CORAÇÃO SATÂNICO (1987)

(Angel Heart)

 

Videoteca do Beto #47

Dirigido por Alan Parker.

Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling, Brownie McGhee, Stocker Fontelieu, Michael Higgins, Elizabeth Whitcraft, Eliott Keener, Katheleen Wilhoite e George Buck.

Roteiro: Alan Parker, baseado em livro de William Hjortsberg.

Produção: Elliot Kastner e Alan Marshall.

[Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir que só leia esta crítica se já tiver assistido o filme. Para fazer uma análise mais detalhada é necessário citar cenas importantes da trama].

Profundamente perturbador, “Coração Satânico” jamais apela para a trilha sonora ou monstros repugnantes que saltam na tela como forma de provocar o medo no espectador. Seu mérito está no excelente roteiro e na firmeza com que Alan Parker conduz a narrativa, utilizando sua categoria como diretor para criar um visual cheio de estilo, levando o espectador a descobrir junto com o protagonista o trágico destino que este inevitavelmente encontrará. Durante esta intrigante jornada, seremos envolvidos por um clima sombrio e macabro, repleto de imagens chocantes e, o que é melhor, presenteados com um final incrivelmente surpreendente.

Em 1955, na cidade de Nova York, o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) é contratado pelo misterioso cliente Louis Cyphre (Robert De Niro) para encontrar um cantor, conhecido como Johnny Favorite, que sumiu há doze anos. O problema é que quanto mais se aprofunda na investigação, mais confuso Harry fica, envolvendo-se com pessoas estranhas, que curiosamente morrem logo após entrar em contato com ele. Nesta jornada, Harry conhecerá um mundo místico e encontrará um caminho sem volta.

Desde o início sombrio, numa rua suja em que um gato olha o corpo de um homem morto, a obscura e excelente fotografia (Direção de Michael Seresin) cria um ambiente sombrio e macabro, que se estenderá por toda a narrativa. Observe a quantidade de vezes em que a cena é iluminada apenas pelo vão existente nos ventiladores, que aparecem constantemente e remetem ao momento em que Johnny rouba a vida de Harry dentro de um hotel, como se fizessem questão de lembrá-lo de algo que ele aparentemente esqueceu. Além disso, sempre que aparecem, os ventiladores tem a função narrativa de indicar o próximo assassinato. A ótima direção de arte de Armin Ganz e Kristi Zea transporta o espectador para o ano de 1955, através do visual sujo da cidade, dos carros velhos e das casas antigas, além é claro de contar com os ótimos figurinos de Aude Bronson-Howard e a excelente trilha sonora de Trevor Jones que abusa do blues, música típica do período e da região de New Orleans. Todo este bom trabalho técnico auxilia o diretor Alan Parker na criação de cenas absolutamente marcantes e de um impacto visual incrível, com destaque para o macabro ritual envolvendo dança e a morte de uma galinha, e para a cena de sexo entre Harry e Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet), banhada pela água da chuva que se transforma em sangue e repleta de imagens aterrorizantes. Além destas cenas, vale ressaltar que todas as mortes também são bastante realistas e comprovam o cuidado com o visual por parte do diretor.

Mas “Coração Satânico” também é um filme de atores. E que atores. O excelente Mickey Rourke oferece uma atuação sutil em diversos momentos e extremamente visceral em outros, demonstrando sua enorme capacidade de interpretação. Um dos melhores atores de sua geração, o minimalista Rourke demonstra em seus sorrisos, olhares desconfiados e pequenos gestos (como quando joga sal por cima do ombro quando conversa com Louis) o cuidado que teve ao compor o personagem. Rourke está bem solto no papel e transmite com perfeição ao espectador a angústia de Harry na busca pelo cantor desaparecido. Sua explosão final ao saber da verdade, quando chora de raiva e reflete no olhar a dúvida e perplexidade com o que ouve, só ratifica a qualidade da grande atuação de Rourke. Já Robert De Niro tem uma atuação bastante misteriosa, olhando sempre com firmeza para o detetive e dando dicas de sua verdadeira identidade. Desde sua primeira aparição, demonstra seu talento criando um Louis Cyphre completamente sombrio e enigmático. Suas unhas enormes, sua roupa preta e o ar superior soam completamente coerentes com o personagem, ainda mais quando sua verdadeira identidade é revelada. O grande ator também demonstra talento no único momento em que existe espaço para o humor – mesmo que de forma irônica – quando diz sorrindo para Harry “olhar o linguajar” dentro de uma igreja.

É interessante notar também como as dicas do final surpreendente são espalhadas por todo o excelente roteiro do próprio Alan Parker (baseado em livro de William Hjortsberg), como o fato de todas as pessoas morrerem ao se envolver com Harry. Repare como Louis Cyphre (em inglês, junte os nomes e terá o som de Lúcifer) se diz estrangeiro (ora, o inferno não fica nos EUA até que se prove o contrário) e ironicamente se apresenta em cima de uma igreja, dizendo que seu contrato com Johnny Favorite seria executado somente após a morte dele e afirmando ter ajudado em sua carreira, o que é bastante lógico e coerente. Em outro momento, ele diz que em algumas tribos o ovo simboliza a alma e em seguida devora o ovo, simbolizando o que faria com a alma de Harry no futuro. Mesmo assim, o inteligente roteiro é sutil o suficiente para não permitir que o espectador descubra a verdadeira identidade de Harry até o espetacular momento em que é revelada. Até mesmo o próprio Harry vive uma série de situações que sinalizam seu destino, como quando descobre um altar macabro dentro da Igreja onde conheceu Louis. Observe também como as crianças e os animais (especialmente os frangos, mas também os cachorros) não gostam de Harry, talvez por enxergar sua verdadeira e nada bela natureza. As crianças choram ao vê-lo, enquanto os animais atacam.

O ambiente sombrio em que a trama se passa mais parece pertencer a um pesadelo, onde todas as ações tomadas pelo protagonista parecem levar a um novo caminho, ainda mais tortuoso que o anterior. A cada descoberta de Harry o espectador fica ainda mais intrigado e se vê ansioso pela resolução da investigação. Quanto mais próximo da verdade o detetive chega, mais temeroso o espectador se torna, praticamente pressentindo o trágico destino de Harry Angel. E a revelação final, irônica e absolutamente nocauteante, é de uma genialidade impar, daquelas que dá vontade de ver o filme novamente assim que os créditos começam a aparecer na tela, enquanto Harry desce pelo elevador e vai de encontro ao seu inferno particular.

Utilizando um ambiente sombrio e uma cidade ainda mais tenebrosa como pano de fundo para uma narrativa inteligente e surpreendente, que mistura elementos místicos à tradicional estrutura dos thrillers de suspense, e contando ainda com dois dos maiores atores de sua geração em grandes atuações, o diretor Alan Parker brinda o espectador com um trabalho fantástico, que merece ser apreciado nos mínimos detalhes. E felizmente, o diretor, ao menos pelo que se sabe, não precisou vender sua alma para conseguir este feito.

Texto publicado em 06 de Março de 2010 por Roberto Siqueira

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