além de pontuar muito bem as cenas tensas, a trilha sonora de John Williams apresenta uma música tema belíssima. Outra cena eletrizante é a fuga de Malcolm, Ellie e do caçador Robert Muldoon num carro, com o T-Rex perseguindo o grupo (destaque para o curioso plano em que seu rosto gigante aparece no retrovisor). Vale destacar ainda o momentoem que Ellietenta ligar novamente as cercas elétricas sob a orientação de Hammond e, paralelamente, as crianças e Grant tentam pular uma das cercas (e novamente o trabalho do montador Michael Kahn se destaca, intercalando as duas seqüências com precisão, mantendo o espectador com os olhos grudados na tela). Após a solução do problema, Spielberg não resiste ao susto barato, provocado por um velociraptor que aparece repentinamente. E finalmente, a segunda cena marcante de “Jurassic Park” acontece quando Grant deixa as crianças para procurar os outros. Sozinhas, elas notam a presença de um velociraptor no local (observe que novamente Spielberg índica isto através da reação da garota, evitando mostrar o predador logo de cara). Desesperadas, as crianças fogem para a cozinha, onde sofrerão uma intensa caçada não apenas de um, mas de dois velociraptors, até que consigam escapar. Observe como os movimentos de câmera de Spielberg colaboram para que o espectador se sinta dentro daquele jogo de gato e rato, com planos subjetivos se alternando com planos abertos que mostram a geografia do local e evitam que o espectador se perca na cena. E no instante final, quando todos pareciam vítimas certas dos velociraptors, o T-Rex ressurge triunfal e salva o grupo, atacando os companheiros de era Mesozóica.

Quando Grant diz para Hammond que decidiu não endossar seu parque, está refletindo o pensamento de todo o grupo, que milagrosamente escapou da morte. No entanto, este pensamento não reflete o sentimento do espectador, que certamente aprovará o parque dos dinossauros, com seus maravilhosos efeitos visuais e, principalmente, sua narrativa envolvente, conduzida com perfeição por Steven Spielberg. Para todos que, assim como eu, se tornaram fãs desta maravilhosa viagem, deixemos um “Bem-vindos ao Jurassic Park!”.

Texto publicado em 17 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira

GANDHI (1982)

(Gandhi) 

 

Videoteca do Beto #27

Vencedores do Oscar #1982

Dirigido por Richard Attenborough.

Elenco: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri, Roshan Seth, Rohini Hattangadi, Ian Bennen, Richard Griffiths, Nigel Hawthorne, Michael Hordern, Shreeram Lagoo, Om Puri, Daniel Day-Lewis, John Ratzenberger e John Boxer. 

Roteiro: John Briley. 

Produção: Richard Attenborough. 

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em certo momento do belíssimo “Gandhi”, dirigido por Richard Attenborough, um dos personagens diz que “o mundo não é feitos de Gandhis”. Infelizmente somos obrigados a concordar com ele, o que não nos impede de pensar que isto é realmente uma pena. A história da vida do homem que liderou a independência da Índia é por si só maravilhosa. Mas o competente trabalho de Attenborough, auxiliado pela sua equipe técnica e por um elenco brilhante, fez do filme “Gandhi” um épico maravilhoso, repleto de imagens marcantes e que cumpre muito bem a difícil missão de contar a história deste homem tão importante na história da humanidade.

No inicio do século XX, o jovem e idealista advogado indiano Mohandas Karamchand Gandhi (Ben Kingsley), após passar alguns anos na África do Sul, volta para a Índia e inicia, de forma pacífica, a luta contra o domínio britânico em seu país. Através de manifestações não-violentas, se tornou o líder espiritual de hindus e mulçumanos e chamou a atenção dos olhos do mundo para sua causa.

Logo no início de “Gandhi” testemunhamos o seu trágico assassinato e a comoção que sua morte causou no país, dando idéia da enorme importância daquele homem. Desta forma, quando começamos a acompanhar o início da caminhada dele, ainda jovem na África do Sul, sabemos qual será seu fim trágico, e passamos a nos perguntar que motivos levariam alguém a fazer aquilo. Mas o excelente roteiro de John Briley faz muito mais do que mostrar apenas porque alguém mataria aquele homem (e a razão é estúpida), mostrando na realidade como este homem se tornaria um dos mais importantes seres humanos a pisar na face da terra. A mensagem de Gandhi era simples, porém de difícil compreensão para nós, seres tão estúpidos e fracos.

Attenborough acerta em cheio na escolha de seus planos, desde este forte início, com a cena do assassinato e o pomposo funeral, passando pelas lindíssimas imagens durante as viagens de trem pela Índia, onde Gandhi começa a notar a pobreza de seu país, até os belos planos gerais de seus discursos públicos, quando envia sua mensagem de não-violência para toda parte da Índia. Attenborough mostra competência também nas difíceis cenas de combate, como a guerra na fronteira da Índia com o Paquistão e a chocante cena do fuzilamento coletivo de indianos. O diretor conta também com um ótimo trabalho de montagem de John Bloom, notável em diversos momentos, como na bela transição da cena em que Gandhi chega ao mar pra fazer sal para a reportagem feita no jornal britânico, em preto e branco, que falava exatamente sobre este ato. Já na viagem de volta de Gandhi no navio, podemos ver exatamente o contrário. A imagem transita da reportagem para a realidade. Mas Bloom acerta especialmente ao cobrir muitos anos da vida do líder indiano sem jamais soar episódico, devido aos elegantes saltos que dá na narrativa. Em certo momento, por exemplo, ficamos sabendo da prisão da Sra. Gandhi (Rohini Hattangadi) através de uma conversa dele com seu amigo, já preso, sem a necessidade de mostrar esta etapa da vida deles.

Quando retorna de sua viagem pela Índia, Gandhi diz em um belo discurso que ninguém pode lutar pelos direitos dos indianos se não se tornar um indiano de verdade, ou seja, viver como um indiano vive, sem luxos (o que arranca um sorriso contido de seu amigo no palco). Caso contrário, estaria apenas tomando o lugar dos britânicos no poder. E se a pobreza vista por Gandhi salta aos olhos também do espectador, é porque além da competente direção de Attenborough, a direção de fotografia da dupla Ronnie Taylor e Billy Williams acerta na escolha de cores áridas e quentes, como o amarelo, o bege e o marrom, para retratar o mundo seco, pobre e sem cores em que vivia a maioria absoluta dos indianos na época. Colaboram também os figurinos (creditados para Bhanu Athaiya e John Mollo), que destacam cores que harmonizam com a fotografia árida, mas com o predomínio de roupas brancas, que por outro lado, simbolizam muito bem a paz que Gandhi tanto pregava, e a excelente direção de arte de Norman Dorme e Ram Yedekar. Tipicamente indiana, com acordes altos e cantos, a linda trilha sonora que ajuda na ambientação ao país é mérito de Ravi Shankar.

Por ser advogado formado, Gandhi sabia muito bem os limites de suas atitudes e, por conseqüência, que punições ele poderia ou não sofrer. Desta forma, quando inicia a queima dos bilhetes na frente de soldados britânicos, ele sabia exatamente onde estava pisando e que tipo de reação geraria. Sua prisão causou revolta nos indianos presentes na África do Sul, que certamente contariam o feito para outros, e desta forma chamariam a atenção que ele precisava para iniciar sua revolução. A opressão britânica na África do Sul despertou em Gandhi o sentimento de lutar contra a tirania. Só que ele o fez da melhor e mais humana maneira possível, o pacifismo. Mas como enfrentar um império poderoso e violento de forma pacífica? A resposta é dada ao longo de toda a projeção, em cada frase (“Olho por olho deixará o mundo cego” é só um exemplo) e em cada atitude dele.

Coube a Ben Kingsley a responsabilidade de interpretar Mahatma Gandhi, o “grande espírito”. Em atuação magnífica, Kingsley é firme quando necessário, como no julgamento em que desafia o juiz, dizendo que não vai pagar 100 rupis (seu olhar mostra claramente sua determinação em não fazê-lo), mas por outro lado, consegue transmitir a paz interior de Gandhi com enorme competência através da fala mansa e do olhar sempre sereno e pacifico. Observe como quando está mais velho sua fala se torna ainda mais pausada e lenta, assim como seu caminhar (e seu emagrecimento é também evidente). Pouco compreendido até mesmo pelos indianos (“Deus me dê paciência”, diz um deles quando o vê em vestimentas típicas indianas), era quando falava em público que Gandhi realmente chamava a atenção, exatamente pela beleza e importância de suas palavras, e Kingsley também é competente nestes discursos, transmitindo sentimento em cada um deles. Pode-se imaginar como era difícil deixar posições confortáveis para os representantes indianos da época. Mais difícil ainda era aceitar e entender as diferenças religiosas. Por isso, Gandhi comprou briga com muitos, até mesmo com sua fiel mulher no inicio de sua vida no Ashram (local que ele construiu para viver, onde todos eram iguais e as tarefas eram divididas), e através de seus exemplos, servindo café no lugar do servo e jamais reagindo às muitas agressões e prisões que sofreu, foi conquistando o respeito e a admiração de muitos, inclusive vindos de outros países. Em uma das mais belas cenas do filme, comovido após ver a pobreza nas famílias produtoras de roupas indianas – resultado da invasão de roupas inglesas no país – ele passa a utilizar somente roupas nacionais e pede para que o povo faça uma enorme fogueira de roupas britânicas, sendo prontamente atendido. O desapego das roupas de melhor qualidade em prol de uma vida melhor para os indianos soa nacionalista, mas acima de tudo, era uma atitude muito humana. Finalmente, Kingsley também está ótimo nas cenas dramáticas, como o comovente choro de Gandhi ao pressentir e presenciar a morte da mulher amada, ficando ao lado dela até o fim, o que mostra que ele era um ser humano normal, que sentia amor e dor como qualquer outro. O restante do numeroso elenco também tem grandes atuações, como Geraldine James interpretando Meerabahen, a admiradora inglesa de Gandhi e Saeed Jaffrey, que interpreta seu grande amigo Sardar. Destaque também para a belíssima maquiagem em todo o elenco no terceiro ato do filme, quando todos estão muitos anos mais velhos.

A história de Gandhi ensina que as diferenças religiosas devem ser respeitadas para que a sociedade consiga conviver em harmonia. Note como Gandhi cita Cristo algumas vezes e até mesmo compara passagens da Bíblia com o Gita e o Alcorão (que eram lidos juntos em sua infância), o que se revela bastante interessante, já que ambos tinham uma mensagem muito parecida, de paz e amor ao próximo. E a semelhança entre os dois tem até mesmo referências visuais no longa, como no julgamento em que Gandhi veste uma roupa bem semelhante aquela que nos acostumamos a associar à Jesus Cristo. Completamente desconhecido do povo indiano – como podemos notar quando um deles, em cima do trem, diz para o amigo cristão de Gandhi que sua conhecida, também cristã, “bebe o sangue de Cristo todo domingo” – o cristianismo tem muito em comum com o pacifismo pregado por Gandhi, o que nos leva a pensar sobre a natureza dos conflitos religiosos. Porque julgar as religiões pelas excentricidades ao invés de focar na bela mensagem em comum de amor e paz? Para Gandhi, o que importava era seguir a Deus e não a religião.

Quando o assassino de Gandhi aparece em meio à multidão, já próximo do final do filme, sabemos qual o seu papel ali. Após a aparente paz na região, com a conquista da independência da Índia e do Paquistão – simbolizada nas cenas em que as bandeiras são hasteadas e os hinos cantados – inicia-se outra guerra, agora religiosa, que só terminaria com mais uma greve de fome de Gandhi. Em meio a tantas pessoas que respeitavam e ouviam a bela mensagem de paz dele, havia também aqueles que ousavam gritar “Morte à Gandhi!” (e neste momento, Attenborough inteligentemente coloca o assassino em meio à multidão, onde podemos identificá-lo). Intolerantes à diferença religiosa, estas pessoas são a resposta para a pergunta que nos fazemos no inicio do filme. São as pessoas capazes de tirar a vida de alguém tão puro, simples e bom, simplesmente por entender que ele não compartilha de sua crença.

Albert Einstein disse que “gerações futuras não acreditariam que alguém assim como Gandhi, de carne osso, tenha vivido neste mundo”. E no mundo em que vivemos hoje, é realmente difícil acreditar. Nas palavras de Meerabahen: “Ele mostrou ao mundo como sair da loucura. Só que ele não viu isso. Nem o mundo viu”. A maravilhosa história do homem que combateu a violência e a opressão com a paz não precisava de mais nada para ser atraente. Mas nem por isso Attenborough e seu competente elenco fizeram um trabalho qualquer. O resultado final é um filme grandioso, lindo e marcante. Não tanto como o próprio Gandhi, o que não é nenhum demérito. Nenhum filme seria.

Texto publicado em 18 de Dezembro de 2009 por Roberto Siqueira