ARIMA (2019)

(Arima)

 

Dirigido por Jaione Camborda.

Elenco: Melania Cruz, Nagore Arias, Rosa Puga Dávila e Tito Asorey.

Roteiro: Jaione Camborda.

Produção: Jaione Camborda.

Três mulheres e uma criança têm suas vidas alteradas quando um homem misterioso aparece no vilarejo onde vivem. A trama apresenta premissas interessantes que nunca desenvolve, ao passo em que foca no minimalismo das situações e na ação interna das personagens, sem contudo construir a mínima verossimilhança para o universo que tenta construir.

Fica a impressão de que a vila é habitada apenas por estas personagens, e que os realizadores não souberam como conduzir e, principalmente, como finalizar o projeto de forma minimamente satisfatória.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

LABIRINTO (2019)

(Labirent)

 

Dirigido por Amir Hossein Torabi.

Elenco: Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Ghazal Nazar, Pejman Jamshidi e Fariba Jedikar.

Roteiro: Tala Motazedi.

Produção: Sepehr Seifi e Maryam Shafiei.

Um garoto desaparece enquanto estava sendo cuidado pelo pai, o que é o gatilho para que muitos segredos da família venham à tona, enquanto todos se engajam na procura do menino. O nome labirinto é uma analogia ao fato de que vamos descobrindo segredos de cada membro da família enquanto o filme avança, que são como caminhos que podem levar a alguma pista do que realmente aconteceu.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

VIAJANTE DA MEIA-NOITE (2019)

(Midnight Traveler)

 

Dirigido por Hassan Fazili.

Elenco: Hassan Fazili, Nargis Fazili, Zahra Fazili e Fatima Hossaini.

Roteiro: Emelie Mahdavian.

Produção: Emelie Mahdavian e Su Kim.

Documentário sobre uma família: casal de cineastas e três crianças pequenas, que precisam fugir do Afeganistão pois receberam ameaça de morte do Talibã após terem feito um filme de um de seus líderes, que acabou sendo morto pelo próprio grupo devido à repercussão de sua exposição. Filmado com três celulares, é um retrato duro da família que vira refugiada e precisa atravessar ilegalmente diversos países para pedir asilo à União Europeia.

Filmado durante toda a jornada deles, desde a partida do Afeganistão, nos sentimos como parte da família: ficamos apreensivos em travessias arriscadas, entediados como as crianças nos campos de refugiados e com medo da onda fascista que tomou conta de alguns países do mundo, e aqui dá as caras quando polícias protegem manifestantes sérvios que desejam bater e expulsar os imigrantes de um centro de refugiados.

Texto publicado em 20 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

TERRA SAGRADA (2019)

(Noah Land)

 

Dirigido por Cenk Ertürk.

Elenco: Ali Atay, Haluk Bilginer, Arin Kusaksizoglu, Mehmet Ozgur e Hande Dogandemir.

Roteiro: Cenk Ertürk.

Produção: Alp Ertürk, Sevki Tuna Ertürk e Cenk Ertürk.

Um homem com os dias contados tem como último desejo ser enterrado aos pés de uma árvore que ele plantou, por isso convence seu filho a retornar com ele para a cidade onde cresceu. Quando eles chegam ao local descobrem que o local onde a árvore está plantada virou um santuário, e que os moradores locais não permitirão o enterro lá.

O espectador aos poucos vai descobrindo mais sobre esses personagens e a complexa relação entre eles, o roteiro e as atuações fazem um ótimo trabalho, em especial ao mostrar como uma cidade que a princípio parece pacata, é capaz de cada vez atos mais violentos para proteger seu legado religioso.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

SYMPATHY FOR THE DEVIL (2019)

(Sympathy for the Devil)

 

Dirigido por Guillaume de Fontenay.

Elenco: Elisa Lasowski, Niels Schneider, Ella Rumpf, Arieh Worthalter e Vincent Rottiers.

Roteiro: Guillaume Vigneault, Guillaume De Fontenay e Jean Barbe.

Produção: Pascal Bascaron, Nicole Robert, Jean-Yves Robin, Marc Stanimirovic e Rona Thomas.

O filme baseado no livro de mesmo nome mostra o trabalho de jornalistas de guerra que cobriram o cerco a Sarajevo, na guerra da Bósnia. Acompanhamos o jornalista francês Paul que começa a se transformar por conta das atrocidades que vê. A estratégia de filmar quase todos os planos com câmera na mão traz um incrível realismo a história, além de ressaltar a tensão.

A fotografia é extremamente competente ao retratar a violência e a situação na qual o ambiente se encontra, enquanto o roteiro é competente ao construir os personagens de forma complexa, e embora coloque os sérvios como vilões, o foco é na passividade e burocracia das forças da ONU que apenas acompanham de perto as monstruosidades cometidas sem interferir com a premissa de que estão buscando um acordo de paz.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

DU (2019)

(DU)

 

Dirigido por Paul Tunge.

Elenco: Maria Grazia de Meo e Jørgen Hausberg Nilsen.

Roteiro: Paul Tunge.

Produção: Paul Tunge e Alexander Kristiansen.

Um casal passa férias juntos e conforme se conhecem melhor percebem que talvez tenham muitas diferenças e não consigam suportar um ao outro por muito tempo. A escolha por alterar a razão de espectro do tradicional 16:9 por 4:3, junto com a utilização de planos em sua maioria muito fechados nos coloca sempre dentro da vida do casal, reforçando a proximidade entre ambos e mostrando como às vezes isso também gera um desconforto.

Relações como o patriarcado e machismo vão surgindo a medida que os dias passam. O elenco oferece grandes atuações e o filme é bem dirigido, com destaque para uma cena em que no mesmo plano os dois personagens se exercitam, em ritmo semelhante mas de tal forma diferente, um paralelo com a dicotomia do casal.

Texto publicado em 19 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

PAPICHA (2019)

(Papicha)

 

Dirigido por Mounia Meddour.

Elenco: Lyna Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda.

Roteiro: Mounia Meddour.

Produção: Xavier Gens, Patrick André, Grégoire Gensollen, Belkacem Hadjadj, Mounia Meddour.

Nadjima é uma jovem universitária de Argel (Argélia) que começa aos poucos a perceber que algo está mudando em seu país. Religiosos radicais começam a fazer atentados, obrigar mulheres a usar burcas e perseguir as que insistem em estudar. Junto de suas amigas, Nadjima decide organizar um desfile de moda em sua faculdade como forma de mostrar aos fundamentalistas que elas estão alheias à todo retrocesso imposto.

Os personagens são muito bem construídos, e a opção de utilização da câmera na mão nos coloca mais próximos das personagens, além de criar um ambiente de aprisionamento e ressaltar a tensão que começa a permear a vida das jovens.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

MACABRO (2019)

(Macabre)

 

Dirigido por Marcos Prado.

Elenco: Renato Goés, Amanda Grimaldi, Guilherme Ferraz, Diego Francisco, Eduardo Tomaz, Juliana Schalch, Flávio Bauraqui, Paulo Reis, Osvaldo Mil, Laila Garin.

Roteiro: Lucas Paraizo, Rita Gloria Curvo.

Produção: Marcos Prado, João Queiroz Fialho, Justine Otondo.

O policial Teo do BOPE comete um erro em operação num morro do Rio de Janeiro, matando um inocente. Transferido com sua equipe para uma cidade do interior, onde uma onda de assassinatos de mulheres, seguida do abuso sexual de seus corpos começa a aterrorizar os moradores, ele tem que investigar os casos enquanto sofre pressão para localizar dois jovens negros que a população acredita serem os responsáveis.

Baseado num caso real ocorrido na década de 90, o filme tenta mesclar a crítica ao racismo na sociedade com investigação policial e terror, e não funciona… Embora tenha um primeiro ato intrigante, muitas questões levantadas são abandonadas, os personagens, exceção ao protagonista, são extremamente rasos, e o roteiro vai se mostrando um tanto previsível. Outros aspectos empregados para construção do gênero, funcionam mal: mesmo utilizando artifícios sonoros, as cenas nunca chegam a causar susto, sendo previsíveis em sua quase totalidade, outras cenas chocam pela sua violência gráfica excessiva.

Vale ressaltar a fotografia do filme, que usa muito bem a paisagem montanhosa das locações, e algumas tomadas noturnas para criar um clima de suspense e mistério. Ao final legendas explicam que o protagonista foi criado na junção de dois personagens reais de época diferente, o que apenas desvaloriza ainda mais o que anteriormente tentou-se construir.

Texto publicado em 18 de Outubro de 2019 por Adriano Cardoso

Vídeo: Toy Story 4

Vídeo publicado em 29 de Julho de 2019 por Roberto Siqueira

DIA DE TREINAMENTO (2001)

(Training Day)

 

Videoteca do Beto #245

Dirigido por Antoine Fuqua.

Elenco: Ethan Hawke, Denzel Washington, Eva Mendes, Scott Glenn, Harris Yulin, Tom Berenger, Raymond J. Barry, Snoop Dogg, Dr. Dre, Nick Chinlund, Peter Greene, Jaime Gomez, Cliff Curtis, Noel Gugliemi, Raymond Cruz, Samantha Esteban, Charlotte Ayanna, Macy Gray, Denzel Whitaker e Terry Crews.

Roteiro: David Ayer.

Produção: Robert F. Newmyer e Jeffrey Silver.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido ao filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

A profissão de policial certamente figura entre as mais difíceis e admiráveis do mundo. Responsáveis por manter a ordem e proteger os cidadãos, estes profissionais são preparados (ou deveriam ser) para enfrentar todo tipo de adversidade, seja em funções de menor risco como no controle do trânsito, seja nas divisões mais complicadas como as que tentam enfrentar o crime organizado. No entanto, a proximidade com o mundo do crime, a falta de treinamentos adequados, os complexos problemas sociais a sua volta e diversos outros fatores podem levar alguns destes profissionais a cruzar uma linha tênue e transformá-los naquilo que eles juraram combater. É precisamente neste dilema que “Dia de Treinamento” baseia boa parte de sua narrativa, apresentando dois personagens complexos, distintos e igualmente interessantes, ainda que aqui não reste dúvida sobre quem é o vilão e quem é o mocinho quando os créditos preenchem a tela no final.

Escrito por David Ayer, “Dia de Treinamento” acompanha Jake Hoyt (Ethan Hawke), um policial recém promovido a divisão de narcóticos que tem 24 horas para decidir se deseja ficar na equipe liderada por Alonzo Harris (Denzel Washington), um veterano que conhece todos os caminhos do crime organizado em Los Angeles e que tem um impressionante currículo de apreensões. No entanto, na medida em que o dia avança, ele descobre que a diferença entre o crime organizado e a polícia pode muitas vezes ser bem menor do que imaginava.

Partindo de uma premissa promissora, o diretor Antoine Fuqua consegue criar uma narrativa instigante e, auxiliado pela montagem de Conrad Buff, intercala entre travellings, muitos close-ups, câmera lenta e câmera agitada para manter um ritmo dinâmico que nos dá a constante sensação de que algo importante irá acontecer a qualquer momento, mantendo a tensão sem permitir que o espectador relaxe. Além disso, o diretor é hábil em criar um ambiente realista e coerente com o universo em que se passa a narrativa, algo reforçado, por exemplo, pela trilha sonora de Mark Mancina, que oscila entre o rap, a música latina e acordes mais pesados, jogando o espectador pra dentro daquela realidade de maneira competente. Da mesma forma, os figurinos de Michele Michel indicam desde o início a dualidade de Alonzo, que surge vestindo o preto típico dos vilões mesmo sendo vendido inicialmente como o tutor experiente e admirado que guiaria Jake.

Ainda na parte técnica, a fotografia de Mauro Fiore acompanha a evolução natural do dia com o sol surgindo no horizonte no início, preenchendo boa parte do segundo ato e desaparecendo no fim, o que gradualmente torna o longa mais sufocante e nos prepara para o ato final. Vale citar ainda como o jogo de luzes e sombras cobre parcialmente o rosto de Alonzo quando ele pede para Jake executar um traficante, demonstrando visualmente sua faceta criminosa que naquela altura já estava evidente. Tensa, esta cena é crucial para entender o funcionamento daquele submundo e o diálogo que surge a seguir tem igual importância para compreender o questionável código moral de Alonzo.

Abordando diversos problemas sociais dos Estados Unidos, “Dia de Treinamento” falha pela forma caricata que retrata as comunidades e os latinos que cruzam o caminho de Jake, por exemplo, quando ele é abandonado por Alonzo para ser assassinado, numa cena, aliás, que é conduzida de forma muito realista por Fuqua, mas na qual infelizmente a solução para o conflito soa bastante artificial pela maneira simplista como a garota é convencida pelo tio a contar a verdade sobre a tentativa de estupro. Igualmente, quando o enfurecido Jake parte em busca de Alonzo na “Selva”, a comunidade que havia sido retratada como um dos locais mais perigosos da cidade anteriormente, impressiona negativamente como mesmo com os dois brigando, quebrando diversos objetos e atirando para todo lado, os moradores locais demoram uma eternidade para sair de suas casas. Para piorar, o comportamento destes diante do confronto não soa convincente, confirmando como o terceiro ato é de longe o mais fraco segmento do filme.

Felizmente, o realismo de diversas outras cenas compensa estes deslizes, como quando Alonzo utiliza um mandato falso para fazer uma busca numa casa e é obrigado a fugir dali sob os tiros dos moradores locais ou quando Jake sai em disparada para salvar a garota de um estupro e luta sozinho contra seus agressores. Vale citar ainda os diversos diálogos entre os dois policiais que contrapõem visões muito diferentes de mundo e que provocam boas reflexões.

No entanto, é mesmo nas atuações que “Dia de Treinamento” garante seu sucesso. Demonstrando o desconforto de Jake desde o início em sua casa e na primeira conversa com Alonzo num café, Ethan Hawke consegue a difícil tarefa de encarar de frente a excepcional atuação de Denzel Washington sem jamais soar inferior por estar vivendo um novato e, o que é ainda melhor, ampliar o impacto dela ao expor os reflexos das atitudes do veterano em seu personagem com destreza. Com suas expressões minimalistas, Hawke humaniza o personagem, transmitindo seus medos e dúvidas com precisão e, de quebra, saindo-se muito bem em momentos que exigem mais expressividade, como quando surge chapado após consumir as drogas roubadas pelo parceiro. Aliás, a forma como Hawke nos convence de que Jake será capaz de suportar as provações às quais é submetido é crucial para o sucesso da narrativa.

Ameaçador, descolado e já muito à vontade naquele universo, o Alonzo de Washington é o típico policial corrupto que já sabe todos os caminhos que pode percorrer e, mais do que isso, imagina que sabe até mesmo como lidar com jovens idealistas como Jake, apostando na dureza de seu comportamento e no choque como forma de convencer o jovem a aceitar seus métodos controversos, uma vez que, na visão dele, somente assim é possível vencer o crime organizado – e seus números impressionantes reforçam sua visão, já que por mais questionáveis que sejam, estes métodos levaram-no a prender muitos criminosos poderosos ao longo dos anos. Por outro lado, ele parece não dar a mínima para eventos cotidianos que não possam impulsionar sua carreira, o que o leva a pacientemente acender um cigarro e fumar enquanto Jake se engalfinha com dois criminosos numa rua defendendo uma jovem que estava prestes a ser estuprada. O que mais impressiona, no entanto, é como Alonzo acredita de fato no que diz e na forma que age, como fica explícito na conversa em que explica o conceito dos lobos e ovelhas para Jake ou quando, de forma irônica, pede ao jovem que recolha as provas recolhidas ilegalmente do traficante Blue, vivido pelo icônico Snoop Dogg. Para ele, os fins justificam os meios e aquela era a única forma de sobreviver naquele ambiente. A energia de Washington no papel é contagiante, conquistando o espectador mesmo diante de diversas atitudes reprováveis – e seu sorriso quando Jake utiliza um de seus bordões contra ele chega a ser comovente, evidenciando o quanto acreditava em seus próprios métodos.

Insinuando a corrupção policial logo de cara quando Jake diz para a esposa que ela deveria ver as casas que eles têm, referindo-se aos chefes de divisão da Polícia, “Dia de Treinamento” não hesita em questionar os riscos intrínsecos ao poder concedido a estes profissionais nos Estados Unidos, onde, por exemplo, existe o malfadado excludente de ilicitude proposto recentemente em nosso Brasil, que permite um policial matar em serviço, algo escancarado na citada cena do assassinato de um traficante, minuciosamente planejado por Alonzo. “Só por que temos distintivos é diferente?”, questiona Jake após o crime. A conversa a seguir dentro do carro expõe as visões opostas dos personagens, com Jake transtornado pelo que viu enquanto Alonzo demonstra compreensão pela reação dele e, estrategicamente, elogia o parceiro, numa tentativa de elevar a autoestima do rapaz para ganhar sua empatia e atraí-lo para aquele mundo. Só que Fuqua não deixa margem para interpretações e evidencia que reprova o comportamento de Alonzo, punindo o personagem na conclusão da narrativa e ratificando Jake como herói, o que não deixa de ser decepcionante pela forma ambígua que ambos foram desenvolvidos até ali.

De toda forma, os questionamentos levantados em “Dia de Treinamento” são muito válidos e ainda atuais, sendo aplicáveis não somente nos Estados Unidos, mas em outros países como o Brasil. Como deve agir um policial para sobreviver num ambiente em que está sob constante ameaça e no qual criminosos não hesitarão um segundo sequer antes de tirar-lhe a vida? Por outro lado, até onde este mesmo policial pode ir? Certamente não é aceitável roubar suspeitos e utilizar estes objetos roubados em negociações com informantes, atuar como juiz e não apenas condenar suspeitos como assassiná-los por interesses próprios ou consumir as mesmas drogas que busca retirar das ruas – e é relevante refletir sobre isso numa sociedade que muitas vezes confunde a busca por segurança com sede por vingança. Ao mesmo tempo em que é preciso oferecer proteção aos cidadãos e aos próprios policiais, também é preciso refletir sobre os riscos inerentes ao excesso de poder que por vezes é conferido a eles. Esta é a melhor discussão que o filme de Fuqua pode fomentar e é por isso que o terceiro ato decepciona ao transformar Alonzo num monstro unidimensional e afastá-lo do espectador.

Mesmo com estes deslizes, “Dia de Treinamento” funciona bem como um retrato da corrupção policial e da complexa situação vivida por quem é jogado na guerra ao tráfico, sejam policiais, sejam cidadãos comuns. Sedimentado em duas atuações brilhantes, funciona como bom entretenimento sem que por isso deixe de provocar reflexão, ainda que um terceiro ato melhor trabalhado pudesse elevar sua complexidade temática e narrativa. Imperfeito como Alonzo, num primeiro momento o longa de Antoine Fuqua conquista o espectador da mesma forma magnética com que o veterano policial faz com todos ao seu redor e, posteriormente, nos afasta da mesma maneira como Jake se afasta dele.

“Você quer ir para a cadeia ou ir para casa?”. Jake preferiu ir para casa. Sorte dele.

Texto publicado em 09 de Junho de 2019 por Roberto Siqueira