UM MUNDO PERFEITO (1993)

(A Perfect World)

 

Videoteca do Beto #97

Dirigido por Clint Eastwood.

Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt, Bradley Whitford, Ray McKinnon, Jennifer Griffin, Leslie Flowers, Belinda Flowers e Darryl Cox.

Roteiro: John Lee Hancock.

Produção: Clint Eastwood, Mark Johnson e David Valdes.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Depois de ressuscitarem o western e arrebatarem 2 Oscar de melhor filme num período de apenas 3 anos, Clint Eastwood e Kevin Costner decidiram se juntar neste belo “Um Mundo Perfeito”, um drama comovente sobre a amizade entre um seqüestrador e sua vítima, um garoto de apenas 8 anos de idade. Aliás, o longa faz mais do que isso, analisando com cuidado os problemas provocados pela falta da figura paterna e os traumas que o meio em que somos criados podem deixar em nossas vidas, seja este um bordel ou um lar de rígida criação religiosa.

Nos anos 60, Butch Haynes (Kevin Costner) foge de uma prisão no Texas junto com Terry Pugh (Keith Szarabajka). No caminho, eles acabam invadindo uma casa e acordando toda a vizinhança com o barulho, o que força a dupla a levar o menino Phillip (T.J. Lowther), de apenas 8 anos de idade, como refém. Tem inicio então uma verdadeira caçada, liderada pelo Texas Ranger Red Garnett (Clint Eastwood) e pela inteligente Sally Gerber (Laura Dern). Mas o que ninguém imaginava acontece e, durante a fuga, Butch e Phillip acabam se tornando amigos.

Poucas situações devem ser tão desesperadoras quanto o seqüestro de um filho. E este terrível crime é o ponto de partida deste “Um Mundo Perfeito”, que, curiosamente, praticamente não mostra o sofrimento da mãe desesperada do garoto Phillip, a não ser pelo breve zoom que destaca, por alguns segundos, sua aflita feição ao ver o carro levando seu menino. Escrito por John Lee Hancock, o roteiro aborda, na maior parte do tempo, o relacionamento que nasce desta situação, entre o criminoso Butch e o menino seqüestrado. Em certo momento, a personagem Sally diz que “num mundo perfeito, estas coisas não aconteceriam”, e é justamente aí que reside a mensagem principal da narrativa. O mundo não é perfeito, as pessoas não são perfeitas e, por isso, é difícil rotular alguém como “bom” ou “mau” e definir o que é certo e errado.

Tecnicamente, “Um Mundo Perfeito” é discreto e eficiente, como podemos notar na fotografia de Jack N. Green, que explora bem a beleza das paisagens que cercam as estradas, auxiliando Eastwood a criar belos planos, mas evita usar cores muito alegres, refletindo o tom melancólico da narrativa. Além disso, Green cria um visual sombrio tanto na cena da fuga como no momento do seqüestro, o que soa correto, dado a tensão destes dois momentos. Já a direção de arte de Jack G. Taylor Jr. colabora na ambientação aos anos 60, com os carros de época e a arquitetura das casas, e a trilha sonora de Lennie Niehaus alterna momentos de pura melancolia com outros mais empolgantes, refletindo o estado de espírito da dupla Butch e Phillip, além de rechear a narrativa com belas canções dos anos 60, como na linda cena em que Butch fala sobre o pai de Phillip e sobre o próprio pai (“Nossos velhos não valem nada”), deixando claro que ambos sentiam falta da figura paterna.

Com a costumeira segurança e eficiência, Eastwood conduz a narrativa de maneira envolvente, graças também a montagem de Joel Cox e Ron Spang, que alterna num ritmo delicioso entre as seqüências que mostram a fuga de Butch e Phillip e as que focam na perseguição conduzida por Red, sabendo dar prioridade a linha narrativa principal, claramente mais interessante que aquela envolvendo os conflitos entre Red e Sally. Além disso, o diretor mostra a costumeira elegância na construção de momentos belíssimos, como a cena de abertura, em que Butch, deitado na grama, olha para o céu, com a máscara do gasparzinho jogada ao seu lado, dinheiro voando e o som do helicóptero ao fundo – este início misterioso será perfeitamente compreendido no emblemático final de “Um Mundo Perfeito”. O diretor sabe ainda quando sair do costumeiro estilo clássico e contemplativo, empregando movimentos de câmera diferenciados, como o plano subjetivo que nos coloca sob o ponto de vista de Pugh enquanto ele observa a mãe de Phillip, segundos antes de ele invadir a casa, ou através da câmera que sacoleja durante a perseguição em que Butch despista os policiais, além de acertar a mão nas cenas mais tensas do longa, como o seqüestro de Phillip, que só ocorre após a chegada de um vizinho, ou a tensa fuga da loja “Friendly’s”, com a policia cercando Butch com dois carros e Phillip esperando na porta da loja, com a fantasia de gasparzinho escondida sob a blusa. Repare ainda que, nesta cena, Eastwood destaca o rosto de Phillip através de um zoom, evidenciando o momento em que ele decide ir com Butch, vencendo um conflito interno provocado pela forte criação religiosa, como ficaria evidente mais pra frente, quando ele diz pra Butch que iria para a cadeia e para o inferno por roubar a fantasia. Aliás, é exatamente nestes momentos que exigem sensibilidade que o trabalho de Clint tem maior destaque, conduzindo as cenas com perfeição, como quando o garoto Phillip, triste por não poder participar do Halloween, fica olhando para a rua, enquanto os outros garotos da sua idade se divertem e jogam frutas no vidro da janela dele. Finalmente, o diretor mostra ainda versatilidade e balanceia a pesada narrativa com pequenos momentos de alivio cômico, como quando Phillip faz xixi enquanto Butch rouba um carro ou quando ele solta o freio do carro numa ladeira, além do engraçado momento em que o governador se gaba do novo veículo para a imprensa e, no plano seguinte, vemos os policiais a pé e o veículo batido nas árvores.

Além de saber o que fazer com a câmera, Eastwood também consegue extrair excelentes atuações de todo elenco, a começar por Keith Szarabajka, que se sai bem como Pugh, especialmente na cena que conversa com Phillip enquanto o garoto aponta uma arma pra ele. Já Laura Dern se sai muito bem quando Sally confronta Red no carro, tentando pensar estrategicamente e não apenas seguir os instintos policiais, além de se destacar quando a personagem fala como se fosse Butch, tentando pensar como ele, o que funciona também como forma de apresentar o passado difícil do criminoso ao espectador. Com seu estilo pratico de resolver os problemas e o chapéu de “durão”, o Red de Eastwood parece mesmo estar numa caçada, algo reforçado pelo constante uso do termo “man hunt” (algo como “caçada humana”). Eastwood também se sai bem na cena em que Red ameaça um federal por mexer com Sally, mostrando autoridade e soando convincente. Aliás, a dupla Eastwood e Dern também se destaca na sincera conversa sobre o passado de Butch, quando Red admite ter subornado um juiz para mandar o garoto ao reformatório e livrá-lo do pai criminoso, num dialogo que também funciona como uma crítica a estas instituições, que, em muitas vezes, acabam piorando o jovem ao invés de recuperá-lo.

Mas o grande destaque fica mesmo para a dupla vivida por Kevin Costner e T.J. Lowther. Convincente no papel de um criminoso fugitivo, Costner impõe respeito, por exemplo, nas discussões com Pugh, como quando “explica” pra ele a diferença entre ameaça e fato. Só que, curiosamente, mesmo sendo um bandido e mostrando que é perigoso ao matar o parceiro de fuga, o espectador acaba simpatizando por Butch, talvez pelo carisma de Kevin Costner, mas também por causa da maneira afetiva que o ladrão trata o garoto Phillip. Por exemplo, logo após matar Pugh, Butch não obriga o garoto a vir com ele, perguntando se ele prefere ficar. A resposta do garoto marca o inicio de uma relação praticamente de “pai e filho”, que duraria somente alguns dias, mas marcaria a vida dele eternamente. Obviamente, a empatia entre Costner e o garoto Lowther é essencial para o sucesso da narrativa e a dupla se sai muito bem. Aliás, Lowther tem uma ótima atuação, misturando a inocência da criança e a curiosidade de alguém que sente falta não apenas da figura paterna, mas de poder fazer o que as outras crianças de sua idade fazem. Para ele, Butch representa o pai que tanto lhe faz falta, permitindo ao garoto fazer coisas que ele sempre sonhou, como tomar refrigerantes à vontade, brincar de “montanha russa” em cima do carro, comer doces e dirigir um carro. Aliás, o próprio Butch sabe a falta que um pai faz, como fica evidente quando ele revela a razão da escolha do Alasca como destino de sua viagem. Juntos, eles vivem momentos que só um pai vive com um filho, como quando Butch diz que o pênis de Phillip tem um bom tamanho pra idade dele e o garoto abre um largo sorriso no rosto. Esta relação amigável e sincera nos leva a emblemática cena em que o criminoso para na beira da estrada e encosta no carro, sendo imitado por Phillip em seguida. O garoto já tinha desenvolvido uma enorme admiração por ele. Esta admiração se transforma em carinho de verdade quando ele diz que não pode brincar de “travessuras e gostosuras” por causa da religião, provocando a revolta de Butch (e Eastwood diminui o garoto no plano nesta cena, mostrando seu sentimento de inferioridade por causa disto). O criminoso pergunta se ele quer brincar e ele aceita, ficando tão feliz que chega a pegar na mão do bandido enquanto caminha em direção a casa. E apesar de resistir inicialmente, Butch acaba pegando na mão do garoto. Os dois chegam inclusive a viver um pequeno conflito, quando Phillip vê Butch transando com uma atendente num bar, que resulta numa interessante conversa entre eles. E após rirem do episódio, Butch pede para que Phillip faça uma lista de desejos, num momento tocante. Em pouco tempo, Butch ensinou mais sobre a vida para o garoto do que os pais haviam feito até então.

Só que ao contrário do que indica o nome do filme, o mundo não é perfeito. E, obviamente, Butch também não é. E começamos a ter indícios de seu comportamento violento quando ele fica muito bravo ao ver uma mãe maltratando suas crianças (algo que Costner demonstra com o semblante), revelando um lado de sua personalidade que seria vital no clímax da narrativa. E apesar de admirar uma pessoa controlada, como deixa claro ao elogiar Bob por não reagir ao roubo do carro, protegendo a família (“Este é o melhor tipo de pessoa que um homem pode ser”, afirma), ele não conseguirá se controlar ao ver outra criança apanhando. Justamente por isso, a cena na casa do caseiro é essencial para compreender a ambígua personalidade de Butch. Seu lado mais violento vem à tona quando vê pela segunda vez o dono da casa batendo no filho (repare a expressão de ódio de Costner, que explode em cena). Numa síntese de todo o filme, a cena é dominada pelo clima tenso e, ao mesmo tempo, comovente, quando Butch, pacientemente, amarra toda a família para executar o pai, sob o som da música que, momentos antes, embalava a dança suave de todos eles. Neste momento, o espectador se questiona se aquele é o mesmo homem que vimos ensinando tantas coisas legais para Phillip e a resposta vem no diálogo entre ele e a mulher da casa, que afirma que Butch é um homem bom. Sua resposta é emblemática: “Não sou um homem bom, mas também não sou o pior deles”. O trauma da infância fez com que Butch sentisse ódio ao ver um pai agredindo o filho e ele perde os limites, despertando seus piores instintos. Mas, surpreendentemente, Phillip, chorando muito, atira nele e joga a arma num poço, salvando a família.

Somos levados então ao comovente final de “Um Mundo Perfeito”, com Butch negociando com a mãe de Phillip, pedindo que ela prometa deixar o garoto fazer tudo que gosta. E é difícil segurar as lágrimas ao ver o garoto abraçar emocionado seu seqüestrador antes de partir, de mãos dadas com ele, em direção a polícia. Mas estamos falando de um filme dirigido por Clint Eastwood e, por isso, o final ainda nos reserva um momento dramático, que deixará o espectador perturbado e questionando muita coisa. Os policiais, sem saber que Butch estava desarmado, se preparam para evitar uma tragédia e, por isso, quando ele coloca a mão no bolso, atiram nele. Só que o espectador já sabe que ele está desarmado, e sente, assim como Red e Sally, um gosto amargo na boca ao ver aquele desfecho trágico, em que ninguém pode ser culpado (apesar das agressões ao federal que não obedeceu à ordem de Red). Enquanto o garoto chora e clama por seu amigo, pensamos o quanto a vida pode ser injusta.

Clint Eastwood acerta novamente neste belíssimo “Um Mundo Perfeito”, um drama humano, que comove não apenas pela relação desenvolvida por Butch e Phillip, mas por nos fazer questionar até que ponto nós podemos julgar as pessoas tão superficialmente, sem compreendê-las em toda sua complexidade. Após passar por tudo aquilo e ver o garoto comovido com a morte de seu seqüestrador, Red afirma: “Eu não sei de nada”. Nós também não.

Texto publicado em 15 de Maio de 2011 por Roberto Siqueira

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JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993)

(Jurassic Park)

 

Videoteca do Beto #94

Dirigido por Steven Spielberg.

Elenco: Sam Neill, Laura Dern, Jeff Goldblum, Samuel L. Jackson, Richard Attenborough, Bob Peck, Martin Ferrero, B.D. Wong, Joseph Mazzello, Ariana Richards, Wayne Knight, Gerald R. Molen e Miguel Sandoval.

Roteiro: Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro de Michael Crichton.

Produção: Kathleen Kennedy e Gerald R. Molen.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Em diversas críticas, escrevi comentários que revelam minha insatisfação com o cinema de entretenimento que passou a predominar as produções de Hollywood nos últimos anos, o que pode ser interpretado, de maneira errônea, como uma aversão aos filmes de ação e aventura que utilizam o recurso dos efeitos visuais, como se a utilização destes já fosse suficiente para desqualificar um filme. A verdade é que sou fã de efeitos visuais, desde que sejam utilizados de maneira orgânica e em casos onde realmente agreguem à produção. E a maior prova de que admiro um trabalho bem feito neste quesito é “Jurassic Park”, um dos filmes que marcaram minha juventude e que alia com precisão efeitos visuais extraordinários e uma narrativa coesa e eletrizante, que intercala momentos de muito suspense com cenas de tirar o fôlego do espectador.

O milionário Hammond (Richard Attenborough) constrói um parque numa ilha da Costa Rica e, através da clonagem feita em laboratórios, consegue recriar os extintos dinossauros. Empolgado, ele decide convidar o paleontólogo Dr. Grant (Sam Neill) e a paleobotânica Dra. Ellie (Laura Dern) para conhecer o local, acompanhados de seus netos Tim (Joseph Mazzello) e Lex (Ariana Richards) e do Dr. Malcolm (Jeff Goldblum). Mas o divertido passeio se transforma num pesadelo quando o funcionário Nedry (Wayne Knight), insatisfeito com seu salário, decide sabotar o sistema de segurança do local, na tentativa de vender os DNA’s para um terceiro interessado.

Escrito por Michael Crichton e David Koepp, baseado em livro do próprio Crichton, “Jurassic Park” parte de uma premissa muito interessante e criativa, que torna crível a existência dos dinossauros através da clonagem, utilizando como base o sangue de mosquitos presos na seiva das árvores por milhões de anos. A partir daí, o coeso roteiro, sempre sob a direção precisa de Spielberg, constrói uma narrativa perfeita, sem pontas soltas nem excessos, o que é vital numa aventura, assim como é essencial o ritmo dinâmico empregado pelo montador Michael Kahn. Na realidade, o longa até abre um pequeno espaço para discutir até que ponto o homem tem o direito de trazer de volta à vida uma espécie extinta e contrariar a seleção natural, mas o foco da narrativa está mesmo na aventura e “Jurassic Park” cumpre muito bem sua proposta. Além disso, a narrativa tem o cuidado de estabelecer os conflitos entre os personagens muito cedo e de maneira bem clara, por exemplo, quando Nedry demonstra insatisfação com seu salário e arquiteta a traição logo em sua primeira aparição. E até mesmo a presença dos netos de Hammond revela-se um elemento importante para aumentar a aflição no espectador devido a sua fragilidade e inocência.

De maneira geral, as atuações do elenco parecem exageradas, especialmente nos momentos que envolvem os dinossauros, como podemos notar quando mencionam a existência do T-Rex e dos Velociraptors, gerando o espanto das pessoas presentes. Ainda assim, Ariana Richards e Joseph Mazzello conferem realismo ao desespero dos netos de Hammond diante dos dinossauros e ainda estabelecem uma boa química com Sam Neill. Neill, por sua vez, cai bem no papel do Dr. Grant justamente por sua inexpressividade, que evita caracterizar o protagonista como um herói, assim como Laura Dern também é uma atriz que não transmite a energia que uma heroína necessita, fragilizando sua Dra. Ellie e fazendo com que o espectador tema por seu futuro. Exatamente por isso, ela não consegue convencer nas seqüências que exigem grande esforço físico, mas ainda assim não prejudica sua atuação, que é balanceada pelos bons momentos dramáticos, como quando confronta Hammond e suas idéias mirabolantes. Jeff Goldblum faz o papel do cético na pele do Dr. Malcolm, que mantém os pés no chão e prevê os problemas que poderão surgir ao misturar uma espécie tão poderosa e extinta com a raça humana. Além disso, suas piadas de humor negro funcionam como alivio cômico, algo necessário numa narrativa onde a tensão cresce constantemente, como quando pergunta “Vai ter isto no passeio?” após fugir de carro do T-Rex. Já Richard Attenborough vive o obcecado Hammond, que sequer consegue pensar nos netos por causa de seu projeto, como fica claro na conversa que tem com a Dra. Ellie após as crianças sumirem no parque (e Attenborough demonstra esta fixação do personagem muito bem eu seu olhar arregalado e na firmeza de sua voz). Fechando o elenco, vale notar ainda que Samuel L. Jackson interpreta Ray Arnold, um dos integrantes da equipe de informática e de segurança do parque.

A construção da narrativa é meticulosa e busca criar expectativa no espectador através dos diálogos antes de inserir momentos de alta tensão e aventura eletrizante, como a história que o Dr. Grant conta para um garoto nas escavações a respeito dos velociraptors, reforçada pelas citações de Hammond ao parque momentos depois. Para aumentar ainda mais esta expectativa, Spielberg seque a cartilha de “Tubarão” e prolonga ao máximo a aparição dos dinossauros (especialmente do T-Rex e dos Velociraptors), deixando a imaginação do espectador fluir – observe, por exemplo, como não vemos o velociraptor por completo (somente parte do rosto e um close no olho) na primeira cena do filme. E quando o faz, sempre procura mostrar primeiro a reação das pessoas presentes, para somente depois mostrar os dinossauros. Observe, por exemplo, como antes de vermos pela primeira vez um dinossauro na tela, o diretor emprega um zoom no rosto do Dr. Grant e da Dra. Ellie, realçando o tamanho da surpresa de ambos diante do que estão vendo. Em seguida, Spielberg revela sua proeza e aquelas enormes criaturas aparecem se movimentando com graça e leveza diante dos nossos olhos. E de fato impressiona o trabalho magnífico dos efeitos visuais (Industrial Light & Magic e Stan Winston Studio), que assombraram o mundo com a perfeita recriação digital dos dinossauros (uma combinação de bonecos eletrônicos com CGI). E além dos efeitos visuais, o som espetacular também torna os dinossauros mais realistas, o que é vital para o sucesso da narrativa, pois nós realmente acreditamos no que vemos e embarcamos na aventura. Quando Hammond diz “bem-vindos ao Jurassic Park!”, também estamos, assim como os personagens, encantados com tudo aquilo. Isto ocorre também porque Spielberg tem o cuidado de ambientar completamente o espectador à ilha, fazendo com que ele, assim como os personagens, se sinta fascinado desde a chegada ao local, onde os belos planos da paisagem e a empolgante trilha sonora embalam a euforia do espectador. O fascínio só aumenta quando somos apresentados ao laboratório através de um travelling que nos deixa hipnotizados diante de tanta criatividade. Spielberg conta ainda com a direção de arte de John Bell e William James Teegarden, que cria um parque verossímil através das enormes cercas elétricas, da bela fachada da porta de entrada do parque e até mesmo dos veículos de passeio, que lembram carros de safáris. Já os figurinos são compatíveis com o ambiente em que se passa a narrativa, com roupas leves e esportivas e acessórios típicos dos parques, como o chapéu do Dr. Grant e o uniforme de Muldoon (Bob Peck). Mas nem tudo são flores e a conversa sobre os riscos que o parque representa também funciona como maneira de preparar o espectador para o que virá a seguir, além é claro de provocar a irritação de Hammond, inconformado com os questionamentos do grupo de pesquisadores.

Como podemos notar, Steven Spielberg trabalha toda a primeira hora da narrativa na preparação do espectador para os dois principais momentos do longa: a primeira aparição do T-Rex e a caçada dos velociraptors numa cozinha. E quando estes dois momentos chegam, o espectador não está apenas vendo os temíveis predadores na tela, está também recordando tudo que ouviu até então sobre eles, como quando Hammond comenta que tem um T-Rex (“T-Rex corre a 50 kmpor hora”) e provoca o espanto do Dr. Grant e da Dra. Ellie (esta é a primeira menção ao mais temido dos dinossauros) ou quando presenciamos o nascimento de um velociraptor que, seguido pelo momento em que vemos uma vaca sendo oferecida como alimento e pela conversa sobre sua inteligência, velocidade e agressividade, preparam o espectador para o momento em que eles entrarem em cena. Outroexemplo da inteligência de Spielberg é a cabra deixada para alimentar o T-Rex no passeio do grupo, que servirá, junto com um copo d’água, como indicador de sua presença no momento mais eletrizante do longa. Momento este que terá início logo após uma intensa discussão entre Nedry e Hammond, que levará o programador a iniciar o seu plano de roubo dos DNA’s, ao mesmo tempo em que vemos os funcionários de Hammond prevendo uma tempestade. Um close numa lata de spray indica o momento da traição, ao mesmo tempo em que raios e trovões anunciam a chegada da chuva enquanto os pesquisadores tentam curar um dinossauro doente no parque. Quando a tempestade finalmente se aproxima, Nedry já programou uma pane no sistema de segurança, provocando a irritação de Hammond ao constatar que o passeio acabou – e a fotografia de Dean Cundey, que até então priorizava cores vivas, agora passa a estabelecer uma atmosfera sombria, reforçada pela chuva, pela falta de energia e pela noite que recai sobre todos. Preocupado, Ray pergunta para Hammond onde os carros pararam e a resposta vem no plano seguinte, com a cabra presa. Eles estavam parados em frente ao local do T-Rex, sem a proteção da cerca elétrica e em carros que não se movimentam devido à falta de energia. O cenário estava pronto. Assim como em “Tubarão”, Spielberg guardou sua principal atração por mais da metade da projeção.

Tem inicio então a melhor cena de “Jurassic Park” (pessoalmente, considero esta uma das melhores cenas dos anos 90). Enquanto o garoto Tim brinca no carro, sua irmã Lex, assim como o Dr. Malcolm, começa a sentir o perigo, ao contrário de Grant e do advogado Donald Gennaro (Martin Ferrero), que parecem tranqüilos. A ausência de trilha sonora colabora com o clima tenso, reforçado pela chuva, que naturalmente provoca aflição. De repente, um tremor rompe o silêncio. Spielberg dá um close num copo d’água, observado atentamente pelo pequeno Tim, que vê a água tremendo e, com seus óculos de visão noturna, percebe que a cabra sumiu. Lex pergunta: “Onde está a cabra?”, e uma perna ensangüentada cai sobre o carro, provocando o desespero de todos. E então surge o T-Rex, primeiro com seu rosto gigantesco, depois, após estourar as cercas, em toda sua imponência, para a perplexidade de todos – e novamente vale à pena destacar os espetaculares efeitos visuais e sonoros, notáveis na perfeição dos movimentos, no impacto dos passos e no som dos gritos, conferindo imenso realismo ao gigante predador. A partir daí, uma seqüência eletrizante de imagens assustadoras toma conta da tela, terminando somente na fuga de Grant com as crianças, enquanto Malcolm fica desacordado debaixo das folhas e Gennaro, num momento de puro humor negro, é devorado pelo T-Rex (repare a inclinação da cabeça do predador antes de comê-lo, como quem observa com carinho sua refeição). Em resumo, uma cena fantástica, construída nos mínimos detalhes e conduzida com perfeição por Spielberg.

Após a eletrizante aparição do T-Rex, o cenário perfeito para a aventura está construído. Agora, só resta ao espectador se deixar levar pelo que vê e torcer pelo sucesso dos personagens. Por isso, é importante não ter nenhum grande herói no grupo, o que faz com que o espectador tema pela vida de todos eles. Num ritmo alucinante, a segunda metade da projeção apresenta um festival de seqüências marcantes, balanceando muito bem o suspense e a aventura. Primeiro um carro “persegue” Grant e Tim numa árvore, num momento onde a trilha sonora aumenta a tensão, ao contrário da cena do T-Rex, onde o som diegético era suficiente para assustar. Aliás, além de pontuar muito bem as cenas tensas, a trilha sonora de John Williams apresenta uma música tema belíssima. Outra cena eletrizante é a fuga de Malcolm, Ellie e do caçador Robert Muldoon num carro, com o T-Rex perseguindo o grupo (destaque para o curioso plano em que seu rosto gigante aparece no retrovisor). Vale destacar ainda o momentoem que Ellietenta ligar novamente as cercas elétricas sob a orientação de Hammond e, paralelamente, as crianças e Grant tentam pular uma das cercas (e novamente o trabalho do montador Michael Kahn se destaca, intercalando as duas seqüências com precisão, mantendo o espectador com os olhos grudados na tela). Após a solução do problema, Spielberg não resiste ao susto barato, provocado por um velociraptor que aparece repentinamente. E finalmente, a segunda cena marcante de “Jurassic Park” acontece quando Grant deixa as crianças para procurar os outros. Sozinhas, elas notam a presença de um velociraptor no local (observe que novamente Spielberg índica isto através da reação da garota, evitando mostrar o predador logo de cara). Desesperadas, as crianças fogem para a cozinha, onde sofrerão uma intensa caçada não apenas de um, mas de dois velociraptors, até que consigam escapar. Observe como os movimentos de câmera de Spielberg colaboram para que o espectador se sinta dentro daquele jogo de gato e rato, com planos subjetivos se alternando com planos abertos que mostram a geografia do local e evitam que o espectador se perca na cena. E no instante final, quando todos pareciam vítimas certas dos velociraptors, o T-Rex ressurge triunfal e salva o grupo, atacando os companheiros de era Mesozóica.

Quando Grant diz para Hammond que decidiu não endossar seu parque, está refletindo o pensamento de todo o grupo, que milagrosamente escapou da morte. No entanto, este pensamento não reflete o sentimento do espectador, que certamente aprovará o parque dos dinossauros, com seus maravilhosos efeitos visuais e, principalmente, sua narrativa envolvente, conduzida com perfeição por Steven Spielberg. Para todos que, assim como eu, se tornaram fãs desta maravilhosa viagem, deixemos um “Bem-vindos ao Jurassic Park!”.

Texto publicado em 17 de Abril de 2011 por Roberto Siqueira